quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O conteúdo da imprensa Bragançana no século XIX

Uma vez identificados os jornais publicados em Bragança no século XIX, importa agora analisar o seu conteúdo. Neste sentido, iremos debruçar-nos sobre o programa ou estatuto editorial de cada um, no qual o diretor ou editor enuncia os traços gerais dos princípios que presidiram à criação do respetivo periódico, bem como a natureza do seu conteúdo, sobretudo nas suas vertentes política e informativa.
Primeira página do 1.º número de O Brigantino

Assim, começaremos por analisar os respetivos “programas” ou “estatutos editoriais”, para depois captarmos os traços fundamentais do respetivo conteúdo, indagando especialmente as coordenadas principais de natureza política, noticiosa e literária.
A primeira impressão que temos da análise dos estatutos editoriais dos jornais de Bragança no século XIX, sobretudo a partir de 1846, é que os mesmos são fortemente motivados por objetivos ideológicos e políticos, incluindo nestes os de cariz religioso.
Com efeito, antes daquela data, apenas existiu o Farol Transmontano. Neste caso, estamos perante um periódico que procurou concretizar os objetivos da Sociedade Promotora dos Melhoramentos da Agricultura do Distrito de Bragança, não se podendo dizer, assim, que se trata de um jornal político, como se pode ver aliás, no seu programa.
Contudo, quando temos em consideração o Boletim Oficial de Bragança, quer em 1846, quer em 1847, verificamos que o seu conteúdo é nitidamente político.
O mesmo acontece com os jornais de natureza partidária, como O Distrito de Bragança, afeto ao Partido Regenerador, o qual irá manifestar a sua afirmação ideológica do seguinte modo: “somos rasgadamente liberais e tal será sempre a índole do Distrito de Bragança; amamos a liberdade e aborrecemos a tirania, mas respeitamos o monarca e as instituições; aplaudimos todas as conquistas do progresso, mas não somos apologistas da revolução armada; queremos a liberdade, mas uma liberdade bem entendida, conquistada pela educação e ilustração do povo: tais são as ideias que sustentaremos sempre”.

A Voz da Pátria, por sua vez, afirmar-se-á claramente defensora do regime republicano e dos trabalhadores: é “este dia [1.º de Maio] consagrado pelo mundo dos trabalhadores à comemoração do seu direito. E esta consagração, sem dúvida, é das mais grandiosas da história da humanidade, porque tem a sua base na justiça, que é o sustentáculo de todo o direito, de toda a liberdade, sem o que não há prosperidade pública, nem bem-estar individual”.
“Quem senão ele [o trabalho] tem feito a história, no esforço de cada homem; tem feito a indústria, o comércio, a agricultura, que são o apanágio de cada povo; tem feito a navegação e as descobertas, ligando o mundo antigo a mundos novos.”
Em Bragança, a maior parte dos jornais do século XIX é afeta aos progressistas, assim se compreendendo porque é que os jornais ligados ao Partido Regenerador surjam noutras sedes de concelho, como é o caso de Carrazeda de Ansiães, Moncorvo (onde, dos quatro jornais que registou, três deles defendiam o Partido Regenerador), Miranda do Douro (o único jornal aí editado no século XIX era também afeto ao Partido Regenerador), não falando de Macedo de Cavaleiros e Mirandela, onde surgiram também jornais ligados ao Partido Regenerador e aos republicanos.
Na última década do século XIX, mas sobretudo na primeira década do século XX, o panorama vai mudar por completo, havendo em Bragança apenas um jornal afeto ao Partido Progressista e vários ligados ao Partido Regenerador.
Não obstante o seu compromisso político-partidário e, algumas vezes, corporativo, praticamente todos os periódicos se afirmam com o grau de isenção e imparcialidade suficiente para não admitirem subserviências a quaisquer interesses particulares, sejam partidários ou classes, como se pode constatar neste texto de O Brigantino: “como porém somos soldado voluntário, que não recebe soldo de favores nem considerações sequer, conservamos uma certa isenção: aos nossos mesmos correligionários políticos não lhes pouparemos a censura amigável quando o entendermos em consciência, nem deixaremos de os acusar quando o merecerem.”
“O que sentirmos a respeito de política di-lo-emos sem rebuço e sem hesitações; e quando houver alguma iniquidade a condenar, destes ou dos outros, trovejaremos sobre ela, fulminando-a com toda a nossa indignação sem dó nem piedade.”
Além da imparcialidade, vários jornais dizem-se defensores de uma certa ética pública, excluindo das suas páginas qualquer assunto que diga respeito à vida particular de quem quer que seja. No entanto, uma análise mais aprofundada, que não vamos aqui fazer, permitir-nos-ia concluir que o conceito de vida particular era muito relativo e estava subordinado aos interesses gerais do ou dos responsáveis do jornal.

O caso do Baixo Clero (1899-1902) revela características específicas, na medida em que as suas preocupações políticas não tinham a ver com os assuntos civis, mas com assuntos eclesiásticos, aparecendo a defender o chamado baixo clero contra a governação do então bispo da Diocese, apesar de o seu diretor se afirmar claramente do Partido Progressista.
Para lá destas preocupações de cariz ideológico e político-partidário, uma outra característica da linha editorial de todos os jornais em análise assentava nos seus “propósitos noticiosos”. Nem outra coisa, aliás, seria de esperar, já que a função primeira que se espera de qualquer periódico é a publicação de notícias ou informações de interesse geral. No ponto seguinte, analisaremos também a natureza desse conteúdo.
Uma terceira preocupação, “a expressão literária”, também é transversal à maioria dos jornais em análise.
As preocupações políticas, noticiosas e literárias são as mais comuns e definem os grandes objetivos de praticamente todos os jornais do século em análise. Daí que vários deles apresentem como lema, junto ao título, as seguintes expressões enquanto definidoras do seu programa e do seu conteúdo: jornal ou semanário “político”, “noticioso” e “literário”, como se pode constatar nos títulos atrás reproduzidos. Um deles, o Norte Trasmontano, diz-se simultaneamente religioso, político e literário.

...CONTINUA...

Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa

Eu vou a Miranda ver os Pauliteiros

Os Pauliteiros de Miranda são o símbolo local incontornável de Património Cultural imaterial de Miranda do Douro.
Enquanto grupo de danças tradicionais representam uma das principais atrações do nosso concelho, sendo que o trabalho desenvolvido pelos grupos/ Associações têm contribuído de forma exemplar para a divulgação do património, etnografia e cultura mirandesa, bem como o artesanato que lhe está associado.

A preservação desta nossa identidade cultural é uma base sólida para um futuro mais rico, que passa pela contínua divulgação e valorização do que nos pertence.

Neste sentido, e de forma a perpetuar e reavivar a melodia de Rui de Mascarenhas “Eu vou a Miranda ver os Pauliteiros", o Município de Miranda do Douro irá ter um dia por mês onde efetivamente os visitantes possam “Vir a Miranda e ver os Pauliteiros”.

Assim, no último sábado de cada mês serão dançados “Lhaços” pelas ruas da cidade, e desta forma todos os que nos visitam possam desfrutar de um acolhimento salutar bem próprio do povo mirandês.

No próximo dia 23 de fevereiro o Grupo de Pauliteiros da Póvoa fará as honras da casa.

Dez câmaras assinam protocolos com a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género

A Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade homologou, em Mirandela, protocolos da nova geração de Cooperação entre a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) e 10 municípios do distrito de Bragança.
“A ideia é reforçar o compromisso mútuo, estabelecendo linhas orientadoras no percurso dos municípios, no âmbito da Estratégia Nacional para a Igualdade e Não Discriminação – Portugal Mais Igual”, explicou Rosa Monteiro, acrescentando que esta nova geração de protocolos, para além de prever a intervenção na promoção da igualdade entre mulheres e homens, bem como a prevenção e combate todas as formas de violência contra as mulheres e violência doméstica, “também inclui, pela primeira vez, a prevenção e combate à discriminação em razão da orientação sexual, identidade e expressão de género e características sexuais”.

Fernando Pires
in:mdb.pt

Falta de habitação social para vítimas de violência doméstica obriga mulheres a permanecer junto ao agressor

A falta de habitação social é um dos maiores problemas com que se deparam as mulheres vítimas de violência doméstica na região.
A carência tem sido constatada pelos técnicos do O Núcleo Intermunicipal de Intervenção em Vítimas de Violência Doméstica e de Género (Niiv), cuja responsável, Joana Ribeiro, admitiu ao Mensageiro que no terreno verificam que não há alternativas para sair de casa. “Muitas mulheres são obrigadas a permanecer junto dos agressores porque não têm autonomia financeira para poder suportar a renda de uma habitação e não querem ir para uma casa abrigo”, explicou a responsável à margem do seminário Violência Doméstica: o fenómeno para cá e para lá das 4 paredes, que se realizou em Alfândega da Fé na passada sexta-feira. 
Ainda assim, existem alguns apoios do Estado para esse efeito, confirmou o Mensageiro.

Glória Lopes
in:mdb.pt

Município de Mogadouro contemplado com 180 mil euros para renovação da nave do parque de exposições

O município de Mogadouro foi contemplado com 180 mil euros resultantes de uma candidatura ao programa de Benefício de Equipamentos Municipais (BEM), destinados à ampliação da nave do Parque de Feiras e Exposições, num projeto global que ultrapassa os 550 mil euros.

A autarquia de Mogadouro espera ultrapassar alguns trâmites legais, “para logo de imediato colocar a obra a concurso que tem um valor global de 550 mil euros”.

Francisco Pinto
in:mdb.pt

Jovem de 17 anos dado como desaparecido pela família

A PSP de Bragança foi informada do desaparecimento de um jovem com 17 anos, natural e residente nesta cidade. Desde ontem à tarde que a família não sabe o paradeiro de Nuno Miguel Alves Rocha, que não regressou a casa.

Segundo uma fonte da PSP, familiares do jovem viram-no pela última vez ontem cerca das 17h00, mas têm conhecimento que outras pessoas o terão visto pelas 23h00, em Bragança.
A última vez que a família esteve com Nuno Miguel, o jovem altura calçava tênis de cor preta , vestia calças de ganga preta justas, uma 'sweatshirt' cinzenta com capuz e um casaco curto de material a imitar o cabedal de cor cinza.

Glória Lopes
in:mdb.pt

Filandorra estreia peças inspiradas em Garrett e Aquilino Ribeiro

A Filandorra - Teatro do Nordeste estreia em 2019 produções inspiradas em Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro e Musset, uma peça criada no âmbito do projeto 'O teatro e as serras' e homenageia Sophia de Mello Breyner Andresen.
A companhia de teatro, sediada em Vila Real, apresentou a temporada 2019 que inclui três novas produções desenvolvidas com o apoio sustentado bienal da Direção-geral das Artes/ Ministério da Cultura.

O diretor da Filandorra, David Carvalho, disse que a estreia nacional da peça 'Frei Luís de Sousa', de Almeida Garrett, acontece a 27 de março, dia Mundial do Teatro, em Amarante.

O palco escolhido é o convento de São Gonçalo.

"Estreia num contexto específico, fora de salas tradicionais embora lá chegue. Iremos ter, em 2019, um conjunto de representações em lugares não prováveis para o teatro", referiu o diretor.

A peça irá desenvolver-se ao longo de três atos, em salas diferentes do edifício, terminando na igreja de São Gonçalo.

Depois, a Filandorra vai para uma residência artística em Sernancelhe, distrito de Viseu, para a criação da peça 'Mestre Grilo Cantava e a Giganta Dormia', de Aquilino Ribeiro.

A estreia está marcada para 27 de maio, em Sernancelhe, a terra natal do escritor.

"Aquilino Ribeiro, um monstro da literatura. Não é a sua obra maior, mas é a obra que escreveu para os seus filhos e é uma experiência singular", salientou David Carvalho.

A compositora Marília Miranda, de Vila Real, criou a letra e música das canções que vão acompanhar esta produção.

Em outubro, em Vila Real, estreia 'Não se brinca com o amor', de Alfred Musset, autor romântico do século XIX, uma peça que vai ter como encenador convidado Filipe Crawford.

David Carvalho disse que este espetáculo sai da sala e "desce aos territórios" no verão, podendo ser representada ao ar livre.

O projeto 'O teatro e as serras' venceu o orçamento participativo 2017 e está a ser implementado nos distritos de Vila Real e Bragança através de cinco polos de criação localizados nas principais serras destes territórios.

A Filandorra está a desenvolver dois desses polos, o da serra de Bornes, que já estreou 'Contas Nordestinas', do escritor António Manuel Pires Cabral.

A 22 de fevereiro estreia "Histórias da Vermelhinha", de Bento da Cruz, criado no polo da serra do Barroso, que se estende pelos concelhos de Boticas e Montalegre.

David Carvalho elencou ainda a participação da companhia em várias iniciativas da comunidade e em eventos tradicionais, como o 'Mil diabos à solta', em Vinhais, o Carnaval de Podence, em Macedo de Cavaleiros, ou a Via Dolorosa, na Páscoa, em Vila Real.

A Filandorra termina o ano associando-se ao centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen, com a reposição da peça 'A menina do mar' a 06 de novembro, no Teatro Ribeiro da Conceição, em Lamego.

Com 33 anos de existência, a companhia possui uma rede protocolada com cerca de 40 municípios, já criou 72 produções e contabiliza cerca de 5.000 espetáculos.

Agência Lusa
Foto: João Pinheiro

15º Passeio de BTT- L'Crenque

Autarquia Macedense assegura transporte das aldeias à cidade a metade do preço em dias de feira

A autarquia de Macedo e a empresa de transportes Santos estabeleceram um Contrato de Apoio Financeiro que assegura transporte das aldeias para a cidade nos dias de feira com um desconto de 50% no bilhete.
Uma medida que visa ajudar a dinamizar as feiras na cidade, e que estará disponível nas aldeias onde a empresa já faz transportes, como explica o vice-presidente, Pedro Mascarenhas:

“O transporte terá o custo de metade do valor normal, nos dias de feira, desde as aldeias do concelho até Macedo. Nos sítios onde a empresa faz transportes habituais e ainda de alunos, tem que garantir que as pessoas que aparecerem para serem transportadas a 50% do valor, têm que vir.”

O transporte será feito nos dois sentidos, fazendo a deslocação das pessoas até à sede de concelho e, mais tarde, o regresso às aldeias.

Para já, o contrato está em vigor até finais de junho, mas poderá ser prorrogado, adianta o vice-presidente:

“Este acordo está associado ao período de transporte dos alunos, porque é a altura em que os transportes estão mais alargados. Se correr bem, iremos prolongar o acordo e estender àquelas que não sejam abrangidas. Vamos ver como as coisas correm.” 

Este acordo já está em funcionamento e garante aos munícipes um transporte a metade do preço nos dias de feira municipal em Macedo de Cavaleiros, que têm lugar ao 6, 18 e 29 de cada mês.

Escrito por ONDA LIVRE

A Última Habitante de Vale Santeiro

Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Faustina acordou com um estremeção. O quarto onde se encontrava estava na penumbra; ainda a noite ia alta. Quase não se conseguia mexer, com a enormidade de mantas que tinha em cima de si, mas, cada vez que acordava, sentia o frio que lhe mordia o corpo. Teve sede e, com dificuldade arrastou os 92 anos que lhe pesavam nos ossos e desceu da cama alta, para as alpercatas que a esperavam no chão de soalho.

Era uma mulher magra e engelhada, envergando a camisa de dormir puída, mas grossa, sobre umas calças de pijama azuis, já coçadas. A cabeleira alva caía-lhe sobre as costas, confundindo-se com a camisa. Embrulhou os ombros com uma das mantas, que levantou com esforço.

Tateou a parede junto à cabeceira da cama de ferro para pegar o pau que lhe servia de bengala. Não acendeu a vela no criado-mudo e serviu-se da escassa luminosidade que chegava da cozinha, para ver o caminho. Arrastou-se, mais do que caminhou, pela porta estreita, contrariando as fortes tonturas que a atormentavam.

A espaçosa divisão tinha mais luz que o quarto; escoava-se pelas aberturas das enormes telhas de ardósia que se divisavam acima do travejamento despido do teto e pelas generosas frestas da porta da habitação. Uma robusta mesa de madeira maciça e alguns bancos, ocupavam um dos lados, onde sobressaía um imponente escano, vestígios dos tempos em que aquela era uma casa cheia. No lar[1], brilhavam algumas brasas envergonhadas, vascas da fogueira do dia anterior. O vento assobiava pelas frestas e a velha cortina que tapava a única janela, oscilava com a corrente de ar.

Apertando a manta em volta do pescoço e sempre tremendo de frio, Faustina contraiu o rosto enrugado ao beber a água gelada do púcaro de alumínio. Uma coluna de vapor soltou-se do seu hálito.

Hesitante, caminhou até à porta e abriu a metade superior, sendo brindada com vários flocos de neve que esvoaçaram para dentro.
As escadas e a rua da aldeia, eram um tapete branco. As casas em frente estavam decoradas com alvos mantos, nas estruturas destelhadas e derruídas e as janelas eram negros olhos que a fitavam, inertes. O silêncio absoluto só era perturbado pelo tilintar dos vários espanta-espíritos, pendurados na borda do telhado e pelo vento e o sussurrar permanente dos pinhais em volta. Para além das casas, distorcido pelos farrapos de algodão esvoaçante, o imponente Marão velava sobre o casario e a paisagem, numa vigília que começara no princípio dos tempos.

Tremendo descontroladamente, a comprimir as gengivas, quase desdentadas, para que não batam, cerrou a porta e apressou-se a regressar à cama.

Uma cabrita baliu na loja[2], sentindo o caminhar da proprietária.

Encolheu-se de novo debaixo da montanha de roupas e apertou, o mais que pode, os joelhos esquálidos contra o peito, enquanto se agitava em tremores. Sentia o bafo fervente nas mãos, contrastando com o frio que sentia. Estava doente!

Tossiu convulsivamente. Não se recordava a última vez que esteve doente, mas já começara a suspeitar com o frio que sentia e as tonturas que a assombravam há vários dias. Se pensasse bem, também já vinha a notar fraqueza e falta de apetite há mais de uma semana e nestes últimos três dias, piorara a olhos vistos. Tossiu novamente, terminando com vómitos e os olhos cheios de lágrimas… vomitar o quê, se há dois dias que estava só a água?

Se calhar devia ter aceite a oferta do jovem caçador, que ali passara antes do nevão, para a levar à vila, ao médico. Sorriu de si para si, enquanto se encolhia mais para baixo dos lençóis gelados. Os caçadores eram uma boa companhia, apareciam, conversavam um pouco, dividiam a merenda com ela ou comiam um pouco do pouco que ela por lá tinha e havia sempre uma garrafita de vinho, um bocado de presunto, ou salpicão para dividir com eles, trazidos pelo bom senhor Fonseca. O carteiro, agora reformado, nunca deixou de a visitar, mesmo depois de já não ter obrigação de trazer cartas, porque ao fim e ao cabo, já nem carteiro lá ia. Era uma excelente pessoa e trazia-lhe os bens essenciais, pagos com os dinheiritos que fazia a vender uns ovos, frangos e um ou outro cabrito aos caçadores ou caminheiros que por ali passavam.

Contentava-se com pouco, não precisava de muito dinheiro. Mesmo o vinho durava-lhe muito tempo, não bebia todos os dias e a carne, comia pouca, eram mais os legumezitos que conseguia arrancar da horta nas traseiras, mais ou menos abrigada dos frios da serra. Estes dias, porém, não conseguira sequer levar as cabritas, nem dar de comer às galinhas. "Pobrezinhas, devem estar a estranhar não me verem." Uma lágrima correu do canto do olho.

Também a GNR a visitava, de tempos em tempos e trazia as coisas que ela pedia, na ronda seguinte. Normalmente o cabo Gonçalves, de poucas falas, mas bom rapaz e a guarda Salomé, uma menina muito querida, que a tratava por avó Tina, vinham bater-lhe à porta e perguntar se estava tudo bem. Eram as únicas quebras de rotina naquele mundo perdido na serra e esquecido por Deus… e pelo Diabo.

O rosto iluminou-se-lhe com a recordação da aldeia cheia de gente, na sua infância e juventude. Parecia que ainda se estava a ver, cântaro na mão, com o vestido aos quadrados, que já fora da sua irmã, a correr descalça pelo empedrado da rua, até à fonte. Ali, pegava-se invariavelmente com a Micas do porqueiro e com a Ana da Chã, mas tinha sempre a ajuda da irmã, a Joaquina e da vizinha Luísa, contra aquelas duas invejosas.

"A querida Luísa… era tão bonita e tão carinhosa. Tive tanta pena quando se casou e foi embora para Angola com o marido. Será que ainda é viva?"

Quando chegava a casa, a mãe gritava com ela porque vinha suja e molhada e o pai, se não estivesse embriagado, defendia-a sempre. Era uma casa cheia, esta mesma casa onde vivia. O pai e a mãe dormiam no quarto, ela e a Joaquina, junto da mesa, mais próximo do lar e os quatro rapazes do outro lado da cozinha. A maior parte das vezes, porém, eles preferiam dormir no palheiro onde ficava o burro, que era mais quente.

E as festas que se faziam naquele povo… havia sempre o "ti" João com o harmónio, o Celestino ferreiro, com a gaita de foles e o "Zé tolinho" com o tambor; faziam uma algazarra tal, que ecoava nos montes, invocando as povoações em redor. O Tino ferreiro era uma estrela, não só ali, como pelos povos em redor. Ficava-se hipnotizado a ouvir as músicas que tocava, algumas de sua autoria. Mas era um maroto: habituado a apertar os foles, estava sempre de mão lampeira para apertar peito macio ou rabo rijo. Uma vez, também ela lhe sentiu o aperto numa festa e só não lhe acertou uma valente "tapona", porque o facínora, treinado que estava nestas andanças, afastou-se rapidamente, com um sorriso traquina. Ao fim e ao cabo, a sensação de ofensa durava pouco, face àquele rosto bem-talhado e sorriso desarmante. Mas com a gaita de foles era um Deus na terra e com os companheiros, punha a dançar o maior pé-de-chumbo. Dançavam-se as modas com alegria e em tais rodopios, que por vezes até caíam no chão empedrado do largo da fonte.

Foi naquela mesma fonte, no meio da aldeia, que percebeu o olhar do António Joaquim, filho do sapateiro de São Miguel das Chãs. Ela sempre se portou com ele como uma potra selvagem, com "coices" e empurrões, cada vez que ele se aproximava, mas como ele não desistia, casaram num tórrido dia do estio do ano de 1946.

A igreja, nome pomposo para a pequena capela no centro do povoado, onde se acotovelaram os vizinhos, nos tempos das famílias de muitos filhos, não passava agora de umas paredes ao alto, despojadas há muito dos objetos de culto. Estava bonita, no dia do seu casamento, todo o templo, caiado de novo, tinha os altares decorados com belas flores silvestres e muitos verdes, colaboração de todas as mulheres da aldeia. Até o chão tinha um belo tapete florido, decorado com motivos geométricos ricamente elaborados. Cheia de vergonha, a cabeça coberta com um lenço branco e o rosto corado, estava simples, mas radiosa. Apesar dos pais não lhe poderem comprar um vestido de tule branca, envergava uma alva camisa, finamente bordada, costurada pela "ti" Rosário, que entrava numa saia cinza claro, comprida, que quase tapava os pequenos sapatos pretos, bem engraxados. A seu lado, um sorridente António Joaquim, de chapéu preto de aba direita, fartos bigodes e fato cinza claro, empinava-se nas botas de couro luzidio e dava-lhe o braço, de forma protetora… como eram jovens, mesmo a mais pobre das indumentárias, era trajo de príncipes. E foi assim que se sentiram durante a cerimónia e no circuito que tiveram de fazer, nos dois povoados, de braço dado, para que todos reconhecessem o novo casal.

Faustina foi viver para as Chãs com os sogros, mas ao fim de três anos os irmãos tinham emigrado para o Brasil, um após outro e o tifo levara-lhe o pai e a irmã. Regressou a Vale Santeiro com o marido e dois filhos, mas um deles morreu naquele mesmo ano, com febres muito altas, o outro também as apanhou e durou apenas mais cento e poucos dias. No mesmo ano de 1951, nasceram os gémeos e batizaram-nos António Luís e António José, exigência do marido.

As colheitas da castanha e da azeitona eram sempre motivo de festa; a aldeia enchia-se de romeiros, que vinham de longe trabalhar à jeira nos soutos ou nos olivais. Eram uma boa desculpa para o endiabrado trio musical se juntar às "orquestras" que acompanhavam aquelas hordas e festejar o fim das colheitas com bailes que iam pela noite dentro, assim o permitissem o frio, a chuva, ou mesmo a neve. Para muitos, aquela mão cheia de castanhas assadas e o púcaro de vinho, eram a única maneira de bastar a fome que lhes atormentava as costelas o resto do ano.

A fome e uma profunda crise, ainda efeitos do terrível conflito mundial que acabara há apenas cinco anos, grassava pela totalidade do país, mas por aqueles lados, sempre se arranjava uma hortaliça, uma batata ou uma côdea de pão. O marido, porque estava insatisfeito com o pouco que ganhava de sapateiro, deixou-se levar pela febre da emigração. O sonho do Brasil levou-o para longe dela, com promessas de a mandar buscar… durante a viagem de barco, levou-o o diabo… só o soube dois meses depois.

A vida nunca lhe sorria verdadeiramente, antes parecia rir de escárnio.

Faustina e a mãe trabalharam juntas nos terrenos que o pai comprara com os dinheiros ganhos no volfrâmio, até a matriarca não poder mais. Era até curioso que o pai tivesse ganho a vida a vender minério para alimentar a guerra na Europa em 1943 e avô tivesse perdido a vida nas trincheiras da Flandres em 1917.

A mãe foi-se já velhinha e sem poder levantar-se da cama. Ainda assistiu à partida dos netos gémeos para França, nos anos setenta, fugidos à guerra colonial… a doença da emigração levava mais dois.

O primeiro ano custou-lhe imenso. Com quarenta e cinco anos, a casa vazia, o trabalho todo para ela. Faltavam-lhe as brincadeiras dos rapazes, até mesmo as vezes que lhes ralhava porque iam para a taberna até tarde. Noutras ocasiões, irritava-se porque riam e falavam alto, na cozinha, a gastar petróleo no candeeiro e sem a deixar dormir. De manhã, acordava-os ainda mais cedo, para os castigar, mas aquelas almas lá se levantavam. Resmungavam, mas obedeciam.

Com o tempo, as memórias deles já não passavam de palavras escritas em missivas curtas, lidas num tom monocórdico pelo senhor Fonseca carteiro. Estavam bem, casaram e tinham filhos, netos que ela só conheceu com cerca de dez anos. Por volta dos anos oitenta… vieram passar umas férias, mas não se demoraram, o objetivo eram as praias do Algarve. Traziam mulheres francesas e os filhos não diziam palavra de português. Não gostaram de ver o Fernando, o irmão do António Joaquim a viver com ela, ainda para mais sem casar. "Que queriam eles?" Pensou franzindo o sobrolho, mas mantendo os olhos cerrados. "Tantos anos sem quererem saber, nunca lhes respondi, senão às primeiras cartas. Nunca aquelas almas vieram saber se estava bem, ou precisava de alguma coisa." Já quando se foram para França "a salto[3]", foi ela quem pagou ao "passador" e deu-lhes as poucas economias que tinha. Ficou em grandes dificuldades, mas mesmo assim, achavam-se no direito de dizer que tinham vergonha pelo falatório que havia na aldeia, por causa dela e do tio deles. Trocaram palavras amargas, para uma despedida. Ela estava contente por vê-los escapar à guerra, que já vitimara dois jovens da aldeia, mas lamentava ver os filhos ir para longe, além da falta que lhe iriam fazer aqueles dois pares de fortes braços.

Era à porta da taberna do "ti" Acácio, que Faustina encontrava Fernando, ao fim do dia, após o trabalho. Ela fazia de propósito para ir à água na hora em que o sabia por lá… e ele fazia questão de sair à porta, assim que a via assomar à boca da rua, com o cântaro debaixo do braço. As mulheres e as raparigas riam maliciosamente ou sussurravam umas com as outras quando passavam, mas eles ignoravam-nas, ou nem se apercebiam da sua passagem. Ela era já viúva e não via, ou não queria ver, mal nenhum em falar com o cunhado. Ele, "quase" viúvo, tinha ali a oportunidade de ter junto de si um rosto bonito e alegre.

Mesmo Fernando só lhe fez companhia por cerca de quinze anos. Juntara-se com ela, apenas quando ele enviuvou também. Embora conversassem muito desde a partida do irmão, sempre tentou respeitar Maria do Carmo, a mulher dele, que estava de cama há anos, não a abandonando nem pondo outra mulher no lugar que lhe pertencia. Maria do Carmo foi outra infeliz; desejava ardentemente ter filhos e por três vezes sofreu partos pavorosos, que deram em crianças deformadas e, felizmente, mortas. O último foi de tal forma difícil, que tiveram de mandar vir o médico da vila. Salvou-lhe a vida, mas não conseguiu salvar-lhe o juízo.

Fernando e Faustina acabaram por se consolar um ao outro. Encontravam-se às escondidas, às vezes na calada da noite, no palheiro dela, ou noutro lugar qualquer mais recatado, mas inevitavelmente acabaram por ser vistos… e falados. A viuvez dele, a partida dos filhos dela e a velhice da mãe, foram a combinação perfeita para se juntarem definitivamente em casa dela. Foi um suporte essencial, quando a mãe dela partiu deste mundo. Viveram bons tempos, ele foi uma companhia serena e carinhosa, até o coração lhe ter “pregado uma partida” aos sessenta e um anos. E Faustina tornou a ficar só.

Não quis mais homem nenhum. Não que houvesse algum por aqueles lados, pelo menos viúvo, mas não queria mais partilhar a sua vida com alguém que a abandonasse novamente.
Os filhos retornaram por volta de 1990. Ou que alguém lhes chamasse a atenção, ou que os remorsos os mordessem, apareceram de surpresa, apenas os dois, para “saberem como ela estava e se precisava de alguma coisa”. António Luís, sempre mais falador, manteve uma conversa variada, contando a forma como viviam em França e que o irmão, agora divorciado, vivia temporariamente com eles. Mas António José notava-se comprometido, como se estivesse ali contra a vontade. Por fim, a conversa acabou por cair na aldeia, cada vez mais deserta e no facto de ela estar sozinha há tantos anos. “O melhor mesmo” dizia Luís “era vender as territas e a casa e ir para o lar da vila, onde não lhe faltaria nada.” Até trazia já os impressos para assinar e tudo. Tinha pressa para ir ter com o resto da família, que o aguardava no Algarve. Claro que acabaram aos gritos em casa e expulsos pela matriarca… Nunca mais voltaram. Ela sabia que não deveria ter atirado a pedra, que partiu o vidro da porta do carro do filho, mas depois de atirada, já não havia nada a fazer. “Eles que fossem lá para as porcas das francesas e se enchessem do bom e do melhor que havia naquela terra para onde os mandou, com todos os tostões ganhos com o suor do seu rosto. Não precisava deles, nem de ninguém.” Gritava a miúde com quem lhe puxava tal conversa.

Os vizinhos foram desaparecendo, um após outro. Com mais ou menos dificuldades, acompanhou alguns até à última morada e despediu-se de outros, que foram para o lar de idosos ou para o hospital e já não regressaram.

Por fim, o padre já não vinha dizer a missa à aldeia e tinham de ir às Chãs, que pouca mais gente tinha. Depois, já nem lá. O sacerdote só aparecia para os funerais e o coveiro tinham de o mandar vir da vila. O templo estava fechado, mas não deixaram que levassem as imagens, quando o padre as mandou buscar; pertenciam ao povo e não à igreja! Faustina ainda conheceu, já muito velho, o neto do santeiro que esculpiu a Senhora da Piedade, que era tão bonita.

Mantiveram o culto como podiam. A “ti” Sabina, a única que sabia ler, recitava trechos da bíblia e partes do missal todos os dias à noite, enquanto os diabetes não a cegaram, depois já só rezavam o terço. Eram as cerimónias que tinham para alimentar a fé, que não parecia esmorecer. Uma vez por mês, lavavam o chão de soalho e tiravam as teias de aranha dos santos, mas as pinturas e reparações eram demasiada exigência para as fracas posses físicas e monetárias da população. As paredes brancas estavam sujas e descascadas. Já tinha a aldeia só para si e não deixava de ir rezar o terço, por hábito, no salão sombrio e solitário que fechava cuidadosamente ao fim do dia. Uma noite, o telhado ruiu com estrondo e ela só o soube pela manhã, pois teve medo de sair à rua para ver o que tinha acontecido… chorou e teve pena de não estar lá dentro, a rezar, na hora em que aconteceu.

Há quanto tempo estava sozinha? Dez? Quinze anos? Já quando faleceu o Fernando, Vale Santeiro só tinha oito habitantes… havia menos pessoas do que cães e mesmo esses foram desaparecendo.

Lembrava-se perfeitamente quando a filha da Maria do Céu veio para a levar para Lisboa, para junto dela, só restavam elas as duas…. Insistiu tanto com Faustina para que fosse para a vila, para o lar de terceira idade… “Foi a única vez que gritei com ela, pobrezinha, que já estava tão fraquinha." Suspirou. "Ainda me escreveu umas vezes, depois deixou de escrever. Mais tarde, a filha mandou dizer que ela tinha morrido. Eramos as últimas pessoas de Vale Santeiro… e agora só resto eu." Lágrimas molharam o travesseiro.

Não sabia se tinha estado a sonhar se acordada, a sensação era de estar a dormir há décadas. Os lábios estavam secos e gretados. Doíam-lhe. Afastou as mantas e arrancou o corpo à cama, puxado a gemidos.

Cambaleou até ao balde onde fazia as necessidades e destapou-o, sendo agredida de imediato pelo cheiro intenso. Desceu as calças com dificuldade e quando se baixava, sentiu uma violenta náusea, acompanhada de um formigueiro nas mãos e nos pés.
Acordou com as pernas e os braços rígidos de frio. Estava deitada no chão, os membros entorpecidos quase não lhe obedeciam e um zumbido ensurdecedor inundava-lhe o cérebro. Gatinhou, gemendo e chorando de dores até à cama, que era uma estrutura de ferro demasiado alta para ser alcançada, mas a esperança da tonelada de mantas e o colchão de palha eram forte apelo.

Não sabia se estava a dormir, se acordada, estava de novo debaixo das mantas. Ouvia ao longe, trazido pelo sopro do vento, as melodias tristes que tocava o Tino ferreiro, ecoando nas encostas agrestes da serra. Vozes falavam de longe num tom baixo. Parecia-lhe a voz do senhor Fonseca carteiro, que conversava com alguém: "…tive que ir até às Chãs, que aqui não há rede…". Tentou organizar as ideias e forçar-se a perceber o que estava a acontecer, enquanto ele continuava: "… coitadinhas, já não comiam nem bebiam há uns dias. Pus-lhes ração e água…"

— Avó Faustina, como está a senhora? — Agora era a voz de Salomé, a GNR que a visitava frequentemente, que lhe chegava de muito longe. — Está tão quente! Tem febre? Que magra que está, não se tem alimentado bem!

— Não sei o que se passa. — Respondeu numa voz sumida, sem abrir os olhos, por entre os arrepios de frio. Não sabia ainda se falava com um sonho. — Tenho tido muito frio e passo o tempo debaixo das mantas. Nem fome tenho. Não sei há quanto tempo não saio com as cabras… tem havido muita neve.

— Não acendeu o lume… — A guarda censurou com meiguice.

— Ainda acendi um destes dias, mas a lenha está a acabar e não me sinto com forças para ir buscar mais. Debaixo das mantas não está tanto frio. — A velhota respondeu, tirando os olhos e espreitando debaixo do monte de cobertas, apercebendo-se pela primeira vez da luz azulada que piscava, iluminando todo o compartimento a espaços. — Será que me podia trazer um braçadito de galhos? E dar umas “coivitas” às galinhas? As pobrezinhas bem chamam…

— A senhora precisa de ajuda e vamos levá-la para um sítio quentinho, com uma cama fofinha, onde terá mais gente para conversar. — Salomé continuou carinhosamente, quase a falar-lhe em segredo. — Não precisa de sair com as cabras, nem de andar “atrás das galinhas” nem da lenha. Vai ter sempre alguém para cuidar da senhora, está bem? Vai passar o Natal com muitos amigos novos.

Só aí Faustina se apercebeu do outro guarda e três jovens de bata branca e até do senhor Fonseca carteiro, que aguardavam atrás, iluminados pela silenciosa e faiscante luz azulada.

— Ora, vejam tanta gente. — Gemeu na voz fraca. — E eu não tenho quase nada. Deve haver para aí um "cibito[4]" de presunto e pão. Talvez um tantinho de vinho…

Salomé sorriu-lhe e beijou-lhe a mão descarnada antes de dar passagem aos jovens de bata branca, que, com palavras carinhosas, mudaram-na da cama com todo o cuidado, para a maca que trouxeram. Em seguida, levaram-na pelo quarto e depois a cozinha, que foram a existência dela por tantos anos.

Cá fora, o mundo era cinzento e as nuvens pesadas continuavam a navegar o céu, deixando escapar, aqui e além, uma nesga da promessa do sol forte, que se escondia mais acima.
Ao ser colocada na ambulância, sabia que não veria mais as cabrinhas, nem as galinhas, que eram a sua companhia de todos os dias. Não tornaria a ver os cumes do Marão tão de perto, nem voltaria a sentir o ar fresco da madrugada a bater-lhe no rosto, antes dos calores das tardes de verão.

Não mais veria as ruas desertas de Vale Santeiro, nem poderia reviver a sua vida, em cada uma daquelas esquinas arruinadas, ou lembrar bons momentos debaixo de muitos telhados que já não existem, dos amigos que já se foram há muito.

Fechou os olhos e, forçando um sorriso, enclavinhou as mãos sobre o peito, como que guardando em si aquelas recordações.
E deixou-se levar.

[1] Lareira, conforme é utilizado em grande parte da região transmontana.
[2] Grande parte das casas transmontanas possui um piso inferior à habitação que era usado para arrumações, criar os porcos e outros animais. Era útil para os poderem alimentar sem sair da casa e ao mesmo tempo geravam calor.
[3] As saídas do país eram fortemente controladas durante o regime salazarista e principalmente durante a guerra colonial. A forma de passar as fronteiras, para os civis e principalmente os jovens em idade militar, era clandestinamente, com ajuda de "passadores" envolvidos em autênticas redes de tráfico humano.
[4] De cibo, pequena quantidade de alimento.

Manuel Amaro Mendonça nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.

Campanha em França para contrariar imagem da língua portuguesa

Associações do mundo lusófono, professores e figuras de relevo da comunidade portuguesa em França preparam-se para lançar uma campanha nacional para promover a aprendizagem da língua portuguesa e, assim, contrariar os preconceitos contra a língua de Camões.
"A língua portuguesa sofre de uma péssima imagem junto dos franceses, e um dos eixos da campanha que vamos promover é mudar essa imagem e fazer do português uma língua atrativa também para os franceses. O português ainda é visto como uma língua de imigração (para os franceses) e não tem o prestígio de uma língua estrangeira como, por exemplo, o chinês", afirmou Anna Martins, presidente da associação Cap Magellan, em declarações à agência Lusa.

A Cap Magellan coordenou este fim de semana na Maison du Portugal, na Cidade Internacional Universitária de Paris, a segunda edição dos Estados Gerais da Lusodescedência. Esta iniciativa reuniu mais de 120 pessoas entre portugueses, cabo-verdianos, brasileiros e angolanos para encontrar estratégias de promoção do ensino do português em França e lançar uma campanha nacional para incentivar a aprendizagem desta língua.

Apesar da língua portuguesa ainda ser considerada como uma língua de imigração, a perceção tem vindo a mudar nos últimos anos. "Do ponto de vista político até nem houve grande evolução, mas nas mentalidades francesas vi as coisas a mudarem aos poucos e tenho visto ainda mais nos últimos anos com o acréscimo do turismo francês em Portugal", afirmou Paul Branquinho, professor de português na escola básica e no liceu de l'Ivroise, em Brest.

Se, por um lado, este professor tem mais alunos luso-descendentes ou do mundo lusófono até ao 9º ano, esta mudança de atitude em relação ao português já é mais visível no liceu. "É nesse público que observamos os efeitos da divulgação da cultura lusófona através de manifestações como o desporto, da canção - e aqui também falo de canções brasileiras que fazem sucesso em França - e ainda com o facto de o português ser uma instituição no nosso estabelecimento", acrescentou Paul Branquinho.

Segundo este professor, falta agora ao português "um lóbi organizado" para promover o seu ensino, contando que na sua região há já "uma estratégia de propaganda" que tem funcionado com a promoção de viagens de estudo anuais a Portugal e da divulgação da cultura portuguesa.

João Gil, coordenador da iniciativa Portugal Maior que vai realizar um inventário dos músicos profissionais portugueses e dos grupos musicais com atividade regular no estrangeiro junto das comunidades portuguesas, esteve presente neste encontro em Paris e considera que a articulação entre Portugal e as associações é a chave do sucesso da língua portuguesa.

"Estamos em contacto, articulando tudo o que é organismo público e não público de forma a comunicar a nossa identidade portuguesa, seja através da língua, seja através da música e até como já acontece com o futebol. Claro que a música é um fator de união brutal e vamos aproveitá-la para darmos um passo em frente no enorme divórcio que tem acontecido entre as partes que compõem Portugal", afirmou o músico.

Este encontro em Paris serviu também para traçar um plano de ação que deverá estar implementado em setembro de 2019, a tempo do regresso às aulas. Desde aprender a como abrir uma turma de português, discutiu-se também como comunicar a campanha do ensino desta língua, definiu-se um calendário e pensou-se como financiar uma campanha desta amplitude, sendo que uma das ideias possíveis será recorrer ao 'crowd funding', muito utilizado por diversas iniciativas cívicas em França.

Agência Lusa

A Assembleia Municipal de Bragança confirmou a posição da câmara municipal de rejeitar 10 dos 11 diplomas de transferências de competências do Governo

A proposta da câmara recebeu 55 votos favoráveis, 12 votos contra e 5 de abstenção
O autarca Hernâni Dias afirma que este foi um processo apressado, por ser ano de eleições, e visto que não se sabe qual o envelope financeiro a atribuir aos municípios defendeu que rejeitar é a atitude correcta, nesta altura.

“Não é correcto nem justo que o Governo pretenda entregar competências aos municípios sem que nós saibamos quanto o Estado está disposto a atribuir pela execução dessas competências. Os municípios não têm neste momento a mínima garantia do que vamos ter ao nível do pacote financeiro associado a estas competências”, destacou.

O autarca brigantino admite que a descentralização de competências pode ter algumas virtudes, mas entende que faltam clarificações sobre as competências a transferir.

“Na questão das estradas há responsabilidades acrescidas, quando há obras de arte, como uma ponte, quem assume a responsabilidade da segurança? O município não tem capacidade técnica para garantir essa segurança e tem de haver clarificação sobre estas matérias”, sublinhou.

Segundo Dinis Costa do PS, o envelope financeiro para esta transferência de competências está já inscrito no orçamento do Estado para 2019. O PS votou contra a proposta da câmara por entende que a autarquia de Bragança está a perder uma oportunidade.

“A câmara municipal de Bragança perde oportunidade de se alavancar a uma posição que lhe permitisse exigir financiamento e outros meios que tanta falta nos fazem. Desaproveitar uma oportunidade para iniciar um processo que envolva todos os munícipes na reivindicação do que resulta assumido pelo Estado central é um erro, porque as verbas do envelope financeiro da descentralização estão já inscritas no Orçamento do Estado para 2019”, argumentou.

O Bloco de Esquerda absteve-se, e Catarina Assis afirmou que “a transferência de competências deve ser acompanhada dos adequados meios humanos, patrimoniais e financeiros”.

Também a CDU se mostrou contra a transferência de competências, mas absteve-se porque entende que o município de Bragança deve rejeitar todas as competências. “A legislação aprovada não garante a transferência dos meios adequados, os mapas referentes ao fundo de financiamento de descentralização não constam do Orçamento do Estado para 2019, em violação da actual Lei das Finanças Locais”, salientou.

A autarquia de Bragança aceitou assim apenas o diploma que diz respeito à gestão dos imóveis do Estado devolutos.

Escrito por Brigantia
Foto: visitportugal.com

IPB assina protocolos para criar oferta formativa adaptada ao mercado de trabalho

Para potenciar o aumento do ingresso no ensino superior e criar oferta formativa mais correspondente às necessidades do mercado de trabalho, foi assinado um protocolo entre a SONAE e Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, o CCISP.
Esta foi a ideia deixada pelo presidente do CCISP, Pedro Dominguinhos. “Tem sobretudo três dimensões: trabalhar em conjunto com a SONAE para a criação de cursos de curta duração para responder a necessidades claras que a empresa tem nos próximos anos com o plano de expansão. A segunda dimensão prende-se com o desenvolvimento de projectos de investigação aplicada onde queremos é identificar necessidades concretas das várias insígnias do grupo para, através da investigação que se faz nos diferentes centros dos politécnicos, melhorar a performance, o desempenho e a inovação. A terceira dimensão pretende atrair mais jovens para o ensino superior em Portugal”.

Para intensificar a formação em contexto de trabalho, fazer planos de formação e intercâmbio de especialistas, conforme explicou o presidente do IPB, Orlando Rodrigues, além deste, houve um segundo protocolo de cooperação com sete empresas instaladas no Brigantia EcoPark das áreas das Tecnologias de Informação e Comunicação e Eletrónica. “Temos aqui no Brigantia EcoPark um conjunto de empresas da área da informática que são empresas, algumas delas, com uma grande dimensão. O que acabámos de fazer foi estabelecer uma pareceria duradoura com estas empresas que nos vai permitir formar pessoas já de acordo com as necessidades dessas empresas havendo um diálogo permanente e simultaneamente que possamos desenvolver com essas empresas projectos de inovação, de desenvolvimento. Face às mudanças globais, às necessidades de novos profissionais entendemos que temos que cada vez mais formar”.

Frisando a dinâmica que se está a criar, presente na assinatura destes protocolos esteve ainda o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor. “Por um lado, o que se passou nos últimos dois anos e nos últimos meses, de atracção de empresas na área digital, para criar novos postos de trabalho, o protocolo com as sete empresas, mostra bem a dinâmica que se está aqui a criar. Por outro lado, num contexto diferente mas complementar, a assinatura entre um grande grupo e a rede dos institutos politécnicos mostra bem a dinâmica da criação de empresas associadas ao ensino superior”.

A celebração destes protocolos aconteceu no âmbito da Semana Aberta e de Internacionalização e Competitividade do politécnico de Bragança.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

Município de Macedo aceita transferência de competências do Governo

O município de Macedo de Cavaleiros aceitou a transferência de todas as competências propostas pelo Governo nesta primeira fase.
O autarca, Benjamim Rodrigues, explica que não quiseram estar a adiar algo teriam de aceitar inevitavelmente:

“Nós aceitamos a delegação de competências,  a proposta foi levada a reunião de câmara e aprovado. Uma vez que teríamos de aceitar estas competências obrigatoriamente no prazo de dois anos, não queremos estar a prorrogar o tempo de incerteza e de expetativa, preferindo começar já a assumi-las, evitando depois ter de fazer as coisas de forma acelerada e precipitada.

Portanto, nós queremos estar já dentro do processo desde início.”

Benjamim Rodrigues considera que a descentralização de competências é uma mais-valia no sentido que vai dar às autarquias o poder de resolver processos de forma mais agilizada, uma vez que se evitam burocracias, explica:

“Sem dúvida.

Por exemplo, nós neste momento temos uma obra que está para ser iniciada há acerca de um ano na escola EB 2/3, e se nós tivéssemos a competência para o fazer já estava feita. Temos estado à espera das burocracias que tem a ver com a tutela, nomeadamente com o Ministério da Educação. Trata-se de uma única assinatura, que se não estivesse dependente do Governo a obra já poderia ter entrado curso e, se calhar, já estaria até terminada.”

Quanto aos envelopes financeiros a transferir pelo Governo para que autarquias assegurarem estas competências, embora ainda não esteja nada definido, o presidente acredita que não será um problema:

“Isso ainda não está definido. As pessoas estão na incerteza se as verbas vão ou ou não ser atribuídas de acordo com a necessidade. O que é certo é que isso é uma premissa que está assumida por parte da tutela e nós acreditamos que isso vai acontecer, portanto, resolvemos aceitar já.”

A proposta foi aprovada em reunião de câmara a semana passada, e contou com a abstenção dos três vereadores eleitos pelo PSD, que explicam ter tomado essa posição “devido a não existir um envelope financeiro para cada uma das competências”.

Os onze diplomas a transferir para as autarquias referem-se às áreas de promoção turística interna, domínio dos projetos financiados por fundos europeus e programas de captação de investimentos, estacionamento público, imóveis sem utilização, estradas, atendimento ao cidadão, habitação, proteção civil, justiça, praias e área dos jogos de fortuna e azar.

Escrito por ONDA LIVRE

Feira do Fumeiro de Montalegre gera 5,7 milhões de euros para a região

As mais de 50 mil pessoas que passaram pela 28ª edição da Feira do Fumeiro, das quais mais de 43% a estrearem-se no evento, contribuíram para uma receita na ordem dos 5,7 milhões de euros para a região.

27 de janeiro de 2019 – A 28ª edição da Feira do Fumeiro de Montalegre, que se realizou entre os dias 24 e 27 de janeiro, ficou marcada por um aumento do número de novos visitantes. Entre as 50 mil pessoas que passaram pelo evento durante 4 dias, cerca de 43% confirmaram que esta foi a primeira vez no certame. 

No total, contribuíram para uma receita de cerca de 5,7 milhões euros para a região. Só no recinto da feira foram contabilizados cerca de 3,1 milhões de euros de volume de negócios, com 82% dos visitantes a gastarem em produtos do fumeiro uma média de 92,14€ por cada dia, valores acima dos registados em 2018. 

Destaca-se que cerca de 86% dos visitantes afirmaram residir fora do concelho de Montalegre, dos quais 5% residem no estrangeiro, e a grande maioria (92%) confirmaram que se deslocaram propositadamente para visitar a Feira do Fumeiro. Para aproveitar a visita, 9% optaram por pernoitar na região, com uma estadia média de 2 noites. Os tipos de alojamento mais escolhidos foram o hotel e o turismo rural. 

No que diz respeito à avaliação da marca “Fumeiro de Montalegre” os visitantes foram unânimes na satisfação global, classificando-a com 4,5 (escala de 1 a 5). Entre os principais critérios estão a confiança transmitida pela marca (4,4), a satisfação das expectativas (4,4) e a relação qualidade preço (4,3). 

Os principais fatores de atração identificados foram a qualidade do fumeiro e a vontade de conhecer e provar os produtos típicos da região. O passa palavra (75%), a televisão, a rádio e as redes sociais (21%) foram os meios de divulgação mais influentes. 

Os produtos mais procurados e comprados foram a alheira (47%), o presunto (39%), a chouriça de carne (35%) e o salpicão (31%). Em cada um destes produtos os visitantes procuraram a qualidade (4,6), relação qualidade preço (4,5) e a origem (4,4), numa escala de 1 a 5. 

Para os visitantes, a Feira do Fumeiro de Montalegre é um importante contributo para o impacto económico para os produtores e comércio local (4,7), para potenciar a imagem, o património e a reputação do concelho (4,7) e para divulgar os produtos regionais (4,6), numa escala de 1 a 5. 

Por último, quando questionados sobre a vontade de ver os produtos com a marca “Fumeiro de Montalegre” à venda em lojas pelo país, 61% responderam afirmativamente. 

Os dados foram apresentados pelo Núcleo de Investigação do ISAG - European Business School (NIDISAG), entidade escolhida pela Associação de Produtores de Fumeiro da Terra Fria Barrosã para conduzir o Estudo de avaliação da marca “Fumeiro de Montalegre” e medição do impacto económico no território. 

Sobre o estudo de avaliação da marca “Fumeiro de Montalegre” e medição do impacto económico no território:
Estes dados divulgados resultam de uma parceria entre o ISAG – European Business School e a Associação de Produtores de Fumeiro da Terra Fria Barrosã. Em termos gerais, nos estudos, realiza-se a caraterização sociodemográfica e o perfil do visitante do evento, avalia-se o impacto direto do evento no concelho de Montalegre (no alojamento, nas deslocações, nas compras/presentes, na feira e nas atividades complementares), o impacto induzido (considerando os gastos na compra de produtos), e identificam-se os principais fatores de satisfação. Analisam-se também os principais meios de divulgação do evento, o grau de socialização dos visitantes e descreve-se o público que revelou a intenção de voltar na próxima edição.

Sobre o ISAG – European Business School
O ISAG - Instituto Superior de Administração e Gestão, também designado ISAG – European Business School, é uma instituição de ensino superior politécnico particular, criada em outubro de 1979, e localizada na cidade do Porto. A sua missão centra-se na preparação dos estudantes para o exercício de atividades profissionais altamente qualificadas, fornecendo uma formação técnica, científica e cultural de nível superior nas áreas das Ciências Empresariais, do Turismo, da Gestão Hoteleira e das Línguas Aplicadas.

Com a constante preocupação de responder às necessidades do mercado empresarial nacional e internacional, o ISAG – European Business School foi pioneiro no desenvolvimento de oferta formativa de nível superior. Atualmente, ministra 4 licenciaturas (Gestão de Empresas, Gestão Hoteleira, Relações Empresariais e Turismo), 2 mestrados (Gestão de Empresas e Direção Comercial e Marketing) e 5 Cursos Técnicos Superiores Profissionais (Restauração e Bebidas, Contabilidade e Fiscalidade, Desenvolvimento de Produtos Turísticos, Gestão de Redes Sociais, e Gestão e Comércio Internacional). Atua ainda na área da formação executiva, desenvolvendo programas de MBA, Pós-Graduação, Cursos de Especialização e Formação In-Company.

A excelência da formação superior do ISAG – European Business School assenta numa equipa de docentes e profissionais altamente qualificados, que alia a elevada formação académica à competência empresarial, mas também na vocação internacional, que confere uma dimensão global à experiência de aprendizagem dos estudantes.

in.noticiasdonordeste.pt

Foi apresentado o Guia Trás-os-Montes do Projecto Voltagem

Teve lugar na biblioteca municipal de Torre de Moncorvo no passado dia 19 de janeiro a apresentação do Guia Trás-os-Montes - Projecto Voltagem.
Na cerimónia esteve presente a vereadora do Município de Torre de Moncorvo, Piedade Meneses e a directora de inovação social da Fundação EDP, Margarida Pinto Correia.

No guia podem encontrar-se as várias intervenções de arte pública realizadas na região de Trás-os-Montes pela fundação EDP, assim como uma breve nota de cada um dos autores.

Em Torre de Moncorvo foram realizadas sete intervenções, três nos Postos de Transformação de Junqueira, Felgar e Larinho, o projecto “palavras soltas” implementado nas caixas de distribuição, a construção situada junto do Cineteatro de Torre de Moncorvo, a montagem de materiais fotográficos e o espelho colocado na parede lateral de um armazém situado na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra.

in:noticiasdonordeste.pt

O Auditório do PINTA, em Vimioso, acolheu a oficina Conhecer as Lãs Portuguesas e as Raças Autóctones

Mirandeses reúnem-se para celebrar 20 anos do reconhecimento oficial de direitos linguísticos da comunidade Mirandesa

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A IMPRENSA PERIÓDICA DE BRAGANÇA (1820-2012)

Por toda a parte se faz sentir a necessidade urgente de difundir as luzes pelas classes mais baixas, que não são as menos numerosas da Sociedade: é este um dos mais poderosos meios para melhorar a condição moral e material do homem: é este um grande problema, cuja resolução estava reservada à Imprensa, e com particularidade à Imprensa periódica; instrumento maravilhoso, que vulgarizando os conhecimentos úteis deu à Civilização moderna um caráter de universalidade e popularização, que debalde procuraríamos na  Civilização antiga.

(O Farol Transmontano, de 15 de setembro de 1845)
Crónica de Bragança, primeira tentativa de edição de um jornal em Bragança

Será difícil estudar e conhecer a História do Concelho de Bragança na Época Contemporânea sem uma consulta aos jornais que se publicaram, ainda que nenhum deles consiga, só por si, dar-nos um retrato fiel e completo do que era a realidade deste Município. A consulta da imprensa dos últimos 170 anos revela-nos múltiplas aspirações e reivindicações das populações e das elites municipal e distrital aos mais diversos níveis: comunicações e transportes, economia, questões do desenvolvimento, emigração a partir dos finais do século XIX, bem-estar das populações, educação, as grandes questões que afetavam Bragança – infraestruturas, investimentos, subsistências, etc. –, mas sobretudo, os projetos político-partidários e os confrontos entre as diferentes forças políticas, estruturadas no plano distrital enquanto emanações dos partidos nacionais.
Com a Revolução Liberal do Porto, em 1820, apesar de no ano seguinte – “o ano áureo do novo jornalismo do primeiro quartel do século XIX”, na expressão de José Tengarrinha – terem surgido 39 periódicos, a verdade é que nenhum deles foi editado em Bragança. Só em 1845, ou seja, uma década após a instauração definitiva do liberalismo em Portugal, é que surgiram condições para Bragança passar a dispor de uma publicação periódica.
Não se pense que, sob este aspeto, Bragança se encontrava muito aquém das restantes capitais de distrito. Com efeito, depois de Lisboa, Porto e Coimbra, Bragança parece ter sido a primeira Cidade do País a editar um jornal, o que só por si deixa perceber a importância que a sociedade bragançana atribuiu, desde cedo, às publicações periódicas.
Desde 1845 até aos nossos dias, foram muitos os títulos que surgiram no panorama da imprensa periódica de Bragança. O seu período áureo diz respeito às décadas de 1890-1910 e a sua época mais negra corresponde ao Estado Novo, sobretudo a partir de 1940, quando passou a existir apenas um jornal de caráter informativo, publicado sob a égide da Diocese de Bragança e Miranda, o Mensageiro de Bragança, a que se juntou, em 1955, um boletim, os Amigos de Bragança, sendo estas as únicas publicações periódicas que vieram até 1974 – outros jornais ou boletins que entretanto surgiram, efémeros e de publicação muito irregular, são de natureza estudantil ou religiosa.
Depois do 25 Abril de 1974, principalmente a partir de meados dos anos de 1980, apareceram vários títulos, embora presentemente só existam dois jornais, o Mensageiro de Bragança e o Jornal Nordeste, a revelar as dificuldades com que a imprensa periódica de Bragança se continua a debater.
Na sua grande maioria, os títulos dos jornais publicados em Bragança estiveram associados a projetos políticos, a par de alguns outros, de menor importância, de cariz académico ou religioso. Os mais importantes foram mesmo porta-vozes de projetos político-partidários, e mesmo aqueles que não se encontravam propriamente ligados a quaisquer estruturas partidárias e se diziam “independentes”, revelavam um conjunto de valores que se pode considerar próximo de uma ou outra força política.
Na análise da imprensa periódica bragançana dos séculos XIX e XX, que agora se efetua, importa ter em consideração quatro aspetos fundamentais:

• o contexto ideológico, cultural, económico, social e tecnológico em que os periódicos se inseriram pouco tem a ver com o presente, dadas as profundas transformações que se fizeram sentir em Bragança a tais níveis; as modernas tecnologias de comunicação e muito recentemente a internet, bem como os atuais meios tecnológicos quanto à composição, ilustração gráfica ou fotográfica e paginação, não são minimamente comparáveis com os meios e instrumentos existentes antes de 1974, com reflexos óbvios na recolha da informação, produção e posterior difusão;
• os índices de analfabetismo, muito mais elevados no passado do que no nosso tempo, refletem-se logicamente na escassa procura de um produto cultural como era o jornal impresso, embora saibamos que os jornais da Cidade, de tiragem modesta, fossem lidos e comentados por bastantes mais pessoas do que aquelas que os compravam ou assinavam – o jornal do barbeiro, do café, da loja, etc.;
• a imprensa escrita, até à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) reinou sem concorrentes; a rádio a partir da década de 1920 e a televisão da década de 1950 em diante, retiraram à imprensa escrita o seu monopólio, reduzindo muito do seu protagonismo;
• a liberdade de imprensa, que já na última década da Monarquia e durante a Primeira República conheceu fortes limitações, com o Estado Novo vai desaparecer, sendo estabelecido em 1933 o regime de censura prévia a todas as publicações periódicas, que se manteve até 1974.
Finalmente, e recusando nós perder tempo quanto à definição do que se entende por “imprensa periódica”, convém esclarecer que, até 1974, procurámos inventariar as publicações editadas em Bragança com caráter periódico, independentemente da sua periodicidade; os números únicos estruturados de modo jornalístico e revelando caráter informativo ou noticioso; e os boletins ou anais de feição económica, cultural, religiosa, académica ou recreativa. Este critério teve em atenção as escassas publicações editadas na capital do Nordeste Trasmontano e a inexistência de qualquer trabalho científico sobre esta problemática.

Jornais publicados no século XIX (1845-1900)

A primeira tentativa de editar um jornal em Bragança surgiu com a Crónica de Bragança, publicação manuscrita que não terá passado do número um, datada de 2 de março de 1835, no qual anunciava a sua publicação todas as semanas, à segunda-feira.
Esta Crónica de Bragança dá-nos notícia de um baile que teve lugar na Cidade, com a presença do comandante do corpo do exército de observação (o brigadeiro Jorge Avilez, cujo nome não refere) e o seu estado-maior, as peripécias que acompanharam a preparação dos trajes das senhoras (nomeadamente de uma que desfez a coberta da cama para fazer em vestido), as situações ridículas que surgiam por força do provincianismo feminino, as referências à estadia do general Avilez em Alcanizes quando fugiu da cadeia de Bragança em 1834, uma “caçada de ursos” figurada, e uma notícia relativamente a um cónego, ao seu gato e aos passarinhos das senhoras nos “anúncios” (que em qualquer jornal do tempo nunca poderia estar inserida nesta parte), bem demonstrativa, como outras que insere, de que o seu autor nunca pensou em difundir a sua “crónica”. Mas, em contrapartida, embora não seja essa a intenção, dá-nos contributos interessantes, como refere João Jacob, para o conhecimento da sociedade bragançana, da qual pouco ou nada conhecemos na primeira metade do século XIX.
A duas colunas, segue uma estrutura típica dos jornais do seu tempo, dividido em “notícias do interior”, “variedades”, “anúncios”, e “quinquilharias”, estas, sem texto, revelando, assim, que nem completo está.
Programa Editorial de O Farol Transmontano

Primeira página do 1.º número de O Século, que foi o primeiro jornal político do Distrito de Bragança

Refere ainda que se subscrevia em Bragança, na casa do redator (?), sendo o preço o correspondente ao “trabalho de copiar os números”. Ou seja, a Crónica de Bragança nunca saiu das mãos do seu autor (militar, ou algum “notável” de Bragança com reduzida formação cultural), não teve qualquer outro número, qualquer local físico de referência, e como tal, não podemos considerá-lo um periódico e muito menos, um jornal. Só uma década mais tarde, em setembro de 1845, é que surgiu o primeiro periódico bragançano, o Farol Transmontano, criado na sequência da constituição, no mesmo ano, da Sociedade Promotora dos Melhoramentos da Agricultura do Distrito de Bragança.
O Farol Transmontano, dirigido por António Ferreira de Macedo Pinto, médico em Bragança, tendo o subtítulo “Instrução e Recreio”, de periodicidade mensal, impresso na tipografia de Diogo Albino de Sá Vargas (comprometia-se o seu diretor a sair um número até ao dia 10 de cada mês), dedicou-se, sobretudo, à agricultura da região, publicando-se durante dois anos – muito provavelmente, terminou devido às convulsões políticas geradas pela Maria da Fonte e Patuleia, ou porque Macedo Pinto, em 1848, foi transferido para o Porto.
Constituiu uma verdadeira novidade para a época, uma vez que, com exceção de Lisboa, Porto e Coimbra, a Cidade de Bragança foi a primeira de todas as capitais de distrito a editar um periódico.
Em 1846-1847, na sequência da criação da Junta Governativa de Bragança, afeta ao Governo de D. Maria II, publicaram-se duas séries do Boletim Oficial de Bragança, que constituem um marco fundamental na história da imprensa da Cidade, uma vez que aí foram impressos.
Da primeira série, são conhecidos dois números, datados de 23 e 25 de junho de 1846, talvez os únicos desta primeira edição, os quais dão conta da perseguição e derrota de guerrilhas miguelistas no Distrito; e uma segunda publicação, com o mesmo título, agora em defesa do Governo cabralista, entre outubro de 1846 e 24 de novembro do mesmo ano, que em quinze números deu conta das movimentações político-militares então desenvolvidas em Trás-os-Montes.
A segunda série do Boletim Oficial de Bragança, igualmente impresso na Tipografia de Bragança, a duas colunas, editou-se entre 16 de março de 1847 e 4 de maio do mesmo ano, registando quinze números. O formato deste Boletim Oficial de Bragança, embora igual ao da primeira série, revela, sob o ponto de vista tipográfico, maior qualidade técnica. O seu autor, fiel ao Governo de D. Maria II, segundo o jornal O Nacional, foi o secretário do Governo Civil de Bragança, Diogo Albino de Sá Vargas.
Bragança e o seu Distrito tiveram, em seguida, um longo interregno quanto à publicação de jornais. Com efeito, a Regeneração, que abriu uma época de grande expansão do jornalismo em Portugal, não teve praticamente reflexos em Bragança até à década de 1880, quando a média anual de jornais, no Continente, ultrapassou os 180 – com exceção de um ou outro jornal fora do Concelho de Bragança, como o jornal que em 1876 se publicou em Carrazeda de Ansiães para fazer oposição ao Governador Civil Morais Machado, O Século, que durou apenas algumas semanas e foi o primeiro jornal político do Distrito de Bragança. Em 1878, foram publicados os Anais Agrícolas do Distrito de Bragança, que infelizmente não tiveram continuidade, mas que não podem ser considerados um jornal.
Só a partir da década de 1880, é que os periódicos vão reaparecer no Nordeste Trasmontano – dez jornais no Distrito de Bragança, cinco dos quais na Cidade de Bragança – O Invisível (1882) – de circulação muito restrita, de acordo aliás, com o título –, O Distrito de Bragança (1885), O Brigantino (1886), A Luz (1888) e O Nordeste (1888).
A tiragem destes jornais era logicamente muito pequena. Por exemplo, o Nordeste tinha 400 assinaturas. No seu início, este jornal surgiu muito dedicado “às coisas da Igreja”, mas algum tempo depois modificou-se consideravelmente, não mais noticiando “quaisquer solenidades religiosas”.
A década de 1890 continuou o período de euforia do lançamento de jornais, embora o Distrito de Bragança, entre 1894-1900, fosse o Distrito a registar o mais baixo número de tais publicações em Portugal Continental. Na Cidade de Bragança surgiram, entretanto, oito títulos – O Sudoeste (1890), Gazeta de Bragança (1892), Norte Trasmontano (1895), Voz da Pátria (1896), O Democrata (1896), O Norte Trasmontano (1897), o Boletim Diocesano de Bragança (1898) e o Baixo Clero (1899).
A Gazeta de Bragança, “genuinamente regeneradora”, não hostilizava a Igreja, embora tivesse atacado o governador do bispado, doutor António Augusto Rodrigues, na ausência de D. José Alves de Mariz, “afeiçoado à política progressista”, o que constituía para a Gazeta de Bragança “um crime de alta traição”.
O Norte Trasmontano tinha como proprietário Pires Avelanoso, empregado na repartição das obras públicas do Distrito de Bragança, “homem sem curso científico”, mas muito instruído e de “bons sentimentos religiosos”.
Era seu principal redator e colaborador o medico António Augusto Gonçalves Braga, professor de físico-químicas no Liceu de Bragança, “homem dotado de muita ilustração e de um excelente caráter”. Este jornal, segundo o bispo de Bragança, era “extremo defensor das verdades católicas”, seguindo a doutrina de Leão XIII, e com artigos “tendentes a moralizar as diversas classes sociais”, com ótima aceitação por toda a Diocese, contando mais de 900 assinaturas.
Esta lenta implantação da imprensa periódica em Bragança e seu Distrito é fruto de um numeroso conjunto de fatores, dos quais importa destacar a elevadíssima taxa de analfabetismo, que ainda ultrapassava os 80% em 1890; a escassez de tipografias para a impressão dos jornais; o fraco poder de compra da população de uma das regiões mais pobres do País; a ausência de meios de comunicação; os custos com os portes do correio; e a débil publicidade de uma economia praticamente estagnada.
Primeira página do Norte Trasmontano
Primeira página do 1.º número de O Distrito de Bragança

Sintetizando, podemos dizer que, entre 1845-1899, o Concelho de Bragança foi aquele que viu nascer, a nível distrital, o maior número de jornais, destacando-se nitidamente dos concelhos de Mirandela – cinco jornais – e Moncorvo – quatro jornais –, aqueles que imediatamente lhe vêm a seguir, mas que, mesmo em conjunto, não igualam a imprensa periódica de Bragança. Sublinhe-se ainda o aparecimento, em Bragança, do primeiro jornal republicano do Distrito, em 1896, como já dissemos, A Voz da Pátria.

Título: Bragança na Época Contemporânea (1820-2012)
Edição: Câmara Municipal de Bragança
Investigação: CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
Coordenação: Fernando de Sousa