quarta-feira, 19 de julho de 2017

Frei Domingos de Santo Ângelo

Carmelita descalço, natural de S. Martinho do Peso, concelho do Mogadouro, onde nasceu pelos anos de 1562, falecendo no colégio de Figueiró a 17 de Dezembro de 1638. Foi cursar a Universidade de Salamanca, onde logo deu mostras do seu grande talento, «que parecia ter por materna a lingua latina», diz a crónica de onde tiramos estes apontamentos, e por isso o proveram na cadeira de retórica dessa Universidade, onde se tornou tão distinto, no dizer das mesmas crónicas, «que a fama não se cançava de pregar que renascera n’elle Tullio e tornara ao mundo Quintiliano».
Regeu esta cadeira até que Filipe II, desejando fundar no convento de S. Bento do Escorial [11], da ordem de S. Jerónimo, uma secção de estudos, pediu catedráticos a Salamanca e entre outros foi-lhe enviado o nosso conterrâneo, que continuou no Escorial as suas eruditas prelecções de retórica.
A convivência com os frades levou-o a abraçar a ordem, onde, concluído o noviciado, se ordenou de presbítero, mas permaneceu nela pouco tempo – apenas nove anos –, pois a insinuações de D. Frei Diogo de Hiepes, bispo de Tarragona, que lhe obteve «Breve de transição» do papa Clemente VIII, passou para a ordem dos descalços do Carmo, reformada por Santa Teresa de Jesus, confessada do mesmo bispo, e entrou no convento de S. Pedro de Pastrana na província de Castela-a-Nova.
Não foi dos primeiros frades que em 1585 foram missionar para o México quando para ali partiu D. Álvaro Manrique de Zuniga, marquês de Vila Manrique, com o título de vice-rei, como querem alguns escritores, mas foi imediatamente após estes, e por isso é chamado um dos fundadores da província de Santo Alberto dos Índios de Espanha, pois assistiu com os primeiros ao levantamento dos alicerces do convento de S. Sebastião do México. Ali prestou grandes serviços na conversão daquela gentilidade, e de tal ordem que o diabo os invejava e se punha mesmo levado de mil diabos pelas almas que o nosso frade lhe arrebanhava. Um dia, o pobre diabo, não podendo já sofrer mais, impingiu-se como criado em casa de um ricaço, recentemente convertido, no intuito de o precipitar nos infernos mal o visse caído em pecado mortal.Mas Frei Domingos, que não dormia e tinha dedo para aquelas coisas, pespegou com a benta estola em cima do lombo do diabo e logo a seguir uma boa dose de exorcismos, dos quais o demónio se deu por bem feliz em o deixar escapulir, sem mais nunca ter tentações de mexer com os conversos do nosso conterrâneo.
Pela comunidade do México foi depois mandado a Roma para obterem a erecção de província independente da de Espanha, escapado de um naufrágio e de um ladrão que se deixou embaçar pelo frade, chegou a Roma mas nada conseguiu, e foi até preso por mandado do geral da ordem e remetido para Madrid, onde o puniram, não pela pretensão, que era justa e tanto que foi depois atendida, mas pelo modo como a queriam levar a cabo. Pouco depois foi mandado para o convento de Lisboa, da sua ordem na província de Portugal, onde exerceu como castigo, durante alguns anos, o lugar de sacristão.
No capítulo geral de 1616 foi eleito prior do convento de Aveiro, recentemente fundado, sendo o primeiro que o governou com este título, porque o seu antecessor, Frei José Maria, tivera o de vigário.
Com esmolas que conseguiu aumentou grandemente esta casa de Aveiro, comprando o terreno para a fundação na rua de S. Paulo, junto ao lugar da Sé, lançando a primeira pedra e levantando o convento em condições habitáveis, pois os religiosos tinham vivido até aí numas casas de empréstimo, pertencentes a Gil Homem da Costa.
Findo o triénio do seu priorado, voltou para o convento de Lisboa e depois para o de Figueiró, transferência por ele mesmo pedida ao provincial por ser mais retirado do bulício do mundo e conseguintemente mais próprio para acabar sossegadamente seus dias na meditação das coisas divinas, onde efectivamente veio a falecer com fama de virtudes reais, deixadas as pieguices chochas das crónicas da ordem.

Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança

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