terça-feira, 11 de abril de 2017

Cacharros e Panelas

A moça viu o latagão aproximar-se, no entanto, não conseguiu elevar a panela de barro de modo a o impedir de a apanhar, apanhou-a, de propósito, alarvemente deixou-a ciar no chão, partindo-se sem apelo de poder continuar a ser utilizada no jogo na categoria de cacharros suplentes. O estouvado correu aos pinotes na direcção de outra demonstração do jogo pascal da panelinha, também chamado da pandelinha.

A rapariga exibiu na face ruborizada o desgosto ante a perda da panela de barro vidrado oferta da mãe sob o olhar reprovador do pai, a irmão ao vê-la triste espicaçou-a dizendo-lhe: ela anda com o olho em ti, fez isso porque te quer. Ainda não percebeste? Pois pode querer, eu quero outro respondeu em voz velada pois ninguém tinha de saber da sua vida.

Ao anoitecer principiou o baile na palheira pois a Páscoa tinha caído cedo, no mês de Março, o terreiro lamacento não permitia bailações escorreitas, para lá disso as mães e as avós sentadas em bancos, tripeças e talhocos enquanto coziam o decorrer do dia vigiavam os rebentos femininos no intuito de evitarem tentações capazes de atrofiarem as florações dando frutos temporões cognominados de zorros.

À ceia, a irmã resmoneou o tema da tarde, o pai nada disse, limitou-se a espetar com mais força o garfo na rodela de chouriça retirada do folar para acompanhar as batatas cozidas, a mão atalhou a conversa antes de principiar dizendo estar o assunto atado e bem atado.

A pressa na arrumação da cozinha entendia-se, o baile coroava o dia de Páscoa chuvoso, no dizer do pai a dizer o dito por um falecido padre vindo de Carção, daí ter recebido a alcunha de «o Carção», sobre a qualidade das nozes naquele ano iriam sair furadas O sacerdote no decorrer do ofício religioso ao sentir forte zurvada na Igreja não resistiu a dizer: cagai nas nozes.  

Aprontou-se, viu-se no espelho pendurado, a balouçar, por cima do lavatório de esmalte, empinou o busto, levou o indicado à boca, molhou-o e salivado compôs um caracol, a mãe à frente de xaile a tapar o cachené de ramagens ia à frente a balouçar a lamparina, as duas cochicharam até à entrada da palheira. E, o lampantim já estava à espreita qual gavião vigilante.

O friso de mulheres observadoras circundava o espaço da bailação, o garoto ficou ao pé da avó, ouvia e via. E viu. Viu o rapaz pedir à dona da panela o irem dançar e ela menear a cabeça negativamente, reparou nos beiços sorridentes dos outros rapazes, reparou no trejeito da requestada quando não foi pedida por quem ela queria e ouviu comentários ciciados.

E, a rapariga repetiu as negas ao lafrau destravado, durante todo o baile repetiram-se as danças, repetiu as negas, dançou e voltou a dançar, porém não dançou com quem quis, assim foi até à última música.

Já em casa o menino voltou a ficar de olhos fechados e ouvidos bem abertos deitado num banco defronte das labaredas provenientes dos rachos secos de carvalho. A avó mastigava as palavras trazidas do baile a outra mulher também lá presente respondia e acrescentava, adormeceu.

Na segunda-feira de Páscoa continuaram as celebrações, o Senhor Padre procedia à bênção das casas, à tarde jogos na faceira, baile à noite. A avó exigia a presença do neto na cerimónia, não podia faltar, mais a mais o Padre tinha sido companheiro de armas do avô na primeira guerra mundial, os émulos de Afonso Costa mobilizaram os padres sem apelo e desprovidos de patente.

O ritual repetia-se ano após ano, solene, respeitosa, um mordomo dava a beijar Cristo, nós de joelhos dobrados, o Sr. Padre abençoava a sala, depois perguntava pelo meu avô, mordiscava um palito doce, bebia um cálice de vinho do Porto, os mordomos comiam folar, bebiam vinho tinto, um deles retirava o dinheiro e enfiava-o numa saquita, os meninos das sinetas preferiam os doces metendo-os nos bolsos atafulhados, escondidos debaixo das opas. E, corriam a anunciar a chegada da cruz brilhante, não sei se em prata lavrada.

E, o jogo da panela começou, em vez da panela as raparigas atiravam umas às outras um cacharro, lançavam-no sem pressas, a meia-altura, três ou quatro de bigode a despontar também participavam no jogo, o lapuz aproximou-se, anunciou a sua entrada no prélio. Colocou-se ao meio da roda, ficou à mão de semear e a mão da despeitada atirou violentamente o cacharro esboucelado na direcão do rosto dele. Salvou a face estendendo a mão, não salvou a mão de um lanho sangrento. O jogo terminou. As raparigas passaram para outra roda, uma cantarinha de lata rodava sem cair, risos estrídulos ressoavam na faceira, um pouco distanciada a mãe sorria veladamente. Mãe é mãe.

O lesionado desinfectou a ferida borrifando-a com aguardente. Nessa noite não lhe pediu uma dança, nem dançou.

O rapazinho registou na memória os principais acontecimentos ocorridos naquela Páscoa.

Armando Fernandes

PS. Ainda estão vivas personagens do acima narrado, por esse motivo entendi por bem não mencionar nomes, nem a localidade. Neste último pormenor, gato escondido com o rabo de fora.

Dada a ausência de raparigas e rapazes nas aldeias não sei se ainda se joga a panelinha.

Boa Páscoa.



Armando Fernandes
in:jornalnordeste.com

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