sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Entrevista a João Cameira, Presidente da Associação Azimute, de Bragança

O Memórias…e Outras Coisas (MOC) entrevistou João Cameira (JMC) presidente da direção da Azimute - Associação de Desportos de Aventura, Juventude e Ambiente.


MOC: A Azimute completou, no mês de maio, 15 anos de existência. O que vos levou a fundar a Associação?

JMC: A Azimute foi fundada com o objetivo de promover os desportos de aventura, a juventude e o ambiente. Em 2002, numa conversa de café e entre amigos, alguns de Bragança e outros de fora, surgiu a ideia de fundar uma associação que levasse os jovens e associados a “descobrir” e usufruir da natureza que rodeia Bragança e o seu Parque Natural de Montesinho.
Na altura, como hoje, achávamos que o Parque Natural de Montesinho não estava a ser devidamente gerido e promovido, colocando de parte a população que reside e persiste nas aldeias. A população residente dentro do Parque Natural de Montesinho, é quem guarda e ajuda a manter o mosaico paisagístico identitário e o seu património construído.

MOC: Quando falamos na Associação Azimute é indissociável pensarmos em dois projetos que são, na minha opinião, os mais marcantes. Refiro-me obviamente à Aldeia Pedagógica de Portela e ao projeto "Já deste muitas tampas”? Fala-nos um pouco sobre ambos.
Cerimónia de entrega de material ortopédico
JMC: Comecemos pelo projeto “Já deste muitas tampas?”. Em 2006, surgiu a nível nacional uma campanha de recolha de tampas plásticas para fins solidários e que, ao mesmo tempo, também se assumia como uma campanha de sensibilização ambiental.
A Azimute foi uma das primeiras entidades a estabelecer protocolo de colaboração. Na altura havia algumas dúvidas sobre a capacidade de envolvimento das pessoas na recolha das tampinhas plásticas. No entanto, desde o início, as pessoas e entidades, começaram a recolher de forma muito ativa e, a certa altura, tivemos um problema logístico: onde armazenar e como transportar todo o volume recolhido! Felizmente tivemos o apoio de várias pessoas e entidades que nos ajudaram.
A verdade é que deveremos ser, atualmente, das poucas associações que ainda continuam com esta campanha.

MOC: Fazes ideia da quantidade de tampas que já foi recolhida até hoje? E do material ortopédico que foi adquirido e entregue às IPSS?

JMC: Até ao dia de hoje, sendo que no início de agosto fizemos mais um transporte de tampas e garrafas plásticas, já recolhemos cerca de 30 toneladas, correspondendo à entrega de material ortopédico no valor de mais de 15.000€.
Foram entregues mais de 40 cadeiras de rodas, andarilhos, canadianas, camas ortopédicas, colchões anti-escaras, etc.

MOC: Quem quiser colaborar com o projeto "Já deste muitas tampas?", como o poderá fazer?

JMC: Deverá recolher as tampas plásticas e respetivas embalagens, podendo espalmar as embalagens, e entregar diretamente no Mercado Municipal de Bragança, Instituto Português do Desporto e da Juventude ou nas várias IPSS’s espalhadas pelo distrito de Bragança e que criaram o seu próprio ponto de entrega.
Visita de escola à Aldeia Pedagógica de Portela
MOC: E a Aldeia Pedagógica?

JMC: A ideia da Aldeia Pedagógica surgiu em 2009. Fizemos algum trabalho de pesquisa e de sistematização de informação e, em 2010, quando surgiu o concurso de ideias da Fundação Calouste Gulbenkian para projetos de Envelhecimento Ativo, apresentamos uma candidatura com a nossa ideia. De mais de 300 candidaturas apresentadas a concurso, a da Azimute foi uma das 6 premiadas!
A ideia da Aldeia Pedagógica é muito simples: Fruto do conhecimento tradicional acumulado pelos habitantes da aldeia, surgiu a ideia de transmitir esse conhecimento às crianças e à sociedade em geral. Na Aldeia Pedagógica de Portela, as “mestres” ensinam a fazer pão, deliciosas compotas, recolher ervas e chás, conhecer o ciclo do ferro, visitar a horta e a capoeira. Uma ideia tão simples mas que ainda ninguém tinha tido! Este projeto foi alvo de diversas reportagens televisivas (Grande Reportagem SIC, Portugal em Direto da RTP, LocalVisão) e reportagens jornalísticas (Suplemento Fugas do Jornal Público, Jornal Nordeste, Jornal de Notícias e Mensageiro de Bragança).

MOC: Como é o envolvimento da população da Aldeia de Portela quer com o Projeto Aldeia Pedagógica quer com a própria Associação?

JMC: O envolvimento das gentes da aldeia de Portela foi sempre muito bom. Desde a nossa instalação em Portela, que tentamos envolver a população. Não fazia sentido, uma associação de jovens que se instala numa aldeia, estar de costas voltadas e não falar com a população. No início começamos com os workshops de compotas, licores e ervas aromáticas, nos quais eram as senhoras da aldeia que nos ensinavam a fazer. A nós e a todos os participantes.
Quando surgiu a ideia de fazer uma candidatura ao concurso de ideias para o Envelhecimento Ativo da Fundação Calouste Gulbenkian, o conceito da Aldeia Pedagógica foi logo o que nos veio à cabeça. Seria mais uma forma de envolver a população e aumentar a sua autoestima, proporcionando um verdadeiro envelhecimento ativo.
Workshop de Serigrafia Manual
MOC: Pensas que o Projeto Aldeia Pedagógica alterou, de algum modo, a vida, o dia-a-dia, da população sénior de Portela? Se sim, em que sentido?

JMC: Nós achamos que sim e as pessoas que são envolvidas dizem-nos que sim. No entanto, para também comprovar cientificamente as melhorias motoras, cognitivas e na autoestima das pessoas envolvidas, a Universidade Católica do Porto, sob a coordenação do Professor António Fonseca, esteve, durante este último ano, a acompanhar algumas ações desenvolvidas no âmbito da Aldeia Pedagógica, fazendo também entrevistas aos envolvidos. Os resultados serão divulgados publicamente no dia 8 de setembro, numa sessão que será realizada na Sede da Azimute. Pela informação que já nos foi transmitida, os resultados são muito positivos.

MOC: A atividade da Associação resume-se aos dois projetos já mencionados?

JMC: Não. Sendo a Azimute uma associação que está inscrita no Registo Nacional de Associações Juvenis, todos os anos temos apresentado candidatura ao Plano de Apoio Anual, o que nos permite realizar algumas atividades e workshops ao longo do ano. Durante o mês de agosto vamos realizar um workshop de cestaria, para que os participantes possam apreender a fazer cestas de forma tradicional.
Inauguração da Sede da Azimute em 2005
MOC: Quais as maiores dificuldades que enfrentais no desenvolvimento da vossa atividade?

JMC: A maior dificuldade é sempre a de angariação de verbas para desenvolver a nossa atividade, bem como o envolvimento dos jovens, quer nas atividades, quer no próprio movimento associativo como dirigentes.
O que me preocupa mais é o envolvimento dos jovens. Cada vez são mais desinteressados e com menos capacidade de assumir responsabilidades. E são eles o nosso futuro.
As verbas, tendo boas ideias e bons projetos, haverá sempre alguém que apoiará. Poderá é dar mais trabalho a conseguir esse apoio.

MOC: A Azimute desenvolve projetos que, pela sua dimensão, terá forçosamente que envolver significativos apoios financeiros e de recursos humanos. Quais são esses apoios?

JMC: O apoio que tem sido mais contínuo é o do IPDJ. Todos os anos, como estamos inscritos no Registo Nacional de Associações Juvenis, apresentamos um plano anual de atividades que tem sido apoiado e no qual, algumas despesas, são comparticipadas.
Percurso Pedestre em 2007
O Município de Bragança e a Junta de Freguesia de Gondesende também tem apoiado o trabalho de Azimute, sendo através de apoios financeiros, bem como em termos logísticos. As candidaturas e prémios que temos recebido, também nos ajudam muito a desenvolver novos projetos.

MOC: Os associados envolvem-se o suficiente na dinâmica da Associação? Quantas pessoas trabalham na Azimute a tempo inteiro?

JMC: Neste momento temos duas pessoas a trabalhar a tempo inteiro na Azimute. Conseguimos recentemente a aprovação de uma candidatura às Parcerias para o Impacto, o que nos permitiu contratar duas pessoas para o desenvolvimento do projeto. Temos alguns associados mas, o envolvimento e a responsabilização no pagamento de quotas, não corresponde às nossas expectativas.

Grupo que participou na 1 atividade da Azimute
MOC: A sede social da Associação é na Aldeia de Portela. Por que razão?


JMC: É em Portela porque quando fundamos a associação, uma das nossas prioridades era a divulgação e fruição do Parque Natural de Montesinho, nomeadamente através da realização de vários percursos pedestres. Essa foi uma das razões para que, em 2005, tivéssemos associado à nossa Sede, o Centro Interpretativo da Natureza.
A Sede foi um dos nossos primeiros grandes projetos, e envolveu a recuperação e adaptação da antiga escola primária de Portela, a qual estava num elevado estado de degradação. Foi um projeto mobilizador e que contou com financiamento comunitário, apoio do Município de Bragança, da Junta de Freguesia de Gondesende, de empreiteiros locais e de vários jovens. Julgo que terá sido uma das primeiras escolas primárias de Bragança a ter sido cedida a uma associação.
A verdade é que ainda hoje utilizamos diariamente o espaço.

MOC: Se uma pessoa pretender colaborar com a Azimute, ou mesmo tornar-se sócio, como o poderá fazer e onde?

Capa Flyer da 1 atividade da Azimute
JMC: Bastará enviar um e-mail para geral@azimute.net ou ligar diretamente para a Sede através do 273.999.393. Poderá ainda deslocar-se até Portela e, além de visitar a Sede e perceber um pouco mais da nossa atividade, fazer-se sócio.


MOC: Creio que é relevante fazermos um balanço…êxitos e fracassos a denotar ao longo destes 15 anos?

JMC: Comecemos pelos fracassos. A dificuldade em envolver os jovens, quer nas atividades, quer no movimento associativo. É o maior fracasso e a nossa maior preocupação de futuro.
Em relação aos êxitos, foi a capacidade que tivemos em “descobrir” fontes de financiamento que nos ajudassem a desenvolver todos os nossos projetos e atividades. Não foi fácil, deu trabalho, mas também foi para nós um motivo de orgulho. Tivemos candidaturas aprovadas a fundos comunitários, conseguimos prémios financeiros da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Montepio, recebemos um prémio do BPI Séniores, conseguimos o apoio financeiro de várias autarquias locais, conseguimos rentabilizar alguns serviços que prestamos.

Interior Flyer da 1 atividade da Azimute
MOC: A tua atividade associativa não se resume apenas à Azimute. Fala-nos um pouco sobre isso.


JMC: Não se resume apenas à Azimute. Sempre me envolvi em atividades associativas e em prol de uma cidadania mais participativa e ativa, porque acredito na vontade e capacidade das pessoas se mobilizarem em torno de um ideal e na ajuda ao próximo. Desenvolvemos competências que não se aprendem na escola e que são cada vez mais importantes na integração no mercado de trabalho.
Já estive nos órgãos diretivos dos Serviços Sociais do Pessoal da Câmara Municipal de Bragança, da União de Centros Sociais e Paroquiais de Bragança, fui membro do Conselho Inter-regional da Federação Nacional de Associações Juvenis e, neste momento, estou nos órgãos diretivos do Centro Social e Paroquial do Santo Condestável e do Centro Social e Paroquial de S. Bento e S. Francisco.

MOC: Queres deixar uma mensagem às pessoas? Às Instituições? Um apelo ao voluntariado.

JMC: Que participem e que se envolvam nos movimentos associativos. Todos temos um pouco de tempo para dar, e o comprometimento e responsabilização para com os outros, ajudam a criar uma sociedade mais coesa.


Caro e estimado amigo João Cameira. Muito obrigado por me teres concedido a presente entrevista. Desejo que o teu apelo à participação cívica, através do movimento associativo, seja escutada e compreendida por todos os que nos lerem.
Grande abraço.
Henrique Martins

1 comentário:

Hélder Gonçalves disse...

Parabéns João Cameira pela sua energia em prol do associativismo e do envolvimento dos jovens