segunda-feira, 29 de maio de 2017

Portugal quer lapidar diamante escondido na fronteira. E a Espanha?

A 29ª cimeira luso-espanhola quer repor a normalidade dos encontros anuais, interrompidos em 2010, 2011 e 2016, e marcar o regresso ao modelo das reuniões de dois dias. E, pela primeira vez, tem um único tema: a cooperação transfronteiriça.
Desde os anos 1980, quando começaram as cimeiras luso-espanholas, que os governos de Lisboa e de Madrid assinam acordos para explorar o “potencial das regiões transfronteiriças”. Mas ainda há tanto por fazer que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, fala na cooperação dos territórios das raias como um “quase-diamante por delapidar”.

A proposta do Governo português, a quem coube a organização da 29ª cimeira — que começa hoje —, é que este seja o tema unificador de todas as reuniões de trabalho. Para reforçar a ideia, a cimeira começa em Espanha e termina amanhã em Portugal. E boa parte do trabalho far-se-á rio Douro abaixo, a bordo de um cruzeiro da Douro Azul.

De manhã, António Costa e Mariano Rajoy, e respectivas delegações, entram a bordo do cruzeiro em Vega Terrón, Espanha, e ao fim da tarde desembarcam em Portugal no porto da Senhora da Ribeira, ao pé de São João da Pesqueira, de onde seguem de autocarro para Vila Real. É nesta cidade de Trás-os-Montes que vai decorrer a reunião plenária, presidida pelos primeiros-ministros. “Foi uma ideia portuguesa e imediatamente aceite pelo lado espanhol”, disse Santos Silva ao PÚBLICO. “A própria cimeira é um acto de cooperação transfronteiriça.”

Esta é a primeira vez que uma cimeira luso-espanhola se centra num tema único, sendo que é por definição um assunto transversal e multidisciplinar. A coesão territorial é um ponto central do programa do Governo socialista português e um dos seis grandes eixos do actual Plano Nacional de Reformas. Costa insiste que “temos de mudar a geografia que temos na nossa cabeça” e que, se não olharmos para o país “com outra visão”, estaremos “sempre a não entrar no círculo virtuoso de desenvolvimento”. Dá para isso um exemplo: “Bragança está a 500km de Lisboa, cuja cidade tem 600 mil habitantes e, no conjunto da área metropolitana, dois milhões de pessoas. Mas a 30km da fronteira, Bragança tem Castela e Leão, com 2,5 milhões de pessoas. Bragança só é interior para quem está em Lisboa a olhar para o mar. Bragança é que é central, como a Guarda, Vila Real, Portalegre ou Évora.”

A reforçar esta mensagem, o chefe da diplomacia diz que é “preciso uma mudança coperniciana na maneira como olhamos para o interior” e Helena Freitas, coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, criada em Março de 2016, diz que “chegou o momento do interior”.

Ninguém acredita que vai ser fácil, como a história das cimeiras luso-espanholas bem demonstra. Se há ideias transfronteiriças ambiciosas que nasceram em cimeiras e tornaram-se realidade, também é verdade que, ano após ano, há projectos repetidamente anunciados como “apostas estratégicas” que nunca saíram do papel.

“O interior deve ser visto como um grande centro da Península Ibérica”
Foi na 22ª cimeira (2006), em Badajoz, que se acordou propor candidaturas conjuntas a fundos comunitários para a construção dos troços transfronteiriços de linhas ferroviárias de alta velocidade Madrid/Lisboa e Vigo/Porto, que nunca se concretizaram. E também foi nessa cimeira que José Luís Rodriguez Zapatero e José Sócrates assinaram o Tratado Internacional para a criação do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, cuja ideia fora anunciada na cimeira do ano anterior (em Évora). E que na cimeira de 2008, em Braga, foi assinado o acordo sobre a localização da sede (Braga, justamente) e na cimeira de 2009, em Zamora, se celebrou a inauguração do laboratório.

As reservas de Zamora

Falar com os empresários de Zamora que há dias almoçaram em Lisboa com empresários portugueses torna evidente que não chega evocar Copérnico.

Para Cristina Llamas Acedo, cuja adega familiar Viriatus, de Zamora, produz 500 mil litros de vinho por ano e exporta para a China, os desafios são muito práticos. “Para mim é mais barato e mais rápido chegar ao Porto do que a Miranda do Douro”, diz a empresária durante o almoço organizado pela Câmara do Comércio e Indústria Luso-Espanhola. O mesmo para Fernando Iglesias, do Leche Gaza, produtor de leite. Ou para Jesús Garrote Sastre, director comercial das farinhas Gabino Bobo. “Para nós não há fronteira, vamos todos de um lado para o outro. Mas para fazer negócios, pensar nas regiões transfronteiriças não chega. Há pouca indústria, não há cidades importantes, só pequenas vilas”, diz Iglesias. “Tem de ser mais global.” Além disso, “a logística Zamora/Porto e Madrid/Porto é igual.” Carlos Prieto Sánchez, da Câmara de Comércio de Zamora e ele próprio produtor de queijo, diz que o problema ainda está ao nível das percepções: “Não olhamos para portugueses como vizinhos. Olhamos para as costas dos portugueses. Não pensamos nos portugueses como pessoas para fazer cooperação”, admite. A sua palavra de eleição, aliás, não é “transfronteiriço” mas “co-petência”: “Temos de juntar cooperação e competência.” Nesse campo, sente-se optimista porque há competências que os portugueses têm e que, para quem está em Zamora, são um trunfo, como a maior facilidade em entrar com queijos e enchidos nos mercados da lusofonia, em particular Angola e Moçambique. Para além disso, a cooperação com empresas portuguesas pode dar escala mesmo nos mercados familiares. “As empresas da América Latina compram queijos de Portugal e de Espanha, separadamente. Se partilharmos os meios de distribuição, aumentamos as vendas”, diz Sánchez. “Mas não é fácil. As empresas ainda pensam a curto prazo.”

Nuno Ribeiro da Silva, CEO da Endesa Portugal e membro da Câmara de Comércio Luso-Espanhola, acredita que “os territórios do interior têm um grande potencial” no sector da energia. Esta é a sua proposta: aproveitar as matérias-primas no solo para fazer a estilha usada na produção de calor e electricidade, o que, além de limpar as matas e ajudar a combater os fogos, potenciaria outros dois negócios — a venda de salamandras e o sector de limpeza de matas. “No interior, há um mundo por explorar.” Para Elena Aldana, directora de relações externas da Mercadona, “já não é potencial, é a realidade”. Com 1614 supermercados em Espanha, vai inaugurar a internacionalização da empresa em Portugal e abrir quatro supermercados no Grande Porto em 2019.

Diz António Costa que o interior não são “as traseiras do litoral”, mas “a frente avançada do país em relação ao centro da Europa”. Na terça-feira saber-se-á que novos instrumentos de política pública vão os dois vizinhos acordar para delapidar um pouco mais este quase-diamante em estado quase bruto.

Bárbara Reis
tp.ocilbup@sierb
Jornal Público

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