domingo, 16 de julho de 2017

A Senhora da Serra (de Nogueira, em Rebordãos – Bragança)

Vou falar-vos de um santuário que para mim sempre foi mítico. Na minha imaginação de criança e jovem ficaria algures na nossa região. Depois o meu Pai ia lembrando em casa em Setembro: «A Senhora da Serra tira a merenda e dá a vela». Dizia que já não havia sesta e que se tinha acabado o Verão. Mas, havia quem dissesse: «A malvada da Senhora da Serra tira as merendas e dá as veladas». 
Só com o ultimar de um meu novo livro sobre os Falares de Mirandela, fui obrigado a saber mais sobre esta mítica romaria. Obrigado pela consideração que tenho com os meus leitores, em que procuro complementar até ao mais ínfimo pormenor os saberes que pode suscitar. Esse trabalho de pesquisa cabe-me sempre a mim. Com a publicação deste meu novo livro em que o Município dará apoio por ser de interesse concelhio, fecho um ciclo sobre o património imaterial linguístico, iniciado por um grupo encabeçado pelo amigo Jorge Golias.
Os três livros pelo conteúdo e pelas belas capas ficam bem em qualquer estante. Depois, os livros etnográficos etnolinguísticos são sempre de interesse actual, ao contrário da maioria que por aí circula. O que vos lavro sobre a Senhora da Serra, situada no alto da Serra de Nogueira, a 1320 metros de altitude, é apenas uma nota de pé de página em que tive a colaboração do Cónego Silvério Pires, Celeste Pires e Adriano Rodrigues da Junta de Freguesia de Rebordãos.
Este grande santuário entrou no Cancioneiro Popular e deixo-vos a quadra:

«Senhora da Serra
Eu da Serra sou
Sapatos não tenho
E bailar não vou».

Apesar de ser uma das romarias mais concorridas de Trás-os-Montes, com muita juventude nos actos religiosos, não tem a componente profana do arraial, só a parte espiritual. A Confraria da Senhora da Serra é a guardiã deste Santuário Mariano. Os preparativos desta romaria começam no dia 5 de Agosto, dia dos leilões, sendo leiloados os apoios para os dez dias (novena e dia da romaria): quatro tascas (2.500 a 4.000 euros cada); os quartos (uns 400) disponíveis para alojamento dos peregrinos, distribuídos por uma dúzia de pavilhões (entre 50 e 120 euros cada por ano).
As actividades iniciam-se a 30 de Agosto com a novena e prolongam-se até 8 de Setembro (Natividade de Nossa Senhora/Maria). Em cada dia, a novena ocorre pelas 17H00, com orações próprias, seguindo-se a procissão do dia pelas 17H30, e a Missa (há três missas diárias) e pelas 21H00 há o terço do dia.
As 4 tascas (restaurantes) servem refeições a preço médio de 12 a 15 euros. A gastronomia, além dos romeiros recebe muitos grupos de Bragança e arredores para as refeições. Nos dez dias servem-se milhares e milhares de refeições.
A devoção a Nossa Senhora da Serra assenta na mesma lenda de outros santuários e igrejas em honra de Nossa Senhora das Neves, o mesmo que a devoção a Santa Maria Maior, em Roma. Diz a lenda que Nossa Senhora que apareceu em Agosto (neste caso dia cinco) a uns pastorinhos pediu que se erguesse uma ermida ou capela e a prova foi uma nevada em Agosto, daí Nossa Senhora das Neves. Se passar por Bragança lembre-se que a Senhora da Serra fica ao lado e dista de Mirandela um pulinho pela A4.

Jorge Lage
in:atelier.arteazul.net

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