quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

… quase poema… ou das memórias… ou do pão de ló

Todos os anos, no 21 de novembro, o pai ia à feira de Bragança… aliás o pai ia a todas as feiras de Bragança… os dias 3, 12 e 21 eram sagrados e era respeitada a longa tradição de ir à feira de Bragança. Mas a feira de 21 de novembro era especial… coisas do amor… coisas do coração… coisa de memórias felizes.
… o meu Serafim e a minha Eugénia casaram-se no dia 30 de novembro… só quase meio século depois, nasci eu… mas todos os anos no dia 21 de novembro, o meu Serafim ia a Bragança comprar o maior pão de ló que encomendava às vendedeiras da praça… para festejar o dia do seu casamento.
… e todos os anos o pão de ló ficava guardado… num segredo que todos sabiam… na arca da mercearia do nosso Soto… 
…e todos os dias espreitávamos o misterioso e desejado pão de ló… todos os dias… até ao dia 30 de novembro…
… anoitecia… e como quem não quer a coisa, o pai dizia, com os olhos os a brilhar:
… vá Eugénia, vai lá pelo pão de ló!
… a mãe sorria quase envergonhada!
… e o pão de ló era comido como quem comunga na missa de domingo… como um sinal eterno que a felicidade é possível!
… minha Eugénia… meu Serafim, porque se estão a rir!
… que pão de ló tão bom!… louvado seja Deus!

Fernando Calado

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