quarta-feira, 8 de agosto de 2018

PARA UMA PRIMEIRA CARACTERIZAÇÃO – AS DUAS “BRAGANÇAS”

O ano de 1834 põe fim ao Antigo Regime político. A partir daí, sob a égide do “constitucionalismo azul e branco” (como se diz no órgão republicano da imprensa local), vai-se “dissolvendo” o Antigo Regime social, económico e mental. A urbe conhece, apesar de tudo, outra “ambiência”, mas continuará marcada, como já dissemos, por tonalidades rurais. Quando se dá a transição para o século XX, é ainda uma “metrópole”, com fortes acentos rurais – muito distante, como se calcula, desta Cidade dos nossos dias.

Continuava sonolenta, periférica e subalterna, marcada pela “interioridade” e por essa ancestral “ruralidade”.
“Citadinos do campo” era a expressão usada por Max Weber para designar os habitantes das pequenas urbes, de meios urbanos com estas características. Se tais palavras serviam para caracterizar os moradores da Bragança setecentista do Antigo Regime (que apresenta grandes semelhanças com outros aglomerados do interior do País), ainda seriam apropriadas para designar, em boa medida e numa fórmula sucinta, a maioria dos brigantinos da Cidade oitocentista e mesmo do primeiro terço do século XX. E isto apesar das diferenças, das alterações e dos progressos. Na Cidade vive uma sociedade com uma estrutura socioprofissional complexa. Nem podia ser de outra maneira. Mas a malha social apresenta uma acentuada tonalidade rural.
A “Bragança” da maioria dos habitantes era constituída por setores heterogéneos: pequenos agricultores e pequenos comerciantes; trabalhadores agrícolas, jornaleiros, criados de lavoura e serviçais; operários; artesãos e aprendizes; marçanos; carreteiros e moços de fretes; domésticas (“donas-de-casa”) das classes baixas; criadas domésticas; trabalhadores indiferenciados. Devemos contabilizar, ainda, os indigentes e os mendigos. Tarefas artesanais podiam ser exercidas, cumulativamente, com atividades agrícolas. De uma maneira geral, todos estes moradores eram afetados por debilidades e dificuldades económicas, mais ou menos acentuadas, e apresentavam índices de analfabetismo e de iliteracia elevadíssimos. Como veremos mais à frente, por volta de 1920, numa caracterização que é feita pelo autorizado Governador Civil, Carlos Alves, dá-se um panorama desanimador da urbe. São muitas as necessidades. São muitos os indigentes. E a maior parte dos “artistas” – designação local que engloba artesãos e operários – tem condições de vida muito precárias.
Não obstante as inequívocas marcas urbanas, são inúmeros, ainda em finais do século XIX e no primeiro quartel do XX, os sinais de ruralização na configuração espacial e na malha urbana. Pelos numerosos dados qualitativos de que dispomos, em muitas casas, o espaço construído dispunha de cómodos, armazéns, arrumos, compartimentos – integrados, normalmente, nas edificações que serviam de habitação –, que continuavam a dar resposta a funções relacionadas com a atividade agropecuária: lojas para animais (de trabalho, para consumo, para negócio), arrecadações de instrumentos e alfaias agrícolas; palheiros e “celeiros”; adegas. Instalações ligadas aos trabalhos agrícolas continuavam a fazer parte das casas das pessoas de condição.
As oficinas da atividade artesanal estavam instaladas, com frequência, em casas de habitação. Fornos, lagares, moinhos e outros meios de produção podiam constituir unidades com espaço para as pessoas aí viverem.

Mesmo nas edificações dos principais arruamentos, o piso inferior, que podia ser de terra batida, destinava-se, muitas vezes, a apoiar a atividade agrícola e a criação de suínos. Tenham-se em atenção, também, quando se fala da “tonalidade rural”, os terrenos destinados a quintais, chãos e cortinhas – para cultivos, horta, criação de animais –, eiras e logradouros.
No que respeita às relações dos proprietários (senhorios) com os foreiros, continuava a haver contratos de emprazamento das mais variadas propriedades agrícolas. Terrenos e bens da coletividade (e camarários) eram também aforados…
Na sequência do que fomos dizendo, é de acentuar que nesta Bragança – que temos caracterizado também como “ronceira”, arcaica, “ensimesmada” –, onde tanto faltava, havia espaço para uma vitalidade que quase se nos afigura paradoxal. Se subsumirmos a sua existência, não conseguiremos compreender muito do que se passa e vai passar…
Embora sociologicamente minoritária, e com reduzida expressão numérica, deixa muitos mais traços e mais visíveis, porque os que dela fazem parte detêm o poder e os meios de produção e de expressão. E têm voz (e vozes).
Era constituída por um leque, díspar e dissemelhante, mas pouco numeroso, de elementos que integravam as elites e que marcavam a sua presença em vários campos e em várias frentes. Integra, grosso modo, grupos possidentes (proprietários de bens imóveis – terras e casas –, “usurários”, comerciantes e “industriais”…), elementos da burguesia e da nobreza; autoridades civis e militares, políticas e judiciais; os mais importantes funcionários públicos e administrativos; autoridades eclesiásticas, clero; pessoal docente; elementos das profissões liberais, homens cultos e eruditos; senhoras de “elevada” e “média” condição social; estudantes. Era entre todos estes elementos que se recrutavam as classes dirigentes, eram eles que tinham o poder nas mãos e a mão no poder.
Desempenhavam um importante papel no que concerne ao exercício dos poderes político, militar, religioso, social, económico, cultural e no que respeita às funções administrativas; detinham o mando e o comando. Estavam destinados aos melhores cargos e às melhores funções.
Era esta “Bragança” que apresentava – o que nomeadamente nos interessa – uma surpreendente atividade e um inesperado dinamismo, em especial no que respeita à vida “cultural”. Mais: alguns dos seus membros parecem estar em consonância com a nação (minoritária) culta e evoluída que pulsava em Portugal. Aqui, a esta “Bragança”, como veremos, tudo chegava ou parecia chegar, muito aqui se sabia e conhecia, quase tudo se discutia.
A subalternidade económica e o reduzido número de pessoas alfabetizadas não podem ser vistos como sinónimo de uma grande subalternidade cultural. Um pequeno número de homens “cultos” dava o tom. As “classes cultas”, como são referidas num documento das vésperas da República, conheciam e integravam, a seu modo, as várias manifestações progressivas da civilização. E já assim parecia ser em tempos anteriores à inauguração da via-férrea, em fins de 1906, e mesmo em tempos anteriores aos da inauguração, com festejos para celebrar o progresso, do telégrafo, em 1860.
O telégrafo e o comboio também teriam contribuído, à sua maneira, para quebrar isolamentos, para apagar distâncias e aproximar Bragança de outros espaços, nacionais e internacionais. A inauguração da “viação acelerada” permite que mercadorias, materiais, bens, pessoas, ideias – “civilização” material e imaterial – cheguem e partam com mais facilidade e maior celeridade. Intensificam-se intercâmbios, trocas, interações. A urbe está mais próxima do mundo. E há quem disso beneficie – em especial os membros desse restrito setor que dominava os destinos da urbe.

Esta “Bragança” não constitui, como é óbvio, um grupo homogéneo. Não obstante os conflitos e as divisões que se verificam e manifestam entre os seus elementos, com posicionamentos políticos e ideológicos diferentes – que geram grandes tensões e dinâmicas criativas –, é esta “Bragança”, alfabetizada e “letrada”, que decide e que pontua, que executa e que é responsável pela projeção que a urbe conhece. É, essencialmente, a essa elite, a essas elites, que se confinam a um restrito grupo, que se deve uma “vitalidade espiritual” e cultural que nos surpreende – falamos, sobretudo, para o período que abrange os últimos anos do século XIX e se estende até ao fim da I República –, se pensarmos nas condicionantes e nas limitações do aglomerado.

Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa

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