segunda-feira, 10 de julho de 2017

Lopo Vaz de Sampaio

Natural de Ansiães, distrito de Bragança, oitavo ou nono vice-rei da Índia, se contarmos ou não o vice-reinado de Pero Mascarenhas; faleceu naquela povoação a 5 de Março de 1538. Era filho de Diogo de Sampaio, senhor de Ansiães, Vilarinha da Castanheira, e de D. Briolanda de Melo.
Militar valoroso, serviu durante onze anos na África, onde muito se distinguiu, partindo depois para a Índia em 1512 numa frota de doze naus, de uma das quais ele era capitão; foi ferido pelos mouros no sítio do castelo de Benastarii, cercado por Afonso de Albuquerque. Assistiu ao primeiro empreendimento deste grande português sobre Adém, que não se levou a cabo, apesar dos esforços heróicos dos nossos.
Em 20 de Fevereiro de 1515 assistiu também na barra de Goa, com outros capitães, no conselho de Afonso de Albuquerque sobre se empreender a tomada de Ormuz, cuja empresa já fora tentada pelo mesmo Albuquerque da primeira vez que ali fora, e foi o primeiro a cravar o punhal em Raez Hamed, valido do rei de Ormuz, que fazia grande dano aos portugueses.
Neste mesmo ano mandou D.Manuel por capitão geral e governador da Índia a Lopo Soares de Albergaria com uma armada de treze naus, que encontrou Albuquerque nas vascas da morte, mais apressada ainda pela ida de novo governador, incapaz de compreender e executar o grande plano de Albuquerque, verdadeiro fundador do nosso império na Índia e o único homem que concebeu o modo racional e proveitoso de a administrarmos.
A Índia torna-se então um El Dorado, onde aventureiros cobiçosos vão agenciar escandalosamente fortuna e não procurar honra em mavórticos feitos, e por isso aquela nossa potência começa logo a declinar. As desinteligências entre Lopo Soares de Albergaria e D. Garcia de Noronha, sobrinho de Afonso de Albuquerque, surdiram logo, dando causa a este retirar para o reino em companhia de muitos fidalgos, entre os quais deve ter vindo Lopo Vaz de Sampaio.
Em 1524 voltou Lopo de novo à Índia numa frota de catorze velas, que saiu de Lisboa a 9 de Abril desse ano, duma das quais era comandante, e ia nomeado para a capitania de Cochim. O conde da Vidigueira, D. Vasco da Gama, almirante do mar Índico, era o comandante desta frota, na qual ia como vice-rei da Índia.
Bem conhecido por todos devia ser o merecimento de Lopo Vaz de Sampaio, porque Vasco da Gama, o primeiro descobridor da Índia, encontrando- se doente gravemente, de que morreu em Cochim a 24 de Dezembro de 1524, deu ordem e fez jurar a todos os capitães daquele império e fidalgos presentes que obedeceriam a Sampaio enquanto durasse a sua doença e mesmo enquanto não chegasse novo governador.
Gozou, porém, pouco tempo esta honra, porque, abertas as sucessões, apareceu nomeado governador da Índia D. Henrique de Meneses, cujo governo foi também efémero, pois faleceu a 23 de Fevereiro de 1527, segundo diz Lavanha na Década de Barros; mas Diogo do Couto, continuador de Barros, diz que foi no fim de Janeiro de 1526. Novamente se abriram as sucessões e achou-se nomeado Pero Mascarenhas, que ao tempo estava por capitão de Malaca, e como só podia voltar dali a catorze meses e se estava em guerra com os reis de Calecut e de Cambaia, constando de mais a mais que no Mar Roxo aprestava o grã-turco Solimão uma grande armada contra os portugueses, julgou-se prudente abrir a terceira sucessão, na certeza de que, fosse qual fosse o nomeado, este entregaria o governo a Pero Mascarenhas quando chegasse, ao que todos se obrigaram por juramento.
Apareceu, pois, nomeado Lopo Vaz de Sampaio por alvará de 26 de Fevereiro de 1524, datado de Évora, que ao tempo estava como governador de Cochim, onde Afonso Mexia, vedor da fazenda, a quem competiam estas coisas, lhe foi levar a notícia, entrando aquele logo na administração do governo da Índia, tendo previamente jurado nos Santos Evangelhos que entregaria o governo a Pero Mascarenhas apenas este voltasse. Como governador, os feitos mais notáveis que operou são: atacou e destruiu no rio de Bacanor, junto a Cananor, a armada do Samorim composta de mais de dez mil homens, comandada por Cutiale, tendo ele apenas uma frota de sete velas; tornou a Cutiale mais de oitenta peças de artilharia e queimou-lhe setenta e tantos paráus.
Entretanto, chegavam à Índia cinco naus, partidas do reino em 1526, onde el-rei mandava novas sucessões caso falecesse D. Henrique de Meneses, com ordem a Afonso Mexia para que não fizesse uso das que lá tinha, e nelas nomeava para governador, em primeiro lugar, Lopo Vaz de Sampaio, por carta datada de Almeirim a 4 de Abril de 1526, e em segundo Pero Mascarenhas.
Isto originou graves dissenções entre Lopo Sampaio e Mascarenhas, dividindo em parcialidades, com grande escândalo e detrimento para o domínio português, a nossa gente da Índia. Lopo Vaz fez prender Pero Mascarenhas na fortaleza de Cananor com outros fidalgos, seus parciais, mas o governador desta soltou-os, com o pretexto de irem tratar da sua justiça; por último, depois de várias disputas, foi nomeado um tribunal arbitral, composto de certo número de fidalgos, para decidir a quem pertencia o governo, que o julgou de justiça a Lopo Vaz por sentença de 21 de Dezembro de 1527.
Estas dissensões animaram os mouros das costas do Malabar, que já ousavam afrontar a nossa gente de Cananor sem que o governador D. João de Eça pudesse impedi-los. Lopo Vaz resolve dar-lhes uma lição que lhes sirva de escarmenta, marcha para Cananor, duas léguas para cá da qual, pelas alturas do monte Deli, encontra os paráus e fustas do Malabar, em número de cento e trinta, e ataca-os com energia, apesar mesmo da opinião contrária dos seus, que tinham o empreendimento por loucura temerária.
Foi tenaz a peleja, que durou um dia inteiro «e foi um dos honrados feitos que pelos portuguezes se fizeram n’aquellas partes», como diz Barros.
Os malabares foram derrotados, com perda de oitocentos homens mortos e muitos cativos, sendo-lhes tomadas cinquenta peças de artilharia, vinte e dois paráus e dezoito metidos a pique.
Mas Lopo Vaz de Sampaio não descansa sobre os próprios louros; o senhor de Porcá, chamado vulgarmente Arel de Porcá, que já fora aliado dos portugueses, levantava agora altivo a grimpa, fiado nas discórdias intestinas dos portugueses; ele, porém, vai mostrar-lhe como os seus juízos eram errados: ataca-os na sua própria cidade, que, apesar de se defender bizarramente como quem pugnava pela vida de mulheres, filhos e próprios lares, foi assaltada, saqueada e incendiada e parte dos seus habitantes passados à espada e o resto cativos; treze dos seus navios e muita artilharia caíram em poder dos portugueses. Dos despojos que se dividiram pelos nossos soldados a nenhum coube menos de cem pardáus.
Igual lição apanhou o rei de Cambaia, que ousava mover guerra ao Nizamaluco, nosso aliado, senhor de Chaul, onde tínhamos por governador Francisco Pereira de Barreto. Neste intuito, o rei de Cambaia trazia no mar oitenta fustas, bem equipadas e artilhadas, debaixo do comando de Alixiá, valente e valoroso mouro. Sampaio marchou sobre ele em Janeiro de 1529 com uma armada de quarenta velas, onde ia seu sobrinho Simão de Melo como capitão de um galeão, esperançoso mancebo que, herdando com o sangue os brios de tão valoroso tio, na Índia assinalou o seu nome.
No dia de Cinza desse ano amanheceu Sampaio sobre Bombaim, em cujas águas as fustas inimigas estavam ancoradas. A derrota dos inimigos foi completa: apenas sete fustas escaparam, caindo todas as outras em nosso poder. Esta foi uma gloriosa vitória, diz Barros.
Aproveitando-se deste grande feito, quis Sampaio marchar sobre a fortaleza de Diu, e talvez a tomasse, tanto era o desalento dos inimigos, poupando-se assim o sangue que depois custou; mas os fidalgos e gente de consideração escusaram-se, alegando que Nuno da Cunha, que ia como governador e que partira de Portugal a 18 de Abril de 1528, era com esse fim já mandado pelo rei e por isso se lhe não devia roubar essa glória, em vista do que marchou para Goa a 20 de Março de 1529, de onde despachou logo para Ormuz D. Fernando de Eça, seu cunhado, com três galeões carregados de mercadorias de el-rei.
Ainda durante o seu governo se notabilizou Cristóvão de Melo, outro sobrinho de Lopo de Sampaio, que juntamente com António de Miranda, que no rio Chale tomaram uma nau do rei de Calecut carregada de pimenta, no que tiveram assaz trabalho, pois era defendida por cerca de oitocentos mouros bem armados e artilhados, a cujo rei desbarataram igualmente, pelas alturas de Monte Formoso, uma armada de cinquenta velas, tomando-lhe treze paráus com sua artilharia e cativando-lhe muita gente, indo depois Cristóvão de Melo invernar junto de seu tio a Goa.
Ao mesmo tempo, um outro sobrinho de Lopo Vaz de Sampaio, chamado Aires de Sousa de Magalhães, tinha andado por mandado do tio, como capitão-mor de Ormuz, com uma frota e dois bergantins guardando aquela costa empestada dos Nautaques, que por vezes salteavam os navios vindos da Índia.
Em Ormuz estava como governador, mesmo já no tempo do governador da Índia D. Henrique de Meneses, um tio de Lopo de Sampaio, de nome Diogo de Melo, irmão de sua mãe, notável pela barbaridade com que tratava o guazil Rax Xarafo, conservando-o preso e amarrado como um cão debaixo de uma escada, sem quase lhe dar de comer, não cedendo às ordens de D. Henrique de Meneses que lhe mandava suspender tão cruel castigo, o que só teve lugar quando o próprio Sampaio ali foi em pessoa.
Também durante o governo de Sampaio teve a capitania de Goa António da Silveira, o famoso herói do cerco de Diu, que estava ajustado para casar com uma filha de Lopo Vaz de Sampaio, o que não teve efeito por o bravo militar perecer nesse cerco.
Foi António da Silveira genro por palavras de futuro de Sampaio, que durante as dissenções deste com Pero Mascarenhas o prendeu, lançando-lhe grilhais aos pés, levando-o depois para a fortaleza de Cananor Simão de Melo, sobrinho de Sampaio.
Diogo do Couto refere deste governador uma anedota que pinta melhor que nada e caracteriza tipicamente a índole francamente brusca do trasmontano em cuja alma latejava a rigidez agreste das nossas montanhas, povoadas de indomáveis carvalhos.
No tempo em que as discórdias andavam mais acesas entre Sampaio e Mascarenhas, Heitor da Silveira promove contra ele uma conspirata, junto com vários outros fidalgos, em Goa; tendo dela conhecimento, Sampaio manda-os prender a 9 de Agosto de 1527 por António da Silveira, seu genro in fieri, e por Pero de Faria; porém, fogoso como era, não lhe sofre o ânimo ficar inactivo espectador, cavalga e vai ver como as coisas correm.
Heitor da Silveira exclama então para os seus: «Não vedes, senhores, que Lopo Vaz quer tomar por força a governança da Índia?». Então, Sampaio rompe resoluto pelo meio da multidão e, sanhudo, exclama: «Por força a governo e por força a hei-de governar», e apeando-se do cavalo, embraça uma adarga, empunha uma lança, invade a casa de Heitor da Silveira, que, pasmado de tanta audácia, fica como que petrificado e é preso juntamente com os fidalgos da sua facção.
Nestes bruscos rompantes, António da Silveira era um digno genro de tão mavórtico governador; no cerco de Diu pelo eunuco Solimão Paxá, Silveira, desesperado, furioso, sem esperança de socorro e vendo-se prestes a ser aniquilado juntamente com a fortaleza, responde à ordem de rendição intimada pelo eunuco: «... e sabe por certo que aqui estão portuguezes acostumados a matar muitos moiros, e que tem por capitão António da Silveira, que tem um par de colhões mais fortes que os pelouros dos teus bazaliscos, que não ha medo nenhum a quem não tem colhões nem verdade e de judeu faz traição».
Pero de Mascarenhas, depois da sentença arbitral que deu o governo da Índia ao seu competidor, voltou para o reino, onde requereu contra ele as perdas dos seus ordenados, que eram de dez mil cruzados por ano a cada governador e os mais prós e percalços, onde, segundo diz Cantanhede, foi atendido, sendo Lopo Vaz condenado em vinte mil cruzados, isto é, nos ordenados de dois anos, como informa Maffei que segue a Cantanhede, mas João de Barros nega tal condenação, que não encontrou nos cartórios do reino onde a procurou, e atribui isso a aleive levantado por Cantanhede.
Seja como for, Nuno da Cunha chegou a Cananor a 18 de Novembro de 1528, onde Lopo Vaz lhe fez entrega do governo da Índia, e depois em Cochim, a 25 do mesmo mês, foi este preso por ordem de Nuno, em harmonia com a provisão de el-rei que para isso levava, e igualmente foi preso seu tio Diogo de Melo, capitão que fora de Ormuz, sendo ambos remetidos para o reino sob custódia.
Francisco de Andrade, na Vida de D. João III, parte II, cap. LIV, diz que Sampaio esteve preso dois anos e fora condenado na perda dos ordenados de governador da Índia, em mais dez mil cruzados de pena e degredado por certos anos para África, mas que D. João III lhe perdoara, atendendo aos seus bons serviços. Lopo Vaz foi muito esforçado, constante na justiça, rigoroso no castigo dos malfeitores, casto, cortês e afável.
«O governo de Lopo Vaz de Sampaio torna-se celebre pelas intrigas vergonhosas, que dão em resultado não menos vergonhosas discordias, e que produzem um fermento de indisciplina que nunca mais se ha de apagar na India, e que esterilizou as brilhantes qualidades militares e administrativas de Lopo Vaz de Sampaio, maculando o seu governo com o pecado original de uma ambição desregrada. Comtudo, Cambaya sente o pezo do seu braço, e as fortalezas reparadas, a esquadra portuguesa augmentada, dão testemunho dos seus predicados governamentaes».
«É incontestavel – diz um outro escritor – que o usurpador (Lopo Vaz de Sampaio) desenvolveu muito talento e actividade, engrandeceu as cidadellas de Ormuz, Chaul e Cananor, cercou Goa de fortes muralhas, destruiu a frota do Çamorim e de Diu, queimou Porcá e reduziu Badhur, terror da Asia, a solicitar a paz.
Exproba-se-lhe o ter devastado indignamente as Molucas, envenenado o rei de Tidor, depois de um tratado de alliança, e matado Raez Achmet.
Mas a promptidão com que entregou o governo a Nuno da Cunha, quando todo o mundo esperava que a sua ambição o levaria a resistir-lhe, deixa ver que o homem se julgava senhor do governo e só depois que viu o dito Nuno da Cunha mandado pelo rei se sujeitou immediatamente».
Do que deixamos escrito, vê-se como Pinheiro Chagas e os que o seguem se enganaram. Lopo Vaz de Sampaio usou legitimamente, como lhe pertencia por ordem régia, do governo da Índia, e não merece a nota de usurpador que escritores malévolos e levianos lhe assacam.
O seu retrato anda na obra de Diogo Barbosa Machado, Retratos de Varões Ilustres Portugueses, tomo IV, que deve estar na Biblioteca do Rio de Janeiro. Também vem nos Retratos e Elogios e na Galeria dos Vice-reis e Governadores da Índia Portuguesa, dedicada aos ilustres descendentes de tais heróis, Lisboa, 1841, por José Maria Delarme Colaço. A Lopo Vaz de Sampaio aludem os seguintes versos dos Lusíadas:

«....... não nego que Sampaio
Será no espaço ilustre assinalado
Mostrando-se no mar um fero raio
Que de inimigos mil verá coalhado».

Pinho Leal diz que Sampaio, vendo tão mal recompensados os seus brilhantes serviços, se retirara para Espanha onde viveu alguns anos e só voltou a Portugal a instâncias do seu parente D. Jaime, duque de Bragança, indo morar no seu solar de Ansiães, onde terminou a vida gloriosa, cheio de tribulações. No entanto os seus feitos têm o cunho da imortal glória e mereceram a celebração dos homens mais distintos.

«Este que tem a vista em fogo acesa
É Lopo Vaz, que ilustra os de Sampaio.
A prudência igualando à fortaleza
Se fará conhecer na guerra um raio».

Embora muitos escritores censurem a Lopo Vaz de Sampaio a extrema ambição, a ilegalidade e iniquidade da sua conduta, todos concordam que «se mostrou digno de exercer o governo da India».

Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança

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