domingo, 23 de abril de 2017

Armando Vara: Caixa geral de robalos

Acusado de vestir a pele de Vale do Lobo com dois milhões em contrapartidas, está encalhado mas ainda não o afundaram.
Deu emprego a gente que não conhecia. Quando tinha poder, ui, garante um antigo ministro, fez subir desafortunados. Agora, aos 63 anos está, aos olhos de uma ex-assessora, como certos barcos: encalhado: "Não é maçom e não é da Opus Dei". É benfiquista. E competente e veloz na decisão. 
Entre pensar e agir, prefere fazer. Goste-se ou não do ex-bancário que chegou a banqueiro, as virtudes de um prestes condenado não podem ser afundadas, alerta um social-democrata. As consequências da frontalidade são construir amizades com facilidade e fazer inimigos a igual velocidade. Adora motas de alta cilindrada, discrição, boa comida e é, segundo um conhecido socialista, namoradeiro, tendo vasto currículo. 
Divorciado, viu subir para três a descendência na hora em que a António Morais lhe cheirou a esturro a gravidez da ex-companheira. Pouco tempo após o nascimento da pequena Leonor, um teste de ADN feito em segredo daria razão ao professor de José Sócrates. 
Em tribunal, conta-se, Armando Vara pediu contraprova à prova dos nove de vínculo biológico. Em vão; a ciência dir-lhe-ia de novo de que não havia dúvidas quanto à paternidade da filha de Ana Simões. O pai era ele, o confrade do Porco Bísaro e do Fumeiro de Vinhais que aceitara uma caixa de robalos do senhor Godinho. Que lhe tenha feito bom proveito, adianta um histórico do Largo do Rato. 
Não é o peixe que o sentencia a um punho de anos na cadeia. São os 25 quilómetros caçados na escuta. Quem trabalhou com Vara no Governo de Guterres tem uma teoria sobre a impossibilidade da quilometragem ser em euros: "Até se ofendia com essa quantia!".

DE LAGARELHOS AO BCP

Na Operação Marquês o valor engrossou; dois milhões de euros de alegadas contrapartidas pelo ámen ao obeso financiamento da Caixa Geral de Depósitos a Vale do Lobo. A filha mais velha, Bárbara, que trata da imagem de Cristiano Ronaldo, é também arguida por ser co-proprietária de uma offshore que terá recebido um milhão de euros de uma outra offshore de Joaquim Barroca, "Não se sente bem com o facto", diz uma amiga. Habituado a salários de salto alto, Armando António Martins Vara provém de origem humilde. 
Filho de marceneiro e de doméstica, a família, onde se incluem duas irmãs - uma delas é florista - saiu da aldeia Lagarelhos em direcção a Vinhais, e depois Bragança. Aos 11 anos já trabalhava. 
Foi caixeiro numa sapataria e num pronto-a-vestir. Mais tarde, ocupar-se-ia da contabilidade de oficinas de automóveis. No início da década de 80, entra para a dependência da Caixa Geral de Depósitos em Mogadouro, através de um concurso. Nem a vidente mais encartada adivinharia que no raiar de 2000 chegaria à administração. E que ainda seria o manda-chuva do BCP que um dia foi de Jardim Gonçalves. O caminho fê-lo através do PS, ou dos conhecimentos que daí adviriam.

Miriam Assor
Correio da Manhã

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