quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

António José Pires Grandais

Capitalista, natural de Baçal, concelho de Bragança; filho de Manuel Afonso Grandais, natural de Vale de Lamas, da mesma freguesia, que faleceu a 1 de Agosto de 1797, e de Maria José Pires, natural e moradora que foi em Baçal. Nasceu a 12 de Agosto de 1785 e faleceu em Lisboa no prédio n.° 14 da rua dos Navegantes, freguesia da Lapa, pelas três horas da manhã do dia 18 de Julho de 1860. Deixou universais herdeiros da sua grande fortuna, depois de satisfeitos os legados pios abaixo mencionados, que lhe constituem o título de benemerência porque entra nestas páginas, seus sobrinhos José António Vicente e Maria Teresa Pires, avó materna do autor destas linhas.
Desde 1845 até à época da sua morte, António José Pires Grandais figura dum modo evidente na finança portuguesa, prestando, numa devoção cívica digna de louvor, o concurso do seu crédito nas dificuldades pecuniárias do Estado, nesses tempos de geral retraimento e crises omnímodas, concorrendo deste modo para restabelecer a confiança pública. Em 1846 aparece entre os capitalistas habilitados na conformidade do artigo 3.° da carta de lei de 8 de Junho de 1843 para votarem e serem votados na eleição a que se ia proceder de dois membros efectivos e dois substitutos para a Junta de Crédito Público. Julgavam-se habilitados, no sentido da carta de lei anterior, os indivíduos que recebiam montante superior a 500$000 réis, provenientes de juros de títulos da dívida pública fundada averbados, há mais de um ano, em seus nomes, como se vê pelo Diário do Governo de 30 de Maio de 1848, que, entre a relação dos ditos, menciona Pires Grandais.
Em 1851 entrou para a direcção do Banco de Portugal na qualidade de substituto, eleito nas sessões de 21 e 31 de Janeiro e 8 de Fevereiro desse ano e novamente no ano seguinte, cargo em que se conservou por muito tempo.
Nada mais explícito do que o seguinte trecho para avaliarmos o civismo dos que, como Pires Grandais, nessa época de desconfiança valiam aos apuros do governo, empregando os seus capitais em títulos da dívida pública:
«Repentinamente – diz Barbosa Colen – desapparecera da circulação toda a moeda-metal; o credito até para os estabelecimentos mais solidos era recusado; as fabricas suspenderam os trabalhos; as companhias acabaram as suas transacções. O governo não sabia como vencer todas estas dificuldades.
Na secretaria do ministério da Fazenda realizavam-se, pois, contínuas conferencias do ministro com os directores e com os principaes accionistas do Banco e da Companhia Confiança; com os grandes proprietarios e com os mais abastados capitalistas. Como fazer desapparecer promptamente a crise? Como conseguir baixar o agio das notas do Banco? O expediente para vencer esta ultima difficuldade afigurou-se... ser a creação do que se chamou a Caixa da Prata. Depois resolveu-se fazer a juncção do Banco de Lisboa com a Companhia Confiança, creando-se o Banco de Portugal (1846) – expediente de que resultou... juntar-se a fome com a vontade de comer. O governo, de tudo isso, o que alcançara de tangivel – fôra um esprestimo... de trezentos contos. Era uma gotta d’agua no oceano das despezas!
Assim, o que houve tambem desde logo a fazer, foi suspender o pagamento dos juros do semestre da divida publica. O ministerio publicou a promessa de pagar... no anno proximo. Com isto e com o decreto que mandava receber as notas nos pagamentos pelo seu valor nominal, imagine-se como se accrescentariam as difficuldades da existencia e cresceria o descontentamento geral!».
Mas vejamos a parte notável do testamento de Pires Grandais, feito por mão própria a 7 de Fevereiro de 1856 e aprovado no dia seguinte pelo escrivão José Esperidião de Barros:
«Deixo a cada uma das religiosas do mosteiro do Santissimo Sacramento da Ordem de S.Domingos, em Alcantara, d’esta cidade, a esmolla de 9$000 reis. Deixo a cada uma das religiosas do convento de Santo Alberto, ás Janelas Verdes, d’esta cidade, a esmolla de 9$000 reis, por uma só vez. Deixo a cada uma das religiosas do Real Convento do Sancto Crucifixo, na calçada da Estrella, também d’esta cidade, a esmolla de 9$000 rs. por uma só vez. Deixo a quantia de 200$000 rs. para ser distribuida pelas familias mais necessitadas e residentes n’esta freguezia de Nossa Senhora da Lapa, por uma só vez. Deixo ao Azilo de Mendicidade, d’esta cidade, para ajuda do sustento dos pobres do mesmo Azilo, a quantia de 100$000 rs. por uma só vez».
No Diário do Governo de 12 de Novembro de 1851 lá vemos o seu nome entre os dos subscritores para socorrer os habitantes de Cabo Verde e igualmente no de 4 de Agosto do ano seguinte para o Asilo de Mendicidade.

Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança

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