sábado, 18 de fevereiro de 2017

“Concorremos para ganhar a Câmara de Bragança, não para fazer número”

Mensageiro de Bragança: Agora que já se sabe que é candidato, qual o projeto que quer submeter aos brigantinos?
Carlos Guerra: Todos os projetos são construídos a partir de um diagnóstico. Tempos de identificar os problemas do meio rural e do núcleo urbano. Quando falamos nisso, temos de ter presentes que 75 por cento dos habitantes de Bragança vivem na área urbana ou periurbana. É muito fácil fazer a conta. Mas o mundo rural continua a ter uma relevância extrema. Já temos aqui uma realidade de planeamento muto interessante. Um dos problemas que Bragança tem é o envelhecimento da população. Aqueles que estão em idade ativa encontram melhores oportunidades fora daqui. Para fixar jovens temos de criar emprego.
Para colocarmos mais pessoas nas provoações rurais, temos claramente de apostar na agricultura. Como aumentamos essa capacidade? Criando condições para haver regadio. Qualquer área agrícola que tenha acesso a água de regadio aumenta em sete vezes o seu potencial produtivo. Temos de fazer contas por antecipação.
No meio urbano precisamos de olhar menos para dentro e mais para fora. Tem de haver a conclusão da infraestrutura rodoviária que é a coluna vertebral do desenvolvimento regional, que é a conclusão da auto-estrada entre Quintanilha e Zamora. Isso coloca-nos num eixo entre o Porto e Valhadolid que abrange vários milhões de residentes. É uma das questões fundamentais. Não depende da Câmara mas da sua capacidade de influência junto de autoridades nacionais, espanholas e, sobretudo, europeias. É que o princípio das regiões ainda vigora. Temos de demonstrar a importância da conclusão desta via.
Um outro aspeto que é fundamental é que é preciso voltar a apostar na reindustrialização. Temos de estabelecer unidades industriais à escala e à dimensão da Faurecia. Mas, com aquela dimensão, não está em nenhuma das zonas industriais criadas porque só foram criadas para armazenamento. Uma até está no sítio certo. A outra tenho dificuldade em perceber como se localiza num local que exige tantos movimentos de terras para a instalação de pavilhões, que são mais caros do que a própria construção.
Precisamos de poder apontar para a constituição de uma zona de expansão industrial que acolha unidades de razoável dimensão, deixando as Cantarias mais para esta lógica de armazenamento e Mós como o reconhecimento de um erro de planeamento estratégico, construída longe da que já existia, num terreno que recomendava tudo menos uma zona industrial.
Há um outro aspeto crucial para o desenvolvimento deste território. Bragança tem algumas situações de um potencial pouco aproveitado, que podem fazer com que a sua atratibilidade turística seja esporádica e só para um almoço. Temos de apontar para situações que leva a que as pessoas fiquem cá mais tempo. Vi com satisfação que o Governo pretende que haja um maior envolvimento das autarquias na gestão das áreas protegidas, o que subscrevo, deixando para o Ministério do Ambiente o que deve ser a sua competência, que é a defesa do património natural.
Os parques naturais devem ser áreas exemplares do que deve ser o desenvolvimento sustentável e não uma reserva. Espero que resulte, porque uma situação de grande privilégio. Recordo-me com saudade do tempo em que estive ligado ao Parque Natural de Montesinho em que as casas tiveram meses de ocupação de 75 por cento. Hoje quase me sinto deprimido quando passo junto desses equipamentos completamente vandalizados. Acho lamentável que duas décadas de governação PSD na autarquia tenha deixado chegar a este ponto. Pertence a todos os cidadãos.
Tem valores únicos, mesmo à escala europeia. Mas o nosso castelo também. Temos provavelmente o castelo mais bonito do país e uma zona histórica que ainda tem vida, mas em muitos casos de população idosa. Temos de transformar esta zona histórica. É aqui que temos de instalar gente jovem, as atividades que atraem turistas, restaurantes gourmet, lojas de artesanato. Tem de se criar um projeto golbal e não deixá-la ficar ao sabor de um certo abandono. Só vai havendo intervenções mais ou menos avulsas.
Temos uma aldeia como Outeiro, com características únicas, com uma basílica e as ruínas de um castelo. É incrível que não tenha sido estudado e criado um espaço que possa ser visitado. Isso faz-se nos outros países. Como dizia Mário de Sá Carneiro, dá impressão que “morremos de míngua por excesso de fartura”.  Por exemplo, no sul do concelho há um potencial de produção de azeite único. A Câmara tem de potenciar ali a existência de um sistema de rega.

MB.: Ou seja, a tão falada barragem de Parada?
CG.: Tanto quanto sei, esteve prometida no último Governo de António Guterres mas foi mais um projeto arredado. Recordo-me que quando estive na Direção Regional de Agricultura não havia um interesse muito grande da autarquia, que só se preocupava com Veiguinhas.

MB.: Então, se ganhar a Câmara, é para construir uma barragem em Parada?
CG.: Absolutamente. Não é assim tão complicado. Basta ler o PDR2020 e ir à medida 3.4.1 e verificar que até o projeto de construção da barragem, da rede de rega, são subsidiados a cem por cento. Nestes 20 anos fez-se muita coisa, com muitos projetos que vinham do Dr. Mina e do Eng. José Luís Pinheiro, que foram visionários. Mas dá impressão que depois de 20 anos de governação PSD vivíamos tempos de grande amargura se não tivesse havido os programas dos Governos PS. Temos um teatro municipal, as auto-estradas, o Pólis, o PROCOM. E o que tivemos dos anteriores Governos? Se não fosse a preocupação dos Governos PS, o que se teria feito? É uma pergunta que é legítima e que todos os brigantinos devem fazer.
Mas há outro aspeto. Eu não discuto pessoas, discuto projetos. Tenho o maior respeito pelo presidente da Câmara e todos os que o antecederam. Aliás, manifestei a minha indignação quando esta autarquia só homenageou Jorge Nunes, deixando de fora Luís Mina e José Luís Pinheiro. Achei que foi uma atitude de um proselitismo inaceitável. Eu entendo que as juntas e freguesia são o “front office” de tudo o que é gestão autárquica. A passagem de competências das Câmaras para as Juntas tem uma relevância elevada. Não é a Câmara que sabe se o cidadão A ou B está a passar por dificuldades. Isso é tarefa da Junta. A Câmara tem de ter uma preocupação mais macro, pensar mais no planeamento e no que é a atração dos investimentos, a lógica do conjunto. Mas a individualidade é com as freguesias. Por isso é que foram criadas. Temos de ter respeito pelo passado.
Por isso, para mim é inegociável que as Juntas têm de ser dotadas de meios e capacidades. Um euro no Poder Local faz tanto como dez no Poder Central. Por exemplo, a limpeza de caminhos não pode ser uma moeda de troca para fidelidades temporárias. Tem de haver um planeamento. É aquilo a que as pessoas têm direito e não numa lógica contabilística do que vai ser o resultado eleitoral. E isso tem sido extremamente penoso no meio rural, porque de alguma forma humilha. Os que foram escolhidos para representar os cidadãos vêem-se na condição de ter de estar de mão estendida para uma benesse que deveria ser um direito. Espero que essa seja uma diferença nos nossos projetos. Nunca verão uma Câmara do PS ir colocar paralelos numa aldeia antes de um comício para depois ir lá retirá-los para por na seguinte. A política tem de ser exercida com muito maior elevação. Não é a ostracizar adversários.
Uma outra questão que me preocupa são os jovens. Tem de haver empregos que sejam condignamente compensados. Cidade tem a felicidade de ter um Instituto Politécnico de grande qualidade, para o qual vêm muitos jovens. Mas temos de ser ainda mais hospitaleiros, mesmo se reconheço que há uma boa política a esse nível no IPB. Temos de saber aproveitar o resultado desta hospitalidade. É isto que nos vai fazer perceber que Bragança é do tamanho de tudo o que conseguimos projetar. Por exemplo, temos uma das Casas Reais da Europa com sede aqui e não aproveitamos isso. Devíamos ter muito mais do que a festa da história. São realizações interessantes mas deveríamos ter uma política de divulgação das nossas origens ao longo de todo o ano.
Quanto aos jovens, hoje têm interesses muito diversos. É preciso saber o que eles querem. A nós preocupa-nos que os maiores índices de abstenção no concelho seja precisamente nas mesas onde há mais jovens a votar. Não são os jovens que são mal-educados. Estão desinteressados porque muitas vezes têm dificuldade em perceber aquilo que se lhes está a ser proposto, para o seu futuro. É fundamental envolvê-los e fazê-los perceber que o que se faz agora vai ter consequências elevadíssimas para o seu futuro.

MB.: Já escolheu os outros elementos da lista?
CG.: Não. Não se trata de nenhum tabu. Temos excelentes quadros no PS, que me farão sentir muito horado pela sua presença e disponibilidade, e também temos ótimos quadros entre os simpatizantes, que não são militantes. Vou tentar escolher, juntamente com os órgãos do partido, as pessoas que serão as mais úteis para este projeto, que não é contra ninguém. Mas após 20 anos de gestão autárquica do PSD não me parece que a população possa olhar para o resultado e sentir-se satisfeita. Isto não é uma candidatura de um homem só. Mas não vou escolher ninguém por estrelato. Vamos escolher pessoas que ou já deram provas na defesa do concelho ou que já sabemos que vão desempenhar cabalmente a função para que forem eleitos.

AGR
in:mdb.pt

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