terça-feira, 28 de agosto de 2018

Bragança/Anos 50/60 do século XX – 1ª Parte

Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Começava o Ano Novo com um Baile na Associação de Socorros Mútuos logo ao lado do Mercado Municipal. Havia o hábito de ser baile dedicado aos sócios e começando por volta das 21:30 mantinha um ritmo calmo até que por volta das 11:45 rapazes e raparigas, à pressa, abandonavam o salão dirigindo-se a suas casas para festejarem a chegada do Ano-Novo!
Baile no Centro Republicano/Clube de Bragança em 1949

Alguns que por razões de ordem diversa ficavam no Salão, festejavam lá mesmo com o pessoal que trabalhava para que o Baile fosse um evento de harmonia e divertimento para a população. Regressados de suas casas recomeçava o baile e a juventude num corrupio incessante tratava de arranjar par ou mesmo namorico, pois ali se arranjaram alguns que duraram vidas e que só terminaram com o passamento para a outra banda de um dos namorados.
A música era intercalada com aparelhagem sonora e banda de música que abancada no camarote fazia as delícias dos amantes dos tangos, pass-dobles e boleros. Em cena sempre com um sorriso de boa disposição estava o Geraldes com o saxofone, o Duarte com a trompete os outros membros da jazz-band que hoje já não consigo lembrar-me de todos, mas que incluía o Snr. Albino Carneiro e o seu irmão João, o Zé Barradas e o Melo que era Sargento.
De manhã por volta das 06:00 parava a folia que durara toda a noite e onde o tio Cachimbo fazia de figura de proa e o Garrido não deixava os seus créditos por mãos alheias.
Às 07:00 estava tudo com a pestana cerrada a ferrar o galho com o Ano Novo bem aclamado e os pés doridos do bater no soalho da Associação.
Havia também baile no "Centro" que manteve o nome popular de Centro Republicano, mas que já era Clube de Bragança. Nunca fui aí pois era lugar de descriminação insofrida que baseada na petulância de alguns e na vaidade saloia de outros só aceitava quem a direcção achava que tinha sangue azul de preferência às riscas como, o pano dos colchões. Nunca compreendi como um clube de matriz republicana fazia tal discriminação se a rés pública essencialmente significa o contrário.
Doenças que custam a curar e que acabam sempre quando se vai para a tumba. Aí somos todos iguais. Ninguém manda em ninguém até porque estão todos calados e não há donas Maria's Faria's nem engravatados com a cueca suja.
O tempo que medeia entre o Ano Bom e o Carnaval era sereno. Tempo de mata-porco e fumeiro dependurado, os almoços e jantares eram uma delícia. O sobre céu estava tapado com as tabafeias, os azedos com o palaio e o cagateiro com dia destinado para a degustação e as chouriças de carne e de boche, os salpicões e o butelo debaixo de mira pois os garotos que já pensavam no namorico não se ensaiavam para num abrir e fechar de olhos subtraírem alguns para fazerem uma tainada com os amigos já que as noites eram longas e naquela idade não serve de nada dizer ao estômago que horas são pois ele não escuta e desfaz tudo melhor que uma tremóia.
Ainda não falei dos chavianos e dos de doce com amêndoa e mel que eram para as sobremesas coisa melhor que todos os doces com nome esquisito que importamos do estrangeiro.
Chegado o tempo do Carnaval começavam na minha rua os ensaios que o Senhor Claudino, pai do Zé e do Augusto Matos que muito bem nos preparava para representarmos na terça feira de Entrudo. As vestes eram feitas de papel com a técnica artesanal que ele havia aprendido na sua terra que creio era o Minho.
Em casa do meu pai era certo que o almoço de Carnaval tinha Palaio assado com grelos e batatas tudo colhido na horta do Procópio lá para a Veiga da Coxa e que o meu pai tratava com desvelo. 
De novo bailes na Associação agora com o primeiro de três na noite de domingo gordo e o último na terça de entrudo e com final na madrugada de quarta -feira de cinzas.
Os do baile iam para casa retemperar as forças e os bons cristãos, cumpridores dos preceitos da Santa Madre Igreja, iam à missa da imposição das cinzas. Era tudo uma questão de gosto.
Quarta feira de Cinzas depois de almoço começava a ouvir-se, como um lamento, que vinha sempre das imediações da capela do Senhor da Piedade onde o Chinelinha Branca e o Calça Amarela dois abencerragens do meu tempo de garoto faziam de Morte e Diabo respectivamente. O lamento prolongava-se e dizia : -À morte à censura e ao Diabo, tira a chicha da panela e deixa lá uma costela!
Para além destes dois, outros se vestiam de morte e com um chicote e a gadanha tentavam intimidar as moças que se barricavam em casa ou fugiam daqueles lafraus que diga-se não eram propriamente os amorzinhos que elas ansiavam.
Chegada a Quaresma era tempo de penitência.
Na minha criação ainda a Igreja tinha um certo poder e influenciava o povinho à prática de alguma contenção e muita hipocrisia Verdade se diga, tinham sido tantos séculos de inculcação de hábitos de penitência pública que não foi num ano nem dois que as mentalidades mudaram. Mas é bom recordar certos usos e costumes que nos permitem ver quão venal era a prática de actos religiosos em que ninguém realmente acreditava mas se continuavam a praticar por medo da língua do vizinho e até pelo medo do mau génio do padre que com duas frases na homilia podia arruinar uma reputação.
Mas a quaresma para os laicos era mais tempo de comer o fumeiro e ao domingo ir ao futebol do que tempo cinzento de penitência e jejuns evitadas a poder do pagamento de bulas já contestadas desde o tempo do Martinho Lutero.
Passavam os dias e a garotada só pensava no São Lázaro que era uma festinha agradável mesmo sem música. Camionetes carregadas de laranjas aportavam perto da capelinha e uso o diminutivo porque sempre me pareceu estranho terem feito capela tão pequena para tanta gente que eu via assistir, melhor dizendo, ouvindo o Cónego Ruivo dizer a missa .Esquecia -me de concluir que era só uma vez por ano.
A semana seguinte era de ir à procura de uma Oliveira que se pudesse esgalhar e com um ramo de alecrim que também se arranjava sem grandes enfados pudéssemos armar o Ramo que com uma fita de cetim atada e de lacinho perfeito levávamos à missa da Sé onde era benzido e que para alguns servia para levarem à madrinha que o recebia às vezes com resignação pois os trocos que esportulava para dar ao ou à afilhada(o) daria para pagar o litro de azeite para regar os grelos e as batatas no almoço de um daqueles dias.
Eu e o Toninho da Otília íamos à quinta do Novo Rico ao tio avô dele que era lá caseiro, o tio Armindo que nos ajeitava dois lindos e formosos ramos que eu dava à minha mãe depois de bentos e que ela punha detrás da porta contra as trovoadas. Finalmente raiava o dia de Páscoa.
Deste dia gostava eu! A semana tinha-se passado numa azáfama de alegria contida. Era o tempo de fazerem os folares. O pitéu que era esta iguaria só na Páscoa estava disponível. 
Nós hoje não pensamos naquilo que o progresso nos fez perder! O colorido, o empenho, o cuidado e o desvelo que as mulheres, com pouco ou nenhum compromisso dos homens, durante uma semana de autêntica safra davam ao mundo uma obra prima de confecção de farinha, ovos, azeite, manteiga, sal q.b. e fermento levedura. A este pão macio e saboroso juntavam o melhor das peças do fumeiro, belos pedaços de salpicão, chouriça e presunto entremeado que comido dia de Páscoa de manhã com um bom e forte café preto sabia a manjar dos deuses que num gesto de glorificação ao Deus Verdadeiro inspirassem as mulheres a fazer essa obra-prima. 
A Senhora Alice do Forno do Tombeirinho que era quem a minha mãe sempre incomodou para fazer os folares e a ajudava a amassar e depois de lêvedos os cozia no seu forno, sabe bem do que eu estou a falar. Será sempre a minha padeira preferida pelo desvelo e pela amizade que sempre me dedicou desde a minha primeira vez que eu pela mão de minha mãe entrei na porta do forno da Alice. Que Deus a guarde.
Domingo de Páscoa, o dia mais lindo do ano para mim! Depois da missa das 09:30 na Sé e do Folar com café preto, que eu leite só bebi o da teta de minha mãe até ao dia em que me mandaram para casa da minha tia Marquinhas mulher do meu tio Bocage, para desmamar. Quando regressei bebia água e chá que leite nunca mais o pude ver, dizia eu que depois do folar começava a ouvir-se a campainha do Compasso. Era o Zé Monteiro ou o Fernando Macacão que faziam o lindo serviço de tocarem a sineta que era como um sinal de esperar à porta que o senhor Cónego já ali vem. Quando o cortejo chegava era uma alegria indizível, o Senhor por artes desconhecidas dos meninos e dos adultos entraria em nossa casa como o havia feito em casa de Lázaro para o ressuscitar. O senhor Cónego já nos conhecia e de ginjeira, por isso quando nos topava ia dando os seus avisos à turma dos infantes. Faltaste à catequese! Vê lá se queres que diga ao teu pai! Eu estava a salvo porque nunca fui absentista e o Cónego pensava que eu era uma coisa que não se concretizou .
Queria que eu fosse para o Seminário mas se eu fugi do Soto do Snr. Albino Carneiro como faria do Seminário? Só se fosse Alcatraz. Mas continuemos.
À tarde jogávamos o cântaro e aqui faço um compasso para dizer que levei muita lambada por partir a bilha ou o cântaro de barro que no Verão estava cá em baixo a refrescar a água e naquele dia partiam tudo e ainda se riam! Mistérios.
Às vezes havia baile no Loreto e até na Vila ou Além do Rio. E como era uso estrear fatiota nesse dia andavam todos de ponto em branco. Até as raparigas pareciam mais bonitas. Lavadinhas de fresco com vestido novo e sapato de meio tacão, lembravam-me as estrelas de cinema como a Marisol que era espanhola e fazia filmes para a juventude. 
O Reis tinha sempre as novidades musicais e o baile da Páscoa era como um ensaio geral para as festas de Verão.

Fim da 1a parte.
Amanhã penso acabar pois a seguir à Páscoa é muita espera até ao Verão.

27/08/2018 - VN de Gaia




A. O. dos Santos 
(Bombadas)

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