terça-feira, 21 de março de 2017

NÓS Transmontanos, Sefarditas e Marranos - LOPO DIAS, MERCADOR E JUIZ ORDINÁRIO (N. VILA FLOR C. 1502)

Nasceu em Vila Flor por 1502. Os seus pais foram batizados em pé e “faleceram cristãos”. Ele foi batizado em criança, “como os filhos dos cristãos-velhos” e foi seu padrinho Diogo Lopes, castelhano. Fez-se mercador e “granjeava a sua vida a tratar em Castela”. Casou com uma filha de Violante Fernandes, esta também batizada em pé e “que se gabava e dizia abertamente que era judia” e rezava “as orações do Shemá Israel Baruch”. (1)

Era homem influente e respeitado em Vila Flor, só assim se explicando que fosse eleito por alguns anos para ocupar o cargo de juiz. A outra face do honroso cargo seria a criação de inimizades, da parte dos condenados pela justiça.

Um dos casos mais badalados foi a condenação de André Pires, cristão-velho, homem considerado da aldeia do Arco e que deveria recolher de cada casa da terra um alqueire de trigo, em pagamento da avença ao médico do partido. Como ele não cumpriu o dever, o juiz Lopo exigiu que pagasse ele a avença de todos os outros. E parece que para dar cumprimento à sentença do juiz, André teve mesmo que vender uma vaca.

Outro caso sério aconteceu no ano de 1555. Sendo ele juiz, levantou-se na vila um movimento popular contra o cura da igreja, padre Diogo Maçulo, escrevendo-se “capítulos” contra ele, que foram enviados ao arcebispo de Braga, dizendo que era “muito vicioso, tendo mancebas e dormindo com mulheres casadas, com que escandalizava muito o povo”. Neste processo teria também andado Lopo Dias e a verdade é que o cura foi acusado, preso e condenado.

A essa altura era já viúvo, pois sua mulher, Isabel Pires, faleceu por 1551, contando apenas uns 37 anos, deixando-lhe 2 filhas e 2 filhos, todos já crescidos e apenas um se mantinha solteiro. Para tratar dos assuntos da casa contratou então uma moça cristã-velha. E tudo parecia correr bem na vida de Lopo e do filho mas... André Pires, o lavrador do Arco e o padre Maçulo é que não esqueceriam as afrontas e um e outro juraram vingar-se.

E assim, no dia 11 de Outubro de 1556, André Pires apresentou-se em Torre de Moncorvo, perante o vigário-geral, o licenciado Aleixo Dias Falcão e contou uma história muito interessante. Disse que, no tempo das malhadas de 1555, um dia, ao anoitecer, foi a casa de Lopo Dias comprar vinho. E entrando na sala, não viu ninguém mas escutou vozes que vinham de outra dependência, parecendo-lhe que eram várias pessoas e respondiam umas às outras. De repente, na loja, um “mulato” ter-se-á soltado e meteu-se em barulho com um cavalo que também ali estava. E fazendo as bestas um tremendo barulho, saiu o dono da casa e os outros que com ele estavam na “câmara escusa” a apartá-los. Aproveitou ele a confusão para entrar na dependência suspeita e ficou de boca aberta com o que viu: uma espécie de altar, com almofadas, castiçais acesos e “uma figura do tamanho de uma raposa, a qual parecia ser de ouro e prata, porque em partes era branca e em partes dourada, a qual tinha pernas como de cabra e unha fendida como cabra e na cabeça um corno são e outro quebrado e a cabeça era também de feição de cabra...” Acrescentou que no local estava Diogo da Mesquita, o filho solteiro de Lopo Dias, que com ele vivia e que o recebeu com estas palavras: - “Não tereis vós tanto ouro nem tanta prata!” E ele terá retorquido: - “Pois esse é o Deus que vós adorais?!”

Isto seria música para o vigário-geral e comissário do santo ofício na região, que, na figura da raposa vislumbrou uma “Torá” e logo se meteu a organizar o competente processo, com o escrivão do eclesiástico Pero Botelho.

No processo assentou depois outra denúncia contra Lopo Dias, também de extrema gravidade. Foi feita pelo padre Maçulo que contou uma cena acontecida por 1550, na semana santa. Como sempre acontecia, para pregar os sermões da semana santa, foi contratado um pregador de fama, que veio de fora. E então o juiz Lopo Dias terá ido ter com o pregador a pedir-lhe que nos sermões não falasse da morte de Cristo nem dos judeus para evitar que os rústicos lavradores interpretassem mal as coisas e julgassem que foram os judeus que mataram Cristo.

Eram duas denúncias muito graves e o vigário-geral não teve dúvidas em prender Lopo Dias e o filho Diogo da Mesquita, que remeteu para a inquisição de Lisboa juntamente com o processo, (2) ali dando entrada no dia 10.4.1557. 

Foi muito vigorosa a defesa apresentada por Lopo Dias, com testemunhas de muito crédito, na lista entrando toda a gente cristã-velha, nobre e fidalga de Vila Flor e de outras terras em redor. E não se contentou em narrar os factos e mostrar as provas das inimizades e intuitos de vingança por parte do lavrador do Arco e do cura de Vila Flor. Antes apresentou queixa do próprio vigário-geral, (3) que era seu inimigo e distorceria os testemunhos nos autos do processo. Pedia, por isso para não ser ele nomeado para ouvir as testemunhas. Apontava antes o licenciado Diogo Borges, reitor da igreja de Bornes.

Aceitaram o pedido os inquisidores Diogo de Azambuja e Ambrósio Campelo, terminando a carta da maneira seguinte:

-E porquanto, ao passar desta carta, o réu Lopo Dias disse que Vossa mercê lhe era suspeito e também seu escrivão, por brevidade e escusar inconvenientes, mandamos que se louvassem em pessoa que fizesse a dita diligência. E o promotor e o réu se louvaram em o licenciado Diogo Borges, reitor da igreja de Bornes...

Logo que a notícia correu, André Pires apresentou-se em Bornes a repetir a denúncia. E em Bornes foram recolhidos os depoimentos de algumas testemunhas. Depois foi o comissário e o escrivão a Vila Flor, no cumprimento da diligência ordenada. E ali ficaram instalados em casa do conde Manuel de Sampaio, senhor da terra e homem da simpatia dos cristãos-novos, muito em particular do Dr. André Nunes, seu advogado morador em Torre de Moncorvo, genro e procurador de Lopo Dias, o qual entrava e saía de casa do Conde e encaminhava as testemunhas. (4)

Executada a diligências e enviados os autos, prosseguiu em Lisboa o processo. E em Lisboa se apresentou também o denunciante André Pires, narrando pessoalmente o acontecido anos atrás, com todos os pormenores, alguns bem pouco credíveis, como no processo ficou escrito o parecer do deputado do santo ofício frei Francisco do Porto:

- Tinha escrúpulo de algumas circunstâncias do caso por lhe parecer que era muito descuido do réu a Toura e adorarem tendo as portas abertas.

E também parece que há muito de humor e ironia em algumas perguntas dos inquisidores. Como esta, feita a Diogo da Mesquita:

- Em casa de seu pai andava alguma raposa ou coelho manco ou figura de algum animal?

Com semelhantes perguntas dá a impressão de que a principal testemunha de acusação estava completamente desacreditada. E o procurador do réu fez questão de sublinhar:

- André Pires, tanto que lá soube que a contradita era recebida ao réu (…) se veio a esta cidade a confirmar seu testemunho, dando informação ao dito promotor como que temendo-se que o acusassem em falsidade...

Tal não aconteceu, André Pires não foi acusado de inventar a denúncia e jurar falso. Mas “os inquisidores, ordinário e deputados da santa inquisição, vistos estes autos deste processo e a qualidade das culpas do réu Lopo Dias, de defeito da prova da justiça e como não é bastante para condenação (…) absolvem o réu (…) e mandam que seja solto e se vá em paz...”

Igual sentença foi dada no processo de seu filho Diogo da Mesquita. Quanto ao Dr. André Nunes, diremos que por mais 25 anos continuou exercendo a advocacia e seria porventura o mais famoso advogado da comarca. Acabou, no entanto, por ser também ele prisioneiro da inquisição, em 1583, juntamente com os familiares. A sua mulher, Leonor da Mesquita, filha de Lopo Dias é que não conheceu a estalagem do santo ofício porque faleceu em 1581 e foi enterrada, em Torre de Moncorvo. Mas como o marido e as filhas a denunciaram por judaizante, foi-lhe também instaurado um processo pela inquisição de Coimbra, o qual terminou com a seguinte sentença:

-(…) Em detestação de tão grave débito, seus ossos sejam desenterrados (...) e serão entregues à justiça secular e assim sua estátua, para se fazer cumprimento da justiça.(5)

A sentença foi cumprida no auto da fé celebrado em Coimbra em 9.11.1596. Imagine-se a impressão que o evento causaria entre o povo cristão que assistiu ao desenterrar das ossadas 15 anos depois da morte e à colocação da “estátua” em lugar bem visível no interior da igreja matriz da vila, tudo acompanhado, certamente com sermões inflamados de algum frade.

NOTAS
1-IANTT, inq. de Évora, pº 9678, de Violante Fernandes.

2-IDEM, inq. Lisboa, pº 2174, de Lopo Dias; pº 236, de Diogo da Mesquita.

3-Lopo Dias não foi o único prisioneiro de Vila Flor a apresentar contraditas e embargos contra o comissário Aleixo Dias Falcão.

4-O promotor queixar-se-ia destas “diligências do licenciado André Nunes, seu genro, que viu por ele jurar as testemunhas e as chamou e falou com elas antes de testemunharem” E pela facilidade do comissário juiz (o Reitor de Bornes) que tal lhe consentiu e o deixou espantar as testemunhas” contrárias ao réu.
ANTT, inq. Coimbra, pº 3710, de Leonor da Mesquita.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães
in:jornalnordeste.com

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