quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Casos de botulismo arrasam venda de alheiras de Trás-os-Montes

Produtor da marca associada a três casos da doença é um ex-concorrente de um conhecido programa de culinária.
Os casos de botulismo alimentar associados à ingestão de alheiras de uma pequena marca de produtos transmontanos estão a deixar os produtores da região à beira de um ataque de nervos. Numa operação que envolveu várias autoridades de saúde e segurança alimentar, foram retirados do mercado os produtos à base de carne e de queijo comercializados com a marca Origem Transmontana por supostamente terem originado três casos confirmados casos desta doença que é rara, mas pode matar.

O problema é que o impacto do comunicado  divulgado no sábado pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) em conjunto com a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge está já a ser significativo, afectando as vendas de produtos regionais, como a conhecida alheira de Mirandela, sucedendo-se o cancelamento de encomendas.

Os responsáveis de várias associações de produtores transmontanos têm-se desmultiplicado em esclarecimentos, na tentativa de se demarcarem da referida marca, cujo nome tem contribuído para gerar muitos equívocos. O presidente da Associação Comercial e Industrial de Mogadouro juntou-se esta terça-feira à sua congénere de Mirandela e de Bragança, bem como à Entidade Gestora do Fumeiro de Vinhais e à Associação de Produtores de Terras de Miranda.

Todos asseguram que a qualidade dos produtos da região não está em causa, até porque estes são “devidamente certificados pelas respectivas entidades”. É necessário “esclarecer os vários agentes económicos, consumidores e clientes que 'Origem Transmontana' é apenas uma marca comercial”, frisou a Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Bragança, em comunicado.  

O primeiro caso de botulismo alimentar foi detectado no dia 11 deste mês e o último há uma semana. Esta terça-feira, a RTP indicava que haveria um quarto caso, mas a responsável da Unidade de Gestão de Emergências da DGS, Cristina Abreu, explicou ao PÚBLICO que se trata apenas de uma suspeita, não confirmada, ao contrário das outras três situações.

O estado de saúde dos três doentes “está a evoluir favoravelmente”, garante Cristina Abreu, que adianta apenas que um deles não reside em Portugal, tendo a doença sido diagnosticada quando já tinha regressado à Suiça. Logo que foi conhecido o primeiro caso, as autoridades tentaram localizar a fonte de contaminação até que chegaram às alheiras da marca Origem Transmontana.

Com sede em Bragança, a empresa tem uma unidade de produção no edifício da antiga escola primária de Paradinha Nova, uma pequena freguesia do distrito. Rapidamente se soube, até porque a terra é pequena – Paradinha Nova tem cerca de cem habitantes – que o fundador desta marca  é um ex-concorrente do conhecido concurso de culinária da TVI "MasterChef".

O ex-concorrente do "MasterChef" Luís Portugal decidiu abrir, na terra do seu pai, esta unidade de produção, aproveitando o edifício da escola desactivada.  Depois de “ter percorrido a Europa toda a cozinhar”, criou o que descreveu, num vídeo promocional do programa, como “um autêntico laboratório de aromas, sabores e experiências” baseado na “cozinha tradicional”. Era ali que produzia compotas e vários tipos de fumeiro, em “cozedura a baixa temperatura no pote, em lumes brandos”, segundo afirmava então.

Luís Portugal “está agora a colaborar com as autoridades até porque é o primeiro interessado em que tudo se esclareça”, adiantou ao PÚBLICO o presidente da União de Freguesias de Izeda, Calvelhe e Paradinha Nova,  Luís Filipe Fernandes, que não esconde a preocupação com o impacto que este caso está a ter na região. “É a imagem dele que está em risco mas não só", destaca, sublinhando que a “Origem Transmontana” é apenas “uma empresa entre muitas em Bragança” e que “há dezenas de cozinhas regionais certificadas” na região. "Quem estiver fora do circuito associa este problema a toda a região de Trás-os-Montes", lamenta.

O PÚBLICO tentou falar com Luís Portugal, sem sucesso.

A responsável da DGS explica que, apesar de serem raros, há casos de botulismo notificados quase todos os anos, desde que a doença se tornou de declaração obrigatória em Portugal, em 1999. Na Europa, precisou Cristina Abreu, há registo de cerca de 200 casos por ano, em média.  Por cá, tem havido alguns surtos, tendo havido um pico em 2000, com 31 casos declarados e relacionados então com o consumo de produtos caseiros.

O risco  no caso específico agora detectado é “muito baixo” e a DGS apenas tomou uma posição em conjunto com as outras entidade com o objectivo de “minimizar a possibilidade de alguém consumir produtos” contaminados comprados antes de o problema ser detectado, explicou Cristina Abreu. “Mas trata-se apenas de uma marca e de uma situação pontual, que foi identificada atempadamente”, assegura a responsável, lamentando que tanta gente esteja agora a perguntar se pode ou não comer fumeiros.

Entretanto, a investigação, que é da responsabilidade da ASAE, continua.  A autoridade de segurança alimentar garante, em comunicado, que prossegue com "acções de fiscalização junto da produção e na rastreabilidade dos produtos com vista ao apuramento dos factos bem como à adopção das medidas cautelares consideradas adequadas".

O que é o botulismo alimentar?
O botulismo alimentar é uma doença que ocorre na sequência da ingestão de comida contaminada com toxinas e que está associada habitualmente a enlatados, carnes fumadas, conservas de frutas, legumes ou peixes. O problema é provocado por toxinas produzidas por esporos da bactéria Clostridium botulinum, toxinas essas que se espalham nos alimentos, como uma espécie de veneno. Pode ocorrer de forma epidémica ou esporádica (a toxina pode estar presente apenas em parte do alimento ingerido).

Com características clínicas graves, esta doença pode ser prevenida através de uma correcta preparação dos produtos alimentares. Os sintomas que as pessoas afectadas apresentam podem ser digestivos ou neurológicos, havendo casos em que se verifica uma paralisia gradual que começa pela face e vai atingindo o pescoço e os braços, podendo conduzir a paragem respiratória.

Nos últimos anos, tem-se assistido a alguns surtos da doença em Portugal, não apenas relacionados com o consumo de enlatados e fumeiros de origem caseira, mas também com alimentos processados comercialmente.

Em Portugal esta doença é de declaração obrigatória desde 1999, tendo-se verificado menos de uma centena de casos desde então. Em 2005 e 2006 foram diagnosticados sete e dez casos, respectivamente. O ano com mais registos foi o de 2000, com um total de 31 casos notificados às autoridades de saúde. Mas houve anos em que foram apenas declarados um ou dois casos e em 2010 não houve qualquer comunicação.

As autoridades de saúde acreditam, porém, que estará subdiagnosticada porque as manifestações clínicas muitas vezes mimetizam outro tipo de doenças.

ALEXANDRA CAMPOS
Jornal Público

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