sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Figo é fonte de rendimento em Abreiro e motivo de uma nova feira transmontana

A apanha do figo faz de setembro um mês trabalhoso para as gentes de Abreiro, mas compensador com algumas famílias da pequena aldeia de Mirandela a arrecadarem um rendimento extra equivalente a seis meses de trabalho de um ordenado mínimo.

Abreiro tem das maiores manchas de figueiras e uma tradição nesta cultura que está apostada em mostrar na primeira feira da região dedicada ao figo e ao património agendada para sábado e domingo.

Todas as aldeias de Mirandela já tinham uma feira dedicada a um produto específico e a junta de freguesia local decidiu avançar com um evento para divulgar e rentabilizar a cultura mais carismática desta terra, como disse à Lusa o presidente José Fernandes.

O autarca estima que de Abreiro saem todos os anos, em média, entre "15 a 20 mil quilos de figo" com a venda garantida a intermédios que se deslocam à aldeia para negociarem diretamente com os produtores.

Pagam dois euros por quilo. "Está mal pago" queixa-se Idalina Lima, que "há dez anos" recebe o mesmo.

"Há tempos, no Porto, vi-os (os figos) a vender a seis euros o quilo", contou à Lusa.

Idalina é das maiores produtoras da aldeia. A família já teve 700 figueiras, a geada "queimou umas duzentas".

Ainda assim, tem 1.500 quilos de figos e assegurado um rendimento extra de, pelo menos, 3.000 mil euros, o equivalente a mais de meio ano de trabalho a receber um salário mínimo.

O figo é uma cultura complementar a outras com mais peso nesta região, como o azeite ou a amêndoa.

A importância, porém que tem na economia desta aldeia, com pouco mais de 250 habitantes, vem de tempos antigos, como recordou Idalina, que "aos 12 ou 13 anos" já "andava aos figos para o lavrador mais rico da aldeia".

A família de Idalina e outras da aldeia são agora produtoras e ocupam os dias do mês de setembro na apanha e secagem do figo.

Quando o tempo está de feição é possível fazer duas, três ou mais apanhas na mesma figueira, mas este setembro veio chuvoso e a água "deitou os figos ao chão".

"Dá dó vê-los a apodrecer", desabafa Idalina que vai continuar na azáfama da secagem do figo porque a tradição nesta aldeia não é consumir ou vender o fruto em fresco, mas sim seco.

Depois de colhido da figueira, inicia-se, como explicou, o processo de conservação que passa pela secagem, depois os figos são escaldados em água a ferver "para matar o bicho" que pode vir a desenvolver-se nesta fruta, de seguida são abafados durante alguns dias com panos.

"Depois ficam ao ar e são colocados numa caixa de papelão para começarem a criar o açúcar".

Isto porque, como explicou Idalina, aquela cobertura branca característica do figo seco "não é farinha como alguns pensam, mas o açúcar do próprio figo".

Todo este trabalho garante "um suplemento, uma verba extra" nesta altura do ano.

A junta de freguesia pensou na feira também para permitir aos oito produtores que vão estar presentes no certame, venderem o figo a preços mais rentáveis do que os pagos pelos intermediários.

A feira será também "um dia de festa na aldeia", sobretudo no domingo, com exposição de cães do coelho, passeio pedestre, um colóquio sobre o património e a inauguração do Museu Dr. Adérito Rodrigues, em homenagem a um conhecido e querido médico da terra.

Os habitantes vão ainda contar com a presença do bispo da Diocese de Bragança-Miranda, José Cordeiro, que celebrará a eucaristia de domingo em Abreiro.

HFI // JGJ
Lusa/fim

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