quarta-feira, 3 de maio de 2017

Nós Transmontanos, Sefarditas e Marranos - VASCO PIRES, TESOUREIRO DA MISERICÓRDIA (N. T. MONCORVO C. 1513)

Igreja Matriz de Moncorvo - Lado Norte
No dia 9 de Maio de 1554, em Lisboa, perante o inquisidor Pedro Álvares Paredes apresentou-se o padre Bastião de Sousa, cristão-novo, de Mirandela e disse que em 15 de agosto do ano anterior, estando em casa de João Rodrigues, seu irmão, em Torre de Moncorvo, ali chegaram o reitor e irmãos da Misericórdia a fazer um peditório. Para além do padre e dos donos da casa, estava a madrasta de sua cunhada, segunda mulher de Vasco Pires, chamada Francisca Fernandes. E indo-se os do peditório, Francisca começou a murmurar, dizendo que “por clérigos e frades se havia de perder o mundo”. Repreendida pelo padre Bastião, acrescentaria outros ditos menos ortodoxos em relação à doutrina cristã, com o padre a ameaçar que era sua obrigação denunciá-la na inquisição.

Óbvio que João Rodrigues não gostou da conversa e menos das ameaças do irmão padre, a quem repreendeu, dizendo-lhe que assim “os cristãos-novos o aborreciam e fugiam dele e lhe queriam mal”. Respondeu que “por isso se fizera sacerdote e se apartara de seu pai e deixara sua fazenda e se apartaria também dele”.

Bastião cumpriu a ameaça metendo-se a caminho de Lisboa onde denunciou Francisca, que foi presa e levada para a inquisição de Lisboa onde foi seria entregue em 20 de Abril de 1556 e logo viria a falecer, possivelmente de parto, tendo sobrevivido o menino. (1)

Gabriel Pires era outro dos enteados de Francisca, também filho de Vasco Pires e da sua primeira mulher. Em Julho daquele ano de 1556, contando uns 20 anos, encontrava-se preso na cadeia de T. Moncorvo, por ordem do juiz ordinário. Na cadeia teve 3 companheiros bem esquisitos, que vamos apresentar:

Diogo Maçulo que fora cura da igreja de Vila Flor e se tornara fiel servidor do comissário local da inquisição, vigário geral da Torre de Moncorvo, Aleixo Falcão.

Amador Rodrigues, que fora pároco na freguesia de Bruçó. 

António Rodrigues que foi preso por rezar missa e se fazer passar por padre, sendo homem casado e leigo.

Naturalmente revoltado por se ver preso, Gabriel foi deixando escapar frases e informações muito comprometedoras, que aqueles transmitiram ao vigário geral que logo se meteu a organizar um processo, registando as seguintes culpas de judaísmo:

- Disse que quando dali saísse havia de ser pior do que Judas.

- Que quando prenderam a sua madrasta, o seu pai com 200 cruzados podia ter arranjado quem saltasse ao caminho e fazê-la soltar.

- Que ele era casado com duas mulheres: uma em Ceuta e outra em Torre de Moncorvo.

Não vamos seguir os passos de Gabriel para a inquisição e sua estadia nas masmorras de Lisboa. Diremos que conseguiu defender-se muito bem e saiu absolvido em 2.10.1557. (2)

Imaginamos Vasco Pires com a vida suspensa, receoso de ser também preso, como a mulher e o filho. E imaginamos também como alguns de seus inimigos ansiariam de o ver encarcerado, especialmente aqueles que lhe eram devedores. Terá sido o caso de um tal Gonçalo Anes Carrazedo e seu filho João Afonso, cristão-velho, natural de Cabeça Boa e morador no Seixo de Ansiães?

Facto é que, em 16.11.1558, estando o vigário geral de Torre de Moncorvo, Pedro Fernandes Lima, em visitação na vila de Ansiães, na românica igreja de S. João, ali se apresentou João Afonso e prestou o depoimento seguinte:

- Haverá 12 anos, ao tempo que os cristãos-novos andavam alevantados para se irem do reino, com medo da inquisição, estando ele pisando linho canimo à Foz do Sabor, que era do pai dele testemunha, que o dava (em pagamento de dívidas) a Vasco Pires (…) e estando assim pisando o dito linho, dissera o dito Vasco Pires a ele testemunha: -“Coitados de vós outros que andais cegos e credes que Nª Senhora ficou virgem depois do parto; como podia parir uma mulher sem dormir com homem?”

E esta denúncia bastaria para o comissário da inquisição, vigário geral de T. Moncorvo dar início ao processo inquisitorial contra Vasco Pires que, em 8.3.1560, “às portas da cadeia da dita vila” fez uma escritura nomeando seu procurador ao licenciado Francisco Fernandes para o representar na audição das testemunhas de acusação, como era de norma até então. Contudo, autuada aquela procuração, os inquisidores haveriam de escrever, na margem da folha do processo: (3)

- Bem escusado porque não houvera de ver jurar as testemunhas.

Significa isto uma mudança nos estilos da inquisição, mudança que seria implementada gradualmente, passando as testemunhas a ser “fechadas e calados os nomes”, nos termos do regimento de 1552.

Não seria difícil a Vasco Pires adivinhar quem o denunciou. E sendo chamado a Lisboa para confirmar o seu testemunho, logo na primeira audiência, se retratou, confessando:

- O que disse na dita denunciação era falso e mentira e o revoga, porque nenhuma das coisas sobreditas nem outra coisa assim ouviu dizer (…) seu pai Gonçalo Anes, lavrador, já defunto (…) disse a ele que fosse dizer do sobredito o que dele disse em seu testemunho, por estar mal com ele, por causa de certo dinheiro que dizia o dito Vasco Pires que seu pai lhe havia de dar em linho ou o mesmo dinheiro… (4)

Começava a esvaziar-se o processo instaurado a Vasco Pires, já que os outros “crimes” que lhe imputavam eram menos graves e deficientemente sustentados. E mais uma vez fica a ideia de que o vigário geral nomeado pelo arcebispo / inquisidor Baltasar Limpo era mais justiceiro do que “pastor da igreja”. Aconteceu que neste intervalo, a Mitra de Braga mudou para a cabeça de D. Frei Bartolomeu dos Mártires que logo nomeou para vigário geral de T. Moncorvo o licenciado Sebastião Veloso. (5)

Embora a principal testemunha se revogasse, o processo continuou e… Vasco Pires acabou por confessar que durante 15 ou 16 anos andara errado na fé, seguindo a lei de Moisés e rezava orações judaicas como fossem:

Ao levantar - Bento tu Adonay que criaste o homem com sua sabedoria…

Ao deitar – Louvem o poder de Adonay que muitas são as suas piedades…

E aqui é importante dizer-se que Vasco Pires foi o primeiro dos cristãos-novos Moncorvenses presos da inquisição a confessar o seu judaísmo. Para além disso, o seu processo tem particular interesse para o estudo da vida quotidiana de Torre de Moncorvo, lutas políticas e questões sociais.

Nota interessante do processo são uns escritos que foram apanhados pelo alcaide dos cárceres na cesta da merenda que lhe era enviada do exterior e que iam metidos dentro da barriga de um peixe cuja cabeça fora cortada e ia crua.

A completar a sua biografia, diremos que ele foi rendeiro da almotaçaria e era homem de tal consideração entre a comunidade cristã de Torre de Moncorvo que o nomearam tesoureiro do dinheiro recolhido para a construção da igreja da Misericórdia.

NOTAS e BIBLIOGRAFIA:
1-ANTT, inq. Lisboa, pº 12 663, de Francisca Fernandes.

2-IDEM, pº 15414, de Gabriel Pires.

3-IDEM, pº 5118, de Vasco Pires.

4-No seguimento daquela revogação, João Afonso ficou preso na inquisição de Lisboa, acusado de “ perturbação e prejuízo e impedimento do santo ofício”. Era um homem verdadeiramente simples e ingénuo, como os próprios inquisidores reconheceram. Mas isso não impediu que ele fosse condenado a 7 anos de degredo nas galés, sendo sentenciado no auto de fé de 16.3.1561, no qual compareceu “descalço, sem barrete e a cabeça descoberta e uma corda de esparto cingida, disciplinando-se publicamente”. – ANTT, inq. Lisboa, pº 12 631, de João Afonso.

5- Meses depois, em 12.2.1562, estando no Concílio de Trento, o arcebispo escrevia ao vigário de Moncorvo dizendo nomeadamente: - Cuida de pôr à frente das paróquias sacerdotes idóneos, porque toda a substância do nosso ofício está em pôr bons médicos nos hospitais de Deus, que são as paróquias (…) Nisto queria que empregasse todo o ímpeto do seu zelo sem frouxo algum, pois o principal mal destes tristes tempos, e foi raiz das outras calamidades, é que as ovelhas de Cristo não têm pastores, senão comedores, como que Cristo não ordenara suas ovelhas senão para fartar os pastores, e não para serem pastadas por eles. Neste negócio, arranque da sua espada e corte por todos os mercenários ou lobos. Cit. ROLO, Fr. Raul de Almeida – Dom Frei bartolomeu dos Mártires por Terras de Moncorvo, in: Brigantia, vol. 1, nº 3, 1981.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães
in:jornalnordeste.com

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