terça-feira, 13 de junho de 2017

A cultura judaica sai do armário e toma conta de Bragança

Terra(s) de Sefarad arranca esta quinta feira com um congresso internacional, música, cinema, exposições e um mercado kosher numa cidade que tem dois espaços dedicados ao legado dos judeus sefarditas.
A arquitecta Susana Milão, natural de Guimarães, sabia que tinha raízes transmontanas, mas nunca lhe ocorrera que no passado da sua família havia ligações judaicas. Descobriu-o, agora, quando está prestes a ser inaugurado o Memorial e Centro de Documentação Bragança Sefardita, que desenhou em co-autoria com Eurico Salgado, no âmbito daquele que é já considerado o maior evento dedicado à cultura judaica em Portugal: Terra(s) de Sefarad, que decorre em Bragança entre quinta-feira e o próximo domingo.

“A propósito de uma das conferências que vai acontecer no congresso do Terra(s) de Sefarad, descobri que há uma investigação bastante grande em torno deste apelido “Milão” e uma família judaica sefardita cristã-nova de Bragança. Foi uma descoberta familiar curiosa”, diz a arquitecta. Joaquim Pinheiro, coordenador do evento que, além do ciclo de conferências internacional, vai ter vários momentos culturais e um mercado kosher, tem outro episódio para contar, relacionado com a cultura escondida dos judeus de Bragança. Há pouco tempo, num restaurante da zona que frequenta há anos, descobriu a filha do proprietário a ler um livro sobre gastronomia judaica na cidade. “Fui comer um pouco mais tarde, já fora de horas, e surpreendia-a a ler aquilo. Ela explicou-me que o livro era do pai, como outros itens, incluindo um kipá, que o dono do restaurante confirmou ser dele, ao mesmo tempo que admitia as raízes judaicas. “Digo-lhe isto a si, mas se alguém perguntar, eu não digo nada”, recorda Joaquim Pinheiro ter ouvido ao homem. “Há muitos judeus e descendentes de judeus na região, mas não se manifestam”, sintetiza.

Nada que seja novo. A presença de judeus em Bragança tem centenas de anos, e cresceu muito no final do século XV, aquando da sua expulsão de Espanha, em 1492. Contudo, a vida no nordeste transmontano mudaria, de novo, antes do século terminar, com Portugal a expulsar também os judeus que viviam no seu território, deixando-lhes como alternativa, a conversão. Ou, pelo menos, fingir que se convertiam. “A vida judaica estava escondida, como está até aos dias de hoje. Mas toda esta região tem uma forte história judaica, que está agora a retornar à luz”, diz o rabino de Belmonte, Elisha Salas. Os quatro dias inteiramente dedicados à história dos judeus sefarditas (oriundos da Península Ibérica) são, por isto mesmo, encarados pelo rabino como de uma enorme importância. “As pessoas que ali vivem vão vencer o medo cultural que existe na psicologia portuguesa, e que faz com que muitos se reconheçam como judeus, mas não se assumam”, argumenta.

E o que se vai passar em Bragança nasceu da concepção, decidida pela Câmara de Bragança, de dois espaços dedicados à cultura judaica – o Centro de Interpretação da Cultura Sefardita do Nordeste Transmontano, desenhado pelo arquitecto Souto de Moura e que abriu este ano, e o Memorial e Centro de Documentação Bragança Sefardita, de Susana Milão e Eurico Salgado, cuja inauguração está agendada para sexta-feira. A arquitecta explica que o novo edifício é mais centrado na realidade de Bragança e surge como complemento ao Centro de Interpretação, com um conceito alargado a toda a região. Joaquim Pinheiro acrescenta: “Este novo espaço tem uma pequena sinagoga e vai ser sobretudo um espaço de memória virtual, de recolha de testemunhos e histórias, seja em forma oral, escrita ou visual.”

Dos espaços ao Terra(s) de Sefarad, foi pouco mais que um passo. “Surgiu de forma natural. Pensamos, temos equipamentos, porque não fazer um evento imaterial sobre a cultura sefardita? E avançamos com a ideia de criar um evento que levasse ali pessoas de fora da cidade, do território. Esperamos até que possa trazer descendentes dos antigos judeus da cidade”, diz.

O ponto alto dos quatro dias do programa é o congresso internacional Identidade e Memória Sefardita: História e Actualidade, com a organização científica da Cátedra de Estudos Sefarditas “Alberto Benveniste” da Universidade de Lisboa (cujo programa completo pode ser encontrado em terrasdesefarad.com). Os conferencistas chegam um pouco de todo o lado – Israel, Holanda, Estados Unidos da América, Espanha e, claro, Portugal – e vão abordar os mais diversos temas, desde a perseguição movida pela Inquisição, ao desenvolvimento da comunidade de judeus portugueses em Amesterdão, passando pelo pensamento do influente filósofo nascido em Bragança, Isaac Oróbio de Castro (1617-1687), que foi conselheiro de Luís XIV (1638-1715), o Rei-Sol de França, ou a relação entre os judeus e a indústria de sedas que floresceu em Bragança entre os séculos XVI e XVIII mas, entretanto, desapareceu.

Para quem quer saber um pouco mais sobre a cultura judaica, mas não vai assistir às conferências (a entrada é gratuita, mas sujeita a inscrição prévia), a cidade terá muito mais para oferecer. Há exposições no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (“Disruptive Order”, da israelita Dvora Morag), no Centro de Fotografia Georges Dussaud e no Museu Abade de Baçal. Há música – na quinta-feira, com o Herança Longínqua duo, no jardim do centro Graça Morais, e no sábado, Yasmin Levy e o seu grupo são a aposta da organização para encantar quem se deslocar ao Castelo de Bragança.

Nos dois primeiros dias do Terra(s) de Sefarad há também um ciclo de cinema, com a estreia anunciada do documentário francês O Falsificador, uma curta-metragem sobre um adolescente que salvou milhares de crianças, dando-lhes passaportes falsos. E, para encerrar os quatro dias do evento, um mercado kosher vai tomar conta da Praça da Sé e da Rua dos Museus, entre as 10h e as 19 horas. Luís Morão, proprietário do Cantinho Kosher, com sede em Belmonte, e prestes a abrir a primeira loja online de produtos kosher em Portugal, vai estar por lá e os produtos, diz, são mais do que muitos. “Vamos ter produtos portugueses kosher do melhor que temos em Portugal, desde o vinho do Porto, à cerveja, passando pela chouriça, o lombo de vitela, o azeite, o queijo ou os doces. E ainda esperamos ter uns produtos novos, como frutas desidratadas”, diz.

Para sexta-feira, está ainda agendado um serviço religioso, pelas 20h30. Apesar de o memorial ter um espaço de sinagoga, a exiguidade do espaço, que dá apenas para 25 pessoas, levou a organização a marcar a cerimónia para o Centro Cultural Adriano Moreira. Joaquim Pinheiro está curioso com os resultados”. “Há ainda muita gente no armário, mas as pessoas começam já a manifestar-se. E isto contribui. E não vai acabar aqui. Gostávamos que fosse o princípio de algo. Vamos ver”, diz.

Patrícia Carvalho
patricia.carvalho@publico.pt
Jornal Público

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