sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sotaque transmontano

Nuno Afonso
Há tempos que não visito o senhor Nuno Canavez e confesso que já tenho saudades da sua maneira de ser, ao mesmo tempo espontânea mas refletida, inteligente e afável mas simples e direta, das suas tiradas desconcertantes mas sempre respeitosas, do seu sorriso de miúdo traquina, do seu permanente bom humor, como se houvesse um pacto de não agressão entre ele e a vida. Todos temos os nossos problemas, de natureza vária, ele também não escapa à vil condição humana. Mas, se a advertência vem a talhe de foice, convém deixar esclarecido que não me passou procuração para falar da sua vida pessoal ainda que muito mal a conheça.
Lembrei-me dele, hoje, dia 16 de junho, terceiro domingo do mês neste ano da Graça de 2013. Algures, durante a caminhada diária, um casal dirigiu-se-me solicitando informação sobre o melhor trajeto para aceder a S. Romão do Coronado. Satisfeitos com a resposta, depois de terem agradecido, o homem indagou:
- O senhor é transmontano, não é?
Estive inclinado a responder que era de muitos lugares, como já tenho dito e, de facto, sou mas optei por uma resposta linear correspondente à simplicidade da pergunta:
- Sou sim.
- O acento transmontano é inconfundível. Posso saber donde?
- Sou de Bragança – respondi – O senhor também é de Trás-os-Montes, já notei.
- De Montalegre. 
Todos sorrimos e apertámos as mãos. Evoquei, então, a resposta que me deu o senhor Nuno Canavez quando nos conhecemos:
- Mas é de Bragança ou de um buraco ali próximo?
E, antes que eu manifestasse contrariedade, soltou uma risada franca e explicou:
- Não me leve a mal. Também sou de um buraco perto de Mirandela. Chama-se Vale de Juncal, em Abambres, concelho de Mirandela. A palavra buraco, neste caso, não tem sentido depreciativo. Compreendo que um sítio, assim nomeado, nada diria ao perguntador. Mirandela é conhecida, se não por outro motivo, ao menos pelas alheiras tradicionais. Nas últimas décadas, também pelas flores que alegram o espaço urbano e pelo repuxo no leito do Tua.
Expliquei-lhe que nunca tive pejo em dizer que fui criado “entre tojos e urzes”, carregando nos “ss” à espanhola, diferentemente do tom sibilante que os citadinos emprestam à sua pronúncia e, mais adiante, adotei. Em menos de um credo, ficámos amigos e passámos duas ou três horas à “laracha” como se, em crianças, tivéssemos jogado à cabra-cega, ao eixo ou ao pião em Vale de Juncal ou Alimonde. Em certas ocasiões tenho ido à sua Livraria Académica em busca de certo livro ou de uma informação de que ele é, com certeza, fonte segura; outras, passo por lá a cumprimentá-lo e, de caminho, acabo por adquirir algo que me interessa especialmente ou espicaça o meu querer. Um dia ofereci-lhe um certo livro intitulado “O Meu Povo em Gente” que ele leu e sobre o qual opinou. Incluiu-o na última resenha de escritores transmontanos com generosa referência e garantiu-me que essa era a sua opinião, jamais forma de me agradecer ou lisonjear. Contou-me que usa os fins de semana para conhecer melhor a terra transmontana, em especial o distrito de Bragança, e referiu histórias de pessoas e lugares onde esteve, pormenores curiosos de suas andanças e conversas, relatos simples mas enriquecidos com o seu jeito peculiar e a vivacidade que conferem encanto a essas histórias. Conhece o que guardam certas povoações de que ninguém fala, casas apalaçadas em aldeias que grimpam às serras ou repousam em vales escondidos, contas 1 de gente simples mas impregnadas de conhecimentos acumulados em muitas gerações. Aqui, põe acento na senhora distinta de negro vestida e apoiada numa bengala que lhe diz, com a maior naturalidade, que tem 105 anos feitos, assistida por uma criada pouco mais nova que ela, filhos que moram na capital e desempenharam funções importantes, netos a lecionar em universidades estrangeiras ou a representar o país em embaixadas por esse mundo fora; mais além, um casarão de lavoura administrado por uma família de hábitos simples mas esmerada educação com um ror de nomes inscritos nos cartões de visita de cada membro, sempre disponíveis, de grande lhaneza no trato mas modestos quanto à sua vida pessoal que outras pessoas da aldeia se encarregam de exaltar.
Com ele os contactos são fáceis e as conversas fluem naturalmente a partir de um fio qualquer, seja o tempo que faz, os últimos acontecimentos da vida nacional ou a situação no mundo mas, como se houvesse um íman, direcionam-se para o torrão natal, embora se denotem outros grandes amores, o Porto para onde migrou aos treze anos e construiu a vida, colecionando muitos e variados amigos e os livros que não poderiam ter encontrado melhor zelador. Como pai extremoso que não tira o pensamento dos filhos, assim os livros lhe ocupam a mente e o coração. Rejeita as novas tecnologias mas sabe o que tem na sua livraria e onde cada livro está colocado, é só pedir e, não tarda muito, está o livro nas mãos de quem o encomendou tão ou mais depressa do que a aplicação da CDU 2 poderia proporcionar.
Falando de Bragança, não tocou na tradicional rivalidade entre mirandelenses e brigantinos que, mutuamente, se alcunham de narros, material linguístico cujo significado ninguém conhece, para informar que foi tropa na capital do nordeste e que teve por lá algumas aventuras amorosas. Referiu-se às festividades em que os soldados desfilavam pelas ruas do burgo acompanhados pelos olhares curiosos das moças debruçadas nas janelas e ao modo como as saudava apontando o cano da espingarda à pala do boné ao mesmo tempo em que esboçava um sorriso maroto a provocar os seus risinhos alvoroçados.
Quantas histórias lhe ouvi acompanhadas de risos cúmplices, quantas observações de naturezas diversas e de argúcia invulgar pontilharam as nossas conversas! Modesto, não se lhe ouve um auto-elogio sabendo-se que teria muitas razões para o fazer, desde a condecoração outorgada pelo antigo Presidente Mário Soares às amizades que mantém com muitas das figuras gradas da sociedade portuense e nacional passando pela modesta recusa aos convites que lhe vão dirigindo para sócio honorário de instituições culturais de que é exemplo a Academia de Letras de Trás-os-Montes na pessoa do presidente da respetiva Direção, Professor Doutor Ernesto Rodrigues. Num país de “egos” exacerbados, faz bem realçar exemplos como este, que nos reconciliam com o que há de melhor na sociedade.

1 Contas – histórias, relatos.

2 CDU – sigla de um sistema de organização de bibliotecas.

por: Nuno Afonso

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