sábado, 26 de março de 2016

Notícias da aldeia

Pois não tem acontecido nada de especial na pacatez tão desejada da aldeia. As cegonhas lá continuam na visita quotidiana aos lameiros, num voo branco e preto com uma precisão admirável. Em breve os ovos serão a promessa da vida. Os idosos continuam gemendo e mancando, espreitando a soalheira e desejando o tempo das colheitas, com dias longos e tardes quentes. O homem do pão, do peixe e da carne chega sempre, trazendo as novidades de longe e a comida para a mesa. Os rebanhos madrugaram, na melancolia dos balidos, sonhando prados verdes e os homens dos tratores já passaram para o campo, ufanos, na potência da técnica e no domínio da natureza. A lavoura com ar condicionado.
Eu também já tenho o meu quintal limpo e as ervas daninhas que me assombraram durante todo o Inverno já foram arrancadas. Tudo cavado… estrumado e a relva nova nascerá em breve. A semente da alface maravilha de Verão também já repousa no coração da terra e é promessa de salada na calmaria da tarde. As rosas já se anunciam no segredo do botão. As macieiras e a cerejeira estranham o tempo e temem as geadas que se adivinham, por isso, ainda guardam, na seiva nova, o milagre da flor.
Os vizinhos passam e dizem: - Então já arranjou o quintal!
- Tem que ser!
E no ar fica o sonho da relva fresca, das rosas perfumadas, das cerejas vermelhas e das maçãs doces. Na verdade os milagres existem!
E logo tu estás comigo no vermelho dos morangos!

Fernando Calado

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