sábado, 22 de julho de 2017

O Verbo (1920/1989) - Crónica de Estácio de Araújo - 1969

O Verbo raramente entrava na Igreja. 
Quando podia ia aos velórios, na altura em que decorriam em casa do falecido ou da falecida.
O Verbo não era de Igrejas.
Numa tarde, quente, ocupávamos a mesa à entrada do lado esquerdo, o Verbo estava a tentar convencer-me para ficar uns dias entregue ao estabelecimento.
Um amigo dele, de Milhão, de nome Abel, (a quem o Verbo um dia ajudou) tinha vindo do Brasil passar férias.
Convidou-o para umas férias de 15 dias em Paris. 
O "cara" disse ao Verbo que tinha de arranjar um tradutor. Foi fácil. O Verbo foi falar com o sr. Costa, empregado do Chave D'Ouro.
 Não era por acaso que lhe chamavam o Francês. Descendente de gentes de Argoselo, de pequeno foi para a França, e só regressou para cumprir o serviço militar. E por cá ficou. 
Mas faltava transporte.
O Abel disse ao Verbo que tinha que "pegar" um táxi. 
Para o Verbo era tudo fácil. Contratou o CAMON (que era de Labruge , perto de Matosinhos) e que na altura estava a trabalhar para o sr. Aniceto. 
E lá foram os quatro 15 dias para Paris, por conta do Abel, para um dos bons hotéis da cidade Luz.
Ainda não me esqueci do que ia contar a propósito de o Verbo entrar pouco nas Igrejas.
A ida para Paris, ficou combinada.
Entretanto entra um senhor de idade, utente do Albergue. Enquanto subia as escadas ia rezando e pediu uma esmola.
O Verbo em tom de "brincadeira" disse-lhe que ali não era nenhuma igreja para rezar. O senhor amarrou a cabeça, deu meia volta, e ao descer as escada ouviu-se este desabafo:"
Mais um Padre Nosso que foi para casa do c......." O Verbo levantou-se, chamou-o, e deu-lhe de comer e beber. O senhor passou a ser mais uma visita quase diária.



Estácio de Araújo
Estórias de 1969

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