sábado, 17 de junho de 2017

Livro de Nuno Nozelos, «Histórias ou Algo Mais»

Dizia-lhe, em 1975, o grande romancista reguense, João de Araújo Correia: «Não deixe de escrever, querido Amigo! Tem obrigação de escrever quem se distingue, pelo talento, na actual lezíria das nossas letras». O emigrante mirandelense, Pedro Cabanas, em Paris - França, escreveu-me para lhe conseguir o livro, «Histórias ou Algo Mais», de Nuno Nozelos (NN).

Entrei em contacto com a esposa, Celeste Nozelos, que me ofertou dois livros, um para Pedro Cabanas e outro para mim. O do Pedro Cabanas quero entregá-lo quando vier a Mirandela, nas férias, e o meu guardei-o para a minha ida a Edmonton - Canadá. Comecei a lê-lo na longa escala que fiz em Amesterdão e não mais parei. Saboreei-o no longo percurso em que pude acompanhar um deslumbrante e incendiado nascer do sol na primeira etapa da viagem.

Os bons livros, dos grandes autores, como Miguel Torga ou NN, leio-os de esferográfica e bloco nas mãos. «Histórias ou Algo Mais» é mais um livro, como o nome indica, de histórias ou contos, editado em 1985, e publicado, pela então prestigiada «Livraria Portugal», em que a ficção e a realidade se entrelaçam e complementam. Tal como a maioria dos provincianos, que nos fascinávamos e bebíamos a histórias e contos da tradição oral enquanto a imaginação os completava e fantasiava, o NN ouvia-os à sua Mãe e preenchiam o «vazio dos serões infindos e medonhos de Inverno» ou como prémio de calcorrear canadas ladeirentas, para o «menino pobre que era». Elas «são o revérbero da vida do seu autor».

Neste livro, com capa de Sérgio Vala, reproduzindo um trecho do rio Tuela, junto à Ponte da Pedra sobre o rio Tuela, próxima da Torre Dona Chama, NN, no capítulo «Presente de anos», desnuda um pouco da sua vida, militar, depois profissional, sendo sobretudo a meninice com os companheiros da escola primária, «Mariano, Simplício, Humberto António Machado (que «mijava para o ar e, dobrando em arco, aparava com a boca»), da M.ª do Amparo (a viver no Brasil) e da Eulália (a quem dedicava um grande afecto). Fala-nos da sua ida para o Seminário dos Missionários Espiritanos de Godim – Régua, das recordações dramáticas da Guerra Civil espanhola, das idas para o campo com os pais e da fruta abundante que a Mãe trazia para casa no estio. O livro lê-se num trago, como quem se dessedenta na canícula de Júlio (era assim que a minha Mãe referia o 7.º mês do ano em honra de Júlio César) ou Agosto.

O NN pegou no «escopro de artesão» e com uma habilidade e criatividade profundas burila a escrita. Não é fácil pintar uma tela tão real ou compor com a musicalidade ímpar um trecho das nossas letras como o NN faz. Talvez por andar em grande azáfama o Presidente da República, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, e não estar ao corrente da doença que mina o escritor NN (com quase 85 anos), não lhe dará um obrigado. Mesmo o nosso Município poderia dar-lhe um obrigado numa deslocação que ele faça à Torre. A Junta de Freguesia da Torre já o homenageou e instituiu o «Prémio Nuno Nozelos».

Parabéns NN pelo legado escrito que nos dás com as «Histórias ou Algo Mais»! Parabéns, ainda, à esposa, Celeste, que luta para além das suas limitações, para dar ao Nuno um fim de vida que a sua alma humedecida e reconhecida agradece.

Jorge Lage
in:atelier.arteazul.net

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