quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Os grandes festejos da aclamação de D. Pedro V em Bragança – significado e ingredientes (1855)




Através do relatório enviado pela Câmara de Bragança ao Governo, a propósito da celebração desta efeméride, ficamos a compreender melhor o que representava a Monarquia, a maneira como se vivia e se devia viver a realeza. Ficamos a saber, em especial, o que em Bragança se realizou e passou. Impressiona a dimensão dos festejos, ainda mais numa Cidade “ronceira” do interior… É um documento que reporta uma celebração maior, “superlativa”, que se realizava em tais ocasiões e que reunia vários elementos codificados, pela tradição e pela legislação. Momentos fúnebres, como, por exemplo, a morte dos monarcas também eram solenizados, com pompa e circunstância, em cerimoniais de grande aparato, que envolviam a comunidade, como se verá em capítulo próprio.
Esta detalhada “reportagem” diz-nos muito sobre essas atmosferas e ambiências celebratórias e festivas.
É muita a luz que lança sobre a “transfiguração” do espaço e do tempo que caracteriza a festa e outras solenidades.
Festa era – e ainda é – paragem nos (e dos) trabalhos, pausa nos afazeres, alteração do quotidiano habitual; transfiguração do espaço, vivência intensa de um tempo diferente. Bragança, urbe de pequena dimensão e pobre, mostra-se capaz de realizações com este dinamismo.
A subalterna Cidade consegue reunir forças e meios para pôr em prática programas como os que se vivem nesses dias maiores dos festejos. Autoridades locais, instituições militares, forças vivas e corporações não se poupam a esforços para cumprirem e realizarem, com inexcedível zelo, o que lhes era solicitado por determinações superiores. Têm um papel decisivo na programação e na realização das celebrações. Era com a “prata da casa” que se faziam tão luzidios festejos. E tudo isto acontecia numa Cidade dita, modestamente, de “4.ª ordem”, situada nos “confins de Portugal” – palavras do “cronista”. Havia uma “máquina” bem “montada” e bem “oleada”, que integrava muitas vontades e muitos protagonistas que, pela experiência acumulada, sabiam o que fazer e como fazer.
Deteta-se a utilização no relatório de uma linguagem, que agora nos parece hiperbólica e excessivamente cerimoniosa, mas que seria usual e aconselhada quando se tratava de aludir e de celebrar augustas figuras. Havia fórmulas protocoladas e letras maiúsculas obrigatórias. Além do mais, o informador/narrador queria impressionar os destinatários do poder central...

Surpreende o que um meio urbano, com estas dimensões e limitações, conseguia realizar. Era muito o que se criava e produzia nos campos da cultura, das artes e do espetáculo (desfiles, encenações, sessões musicais e teatrais, movimentações) e eram muitos e variados os saberes e meios disponíveis na Cidade para a concretização de todas essas realizações. Havia criadores e produtores de textos e de músicas. Uma “companhia de declamação” e uma orquestra que se forma. As guarnições militares desempenhavam, como se verá, um papel fulcral. Grupos e corporações populares também apresentam números musicais e teatrais – a cultura popular tinha tradição.
Deve referir-se, para além do significado das festas – do que com elas houve e do que se viveu –, a programação e a coordenação concertadas e a mobilização gigantesca. Atente- se, ainda, na variedade dos rituais.
Manifestações religiosas misturam-se com as cívicas, poderes religiosos andam de mãos dadas com poderes políticos; o sagrado contamina muitas das cerimónias; o profano penetra nos espaços sagrados. O sagrado da “santa religião” mistura-se, como veremos, com dimensões de índole profana e mitológica – o sagrado pagão também está presente. Entre as figuras mitológicas que abrilhantam os desfiles, conta-se, inclusivamente, o “Génio de Bragança”. As celebrações reúnem, em suma, elementos religiosos e profanos (festivos e solenes, lúdicos e graves, populares e aristocráticos) e aglutinam ingredientes carregados de simbolismo. O “retrato” de corpo inteiro do Rei vai ser alvo de um autêntico culto sagrado, sacrossanto. A imagem merece todas as reverências. É tratada como se fosse a “representação” de um ente sagrado, como um ícone religioso. A “jóia mais preciosa” que os brigantinos têm é o retrato do Rei, de Sua Majestade. Na Casa da Câmara e na “catedral”, é reverenciado com todo o cerimonial e honras devidos a símbolos religiosos.
As “três ordens” convivem e confraternizam, mantendo as distâncias e respeitando as hierarquias e os protocolos, e vivem intensamente esses dias de festividades. Dois titulares transportam o retrato do Rei: o visconde de Ervedosa e o barão de Santa Bárbara – ou seja, os dois membros mais importantes da nobreza bragançana. É entusiástica, pelo que é narrado, a participação do povo, que não se limitava a ser espectador, mas que colaborava e participava. Gente da urbe, dos meios rurais e até da “vizinha Espanha” enchem ruas e praças.
As festas mobilizavam as forças vivas da comunidade e atraíam “multidões”. Não há números, mas há expressões metafóricas que traduzem grandes afluxos. Desconte-se o entusiasmo posto na narração: as pessoas “moviam-se em ondas que atropelavam”; fala-se em “imensidade” dos vizinhos espanhóis…
Nos dias do “tríduo festival”, em 16, 17 e 18 de setembro, as celebrações e os espetáculos – a exigirem, nalguns casos, grandes montagens e encenações – espalham-se por toda a urbe, com especial incidência nos locais mais emblemáticos, consagrados pelo costume e pela tradição. O espaço urbano transforma-se num gigantesco espaço cénico. Num imenso palco, com vários palcos. Lança-se mão, ainda, de realizações de “arte efémera”, com a construção de uma torre octogonal, carregada de elementos simbólicos.
Cerimónias realizadas em espaços fechados – como, por exemplo, no Teatro Brigantino –, acessíveis apenas a convidados, são trazidas, tanto quanto possível, para as ruas, onde podem ser partilhadas pelo povo…
E lá estão as cavalhadas levadas a efeito pela tropa de Cavalaria n.º 7 e as três bandas militares que percorrem as ruas e abrilhantam as cerimónias; as orquestras; os desfiles, os cortejos, as paradas, as guardas de honra por elementos das unidades de Caçadores e de Cavalaria; os “grupos folclóricos” dos artistas, com os seus cantos e descantes e com as suas danças; os hinos compostos para o momento; as representações dramáticas com o elogio da excelsa figura; as iluminações que “transformavam” as noites em dia; os fogos de-artifício; os enfeites dos edifícios públicos, as ornamentações das janelas, o toque dos sinos…
Adjetivos abundantes qualificam as festividades dos “faustosíssimos dias” e o objeto central dessas realizações: sua majestade o senhor D. Pedro V. Entre estranhos epítetos e cognomes para o “adorado dos portugueses”, contam-se: “excelso”, “desejado”, “ídolo de amor”, “esperança lisonjeira” e “paládio da ventura”.
Em momentos solenes e festivos, não podia deixar de se exercitar a caridade, virtude teologal tão “natural” e imperiosa na sociedade da época. Cinco centenas de rações, oferecidas pelo comércio local, para os pobres que passavam fome e que têm direito a uma refeição melhorada – um arrátel de carne e quatro de pão de trigo. O bispo, D. José de Lemos, faz uma impressionante obra de caridade, “vestindo de inverno” 12 pobres, e o Governador Civil mostrou a sua incomensurável bondade, dando, do seu próprio bolso, uma refeição aos presos que também receberam, da comissão de socorro, uma camisa cada um. Como acentua o cronista, nesses dias não houve fome.
Nota-se um padrão-tipo na estruturação das festividades que preenchem os três dias, com obediência a alguns estereótipos. Muito do que se fazia resultava de fórmulas e receitas vindas de trás, que haviam sido apuradas. É o que se verifica com cerimónias, solenidades, manifestações, festejos, desfiles, cortejos, rituais, decorações e enfeites… Aí estão, ainda, no liberal século XIX, nas cerimónias de aclamação do Rei, muitos dos ritualismos, da atmosfera e da ambiência característicos do Antigo Regime. Só que agora não podia faltar, por exemplo, a consagração da Carta Constitucional…

A Monarquia e a realeza precisavam de manifestações rituais, que se queriam grandiosas e vistosas, para impressionar os súbditos. Ao iniciar um novo reinado, deviam-se mobilizar e envolver todas as forças sociais e proceder à realização de manifestações que, pela sua espetacularidade, cativassem e impressionassem os cidadãos de todas as idades, sexos e condições sociais. Em Lisboa, capital, como em Bragança, recôndita Cidade. Um novo Rei – e este em especial – e um reinado que começava traziam, em princípio, renovadas esperanças: prenunciavam um futuro que se queria melhor… Além do mais, a subida ao trono de D. Pedro V parece ter levado à realização de cerimónias de aclamação especiais, quer pelo investimento, quer pela participação do público. Eram muitas as expectativas, por todo o Reino, pelos testemunhos de que dispomos, em relação ao jovem e esclarecido monarca…

Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa

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