segunda-feira, 28 de março de 2016

Azeite: O fio dourado com sotaque cada vez mais estrangeiro

Portugal é o quarto maior exportador do mundo. Mas nem todo o azeite produzido no nosso país nasce de mãos nacionais
Vieram de outros países, apaixonaram-se por Portugal, pela comida, pela paisagem, pelo vinho e… pelo azeite. E azeite acabaram por fazer também. O investimento estrangeiro neste setor português não para de crescer.
Já em 2009 se falava do facto de os investidores espanhóis estarem a comprar hectares de terras no Alentejo e a plantar novos olivais – um investimento que continua a existir e tem vindo a ser reforçado de ano para ano.

No ano passado foi anunciada a plantação, no concelho da Azambuja, do maior olival da península Ibérica, com cerca de 700 hectares.

Mas além dos espanhóis, que se estima tenham cerca de 50 mil hectares de olival no Alentejo [dos cerca de 177 mil], os angolanos também são dos que mais investem.

Em Elvas está, desde 2008, a laborar a Olega, que tem mais de 90% do capital a pertencer a angolanos.

Mas estas não são as únicas nacionalidades de investidores que encontram em Portugal um bom negócio. De acordo com Henrique Herculano, do Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (CEPAAL), “os investidores em Portugal são sobretudo espanhóis, mas há também alguns suíços e franceses, entre outros. A aposta tem a ver com a expressão que o azeite tem nestes mercados. Pode falar–se em crescimento do negócio. Tem sido uma aposta a nível global”.

Já em 2009, os avultados investimentos feitos em Portugal eram fáceis de explicar. Por esta altura, na Andaluzia, o preço do hectare rondava os 75 mil euros, enquanto no Alentejo não ultrapassava os 30 mil.

Produção em níveis históricos A produção de azeite nacional deverá ter chegado às 100 mil toneladas na campanha de 2015-16. A estimativa é do Sistema de Informação sobre o Azeite e a Azeitona de Mesa (SIAZ), que indica que esta poderá ser a produção “mais elevada dos últimos 30 anos” no nosso país.

De acordo com o Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), a produção de 100 mil toneladas de azeite representa um aumento de 64% face à campanha de 2014-15. Já em relação às últimas cinco campanhas, a produção cresceu em média 42,5%.

Também o Instituto Nacional de Estatística (INE) sublinha o crescimento do setor. A produção de azeitona para azeite deverá ter atingido, durante o ano passado, o terceiro maior registo dos últimos 75 anos, aproximando-se das 765 mil toneladas.

De acordo com o INE, este aumento deve-se sobretudo aos novos olivais intensivos de regadio, instalados no sul de Portugal. Só o Alentejo, nos últimos dez anos, aumentou em mais de 13 mil hectares a área de olival.

Alqueva abençoa Alentejo Os dados mostram que desde a década de 1960 que Portugal não produzia tanta azeitona para azeite. Mas afinal o que tem o Alentejo que tem despertado tanto interesse nacional e estrangeiro? A resposta é fácil: tem a Barragem do Alqueva, por exemplo.

Esta barragem, no rio Guadiana, permitiu a criação do maior reservatório artificial de água da Europa. O objetivo? Servir de regadio para o Alentejo. Resultado: um aumento do investimento.

Há precisamente um ano, o Alqueva mobilizava já quatro mil milhões de euros: 2,5 mil milhões em infraestruturas, mil milhões em projetos agrícolas, por via do Programa de Desenvolvimento Rural (Proder). Por esta altura, José Pedro Salema, presidente da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), estimava que em 2020 viessem parar ao regadio pelo menos mais mil milhões de euros de financiamento a novos investimentos.

Portugal lidera exportações A venda de azeite embalado a outros países atingiu, em 2015, um volume de 30,7 mil toneladas, o que representa um aumento de 11,6% face aos números de 2007. O maior importador do azeite produzido em Portugal é o Brasil, país que tem aumentado, de ano para ano, o peso como principal destino deste produto nacional. As marcas nacionais representam, aliás, 52,2% das importações brasileiras em volume.

Só durante o ano de 2008, Portugal exportou para o Brasil 22 mil toneladas de azeite embalado no país. Mas outros mercados ganham importância para Portugal, nomeadamente Angola, Venezuela e EUA.

O país de Dilma Rousseff é, aliás, o maior comprador dos produtos das duas maiores empresas portuguesas de azeite. A Gallo, que obtém 75% da faturação fora de Portugal, tem 30% do negócio no Brasil, que é também o principal cliente do azeite da Sovena – com a marca Andorinha.

Henrique Herculano explica a expressão de Portugal neste mercado: “Portugal é o sétimo maior produtor de azeite do mundo e o quarto maior exportador. Muitos consomem azeite português e não sabem. Estão a abrir-se novos caminhos na China.”

Chineses reforçam aposta Nos últimos anos, Espanha “roubou” a Portugal a exportação de azeite para a China. Dados divulgados em 2014 mostravam que as importações chinesas de azeite quase triplicaram em cinco anos e que o maior fornecedor era Espanha.

Na sequência deste aumento do interesse da classe média chinesa por este produto, a secretária-geral adjunta do Fórum Macau, Rita Santos, disse em 2013 que vários empresários chineses estavam interessados em comprar terrenos em Portugal para produzir vinho e azeite, dois produtos que aumentaram significativamente as exportações para a China.

Aumento dos preços Em 2015, os preços acabaram por sofrer uma grande subida, depois de uma campanha menos produtiva. As empresas não só tiveram de aumentar o volume de importações como acabaram por ter de pagar mais aos fornecedores internacionais. Falamos das consequências da queda da produção (20%) em 2014, por causa das más condições climatéricas, que afetaram os olivais em alturas cruciais.

Em fevereiro de 2015, Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, explicava que “o preço do azeite na origem, pago pelo preço da azeitona, teve um aumento na ordem dos 60%, fator que, aliado à quebra de 20% na produção nacional, vai ter de refletir–se no preço ao consumidor final”.

Este ano, os preços até podem não continuar a subir, mas estima-se que a produção e a exportação, sim. De acordo com António Simões, presidente da Sovena – grupo que detém a marca Oliveira da Serra –, “existem ainda novos mercados a abordar e novas oportunidades para explorar no sentido de cumprir o objetivo de levar o azeite aos quatro cantos do mundo”.

Jornal I

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