segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Economia de Bragança em 1721


A economia do concelho de Bragança, durante séculos, manteve características próprias de uma economia de Antigo Regime, baseada, portanto, numa agricultura rotineira e arcaica e na criação de gado, atividade económica, complementada pela sericicultura e pela indústria da seda, a qual lhe deu alguns períodos de significativa prosperidade.
A economia rural deste Município, como aliás da Terra Fria trasmontana, assentava numa agricultura de cereais e na criação de gado – “a seara de centeio e o lameiro são, por isso, as notas típicas da paisagem”, como escreveu Virgílio Taborda –, a que, a partir de inícios do século XIX se associou a batata.
Predominava a cultura do centeio, seguindo-se o trigo e, excepcionalmente, a cevada e o milho. A batata, ao contrário do que se tem escrito, embora não sendo desconhecida em Trás-os-Montes no século XVIII, apenas se generalizou em Bragança e por todo o nordeste trasmontano a partir das invasões francesas.
Cardoso Borges, em 1721-1724, muito pouco se refere quanto à realidade económica de Bragança, limitando-se a referir as produções agrícolas e pecuárias mais comuns no município e, quanto à indústria, um pequeno texto sobre a “fábrica da seda”.
Assim, apenas indica que o pão era “abundante”, os vinhos “excelentes”, as hortaliças “boas”, frutas “de guarda”, muita castanha, algum azeite, legumes e lacticínios.
Menciona, ainda, carnes “gostosas”, sobretudo a de porco; caça – perdizes, lebres, coelhos, corças e javalis – nos montes; e trutas, bogas, barbos e enguias nos rios, embora refira que, “sempre que o tempo o permite, o peixe do mar também chega a Bragança”.
Nas suas quatro praças vendiam-se hortaliças, legumes e fruta de Mirandela, e azeite e melões da Vilariça. O seu comércio era alimentado basicamente por tais produtos e pela seda.
Quanto ao sector da indústria, para além das atividades artesanais típicas da estrutura socioeconómica do Antigo Regime, apenas merece referência particular, devido à sua importância e difusão no concelho, a indústria das sedas.
A indústria das sedas na cidade de Bragança, que remonta ao século XV, foi objeto de sucessivas tentativas de modernização nos séculos XVII e XVIII. Em 1678, mestres estrangeiros, nomeadamente de Itália, são chamados a Portugal para o aperfeiçoamento das manufaturas das sedas, incluindo as de Bragança. Com efeito, a fábrica da seda da capital do Nordeste Trasmontano, que se encontrava “quase extinta”, foi restabelecida por Pedro II, que mandou vir de Toledo oficiais e o mestre Eugénio Gomes, a quem deu tença, pondo-lhe naquela cidade “casa pública para ensino dos naturais”.
Carvalho da Costa, na sua Corografia Portuguesa, escrita no que diz respeito a Trás- os-Montes entre 1695-1700, dá-nos conta, relativamente a Bragança, que na cidade se fabricavam veludos, damascos, pinhoelas e gorgorões, e que tivera uma “casa por conta de sua majestade, em que se obravam excelentes veludos lavrados”.
Por 1721-1724, José Cardoso Borges, na sua Descrição topográfica da cidade de Bragança, dá conta da produção de “excelentes sedas”, no termo da cidade, e de “um honesto trato na fábrica da seda”, conhecida no passado pelo número dos seus operários – na cidade e seu distrito, segundo a tradição, “constava a fábrica da seda de cinco mil teares” –, localizando-se as casas da fábrica, segundo os tombos do Almoxarifado de Bragança, na rua dos Oleiros.
Constava, então, “somente”, de 30 tornos e 350 teares, ocupando-se a maioria em “mantos de peso” e nela se lavravam roupas lisas de todo o género, damascos, pinhoelas, veludos lisos e lavrados.
O que José Cardoso Borges não refere – como não podia referir – é que a indústria das sedas de Bragança, como do Nordeste Trasmontano, se encontrava arruinada, devido fundamentalmente à Inquisição. A “sinistra” ação do Tribunal da Inquisição, só por si, é mais que suficiente para explicar a anemia e mesmo a interrupção temporária de que indústria das sedas foi objeto, por várias vezes, durante aquele período. Só Bragança, entre 1580-1755, soma 1 451 processados pela Inquisição de Coimbra, 1 601 se a estes juntarmos as pessoas naturais daquela cidade processadas pela Inquisição de Évora.
As perseguições exercidas pela Inquisição durante a sua existência abateram-se fundamentalmente sobre os “homens de negócio”, sinónimo, no século XVII, de “cristãos-novos” e “gente de nação”, isto é, sobre a burguesia de negócios. Sob o pretexto de que os “cristãos-novos” eram judeus, a Inquisição exerceu uma perseguição impiedosa e sangrenta sobre a burguesia mercantil, industrial e financeira, perseguição tanto mais implacável quanto os bens dos processados eram confiscados.



in: Memórias de Bragança
Publicação da C.M.B.

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