terça-feira, 1 de agosto de 2017

Francisco Xavier Gomes de Sepúlveda

Abade de Rebordãos, concelho de Bragança. Nasceu acidentalmente em Espanha em 1761, mas seus pais eram de Mirandela. Viveu algum tempo na Amendoeira, concelho de Macedo de Cavaleiros, e faleceu em Rebordãos a 28 de Setembro de 1851 sem receber os «Sacramentos da hora da morte por falecer de madrugada repentinamente», com noventa anos de idade e sessenta e seis de pároco. «Era eximio moralista canonico, e escriptor severo que não adulava, strenuo defensor da pureza da religião, castigava os hypocritas, e dizia a verdade sem temor nem respeito, mas com amabilidade».
Foi reitor do Seminário Diocesano de Bragança desde 1817 a 1818 e tomara posse da abadia de Rebordãos a 11 de Fevereiro de 1790, onde fora apresentado por carta régia de 15 de Dezembro de 1789.

Escreveu:
Dissertação histórico-crítica sobre a comunhão frequente e quotidiana, em que se expõe a doutrina dos Santos Padres, do Concílio Tridentino, dos Sumos Pontífices, e dos melhores teólogos e místicos; para servir de antídoto à obra intitulada «O Pão Nosso de cada dia», modernamente traduzida em português pelo P.e Frei Caetano da Transfiguração, menor observante, etc. Lisboa, 1803. O Dicionário Bibliográfico põe adiante desta data um ponto de interrogação, como que duvidando se seria impressa nesse ano. Não haja dúvida: possuímos um exemplar in-8.º de X-293 págs., não incluindo o índice, impresso em 1803. Também parece que Inocêncio F. da Silva não viu nenhum exemplar desta obra, pois a descreve imperfeitamente.
Francisco Sepúlveda insurge-se nesta obra contra a «Comunhão quotidiana», e, levado do sentimento contrário, exige tais requisitos que poucos estarão nos casos de a receber frequentemente.
Memória abreviada e verídica «dos importantes serviços que fez à nação o Ex.mo Sr. Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda, tenente-general, governador das armas da província de Trás-os-Montes, na feliz origem e progresso da revolução, que salvou Portugal e que deve servir para dar luz à história lusitana». Lisboa, 1809. 4.º de 22 págs.
Resumo histórico da vida e pontificado de Pio VI, por Mr. Blauchard, traduzido do francês. Lisboa, 1815.
Apologias do Abade de Rebordãos, contra as invectivas e calúnias do sr. Abade de Medrões, Inocêncio António de Miranda, e do sr. teólogo D. A. do N., empregado em prior do Baleizão – Em que se tratam alguns pontos muito interessantes à Religião e ao Estado. Lisboa, 1826. 4.º de VII-78 págs. e um «Apêndice» de VII págs.
Gemidos da Igreja Lusitana, oferecidos à Rainha Fidelíssima e às Câmaras Legislativas. Lisboa, 1839. 8.º gr. de 44 págs. Devia continuar, pois diz no fim «Continuar-se-á», mas não sabemos se mais alguma coisa se imprimiu.
A parte publicada trata da ruptura com a Sé Apostólica, da extinção dos dízimos, das ordens religiosas, etc.
Ignoramos se será deste autor a seguinte obra, embora todos os escritores lha atribuam, que se imprimiu anónima: Sepúlveda patenteado, ou «Voz pública e solene, depositada em documentos autênticos, que devem servir para resolver a questão: – Quem foi o primeiro chefe a proclamar a revolução transmontana em 1808?». Londres, 1813. 4.º gr. de VIII-151 págs. com o retrato do tenente-general Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda.
Exame crítico de um folheto do P.e Fr. Sebastião de Santa Clara, do extinto seminário de Vinhais, que ele intitula «A Voz da Verdade aos portugueses seduzidos pela mentira». Segunda edição com um «Apêndice». Lisboa, 1838. 4º de 63 págs.
Apêndice ao exame crítico do folheto do P.e Fr. Sebastião de Santa Clara, etc. 64 págs. Nestes folhetos refuta o abade de Rebordãos as doutrinas dos clérigos e frades que, depois de 1834, pretenderam suscitar um cisma nas províncias do Norte; e no «Apêndice» refuta particularmente o que dissera Fr. António de Jesus na sua Voz da Igreja, impressa no Porto em 1837.
Tratado de Concupiscência por Bossuet, bispo de Meaux. Traduzido do francês, ao qual se junta a «Dissertação do fim do mundo», de D. Agostinho Calmet, beneditino, traduzida da versão latina de Domingos Mansi, arcebispo de Luques, etc. Tip. de Bragança, 1846. 4.º pequeno de VIII-94-40 págs.
Este livro escapou a Inocêncio F. da Silva bem como o seguinte:
Novena da Santa Natividade da Virgem Maria Senhora Nossa, que actualmente se costuma fazer no seu templo da serra desta Vila de Rebordãos, bispado de Bragança (acrescentada). O exemplar que vimos era impresso no Porto, na tip. de A Palavra, 1890. 8.º de 221 págs. com uma «Advertência histórico-preliminar sobre a fundação do templo». Do que diz na pág. 21, parece dever concluir-se que a 1.ª edição deve ter saído em 1835.
Resposta apologética do Abade de Rebordãos… às gravíssimas calúnias que contra ele publica em um folheto com data de 5 de Março do corrente ano de 1836 o padre Fr. Sebastião de Santa Clara do extinto seminário de Vinhais. Lisboa, 1836. 8.º de 14 págs.
Reflexões analíticas sobre a liberdade de imprensa em matérias religiosas.
Ficou manuscrita, como se vê pelo que diz nas Apologias. Apêndice apologético da dissertação histórico-crítica sobre a comunhão frequente e quotidiana impressa em Lisboa em 1803 pelo mesmo autor. 4.º, de VII-106 págs. Não traz data da impressão, mas, a julgar de uma passagem do texto, deve ter sido impressa em 1825.
Memórias históricas, críticas das acções e vida pública do Ex.mo e Rd.mo Bispo, que foi de Bragança e Miranda D. António Luís da Veiga Cabral da Câmara. 1832.Manuscrito, de 264 fólios, de que possuímos uma cópia.
Na Resposta apologética, etc., atrás citada, diz o abade de Rebordãos que apenas publicou a Dissertação (impressa em 1803) sobre a comunhão frequente e quotidiana com o único fim de se cumprirem as intenções da Igreja e de se evitarem sacrilégios na recepção da Eucaristia, se levantou contra ele o partido beato, formado há anos neste bispado, que só em comunhões faz consistir a virtude, não parando enquanto o não viu combatido pelo doutor D. A. do N., prior ao tempo em Baleizão do Alentejo. A este crítico diz que respondeu com a sua Apologia impressa em 1826.
As invectivas dos beatos continuaram, acusando-o agora Frei Sebastião de Santa Clara:
1.º De jansenista. Respondendo, diz: que escreveu quinze cartas dirigidas ao padre Frei Bento do Santíssimo Sacramento, do mesmo seminário de Vinhais, de que mandou exemplares à livraria dos manuscritos de Alcobaça, sem resultar condenação alguma.
2.º De a Inquisição haver condenado como herética a sua doutrina.
Respondendo, alega que a Dissertação sobre a comunhão frequente passou pela censura prévia do Ordinário, da Inquisição e do Desembargo do Paço, sem nada lhe condenarem, concedendo-lhe, além disso, licença para a impressão.
3.º De não ter lógica, nem gramática, nem arte, nem coisa alguma que cheirasse a ciência nos seus escritos. De ter comissão do demónio para falar contra os beatos e contra a frequência dos sacramentos. De ser um mentiroso, sedutor como o diabo, palagiano e energúmeno, traidor à Igreja, ajudando à perdição de seus filhos, sendo por isso uma tranca das portas do céu. Responde alegando que paroquiava há quarenta e sete anos; que a comunidade do convento de Vinhais foi presa entre soldados até à cidade do Porto; que tem havido e continua a ruptura com a Santa Sé, mas que em nada concorreu para estes males. Que o facto de Frei Sebastião e seus sequazes entenderem que só no partido dos beatos estava a Igreja Lusitana era temerária presunção e refinada soberba, como mostrou, combatendo-os, o sábio e virtuoso prior de S. Lourenço, de Lisboa, Henrique José de Castro nas suas Cartas, analisando em 1812 e 1813 as do padre Pedro Nolasco dirigidas ao padre João Rodrigues Lopes. Este sacerdote era natural de S. Julião, concelho de Bragança.
Nas Apologias do Abade de Rebordãos, etc., que ficam acima citadas, diz ter sessenta e dois anos e ter vivido em Portugal desde a idade de três anos e meio, a cuja nação pertence por domicílio e origem paterna; que o seu colega no sacerdócio e comprovinciano Inocêncio António de Miranda, abade de Medrões, o acusa de ser o mais iníquo dos homens, o mais escandaloso dos sacerdotes e o mais detestável e perigoso cidadão; que o seu acusador Miranda, deputado às cortes constituintes e depois também às ordinárias, publicou em 1822 o seu Cidadão Lusitano para mostrar os males que sofria Portugal com o regime absolutista e as vantagens do sistema liberal, contra o qual se levantou logo grande campanha literária, e entre ela duas cartas assinadas com o pseudónimo de Ambrósio às direitas, cuja autoria atribuiu a ele, abade de Rebordãos, sem nenhum fundamento, pois sob sua palavra de honra declara que não escreveu tais cartas.
Ignora os motivos que Miranda tem para lhe votar tanto rancor, pois nunca lhe fez mal algum, havendo apenas falado com ele duas ou três vezes; foi indiferente nos seus aturados litígios sobre o benefício de Quirás, bispado de Bragança, e tanto que ainda hoje ignora os fundamentos de um e outro pretendente.
Diz que Miranda lhe chama: devoto afectado, contraditório manhoso, corcunda empenado, hipócrita perigoso, vaidoso por mania, religionário por arte, fidalgo por travessia e plagiário em ciência.Mais lhe chama torto, vinte e três vezes; velhaco, onze; hipócrita, dez; vaidoso, quatro; doloso, três; orgulhoso, quatro; malicioso, oito; invejoso, três; ignorante, dez; tolo, duas; impostor, cinco; malvado, onze; mentiroso, oito; vil traidor, uma; parvo, duas; fanático, três; corcunda, nove; herege, uma; empenado, dezassete; arre-burro, uma; asno, onze, e diabo duas.Mais o acusa de ser cambaio das pernas, torto e ter dois palmos de nariz. Quanto a ser cambaio, nega; respeitante a torto, afirma que nunca pode ler nem escrever com o olho esquerdo, e do nariz concorda em que é alentado.
Diz que Miranda escreveu e mandou imprimir homilías para os párocos lerem nas festas, a fim de desenganar o povo relativamente ao sistema liberal; que, sendo pároco de S. Pedro, viera uma vez, há perto de trinta anos, pregar à sua freguesia numa festividade da Senhora da Serra; que o Cidadão Lusitano foi condenado em Roma pelo decreto da Sagrada Congregação do Índex de 6 de Setembro de 1824, como noticiou a Gazeta de Lisboa, nº 296, do mesmo ano; que, nesta obra,Miranda ataca o celibato eclesiástico, a abstinência de carne em certos dias, sustentando ao mesmo tempo a necessidade de abolir os dias santos, a suficiência de um Padre-Nosso em acção de graças depois de celebrar e que a maçonaria em nada se opõe à religião.
Mais diz: que nas eleições de deputados às chamadas cortes, na divisão de Bragança, ele, abade de Rebordãos, ficara na lista triple em número cinco com 3954 votos, e na segunda votação, em que já faltaria o terço dos votantes, com 3686; que viera para abade de Rebordãos com vinte e sete anos de idade (isto parece deduzir-se do contexto, mas é bem claro); que para sustentar o trono real contra a invasão francesa oferecera voluntariamente 1809 alqueires de centeio; que comprou a casa da residência paroquial com quintal adjunto, na qual mandou fazer obras onde gastou mais de 700$000 réis.
Mais se vê desta obra que quando o bispo de Bragança D. António da Veiga Cabral da Câmara foi desterrado para o Buçaco, nomeou para governador do bispado o deão Paulo Miguel Rodrigues de Morais, mas a maioria do cabido julgava que este carecia de título jurisdicional, e assim foi declarado na sentença do metropolita de Braga: «Ainda mesmo que a tivesse decahira d’ella, por se dizer e publicar que espancara um clerigo». A parte do cabido que assim pensava nomeou interinamente governador do bispado a ele, Sepúlveda, enquanto o bispo não resolvesse. Esta eleição foi-lhe notificada a 29 de Janeiro de 1816, porém não teve efeito, porque o deão, auxiliado pela força militar, reassumiu as suas funções. Veio depois por vigário apostólico Joaquim de Santo Agostinho de Brito França Galvão, abade de Lustosa, e por condescender com as suas instâncias, se resolveu Sepúlveda a «ir ter um anno de purgatório no governo e regeneração do Seminario mais pobre do reino».
Diz que teve de fazer no Seminário várias obras e sustentá-lo sem meios, e como estas obras não eram bem olhadas pelo partido do deão, originaram-se daqui novas perturbações e contendas entre o vigário apostólico e alguns particulares. Logo que veio o bispo pediu e obteve a exoneração da reitoria do Seminário.
Na invasão da província pelas tropas constitucionais, sendo removido de Bragança o vigário capitular António Xavier da Veiga Cabral da Câmara e juntamente alguns cónegos, os dois partidos do cabido reunem e a 22 de Abril de 1823 elegem Sepúlveda para vigário capitular; porém, este não aceitou.
Na primavera de 1817 veio uma extraordinária seca que, abrasando os campos e as searas, ameaçou o país com uma fome geral.
No Apêndice apologético da Dissertação histórico-crítica sobre a comunhão frequente e quotidiana diz Sepúlveda que mandou um exemplar da Dissertação ao arcebispo de Braga, D. Frei Caetano Brandão, que em carta datada de 5 de Julho de 1804, assinada por ele e dirigida ao autor, diz: «A leitura d’este opusculo me encheu de tanto maior gosto, quanta era a desconsolação que sentia o meu espirito com a noticia dos abusos que, n’esta diocese, já principiavam a brotar da imprudente e fastidiosa obra, intitulada O Pão Nosso de cada dia... Não posso deixar de fazer justiça a esta bella Dissertação, descobrindo n’ella muitos motivos para desejar que se divulgue entre os nacionaes, a fim de que todos formem uma ideia justa e verdadeira das disposições que requer o Augusto Sacramento dos nossos altares. Quanto a mim requeiro uma duzia de exemplares para os meus seminaristas».
Mais diz que muitas outras pessoas ilustres e virtuosas, mitradas algumas e outras já o eram ao tempo, aprovaram a dita Dissertação, que só não mereceu aprovação a um certo partido oculto de beatos, que, após vinte e um anos de fermentação sonegada, rompeu furioso contra o livro e contra seu autor pela pena do doutor-teólogo D. A. do N., empregado em prior de Baleizão, no bispado de Beja, no folheto intitulado Defesa da Verdade, Lisboa, 1822.
O prior de Baleizão também não lhe poupa os insultos e trata-o de tolo, toleirão, idiota, ignorante, malvado tanto mais terrível quanto mais disfarçado, homem de pouca vergonha, de maliciosos estratagemas e sinistros instintos. Alcunha de péssima a Dissertação e por último chama-lhe Arnaldista e herege.
Francisco Xavier Gomes de Sepúlveda mereceu a Pinheiro Chagas, no Dicionário Popular (artigo «Sepúlveda»), honrosas apreciações. Ver também tomo I, pág. 134, destas Memórias.

Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança

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