terça-feira, 28 de março de 2017

Notícias da aldeia

A primavera me enganou numa promessa de noites quentes e cerejeiras floridas… e somente trouxe este inverno que gela a alma e toda a esperança que ainda habitava rente à linha ténue do horizonte…
… a quadratura do círculo cumpriu-se na sombra das cegonhas que vêm de antiquíssimas paragens e vão embora quando menos se espera… e só fica um rouxinol intemporal, pendurado nos ramos secos dos freixos, avivando uma dor antiga e indefinida… que já nem dói… é somente um eco fortuito `nas arribas alcantiladas da tristeza…. onde a solidão habita… … e há bandos de pássaros sem nome que assombram as memórias…
… e a aldeia dói-me… como se há mil anos aqui vivesse, nas ruinas dos casebres, no forno apagado, no moinho sombrio, no ribeiro que secou… nas lavadeiras que silenciaram o dizer…
… todos partiram, sem acomodar as vacas, sem apascentar o rebanho, sem fazer a segada, sem malhar o trigo… sem embebedar as mágoas, na taberna, domingo à tarde…
… até a tia Caseira se esqueceu de ralhar com a vizinha por causa das pitas que lhe debicavam o renovo!... e foi-se embora… entardecia… ficou somente a sombra deslavada duma mulher errante… para todo o sempre!
… todos se foram deixando dependurado o eco longínquo… dos gritos que se calaram… 
… e fiquei eu … sombra de ninguém… silenciosamente à espera do vento de feição… e das asas da madrugada… para partir… 
… nesse dia começará a primavera!... e haverá ramos floridos em todas as macieiras… e goivos em todos os caminhos!



Fernando Calado

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