terça-feira, 23 de maio de 2017

NÓS: Transmontanos, Sefarditas e Marranos - ANA FERNANDES (T. MONCORVO 1545 - 1602)

Na história de Torre de Moncorvo, o dia 15 de Setembro de 1602 deverá ser marcado de forma indelével por ser o dia em que a inquisição fez queimar a primeira de suas munícipes, acusada de judaísmo.
Chamava-se Ana Fernandes, filha de Francisco Fernandes e Beatriz Fernandes, nascida por 1545. Era casada com António Rodrigues Trindade. Pariu 16 filhos, 7 dos quais morreram crianças. Dos 9 que eram vivos à data de sua prisão, fixemos o nome dos mais velhos: Diogo Rodrigues, 30 anos, solteiro; Brás Rodrigues, 20 anos, solteiro; Manuel Rodrigues, 17 anos, solteiro; Maria Rodrigues, 25 anos, casada com Gaspar Nunes Varejão.
António Trindade era recebedor das sisas, que o mesmo é dizer homem abonado de dinheiro. E era lavrador e proprietário de um lagar de azeite, unidade industrial muito rentável naqueles tempos, e ainda hoje. Trazia também arrendada a Quinta da Tarrincha, propriedade de Miguel Ferreira, homem da mais elevada nobreza da terra.
Por 3 ou 4 meses, na época das ceifas e da colheita dos frutos, António Trindade e Ana Fernandes estabeleciam morada na Tarrincha. Ali trabalhavam e moravam alguns operários. E trabalhavam eventualmente homens e mulheres da aldeia dos Estevais, sita no alto da fragada onde a quinta se encaixa.
Naqueles tempos tomar banho era coisa que não estava nos hábitos daquela gente. E causava espanto ver a “patroa”, nas sextas-feiras à tarde depois de um dia de trabalho e calor intenso, meter-se em casa e “lavar-se toda com água e ervas cheirosas”. A limpeza do corpo cheirava a pecado para muito boa gente. 
Os rumores cresceram quando alguém reparou que Ana saía da casa do banho vestindo camisas e toucas lavadas que continuava usando no sábado, dia em que ninguém a via trabalhar e nem mandava que as criadas trabalhassem. De contrário, trabalhava e mandava trabalhar aos domingos. Pelo menos em alguns porque, em outros, até ia ouvir missa na vizinha aldeia de Horta da Vilariça. Mas também isso causava escândalo em alguma gente que a via entrar na igreja com um chapéu na cabeça, que mantinha mesmo ao levantar do Santíssimo Sacramento. Tudo eram coisas de judia! – Dizia-se.
Parte da quinta desenvolve-se pela encosta, íngreme e fragosa, onde apenas medram os zimbros e as piorneiras. Na paisagem sobressaem penedos ciclópicos respeitados como altares pelos povos antigos e albergando duendes Celtas. Alguns deles ganharam nomes estranhos como: fraga da cobra, ninho do corvo, casa do padre, fraga amarela…
Há recantos místicos entre os penedos, recantos onde crescem açucenas lendárias. Pois, alguém espreitou Ana Fernandes em dia de sábado e a viu caminhar pela montanha, subir a um desses penedos, ajoelhar-se e rezar, cara voltada a sul e as costas para a ermida da milagrosa Senhora do Castelo, “fazendo humilhações e reverências, de quando em quando, com o corpo e a cabeça”. Era cerimónia de judia, pois ali não havia santo nem ermida.
Contava-se também que o pastor estranhava que os patrões não aproveitassem o sangue dos cordeiros que matavam e, questionando ele uma filha de Ana, esta respondeu “que era a alma do cordeiro, que não se comia”.
Em junho de 1600, o vigário geral “fez visitação” oficial em Torre de Moncorvo e todos aqueles factos lhe foram denunciados. E nas pousadas do vigário, apareceram dois estranhos denunciantes: a filha Maria Rodrigues e o genro, Gaspar Varejão. Fizeram-se mesmo acompanhar de frei João de S. Francisco, presidente do mosteiro e confessor de Maria. E esta contou, como sua mãe a ensinara a ser judia e como ela se curou de tal cegueira há mais de 7 anos quando se casou com um cristão-velho. Recordou episódios provando que “sua mãe e seus irmãos vivem na fé judaica e a guardam perfeitamente com todas as cerimónias judaicas”. Veja-se um trecho das declarações de Maria Rodrigues:
- Disse mais que sua mãe muitos dias não comia senão à noite e o que comia era feito em uma panela nova e em tigela nova e feito com colher nova, mas não comia carne naqueles dias nem os ditos seus irmãos Diogo e Brás Rodrigues que também aqueles dias diziam que jejuavam com a dita sua mãe, tendo seu pai e mais gente panela feita de carne para cearem…
Também o genro, Gaspar Varejão “cristão-velho e homem nobre” denunciou cerimónias judaicas que presenciara na casa da sogra (camisas lavadas aos sábados, candeeiro aceso dentro de um cântaro em noite de sexta-feira…). Tal como a mulher, Varejão teve o cuidado de inocentar o sogro, dizendo que a comida dele era feita em outra panela e a sogra e os cunhados “se guardavam e acautelavam” para que ele os não visse judaizar.
Em resultado das denúncias feitas na “visitação”, o vigário-geral dr. Gregório Rebelo de Abreu, fez prender Ana Fernandes e os 2 filhos mais velhos: Diogo e Brás, enviando-os para Braga, dali os remetendo a autoridade arcebispal para a inquisição de Coimbra. (1)
Obviamente que, depois de serem presos em Moncorvo, mãe e filhos foram isolados sem que pudessem mais comunicar-se. Compreende-se, pois, a preocupação daquela mãe de ter novas de seus filhos e estes de saber se a mãe, doente como era, estaria morta ou viva.
Na cadeia de Coimbra, juntamente com 2 companheiras, Ana Fernandes foi colocada na “casa do pano” que era onde se recebiam e metiam ao lume as panelas com os géneros a cozinhar de outros prisioneiros.
Aproveitando panos e papelinhos que embrulhavam géneros, Ana escrevia neles um A, semelhante ao que em casa tinha bordado nas peças de roupa, os quais metia depois nas panelas, um pouco ao acaso. Certamente que os seus filhos reconheceriam a marca, se um escrito lhe fosse parar às mãos.
O primeiro sinal de esperança veio com um desses papéis devolvido em uma panela, com “3 risquinhos” acrescentados ao “A”, mensagem que ela não soube interpretar. Na mesma panela terá então metido uma “conta de azeviche” das que os filhos compraram e lhe ofereceram antes de vir presos. Veio a resposta com uma “conta de cheiro” enviada pelo filho mais velho, conforme tinham combinado. Faltava saber do filho mais novo, Brás Rodrigues, que deveria mandar uma conta de pau. A conta não veio mas um sinal de esperança nasceu quando recebeu uma panela onde, na casca de um pedaço de abóbora, vinham escritas umas letras “que lhe pareceram de seu filho mais moço”.
Entretanto, o acaso fez com que se abrisse uma outra janela de contacto através de “escritos” enviados e recebidos na cozinha com um homem natural de Mogadouro e morador em Lamego, parente afastado de Ana, Pero de Matos de seu nome, advogado de profissão. Ele lhe deu novas de seu filho Brás que estava numa cela por cima da dele.
Seria interessante analisar cada uma das mensagens trocadas entre Ana e o filho e entre ela e o advogado mas o espaço limitado do jornal não o permite. Fá-lo-emos em um trabalho mais alargado que estamos preparando. (2) Por agora diga-se que, às muitas perguntas que os inquisidores lhe fizeram sobre as mensagens trocadas, a resposta foi apenas uma: queria saber se os filhos eram vivos ou mortos. Contra todas as evidências e confissões dos filhos, Ana Fernandes manteve-se firme, sempre se dizendo boa cristã.
Impossível resumir aqui o processo e fazer um retrato, mesmo breve, desta mulher enfraquecida de muitos trabalhos e dezena e meia de partos. Veja-se a resposta que deu aos senhores inquisidores quando, ao findar a sessão da genealogia, a mandaram benzer e rezar a doutrina cristã:
- Quanto à doutrina, disse que não estava para a dizer por estar muito fraca mas que em qualquer outro tempo a diria porque a sabia muito bem.
E a resposta que deu quando lhe estranhavam os banhos e as camisas lavadas que vestia:
- Disse que por sua doença vestia todos os dias camisas lavadas porquanto todas as noites suava e que o fazia por respeito de sua saúde.
Deveras interessante para o estudo das lutas políticas e questões sociais da vila de Torre de Moncorvo naquela época é também o processo de Ana Fernandes, o que prometemos tratar em outra ocasião.
Também sobre a evolução do próprio tribunal da inquisição este processo tem notas interessantes. Uma delas refere-se ao Conselho Geral que, pela primeira vez encontramos mencionado em um processo. Com efeito em 23 de Julho de 1602 reuniu para apreciar o processo que lhe foi remetido pelo tribunal de Coimbra e confirmou a sentença proposta: que fosse relaxada e seus bens confiscados. E esta terá sido a primeira pessoa de Torre de Moncorvo queimada nas fogueiras da inquisição.

NOTAS e BIBLIOGRAFIA:
1-ANTT, inq. Lisboa, pº 2398, de Ana Fernandes; inq. Coimbra, pº 37, de Diogo Rodrigues; pº 8799, de Brás Rodrigues.
2-Como aperitivo, vejam a seguinte explicação de um escrito dada aos inquisidores por Ana Fernandes: - E também lhe mandou dizer que lhe escrevesse com sumo do Felgar somente, que era melhor. No que queria dizer que lhe escrevesse com sumo de cebola, porquanto escrevendo com ele num papel ficava branco sem se enxergar e posto defronte do fogo se lê as letras todas as quais ficam amarelas (…) e no dito escrito não nomeou cebola senão Felgar, por dissimulação, porque junto a Torre de Moncorvo há um lugar donde veem as cebolas e são as melhores.
MEA, Elvira Cunha de Azevedo – A Inquisição de Coimbra no Século XVI…, pp. 446-447, Porto, 1997.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães
in:jornalnordeste.com

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