terça-feira, 4 de abril de 2017

BRAGANÇA 2040

Há dias claros, a anunciar o azul da plenitude, que nos fazem olhar para a vida com vontade de futuro e para esta terra com esperança, ainda.
Virtudes da primavera que nos rebenta na alma, como que a incitar-nos a não desistir, mesmo quando os invernos se prolongam, moinhas a repassar-nos os ossos e ventos cortantes a apontar-nos o abrigo da resignação.
É assim que podemos dar por nós a imaginar a região daqui a duas décadas, perspectivando tempos gratificantes para os que aqui permanecerem, contra todos os prognósticos que hoje infernizam o nosso quotidiano.
Não seria uma rematada tontice vermo-nos a passear por uma Bragança com perto de 50 000 habitantes, a dar vida a toda a terra fria, unidades industriais com tecnologia de topo, ensino superior prestigiado, a atrair milhares de estudantes e investigadores das sete partidas, ruas animadas, cosmopolitas, tranquilas, por onde passam milhares de visitantes, atraídos pelo património, pela gastronomia e pela animação, da cidade e do território envolvente, onde a natureza, a paisagem, a agricultura e a caça não são memórias longínquas.
Podemos chegar-nos a Baçal, ao aeroporto, com auto-estrada ali à mão, aviões a chegar e a partir a um ritmo suave, mas constante. Macedo de Cavaleiros é já ali, com promessas de vinho, queijo, azeite e águas tranquilas, umbigo do mundo e tudo. Mirandela, quente e viva, um rio sem par, mesmo sem jet ski, mais estudantes e investigadores entusiasmados, a respirar as brisas do Tua, pontes afora.
De Alfândega da Fé, Vila Flor e Carrazeda de Ansiães chegam as cerejas e outros frutos, Vilariça verde de vida, onde se pode pedir horizonte às Senhoras das Neves e da Assunção, vinhedos a cobrir os vales até ao fim do Tua e à Foz do Sabor. Ali, o comboio espera o carregamento de minério de ferro e há mais vinhas da região demarcada do Douro, a perder de vista, até Freixo de Espada à Cinta, pontuadas por amendoais, que atraem deliciados litorâneos pelo fim de cada inverno, suave e florido, que por ali se vive.
Na memória vai o freixo centenário, com descendência para mais meio milénio, a caminho da linha de castelos, animados sempre, para delícia de passantes e ficantes, boa carne marrã e das vitelas castanho-arruivadas, tardes de remanso, na espera dos pauliteiros, a dançar à luz que as barragens nos dão. Em Mogadouro podemos ver jovens da escola de formação de polícia, garbosos nos seus uniformes, a rivalizar com os alunos da escola nacional de bombeiros, em Vimioso.
Pelas manhãs, subindo ao castelo de Algoso, há quem se sinta parceiro do rei fundador. Dali, por terras de herança sefardita, até ao alto da lombada bragançã, Sanabria à ilharga, até à floresta húmida de Vinhais, onde aprendem os futuros guardas da natureza e das florestas, mantêm-se sorrisos nos rostos e optimismo no olhar.
Se houver pantagruélicos excessos, águas da serra de Nogueira ou de Bensaúde, estão por todo o lado e, para purgas mais afinadas, depressa se chega a São Lourenço, à Terronha ou se desce a Alfaião.
Estamos num mundo de sonho, de que queremos falar, com alegria, aos mais novos, para que não voltem a perdê-lo, a correr o risco de lhes ser sonegado, como em tempos idos.
De repente, tolda-se o azul do céu, pedras duras, de um granizo áspero e arrepiante, enchem-nos a cabeça de galos e, quando recuperamos da surpresa, estamos gelados, encharcados como pitos descuidados e remetidos à realidade da nossa tristeza neste ano da graça de 2017. Da leveza do sonho à dureza do pesadelo vai uma nuvem traiçoeira.

Por Teófilo Vaz
Diretor do Jornal Nordeste
in:jornalnordeste.com

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