terça-feira, 1 de agosto de 2017

Nós Transmontanos, Sefarditas e Marranos - ANTÓNIO (MOISÉS) DE VALENÇA (C.1472 – D.1548)

Terá nascido em Ureña, termo de Valhadolid, Castela, pelo ano de 1472. E sendo filho de judeus, certamente que foi circuncidado e ter-lhe-ão posto o nome Moisés. Andaria pelos 20 anos quando os judeus foram expulsos de Castela, refugiando-se muitos deles em Portugal. Moisés e a sua família terão entrado por Miranda do Douro e ali permaneceriam por algum tempo.
Aquando do batismo forçado, na páscoa de 1497, os Valença terão sido batizados, tomando nomes cristãos. Assim, os pais ficaram a chamar-se João Rodrigues e Leonor Rodrigues e as duas irmãs que lhe conhecemos tomaram os nomes de Mécia Lopes e Francisca Rodrigues. (1) O padrinho de António foi o alcaide-mor da cidade, Álvaro Pires de Távora.
Em Miranda do Douro, António de Valença casou com Francisca de Valença, nascida em Zamora, igualmente refugiada de Espanha, filha de Diogo de Valença e Ana de Valença.
Fazendo uma comparação algo grosseira, diremos que a Casa dos Távoras funcionava para Trás-os-Montes como a Corte do Rei em Lisboa. E nessa “corte” dos Távoras, António de Valença era presença constante e ocupava lugar de destaque, nomeado que foi médico da família, (2) enquanto a sua mulher convivia e desempenhava o papel de “dama de honor” das senhoras Távora e isso “era motivo de muita inveja” entre outras “damas” de nobres e fidalgas casas trasmontanas.
António de Valença era também rendeiro, o que significa elevado poder económico e financeiro. E tomaria de renda (ou aforamento) a quinta da Vilariça, no termo de Penas Roias.
O poder financeiro e prestígio social dos Valença permitiram-lhe arranjar bons empregos e bons casamentos para os filhos, referindo-se, nomeadamente, a filha, Maria de Valença (3) que casou com Francisco Vaz Pinto, homem da nobreza, irmão de D. Diogo de Murça, reitor da universidade de Coimbra.
Se o prestígio social e poder económico colocavam António de Valença entre os mais conceituados Trasmontanos da época, o seu saber, do ponto de vista religioso, e a sua liderança entre a gente da nação judaica era ainda mais destacado. Por isso mesmo, todos o tratavam por “Mestre” António de Valença. Sabia de cor os livros da Torah e conhecia o hebraico, caldeu e aramaico. Ele próprio se afirmava “repetidor da escola de seu tio o Valensi, (4) grande letrado do tempo dos judeus”.
Mestre António era então o maior doutrinador judaico em Trás-os-Montes. Ensinava os preceitos e cerimónias da lei de Moisés; conhecia e explicava cada uma das festas e jejuns; calculava e informava a data de cada uma dessas festas e jejuns. E especialmente sabia interpretar as profecias de Daniel. E baseando-se na contagem das “semanas” do profeta, ele pregava que o Messias prometido viria até ao ano de 1572, altura em que acabaria a “triplicidade da água” – uma teoria cabalística ligada à ideia messiânica.
Por essa altura fervilhava o messianismo judaico em Trás-os-Montes e duas “sinagogas” ganharam celebridade pelos “ajuntamentos” que nelas se faziam: uma na oficina do sapateiro Diogo de Leão da Costanilha, (5) em Miranda do Douro e outra na casa de Francisco Vaz, em Mogadouro. Nesta, o oficiante “encartado” era o Mestre Valença, que explicava o conteúdo dos livros da Torah (“em pergaminho, de letras douradas”) que guardavam secretamente na mesma sinagoga, a qual fora entregue ao dono da casa por Duarte Álvares, de Chacim. Sobre o funcionamento desta “sinagoga” temos muitos e variados testemunhos, alguns incríveis, como este de Cristóvão de Castro:
- Disse que Francisco Vaz, sapateiro, morador no Mogadouro, e sua mulher são judeus e eram arrabis e tinham sinagoga em sua casa. E isto sabe porque o viu muitas vezes, porque ia lá com os outros judeus. Na qual sinagoga tinham uma tourinha com cornos de prata dourados e era do tamanho de um gato, pouco mais ou menos, a qual punham em cima de uma mesa… (6)
Mas a pregação de Mestre Valença não se limitava à sinagoga de Francisco Vaz. Não, ele foi acusado de pregar o judaísmo durante as consultas que dava, como médico, em casa dos cristãos-novos, como acontecia em Sambade na casa de Luís de Carvajal, que frequentava regularmente e com o qual partilhava cortejos na Casa dos Távoras. O mesmo acontecia em Mirandela na casa de Belchior Vaz. Vejam como o próprio Mestre contou um episódio:
- Estando ele mestre António às oitavas da Páscoa das Flores do ano passado de 1544 na vila de Mirandela, na igreja da dita vila (…) lhe falou um Belchior Vaz, filho de Guterre Vaz, do Mogadouro, genro de Dello Guarde, de Mirandela, cristãos-novos, o qual saindo da igreja chamou a ele dito autor e lhe rogou que fosse a sua casa porque tinha uma criança doente. E indo vê-la, disse a ele autor que lhe dissesse se era aquela semana em que caía a Páscoa dos judeus. E ele autor lhe perguntou para que é que queria saber e o dito Belchior Vaz lhe respondeu que era para fazer alguma das cerimónias que costumam fazer os judeus na dita páscoa para ganhar a sua alma… (7)
Tempos depois, Belchior e o Mestre estavam presos na inquisição de Évora. E tendo o Valença denunciado o amigo, que continuava negando as acusações, decidiram os inquisidores coloca-los frente a frente. Imagine-se a reação de incredulidade de Belchior Vaz! Melhor que nós fala o processo. Vejam:
- E o dito réu, chegando onde ele testemunha estava, lhe falou como amigo ao dito mestre António. E ele Mestre António a ele réu. Mas depois que o senhor inquisidor disse a ele réu que o dito Mestre António era dado contra ele por parte da justiça, ele réu se espantou muito dizendo. – Vós, Mestre António! Vós, Mestre António, sois testemunha contra mim?
Maior espanto e dramatismo encerra o episódio descrito no processo de Ana Fernandes, a Doce, (8) quando a confrontaram igualmente com o denunciante, Mestre António de Valença. Pena que a extensão do texto não nos permita aqui reproduzi-lo.
O que não podemos deixar de falar é sobre um jejum que o Mestre ensinou a Ana Doce e de que, até hoje, não encontrámos referência em nenhum outro processo – o jejum do Tu B´Shevat  – que é móvel e cai na segunda metade do mês de janeiro ou pelo mês de fevereiro. É o jejum de agradecimento a Deus e celebração pelo renascer da natureza. Significativamente aparece representado por um ramo de amendoeira em flor, a árvore que primeiro floresce na região do Mediterrâneo e marca, por excelência o renascer da vida. Os judeus que nos perdoem mas propomos que se chame o jejum das amendoeiras em flor.
Acompanhemos agora Mestre Valença em uma das frequentes deslocações que fazia a Miranda do Douro, hospedando-se, geralmente, na casa de Isabel Álvares, uma das pessoas que ele ajudou a condenar. Vejam um pedaço da sentença:
- A ré tem provado contra si por parte da justiça que folgava de praticar as coisas da lei de Moisés, ouvindo dizer dos jejuns do Kipur e Rainha Ester, estando a tudo muito afeita e as procurava que perguntassem aos judeus que sabiam mais do que ela. E de tudo se mostrava muito devota, como pessoa que era apóstata – e isto diz Mestre António de Valença. (9)
Resta dizer que, no seguimento da “excursão” de Francisco Gil por terras trasmontanas, em 1543, Mestre António de Valença foi preso pela inquisição, ficando primeiramente metido das cadeias do Porto, às ordens do bispo/inquisidor D. Baltasar Limpo e sendo depois encaminhado para o tribunal de Évora. Na cadeia ele colaborou grandemente com a inquisição, denunciando mais de uma centena de compatriotas e fazendo para os inquisidores uma compilação das festas e cerimónias judaicas – o que, para aqueles, seria de extrema importância. Por isso mesmo ele ganhou o perdão e a liberdade, enquanto a sua mulher terminou queimada nas fogueiras da inquisição. (10)

NOTAS e BIBLIOGRAFIA:
1-Francisca Rodrigues  casou com Diogo Pereira e Mécia com Francisco Lopes, que foi juiz em Mogadouro.
2-Para além do “físico” Valença, na “corte” dos Távoras, em Mogadouro, destacavam-se oficiais da estirpe judaica como o ferrador Henrique Dias, a criada Ana Dias, o alfaiate Diogo Gomes, o sapateiro Bernardo da Rua…
3-Maria de Valença faleceu no dia em que prenderam os pais, deixando 9 filhos: 6 rapazes e 3 raparigas.
4-Referia-se certamente a Samuel ben Abraham Valensi (1435-1487), um grande talmudista espanhol, morador em Zamora.
5-Diogo da Costanilha pregava a vinda do Messias baseando-se nas Trovas do Bandarra. ANDRADE e GUIMARÃES – Judeus em Trás-os-Montes, A Rua da Costanilha, ed. Âncora, Lisboa, 2015.
6-ANTT, inq. Évora, pº 4434, de Cristóvão de Castro. Este, diria depois que no processo estavam escritas coisas que ele não dissera e, chorando, respondia ao malfadado “caçador de judeus” Francisco Gil: - Que posso eu fazer senão ratificar minhas confissões?!
7-IDEM, pº 5165, de Belchior Vaz.
8-IDEM, pº 4637, de Afonso Garcia. ANDRADE e GUIMARÃES – Miranda do Douro 1544: Ana Doce traída pelo mestre Valença, in: jornal Terra Quente, de 1.3.2009.
9-IDEM, pº 9020, de Isabel Álvares.
10-IDEM, pº 8232, de Mestre António de Valença; pº 7794, de Francisca de Valença.
TAVARES, Maria José Ferro – "Mobilidade e Alteridade” : Quadros do quotidiano dos cristãos-novos sefarditas, in: In the Iberian Peninsula and Beyond: A history of Jews and Muslims ( 15th -17th centuries) vol.1, pp 26 e 27,  edited by José Alberto Tavim, Maria Filomena Barros and Lúcia Mucznik,  2015
IDEM – Para o Estudo dos Judeus em Trás-os-Montes sec XVI, in: Cultura História e Filosofia, vol VJ, pp.371-417, Lisboa, 1984.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

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