segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Rota dos Judeus

É inegável o contributo do povo judeu na construção da Europa e da cultura ocidental. Reconhecendo este facto, o Conselho Europeu de Cultura decidiu inscrever nos seus roteiros de turismo cultural uma Rota dos judeus. E esta rota tem-se revelado bem atractiva e capaz de cativar um nicho de mercado bem definido, de grande capacidade económica e elevado interesse cultural.
Por toda a Europa, muitas cidades e vilas procederam à elaboração de estudos de arqueologia e urbanismo judaico, com vista à definição das suas próprias rotas dos judeus.
Também em Portugal isso vem acontecendo e podem referir-se os casos de Coimbra, Viseu, Castelo de Vide, Belmonte…
Bragança é, sem qualquer dúvida, uma das terras portuguesas onde sobreleva o património judaico. A começar pelos homens que de Bragança partiram e foram em chãos estranhos fazer obras valorosas e erguer-se entre aqueles em quem poder não teve a morte – para usarmos a linguagem do autor de Os Lusíadas.
Mas há também monumentos de arquitectura que em Bragança nos falam da gente da nação hebreia que importa assinalar. E há gestos banais, usos e costumes… uma culinária que deles recebemos como herança.
E certamente que as dezenas de homens e mulheres que morreram nas cadeias da Inquisição e as centenas de outros que nelas sofreram a fé mosaica bem merecem ser recordadas em monumento a construir pela actual geração. Sim, as terras, tal como as pessoas, não podem perder a memória, porque a perda da memória é a mais terrível das doenças.
E se Bragança é uma cidade que hoje se está tornando famosa e procurada pela sua Rota dos Museus, porque não haverá também de criar-se um museu ou, ao menos, um centro de documentação judaica?
Foi a pensar nestas coisas que os autores, embora não sejam naturais nem moradores em Bragança, mas tão só estudiosos do fenómeno marrano e sefardita, decidiram dar o seu modesto contributo que, a partir de hoje, encontrará também materialização em coluna deste jornal. E o nosso contributo será essencialmente baseado no estudo dos processos da Inquisição, existentes da Torre do Tombo.
E vamos começar esta Rota dos Judeus exactamente pelo mais antigo monumento cristão da cidade de Bragança que será a igreja de Santa Maria, também designada de Nª Sª do Sardão, sita na Cidadela, ao lado do castelo e da domus.
A construção do templo primitivo ter-se-á efectuado logo em seguida à reconquista da terra pelos cristãos e em estilo românico. Mas terá sido ampliado e reconstruído entre 1700 e 1715, nomeadamente ao nível do alçado frontal, que apresenta um pórtico barroco, ladeado por colunas salomónicas.
Pelo interior, a igreja é dividida em 3 naves separadas por 6 pilares em que assentam 6 longos arcos.
Na nave da esquerda, abre-se a chamada capela dos Figueiredos, da invocação de Nª Sª dos Prazeres. Acerca do assunto, no tomo I, p. 325 das suas Memórias Arqueológicas… escreveu o ilustrado Abade de Baçal a seguinte informação:
- Esta capela, à mão direita de quem entra, é muito elegante, em estilo Renascença, com motivos ornamentológicos nos pés direitos e arco. No fecho deste há um escudo composto de cinco folhas de figueira em aspa e na arquitrave a seguinte inscrição de letras conjuntas e inclusas que quer dizer: Esta capela mandou fazer Pedro de Figueiredo alcaide-mor. 1585.
O mesmo abade, no tomo VI, p. 747 das mesmas Memórias, deixou copiado o referido brasão. E no vol. VI, p. 132, ao apresentar as origens da família Figueiredo, a outorga do brasão e a fundação do morgadio, acrescentou o seguinte:
- Pedro de Figueiredo casou com D. Violante Sarmento, sua prima, filha do alcaide-mor Lopo Sarmento (…) e de D. Maria de Morais Pimentel. Instituiu um morgadio, em 1585, com capela na igreja de Santa Maria, de Bragança e nomeou por primeiro administrador sua mulher D. Violante Sarmento.
Aquela primeira informação é também corroborada no Guia de Portugal, vol. 5, tomo II, p. 948, editado em 1970, pela Fundação Calouste Gulbenkian, sob a direcção de Santana Dionísio, nos seguintes termos:
- Na nave esquerda abre-se a capela dos Figueiredos, ornada com um portal da renascença, de linhas decadentes. O tímpano desta capela patenteia o brasão da família. O friso contém a seguinte inscrição: “Esta capela mandou fazer Pêro de Figueiredo, alcaide-mor. 585”.
Pois é exactamente aqui que começa a nossa Rota dos Judeus. É que esta capela será um caso verdadeiramente exemplar de como se pode alterar a história e apagar a memória.
Na verdade, esta capela da Senhora dos Prazeres não terá sido mandada construir por Pedro Figueiredo. Tão pouco este era alcaide-mor de Bragança em 1585 e nesta data casado com D. Violante Sarmento.
Muito embora ali fosse esculpido o brasão daquela família e a legenda referida, podemos mostrar que:
A capela da Sª dos Prazeres da igreja de Santa Maria, de Bragança, foi mandada construir por um cristão-novo chamado Rodrigo Lopes, em 1585. E nesta data Pedro de Figueiredo estava casado com Maria Lopes, uma mulher da nação hebreia. Vejamos:
Rodrigo Lopes terá nascido em Bragança por 1535, sendo filho de Diogo Lopes e Florença Manuel, ambos de origem hebreia. Tornou-se um grande empresário e um homem de peso, do ponto de vista social, pois conseguiu casar a sua filha (Maria Lopes) com um homem da nobreza de Bragança – Pedro de Figueiredo.
Seria também um homem de peso ao nível político e na crise dinástica que se seguiu à morte do rei D. Sebastião, terá seguido o partido do Prior do Crato. Isto porque o seu nome consta da pequena lista de moradores de Bragança que foram considerados indignos do perdão geral decretado pelo rei Filipe de Espanha.
Como quer que seja, Rodrigo Lopes foi preso pela Inquisição de Coimbra, em Fevereiro de 1591, por culpas de judaísmo. O seu processo tem o nº 2095 e no auto que contém a sessão da genealogia, pode ler-se o seguinte:
- Disse que tem uma filha única chamada Maria Lopes, que casou e tem casada com um homem muito principal, cristão-velho, que se chama Pêro de Figueiredo, filho de António de Figueiredo (…) o qual está de portas adentro com ele réu, de 18 anos a esta parte, comendo e bebendo todos a uma mesa.
Entremos então em casa de Rodrigo Lopes e vejamos quem nela está de portas adentro, verificando que se trata de um agregado familiar bem reduzido: ele próprio, a mulher Águeda Martins, a filha Maria Lopes e o genro Pedro Figueiredo, com ela casado há uns 18 anos.
Rodrigo Lopes foi então preso e, de seguida, foram mandadas prender a sua mulher e a filha. Esta não chegou a sê-lo porque estava prestes a parir e morreu de parto. – Pº 2987, de Maria Lopes.
A mãe, certamente transtornada e avisada de que ia ser presa, ter-se-á escondido, acabando, no entanto, por se meter a caminho de Coimbra para se apresentar no tribunal. - Pº 1712, de Águeda Martins.
Entretanto e por constar que o genro é que a mandara esconder e estaria tratando da sua fuga, foi também mandado apresentar-se na Inquisição de Coimbra onde foi ouvido e mandado regressar à terra. – Pº 480, de Pedro de Figueiredo.
Temos assim Pedro de Figueiredo em Bragança na casa do sogro e como único administrador dos seus teres e haveres.
Meses depois, a sogra morreu nos cárceres da Inquisição. Restava apenas o sogro que, depois de sair em auto-de-fé condenado em penas espirituais com cárcere e hábito perpétuo, ficou por Coimbra para ser bem instruído na religião cristã e a cumprir a sua penitência, aguardando ordem de regresso a casa.
E foi então que Pedro Figueiredo escreveu ao Rei Filipe e este enviou para a Mesa da Inquisição uma carta dizendo que a sua família era a mais nobre de Bragança e seria uma vergonha se mandassem para sua casa um homem que fora condenado em tribunal como judeu. Para bem da honra e fama de sua família e da religião cristã, seria conveniente que o mandassem a viver para outra terra, ao menos para uma aldeia do termo ou que fosse internado em uma ermida ou convento. Mas vejam a própria carta que foi transcrita para o processo:
- Diz Pêro de Figueiredo, morador na cidade de Bragança que ele foi casado com uma filha de Rodrigo Lopes, outrossim da dita cidade, o qual Rodrigo Lopes foi preso e penitenciado pelo Santo Ofício no auto passado que se fez na cidade de Coimbra e lhe mandaram que fosse cumprir a dita penitência à dita cidade de Bragança; E por isso se seguirá mui grande escândalo entre os seus parentes, que são muitos e dos mais nobres da cidade, como é Lopo Sarmento, irmão da mãe do suplicante, o qual é alcaide-mor da dita cidade, e os mais como são seus tios, irmãos e cunhados e primos, todos são os que governam a dita cidade; E além disso haverá e resultará da tal ida muitas brigas e dissenções, por haver bandos; E tomarão motivo seus inimigos de murmuração, vendo o dito Rodrigo Lopes diante dos ditos seus parentes; O que, vendo ele suplicante, fez petição a Sua Alteza pedindo-lhe haja por bem que o dito Rodrigo Lopes possa cumprir a dita penitência em qualquer lugar fora da dita cidade, o qual senhor remeteu o caso a esta Mesa.
Pede a V. A., havendo respeito ao sobredito, haja por bem o que dito tem, ou pelo menos nos arrabaldes da dita cidade, como são os lugares de Samil, S. Pedro, Alfaião, Cabeça Boa, Vila Nova, Vale de Lamas, que todos são arrabaldes, ou em uma ermida que está junto à dita cidade, que se chama Nossa Senhora do Loreto, que foi casa dos estudantes colegiais, ou em uma casa que está dos muros adentro que tem uma ermida, em que possa ouvir missa mandando-a dizer, ou que possa estar no mosteiro de S. Francisco da dita cidade…
Certamente que não se ficou pela carta, antes terá metido empenhos e cunhas, que também as haveria já naquele tempo e naquele tribunal.
E a verdade é que os inquisidores despacharam favoravelmente a petição de Pedro de Figueiredo e Rodrigo Lopes regressou a Bragança vestindo um saco amarelo (o sambenito) por cima da roupa e foi metido no mosteiro de S. Francisco.
Voltando a Rodrigo Lopes e à capela da Senhora dos Prazeres, vejamos agora o que consta do seu processo:
- Provará que por ele ser como é bom cristão, zeloso das coisas da Santa Madre Igreja de Roma e da Lei Evangélica, ele fez uma capela na igreja de Nossa Senhora da cidade de Bragança, a qual capela é da invocação de Nossa Senhora dos Prazeres e custou a ele réu mil e quinhentos cruzados, com um pontifical muito rico de brocado, a qual tem muito ornada e aparamentada de todo o necessário, com um capelão e obrigação de uma missa cada semana às quartas-feiras.
Convento de São Francisco
Não sabemos quanto tempo viveu Rodrigo Lopes no mosteiro de S. Francisco de Bragança, local estipulado como seu cárcere perpétuo. Imaginamo-lo recolhido em uma cela, fazendo vida de monge forçado e aos domingos descer à igreja, para assistir à missa, mas vestido com o desprezível e infamante saco amarelo. Imaginamos como os frades se sentiriam ofendidos por ter de albergar um judeu. Aliás, acabaram mesmo por escrever uma carta para a Inquisição, queixando-se que isso era moléstia e opressão que dava aos religiosos a presença de um sentenciado como judeu. Além de que, vivendo em uma cela no convento, podia ali fazer contratos e outras coisas indecentes. Pediam que fosse mandado cumprir a sua penitência em uma casa dentro da cidade, fora do mosteiro, indo às missas e mais pregações, como os mais penitenciados do Santo Ofício e que então eram muitos na paisagem humana da cidade.
Não cremos que a petição fosse atendida. E devemos dizer que revela alguma ingratidão dos mesmos frades, já que não sentiram moléstia e opressão quando o mesmo Rodrigo Lopes pagou 28 mil réis para o douramento de um altar na mesma igreja ou quando ofereceu uma dalmática de damasco verde para as celebrações litúrgicas no dito templo.
Deixemos, porém, R. Lopes no convento. Voltemos a Pedro de Figueiredo, que em 1593 ficou viúvo, usufrutuário único dos bens do sogro. Contava então 32 anos. Viúvo e rico, não lhe seria difícil arranjar pretendente para novo casamento. E a eleita foi exactamente uma das filhas de seu tio, o alcaide-mor D. Lopo, Violante Sarmento, de seu nome. Acrescente-se que duas outras irmãs de Violante foram metidas a freiras, o que bem convinha para acrescentar bens ao casal.
O enlace de Pedro e Violante ter-se-á realizado depois da morte do velho alcaide, a qual sucedeu por 1597. Ao menos é isso que se depreende de um documento existente no arquivo de Simancas, em Castela (Secretarias Provincilaes 1457, fl. 30) de que Francisco Manuel Alves nos dá notícia nos seguintes termos:
- Pedro de Figueiredo, morador em Bragança. No Conselho Real de 27 de Julho de 1600 foi apresentada uma petição do duque de Bragança a fim de ser feita mercê do hábito de Cristo a Pedro de Figueiredo “que he pessoa das qualidades necessárias, e a que elle tem obrigação por casar com D. Violante, filha de Lopo Sarmento, defunto, seu alcaide-mor da dita cidade”.
Como se vê, ao menos o hábito de Cristo alcançou-o Pedro Figueiredo em virtude deste segundo casamento. E também terá sido herdeiro do mesmo sogro no cargo de alcaide-mor, para que terá sido nomeado por carta do duque de Bragança de 24 de Agosto de 1603 – como também informa o Abade de Baçal no tomo I, p. 442 das suas Memórias, acrescentando que já antes, porém, fora agraciado pelo mesmo duque D. Teodósio II com uma tença de 20 mil réis anuais, a ter efeito a partir de 13 de Fevereiro de 1600.
Resta agora explicar como se colocou o brasão dos Figueiredos e se escreveu na capela da Sª dos Prazeres a legenda dizendo que esta capela mandou construir Pedro de Figueiredo, alcaide-mor. 1585.
Certamente que não foi em sua vida que tal se fez, já que a memória do construtor da capela era ainda fresca e ele próprio não reclamaria para si o título de alcaide-mor naquela data.
A verdade é que não temos qualquer documento que prove exactamente quando o brasão e a legenda foram esculpidos na capela. Mas temos uma explicação muito plausível.
Recordam-se de termos dito que a igreja era em estilo românico e que foi ampliada e remodelada entre 1700 e 1715? E que os elementos então acrescentados à igreja eram em estilo barroco? E que também a talha metida na capela dos Figueiredos era de estilo barroco?
Acrescentemos agora que, nessa altura, o dono da capela e alcaide-mor do castelo era Lázaro Jorge de Figueiredo Sarmento, neto de Pedro Figueiredo.
Naturalmente que, procedendo-se a obras de tal envergadura na igreja, seria também uma óptima oportunidade, ou até uma exigência social a realização de obras na capela. E seria também a oportunidade ideal para se proceder à limpeza no nome do judeu fundador da capela, esculpindo na madeira então colocada o brasão dos Figueiredos e a legenda sobre o seu pseudo construtor.
Aliás, foi também nessa altura que seu primo, António de Figueiredo Sarmento conseguiu do rei D. João V a carta de brasão e fidalguia e a aprovação do morgadio de Santo António do Toural a que estava vinculada a Quinta da Rica Fé.
De resto tudo seria bem esclarecido se alguém apresentasse também a carta de fundação do morgadio dos Figueiredos cuja cabeça era a capela da Sª dos Prazeres. Acaso datará da mesma época.
Acresce ainda que todas as informações sobre a família que chegaram até nós foram coligidas duas décadas depois das mesmas obras, por um membro da mesma família – José Cardoso Borges que, naturalmente, não tinha qualquer interesse, antes pelo contrário, em revelar qualquer nódoa em sua nobreza e fidalguia.
Bom, mas estas são questões que os genealogistas e historiadores devem deslindar. Por nós procuramos apenas ler os processos da Inquisição e deles aportar elementos para ajudar a definir uma Rota dos Judeus em Bragança.


(Fernanda Guimarães)
(António Júlio Andrade)

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito boa a matéria. Parabens pela pesquisa.

Anónimo disse...

Podem explicar que imagem é essa de uma porta fora da cidadela? Tratar-se-ia da porta de uma Sinagoga?