sexta-feira, 28 de agosto de 2015

História do Mouro

Local: Duas Igrejas, MIRANDA DO DOURO, BRAGANÇA

Era no tempo qu'os mouros andavam à cata dos cristãos.  E um mouro apanhou um cristão e trazia-o a lavrar c'um burro.  E depois, de noite, metia-o numa arca.  E o mouro dormia em cima da arca.  E inda c'uma espada, pa tê-lo...  E algemado de pés e mãos.

E 'tá ainda lá, no Nazo, ainda, as algemas.  Então ainda está lá os ferros dos pés e os ferros das mãos.  Estão lá, postos na capela.  Ah, ah, esta história é verdadeira.
E o cristão sempre rezava a Nossa Senhora que o livrasse das mãos do mouro, porque sofria muito d'andar a lavrar c'o animal, não é?, e dos maus tratos que le dava.
Até que uma noite, sem saber como nem como não, o mouro acordou ao som dos sinos.  Portanto na mourama não havia sinos, porque não havia igrejas, não é?  E disse pò cristão:
--Acorda, cristão.  Na tua terra há cencernas?
(Que diziam inda os antigos.  Isto ouvia aos meus avós, não é?  Cencernas, que eram sinos.)
E disse:
--Pois há.
Diz:
--Até aqui foste tu o meu escravo.  Hoje sou o teu escravo, porqu'estamos na tua terra. 
E então o cristão tinha prometido fazer um poço à Virgem do Nazo se fosse libertado das mãos do mouro.  E ele estava muito longe, e sem sabê como nem como não apareceram ali.  Não se sabe...  Acordaram só ali, na terra cristã, mesmo ao pé da igreja.
E a depois o mouro viu que o Deus do cristão que era mesmo um Deus verdadeiro, que não era nada d'impostorice, porque era impossível serem transportados pr'ali, e ele a dormir.  Deitou-se na parte dos mouros e acordou ali, que era muito longe.  Não sei onde é que era, não diz.
E antão foi ele, até ele próprio qu'ajudou a fazer o poço lá no Nazo, e ainda lá está.
(Esta foi a tal história que eu disse que vi no livro que diziam que tinha sido não sei onde é que era, mas não foi.  É no Nazo. [...]  Foi em Miranda do Douro.  Estão as algemas ali, está lá o cristão assim, de joelhos, algemado, e está um quadro na parede, mui entiguíssimo, e está o mouro co'a lança.  'Tá co'a pintura lá.)

Fonte:FONTES, Manuel da Costa Portuguese Folktales in North America: Canada n/a, sem editora, s/d , p.7A233:94

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