domingo, 12 de março de 2017

Notícias da aldeia

Construí a casa junto da velha oliveira. Uma oliveira como milhares de oliveiras que há na minha aldeia. Mas esta oliveira viu-me nascer, viu-me crescer e se tiver sorte talvez me veja morrer. Uma oliveira que está sempre na mesma, não muda, como se já tivesse entrado no grande portal da eternidade. Talvez tenha mil anos, ninguém sabe. À sua sombra descansou toda a aldeia, ao longo de tantos séculos. O casal de pintassilgos todos os anos regressa para construir o ninho na ramada mais alta. Quantas vezes subi à oliveira, para ver se o ninho já tinha ovos, se os pássaros já tinham pelo canhoto, até que um dia ganhavam asas e iam à sua vida.
- Quero ver se cais da oliveira e partes uma perna! Mas não caí, mãe… nunca parti uma perna e nunca tive a felicidade de toda a aldeia me perguntar: Então partiste uma perna?! Quem te mandou subir à oliveira?! Mas não. Só uma vez caí da parreira da tia Sara. E a culpa foi do primeiro vago de uva que pintava sempre na vide mais alta da parreira.
- Quando fiz a casa disseram os vizinhos: - Deite abaixo o diabo da oliveira que lhe assombra a casa!
Mas como podia deitar abaixo a oliveira?! E depois onde pernoitavam as memórias, onde o pintassilgo fazia o ninho, onde o porco-pisco exibia, todo vaidoso, o seu peito vermelho?!
Não, a oliveira ficou junto à janela do meu quarto e conversa comigo, demoradamente, em noites de lua cheia, ou quando o vento e a chuva me fazem companhia.
Só mais uma coisinha, talvez gostem de saber, a cegonha já regressou, o porco-pisco também. Ainda hoje veio almoçar as migalhas de pão que lhe deito no parapeito da janela.
… estão-me a tardar as andorinhas! Talvez tenham perdido a última embarcação! Mas hão de chegar, reconstruir o ninho e ornamentar de asas as longas tardes de verão da pequena aldeia no coração do nordeste.
Na verdade o paraíso existe!... feito de silêncios… de coisas simples e cumplicidades.



Fernando Calado

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