Éramos uns 20.
Continuamos a ser PEQUENOS!
Lá fui a correr para ajudar. Quer-me parecer que mais do que por convicção, já é por vício.
Éramos uns 20.
A "manifestação/concentração" na Praça da Sé começava às 17 horas e terminava às 19.
Passaram a ser 19 manifestantes por que eu, depois de fazer um direto para a página do facebook do Memórias, fui beber um fino ao Flórida. Belo fino e tirado pela minha filha melhor me soube. Para que conste... PAGUEI, como sempre.
Passados uns 15 minutos voltei à Praça da Sé.
Já só éramos uns 13 ou 14.
A nossa Bragança tem demasiados intelectuais do facebook e poucos cidadãos.
Provavelmente, a dificuldade em mobilizar, seja para que "coisa" for em Bragança, com exceção dos "mete-nojo" dos porta-bandeiras dos partidos políticos, assessorados pelas "madonas" que dão os beijinhos e que parecem completamente ganzadas e histéricas e, certamente, à procura de um emprego ou de um tacho para elas ou para os filhos, na máquina do estado... dizia eu, a culpa será (É) da incapacidade, ou desinteresse, do movimento associativo.
Dos dirigentes associativos OBVIAMENTE!
Outrora, as Associações tentavam promover atividades que fossem ao encontro do interesse, ou das necessidades, dos cidadãos. Outras Associações eram movimentos com poucos "militantes" que lutavam contra adamastores.
Esses adamastores enchem AGORA a boca dos políticos de todos os partidos.
Mas... não era disso que eu queria falar.
Onde estava hoje o movimento associativo de Bragança?
As Alterações Climáticas não atingem Bragança? Bragança é imune ao que está a acontecer com o Planeta?
Onde estava a QUERCUS? Onde estava a capacidade de mobilização do IPB? Onde estava a Associação de Caminheiros, Enzonas? Onde estava a Câmara Municipal de Bragança? O município deveria ter-se feito representar. Onde estava a Associação ZERO? Esta ZERO só conhece Bragança para receber a nota GORDA do pseudo trabalho da Pegada Ecológica?
Onde estavam as associações desportivas e culturais? Onde estavam os grupos de teatro e as associações recreativas? E os ciclistas que enchem os vídeos das festanças? Esses, depois, vão pedalar para Marte com os Caretos a tirar os furos dos pneus.
Onde estavam as escolas, as instituições ligadas ao ambiente?
Onde estavam as "tropas" os "gajos" que têm TACHOS ligados ao ambiente?
ONDE ESTAVA BRAGANÇA?
Por que isto, assim, faz lembrar a anedota, faço um apelo... ORGANIZEM-SE!
Fui beber um tinto ali ao lado. Fiz bem. Boa pinga. Abracei eternos amigos, relembrámos tempos idos e passei um bom bocado.
A caminho de casa, passei pelas obras da Avenida João da Cruz. Não é tempo de comentar...
Entretanto vinha a pensar que as Associações de Bragança quase só servem para promover atividades umbilicais e para se candidatarem aos subsídios das entidades, que os podem atribuir, ... nomeadamente a Câmara Municipal de Bragança.
BRAGANÇA É UM CASO À PARTE. AQUI, NÃO HÁ ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS.
Mais que não seja, mandam-se fazer umas rezas na Serra para mandar chover e para mandar parar a chuva.
RESULTA!
O centralão, em Lisboa, não nos liga nenhuma por que sabe que, para além de sermos POUCOS, somos INOFENSIVOS! Mesmo assim, continuamos a dar salpicões a quem nos tira TUDO. Tudo, até a esperança de um futuro melhor para as gerações vindouras!
A minha vénia às duas dezenas de jovens que marcaram presença.
NADA DE DESISTIR! Pelo menos eu, enquanto puder, marcarei presença ao vosso lado!
... já nem sei se por convicção... ou por vício...
HM
sábado, 28 de setembro de 2019
Autarquia de Vinhais quer reverter situação da distribuição dos CTT
O Centro de Entrega Postal de Bragança foi remodelado e passa agora a agregar a distribuição do concelho vizinho de Vinhais.
Esta decisão apanhou de surpresa o município de Vinhais que promete tomar todas as medidas para reverter a situação.
Esta decisão apanhou de surpresa o município de Vinhais que promete tomar todas as medidas para reverter a situação.
Museu de Miranda do Douro revela 12 pinturas atribuídas ao flamengo Pieter Balten
O Museu da Terra de Miranda recebe, a 11 de outubro, a exposição dedicada ao "Calendário da Sé de Miranda do Douro", conjunto de 12 pinturas sobre madeira, datadas de 1580, disse hoje à Lusa a diretora da unidade museológica.
De acordo com investigação recente, esta série surge agora atribuída ao pintor flamengo Pieter Balten (Antuérpia, 1527-1584), contemporâneo de Pieter Bruegel, o Velho.
"Os retratos dos Meses da Sé de Miranda do Douro: uma Rara Alegoria Pintada em Antuérpia por Pieter Balten", título integral da exposição, constituem "uma espécie de calendário com cerca de 440 anos, que agora serão mostrados ao público pela primeira vez", disse a diretora do Museu da Terra de Miranda (MTM), Celina Pinto, à agência Lusa.
Para a responsável, estes quadros "têm uma grande relevância artística", sendo mesmo um dos elementos mais importantes do espólio da Concatedral de Miranda do Douro, no distrito de Bragança.
Os quadros foram encomendados em Antuérpia, na Flandres (Bélgica), em 1580, pelo 5.º bispo da diocese de Miranda do Douro, Jerónimo de Meneses, sendo seu autor o pintor, gravador e ilustrador Pieter Balten, de acordo com a recente investigação do historiador de arte Vitor Serrão.
Balten encontra-se representado em coleções como a da National Gallery, em Washington, e do Metropolitan Museum, em Nova Iorque, e os registos da galeria belga De Jonckheere, especializada na pintura flamenga da Renascença, coloca-o a par de Pieter Bruegel, o Velho, na guilda dos mestres de Antuérpia, com quem terá trabalhado no tríptico da igreja de S. Rumbold, em Mechelen Malines, nesta região da Flandres.
"Trata-se de uma série pictórica conhecida como 'O Calendário da Sé de Miranda do Douro', um extraordinário conjunto de doze pequenos quadros pintados sobre madeira, representando, de forma intimista, o quotidiano rural, e evocando o ciclo dos meses do ano", explicou Celina Pinto à agência Lusa.
Não opinião da diretora do MTM, o conhecimento académico do "Calendário" é relativamente inédito em muitos aspetos, tendo sido agora revelado por Vítor Serrão, que estabelece o novo patamar de valor artístico, histórico e museológico da obra.
"Este conhecimento está alicerçado tanto na grande qualidade intrínseca das obras, como pela exemplaridade e singularidade com que se inserem no contexto histórico nacional, da região de Trás-os-Montes e, em particular, da vitalidade cultural da sede do bispado de Miranda do Douro", sublinhou a responsável.
Segundo Celina Pinto, a divulgação deste conjunto pictórico torna-se agora possível graças ao programa NORTEAR que visa o desenvolvimento cultural e patrimonial, de âmbito transfronteiriço, envolvendo instituições portuguesas e espanholas.
Nestas entidades estão o Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial - Galiza e Norte de Portugal (AECT-GNP), a Direção Regional de Cultura do Norte, em articulação com o Museu da Terra de Miranda e a Concatedral de Miranda do Douro, mais a Xunta de Galicia.
O chamado "Calendário da Sé de Miranda do Douro" "é um verdadeiro tesouro que, quase milagrosamente, chegou íntegro aos nossos dias e num notáve estado de conservação", indicou Celina Pinto.
Pela sua rara integridade, autoria, antiguidade, proveniência e estado de conservação, o "Calendário" é agora (re)descoberto e trazido a uma nova luz de conhecimento pelo historiador Vítor Serrão, com a atribuição da sua autoria a Pieter Balten.
O pintor e gravador foi um protagonistas na afirmação da pintura flamenga do século XVI, com as suas cenas do quotidiano, à semelhança do seu contemporâneo Pieter Bruegel, o Velho, e dos seus sucessores, Jan e Pieter Bruguel, o Jovem, pintor do Ducado de Brabante, destacado também pela reprodução dos quadros de seu pai.
Além da exposição deste 12 quadros, que estavam longe do olhar do público, vai ser editado um catálogo para melhor se perceber este conjunto de obras.
O conjunto de pinturas dos "Meses", outra designação pela qual é conhecido o "Calendário", desde há muito que decora as paredes da sacristia da Sé de Miranda do Douro, mas deverá ser originário das coleções artísticas outrora conservadas no Paço Episcopal, anexo à Catedral de Miranda, um "impressionante palácio" desaparecido em meados do século XX, de que subsiste apenas a arcaria do claustro.
FYP // MAG
Lusa/fim
De acordo com investigação recente, esta série surge agora atribuída ao pintor flamengo Pieter Balten (Antuérpia, 1527-1584), contemporâneo de Pieter Bruegel, o Velho.
"Os retratos dos Meses da Sé de Miranda do Douro: uma Rara Alegoria Pintada em Antuérpia por Pieter Balten", título integral da exposição, constituem "uma espécie de calendário com cerca de 440 anos, que agora serão mostrados ao público pela primeira vez", disse a diretora do Museu da Terra de Miranda (MTM), Celina Pinto, à agência Lusa.
Para a responsável, estes quadros "têm uma grande relevância artística", sendo mesmo um dos elementos mais importantes do espólio da Concatedral de Miranda do Douro, no distrito de Bragança.
Os quadros foram encomendados em Antuérpia, na Flandres (Bélgica), em 1580, pelo 5.º bispo da diocese de Miranda do Douro, Jerónimo de Meneses, sendo seu autor o pintor, gravador e ilustrador Pieter Balten, de acordo com a recente investigação do historiador de arte Vitor Serrão.
Balten encontra-se representado em coleções como a da National Gallery, em Washington, e do Metropolitan Museum, em Nova Iorque, e os registos da galeria belga De Jonckheere, especializada na pintura flamenga da Renascença, coloca-o a par de Pieter Bruegel, o Velho, na guilda dos mestres de Antuérpia, com quem terá trabalhado no tríptico da igreja de S. Rumbold, em Mechelen Malines, nesta região da Flandres.
"Trata-se de uma série pictórica conhecida como 'O Calendário da Sé de Miranda do Douro', um extraordinário conjunto de doze pequenos quadros pintados sobre madeira, representando, de forma intimista, o quotidiano rural, e evocando o ciclo dos meses do ano", explicou Celina Pinto à agência Lusa.
Não opinião da diretora do MTM, o conhecimento académico do "Calendário" é relativamente inédito em muitos aspetos, tendo sido agora revelado por Vítor Serrão, que estabelece o novo patamar de valor artístico, histórico e museológico da obra.
"Este conhecimento está alicerçado tanto na grande qualidade intrínseca das obras, como pela exemplaridade e singularidade com que se inserem no contexto histórico nacional, da região de Trás-os-Montes e, em particular, da vitalidade cultural da sede do bispado de Miranda do Douro", sublinhou a responsável.
Segundo Celina Pinto, a divulgação deste conjunto pictórico torna-se agora possível graças ao programa NORTEAR que visa o desenvolvimento cultural e patrimonial, de âmbito transfronteiriço, envolvendo instituições portuguesas e espanholas.
Nestas entidades estão o Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial - Galiza e Norte de Portugal (AECT-GNP), a Direção Regional de Cultura do Norte, em articulação com o Museu da Terra de Miranda e a Concatedral de Miranda do Douro, mais a Xunta de Galicia.
O chamado "Calendário da Sé de Miranda do Douro" "é um verdadeiro tesouro que, quase milagrosamente, chegou íntegro aos nossos dias e num notáve estado de conservação", indicou Celina Pinto.
Pela sua rara integridade, autoria, antiguidade, proveniência e estado de conservação, o "Calendário" é agora (re)descoberto e trazido a uma nova luz de conhecimento pelo historiador Vítor Serrão, com a atribuição da sua autoria a Pieter Balten.
O pintor e gravador foi um protagonistas na afirmação da pintura flamenga do século XVI, com as suas cenas do quotidiano, à semelhança do seu contemporâneo Pieter Bruegel, o Velho, e dos seus sucessores, Jan e Pieter Bruguel, o Jovem, pintor do Ducado de Brabante, destacado também pela reprodução dos quadros de seu pai.
Além da exposição deste 12 quadros, que estavam longe do olhar do público, vai ser editado um catálogo para melhor se perceber este conjunto de obras.
O conjunto de pinturas dos "Meses", outra designação pela qual é conhecido o "Calendário", desde há muito que decora as paredes da sacristia da Sé de Miranda do Douro, mas deverá ser originário das coleções artísticas outrora conservadas no Paço Episcopal, anexo à Catedral de Miranda, um "impressionante palácio" desaparecido em meados do século XX, de que subsiste apenas a arcaria do claustro.
FYP // MAG
Lusa/fim
ETELVINO, O CAMINHÃO DE MANDIOCA E O GOVERNADOR
Por: Antônio Carlos Affonso dos Santos
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..")
São Paulo - Brasil
O senhor Etelvino era um homem mau. Até sua mulher e filhos eram vítimas constantes dos maus tratos, imaginem os outros! E não parava por ai. Ele maltratava também os colonos da fazenda da qual era dono, além dos animais. Ele contraíra tifo, e por causa dessa doença mal curada tinha frequentes acessos de fraqueza mental e física e não raro desmaiava nessas ocasiões. Por muitas vezes o doutor Fernando aconselhou-o a se aposentar; deixar a fazenda com os empregados e viajar para a Europa. Às vezes até dizia: o senhor ainda vai morrer por um nada; ao que ele respondia: dessa doença eu não morro! E ele era durão mesmo. Superada cada nova crise, o Etelvino punha-se de pé e gritava ordens e palavrões, contra tudo e contra todos.
A fazenda do Etelvino produzia um pouco de um tudo: quarenta vacas holandesas e parideiras forneciam o leite que, além de amamentar todas as famílias da fazenda ainda transformavam-se em queijos, manteigas e doces de leite; vinte e cinco porcos no mangueirão e oito nas cevas eram garantia de fartura de pernil defumado, linguiça de paleta, toucinho, banha e carne, que depois de fritos em enormes tachos, eram armazenados em latas de dezoito litros devidamente protegidas, e cobertas de gordura de porco, o que fazia com que por períodos de até um ano a família o Etelvino tivesse sempre à mesa, quando bem o quisesse, fartos e suculentas suãs, postas de pernil, lombinho ou costela, os quais curtidos nas latas pareciam frescos, como se a matança houvera sido feita no mesmo dia! A fazenda tinha, cultivados, cem mil pés de café produzindo as variedades “arábico e bourbon”, sendo esse cultivo aquele que realmente sustentava a fazenda e seus empregados. Tinha ainda três tanques para manejo e dois de engorda de peixes de rio, principalmente pintados e piaparas. Essa atividade, nova paixão do Etelvino, ocupava dez colonos treinados para esse trabalho.
O Etelvino, embora não demonstrasse, pois era rídico, possuía uma boa poupança no banco e na Caixa Econômica, e ainda era sócio do único posto de gasolina do vilarejo. À questão de cinco anos, no entanto, meteu-se numa cooperativa para construção de uma usina de álcool para uso em automóveis. No ralo da usina de álcool ele foi injetando seu capital. Primeiro parou a criação de peixes para dedicar-se ao plantio da mandioca, que seria usada na futura usina. Por falta de uma grande área para produzir mandioca em quantidade suficiente para o que seria o consumo da usina, e não querendo diminuir as pastagens para o gado, mandou erradicar vinte mil pés de café, com a desculpa de que o preço internacional estava baixo. Nesses quatro alqueires de terra ele plantou mandioca. E como colheu o tubérculo! Como a usina nunca que ficava pronta, o Etelvino exigiu que a fazenda tivesse que consumir toda aquela mandioca! Era mandioca com melado, com rapadura, com açúcar, cozida, frita, com churrasco, com manteiga, com frango; eram bolos, broas, bolachas, bijus, mingaus e bobós. E dá-lhe mandioca! Passaram a fazer farinha, alimentar os porcos cevados e do mangueirão. Fatiadas, eram servidas ao gado de leite; e dá-lhe mandioca! E nada de usina! E dá-lhe mandioca! O fato é que sobrava mandioca!
Nesse ínterim, finalmente a usina ficou pronta. Mesmo assim o Etelvino continuava com as crises da doença! As crises que eram mensais passaram a ser semanais e, à medida que a usina ia sendo concluída, passaram a ser diárias. Ele começou a ter vertigens no jipe que dirigia, na charrete, no cavalo, e até quando andava a pé! E cada vez as crises eram mais duradouras, que também precisavam de mais tempo para se restabelecer. Desse modo, parou de dirigir a fazenda com “mão-de-ferro”, e o comando da fazenda passou para o Izaltino, pessoa tão bondosa quanto supersticiosa, o qual, segundo alguns, se transformava em lobisomem nas noites de lua cheia. Essa crença era devido ao fato de que o Izaltino, muitas vezes, aparecia de manhã muito pálido, olhos fundos, boca entre verde e amarelada, além das roupas sujas com penas e bosta de galinhas. Dizia-se que o patrão só havia permitido que ele administrasse a fazenda porque, tinha medo de assombrações, aparições, fantasmas e, principalmente, morria de medo de espíritos e almas penadas; sentia vertigens só em pensar.
Um belo dia, o Etelvino recebeu a visita do secretário do governador, ocasião em que foi informado da data de inauguração da usina. Para surpresa e desespero do Etelvino, ficou sabendo que a inauguração seria dali a duas semanas; e o governador em pele-e-osso viria para o evento. O secretário até pediu ao Etelvino que, em caso de discurso, deixasse que o governador “desse a última palavra”. Em seguida, o secretário disse que, a pedido do próprio governador, que o Etelvino abarrotasse a usina de mandioca, pois o governador havia confidenciado a ele que na inauguração da usina ele próprio queria “dar a partida”, para consolidar o discurso que agora iria sobrar energia elétrica e álcool, até para exportar! Dessa maneira, asseverou o secretário, o governador não arreda pé da usina até que ao menos um litro de álcool fosse produzido, e queria mostrar para a imprensa falada, escrita e televisada, que os estoques de mandioca – matéria prima fundamental era suficiente para produzir milhões de litros.
Tão logo o secretário foi embora, o Etelvino começou a dar ordens; mas foi informado pelo Izaltino que havia muito pouca mandioca para o evento; portanto se fossem atender ao pedido do governador, teriam que mandar buscar mandioca de outros rincões, e a peso de ouro, pois teriam que gastar com o combustível, diárias e hospedagens dos colonos motoristas que fariam o transporte; o Etelvino teve três convulsões seguidas, e nos intervalos entre uma e outra, amaldiçoou “o lobisomem” por não ter tido a ideia de economizar mandioca. O Izaltino rebateu às pragas, lançando uma de volta ao patrão, dizendo que mesmo depois de morto viria buscar o Etelvino para acompanhá-lo até os quintos dos infernos, onde era o lugar dele!. De tão transtornado, o Izaltino teve uma síncope e morreu ali mesmo, estatelando-se aos pés do Etelvino, agarrado às suas botas, que desesperado, tentava livrar-se daquelas mãos demoníacas. Depois do enterro do administrador, Etelvino passou a comandar as partidas de mandioca até a usina. Passados dez dias da visita do secretário do governador, recebeu deste um ultimato: no máximo em dois dias o depósito deveria estar pleno, caso contrário, aquela usina nunca mais seria posta em funcionamento, e que o “fogo morto” da usina não poderia ser pretexto para o Etelvino não pagar os polpudos empréstimos que havia tomado do governo, e sem nenhum juro. O governador avisou que se alguém fosse ficar mal com a imprensa, esse alguém seria o Etelvino e de qualquer maneira ele, o governador, do alto do seu posto, deveria sempre dar a versão final de qualquer notícia para a imprensa! Qualquer que fosse o comentário, o governador seria o arauto. Que todos os demais se calassem. O Etelvino reuniu todos os colonos e deu ordens severas: qualquer colono que não colaborasse com afinco ou que não trouxesse mandioca vinte e quatro horas seguidas, seria demitido! Os colonos começaram a correr por todos os lados buscando mandioca para abastecer a usina. Por obra do destino o Etelvino, ele mesmo, pegou um velho caminhão e foi buscar um carregamento de mandioca no Mercado Central da sede da Comarca.
.........................................................................................................
Entrementes, no vilarejo entre a sede da Comarca e a fazenda do Etelvino, acontecia a festa das “bodas de ouro” do casal Agripina e Izaltino, este, velho e conhecido boêmio da cidade. Mas, apesar dos deslizes do marido, Agripina sabia como levar a casa e os filhos, pode-se dizer que vivem muito bem! Embora o velho Izaltino não desse a suportação moral necessária para os dez filhos, dava-lhes o sustento e algum estudo. Todas as outras necessidades, inclusive as ausências do Izaltino e sua presença patriarcal e a cobrança para com os estudos, eram feitas pela velha professora aposentada, Agripina, que com bondade e paciência, ocultava dos filhos os muitos “casos” do marido boêmio. No dia da festa das bodas de ouro, com orgulho, Agripina e Izaltino confirmaram na igreja, os votos do casamento de há cinquenta anos. Ao lado os dez filhos com outros dez genros e noras, davam o tom festivo. Como presente, os filhos deram aos pais o jipe americano de capota conversível, sonho de consumo do casal. E, para curtirem o presente tão sonhado quanto inesperado, o casal resolveu ir até à sede da comarca, onde seriam hóspedes por dois dias do “Grande Hotel”. Tão logo chegou a noite, despediram-se dos entes queridos e, junto com duas maletas, aboletaram-se no jipe “deles”, sob os aplausos de todos. As luzes de vapor de mercúrio que iluminavam o acesso da Avenida principal com a Rodovia Anhanguera, mostrou a felicidade do casal. O jipe foi até o retorno, passou sob a rodovia, fizeram conversão à esquerda e aceleraram rumo à sede da comarca, para viverem belos momentos.
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O Etelvino terminou de carregar o velho caminhão no Mercado Central, quando as primeiras luzes da sede da Comarca começaram a acender. (A noite chegara sobre a sede da Comarca com a devida aprovação e benção da Câmara Municipal, afinal se a noite não chegasse, o que seria da iluminação pública à gás de mercúrio, caríssima obra que resultou de muitas discussões na casa de leis e polêmica no “Pasquim” local). Quanto ao Etelvino, cansado, porém feliz de naquele dia não ter tido nenhum desmaio, instalou-se na cabine do caminhão, deu partida e entrou vagarosamente no acesso da Rodovia Anhanguera. Mal entrou na rodovia, começou uma fina chuva. O barulho da água da chuva sob os pneus e sobre a capota da cabine era um convite para dormir ao volante. O ar frio que entrou, de repente, na cabine fez com que o Etelvino arrepiasse dos pés à cabeça. Num átimo, lembrou-se do empregado recém-falecido, o Izaltino, que prometeu infernizá-lo depois de morto. O vento do caminhão ao passar pela estrada provocava um redemoinho, que contorciam e dobravam os capinzais à sua passagem. O barulho nos capinzais começou a causar medo ao Etelvino. Por vezes pensou ouvir a voz do Izaltino gritando:
- Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino. Pare este caminhão.
O Etelvino fechou e abriu os solhos com força. Por certo estava muito cansado e ansioso. Afinal a usina de álcool, pela qual tanto lutara, seria inaugurada no dia seguinte e ele seria homenageado pelo governador em pessoa, pelos seus esforços na construção daquela usina. Seria reconhecido por todos, com fotos nos jornais, entrevistas em rádio e televisão, onde seria dito o quanto ele trabalhara para que a usina se instalasse naquele lugar e em nenhum outro. É certo que ele doara o terreno e prometera que ainda forneceria toda a matéria prima que a usina necessitasse: a mandioca! Ele como que via sua foto nos jornais ao lado do governador, com manchetes enaltecendo sua atuação. Voltou à realidade: o frio que passava pelas frestas dos vidros, ao invés de animá-lo, antes, aumentava o sono. N a escuridão da estrada, os capinzais deitando-se à passagem do caminhão e aquela voz:
- Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino. Pare este caminhão!
Quando se aproximou dos pontilhões do sistema viário, pouco antes do vilarejo, a chuva tornou-se torrencial. Ele não via mais que trinta metros à frente; o limpador do para-brisa na última velocidade. O aguaceiro distorcia as imagens; as luzes desenhavam monstros espectrais; e o Etelvino morrendo de medo. Ao passar sob o pontilhão principal do sistema viário, no cruzamento com uma variante da estrada, ouviu um baque surdo na carroçaria do caminhão. Ele prestou atenção, mas não ouviu mais nada. –Deve ser impressão minha, pensou; e seguiu adiante. Mais um quilômetro; a chuva amainou e ele já sinalizava para entrar no a- cesso da usina. Aquela seria a última partida de mandioca que ele traria por sus próprias mãos. Depois da inauguração, queria voos mais altos: poderia ser vereador ou prefeito, ou quem sabe secretário de governo? A placa ao lado da estrada de acesso da usina indicava que faltavam cinco quilômetros. Nesse instante, em que a chuva já não caía e que uma misteriosa névoa havia invadido a estreita estrada de terra, o Etelvino deu um grito horripilante.
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Tão logo o Izaltino e Agripina entraram na rodovia em direção à sede da Comarca, o tempo fechou rápido. Rajadas de vento de mais de oitenta quilômetros por hora irromperam, trazendo consigo uma chuva torrencial. Debaixo de chuva, Agripina e Izaltino levantaram a capota do jipe, que não sabiam ser tão difícil. Tudo dentro do jipe estava molhado. A roupa que o casal vestia, estava colada à pele. De tão surpreso com a rapidez da chuva, da capota aberta e da roupa molhada, nem se falavam. De quando em quando se via a luz de um ou outro carro vindo em sentido contrário. No entanto o vidro do pára--brisas ficou totalmente embaçado. E começavam a sentir frio. Ela, para levantar o astral do querido Izaltino, abre a sua maleta e de lá retira uma garrafa de vinho do Porto, que ela secretamente ocultara. Ele, maravilhado com o fato, tomou um longo trago, findo o qual, ela tenta recolocar na maleta, no que é impedido por ele, que toma mais três ou quatro goles. Agripina vê, com pesar, que a garrafa já está pela metade. E começa a discutir, enquanto o álcool do vinho do Porto começa a atuar. E ele, embora pouco possa ver em meio à borrasca, finca o pé no acelerador, enquanto ela suplica: ele ri, ri muito, ri alto, e resolve recolher, de novo, a capota do jipe! Ele bêbado e feliz, quer sentir aquela chuva na cara, pouco se importando com ela. E mais acelera, e mais ri, até que ao passar num pontilhão por sobre o sistema viário, justamente na junção com a estrada que vem da sede da Comarca, ele bate violentamente na amurada, no exato momento em que para sentir maior sensação, dirigia “de pé”. Um estrondo se ouve, e os dois passageiros do jipe são atirados para fora. Agripina estatela-se no meio da rodovia, nariz sangrando, e desmaia.
O Izaltino foi jogado por cima da amurada e vai caindo na pista de baixo, numa altura de dez metros. Eis, porém que, antes de esborrachar-se no asfalto da pista que está abaixo, passa o velho caminhão do Etelvino, carregado d e mandiocas. Izaltino desfalece e permanece desmaiado por cerca de dez minutos. Agora sóbrio, desespera-se ao ver-se só, sem Agripina, em meio a mandiocas enlameadas. Ergue-se tanto quanto pode, e nota que há somente uma pessoa na cabine do caminhão. Olha à volta: a estreita estrada de terra está envolta por uma névoa espessa. Pensa em saltar do caminhão em movimento, mas lembra-se que já tem mais de setenta anos e, mesmo em baixa velocidade, um tombo pode significar a morte. Mas ele quer saber da Agripina! Não tem a menor ideia de como foi parar no velho caminhão de mandiocas. Então, resoluto, arrasta-se por sobre as mandiocas enlameadas; ele próprio um barro só, da cabeça aos pés. Desesperado grita para o caminhão pare. Não tem resposta. Então, arrasta-se até o mais próximo possível da cabine, e grita a plenos pulmões:
- Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino! Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino!
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O grito de horror do velho Izaltino foi seguido de outro, tétrico, do Etelvino. –Meu Deus, pensou o Etelvino: o Izaltino veio me buscar. Vou morrer e vou com ele “pros infernos”. O caminhão seguia lento; desesperado na carroçaria, o Izaltino deu meia dúzia de murros na cobertura da cabine, gritou, gritou mais de cem vezes: - pare este caminhão! Aqui é o Izaltino. Pare este caminhão!
Paralisado de terror, Etelvino freia o caminhão automaticamente, atônito, corpo gelado. Izaltino então, não sem muito esforço, desce do caminhão e caminha até a cabine. Bate na porta, chama; ninguém responde! Sobe então no estribo e olha. Ao volante o Etelvino paralisado, olho arregalado e vítreo. Na face, nenhuma reação! Com muito custo o Izaltino entra na cabine pela outra porta e incita o Etelvino com gritos primeiro; depois com xingos e pescoções. Só quando o dia já amanhecia é que aos poucos o Etelvino voltou a si. Primeiramente movimentou uma das mãos, depois os joelhos das duas pernas, e mexeu os olhos. Estava pálido e aterrorizado. Mais alguns instantes, e começa a chorar, rosto apoiado nos joelhos. Izaltino o incita mais e ele então se apruma e olha. A visão daquele senhor alquebrado, coberto de lama preta dos pés à cabeça; onde até no rosto tem tabletes de lama, é aterrorizante. Etelvino então balbucia:
- Quem é você?
........................................................................................................
Agripina volta a si com gritos de pessoas o seu redor:
- Ei dona, acorde. Ei dona! Ei.... !!!!!!!!!!!!
Ela abre os olhos. Está deitada no acostamento da rodovia. Sob a cabeça, a guisa de travesseiro, uma mochila ou embornal; provavelmente de uma daquelas pessoas. Ao seu lado, no acostamento um velho ônibus estacionado, que não deixa dúvidas: são boias-frias. Provavelmente, pensou, pararam na rodovia para socorrê-la. E era isso mesmo! Aos poucos sua consci6encia foi voltando. Estava toda molhada. Lembrou-se da festa, do jipe que era presente dos filhos, e do marido. Ai então falou:
- Onde está o Izaltino?
Um dos homens que a havia socorrido disse:
-Não tem mais ninguém não, dona!
Agripina visualizou o jipe a poucos metros. Cambaleante, foi até lá e pode constatar que nada mais havia no jipe além de duas maletas e uma garrafa de vinho do Porto, totalmente vazia. Ela desesperou-se e gritou a plenos pulmões:
- I –Z- A- L- T -I -N -OOOOOOOOO!
O silêncio foi a resposta! Um pouco mais calma, Agripina relatou às pessoas que ali estavam, o quê ocorrera. Agora era essencial encontrar o Izaltino. Procuraram-no nas moitas dos capinzais ao longo e ao rés da rodovia, numa plantação de laranjas, em cima e em baixo do pontilhão. Tudo foi vasculhado. Nada! Resolveram então levar a Agripina para o vilarejo e comunicar aos filhos que o velho Izaltino havia desaparecido.
...........................................................................................................
Tão logo o Etelvino perguntou quem era aquela pessoa enlameada, o “homem das mandiocas” respondeu:
- Izaltino, seu criado! O senhor não está bem e vou levá-lo.
Etelvino sentiu chegado o momento final. Começou por tremer os lábios, depois os dentes, ao final todo o corpo tremia; e mais uma convulsão tomou o corpo. A diferença das outras convulsões é que, desta vez, era acompanhada por dores no peito, além de uma taquicardia. Os olhos turvos do Etelvino nem chegaram a prestar atenção que no retrovisor do velho caminhão alguns pontos escuros mostravam os carros embandeirados com o nome do governador e do partido; era o governador que chegava em carreata, para inauguração da usina. Os carros aproximaram-se em baixa velocidade. O próprio governador e seu secretariado socorreram-no e acompanharam aquelas que seriam as últimas horas de vida do Etelvino. Um carro foi designado para levar o Izaltino, ao passo que uma perua equipada com equipamentos de primeiros socorros e pequena sala de cirurgia que acompanhava a comitiva, foi colocada à disposição. Na parte lateral da perua estava escrito: “Unidade Móvel de Saúde”. Nesta perua o Etelvino foi conduzido para casa, conforme desejo do governador que, aliás, convidou a imprensa que os acompanhava para que o fotografassem ao lado do moribundo, que “Ele haveria de transformar em mártir e herói”. Foram muitas as fotos, inclusive uma em que o governador agachado junto ao Etelvino, em meio à parafernália hospitalar, esforçava-se para ouvir aquelas que seriam as últimas palavras do moribundo. De fato, quando o governador levantou-se, o Etelvino já havia partido deste mundo.
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A usina foi inaugurada, mesmo com os contratempos, pois o governador julgava que estava lucrando politicamente com os fatos. Mas, após o discurso de inauguração da usina, durante o coquetel em que o governador tomou o maior porre, os jornalistas indagaram-no, sobre quais teriam sido as últimas palavras do Etelvino, o mito; que dava nome à usina. O governador, muito emocionado, garantiu que ouvira as últimas palavras daquele herói que “dignificava o povo paulista”. O Etelvino teria dito, não sem muito esforço:
- Governador, tire o pé da mangueira de oxigênio!
Autor: Antônio Carlos Affonso dos Santos
Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. Nascido em julho de 1946, é natural da zona rural de Cravinhos-SP (Brasil). Nascido e criado numa fazenda de café; vive na cidade de São Paulo (Brasil), desde os 13. Formou-se em Física, trabalhou até recentemente no ramo de engenharia, especialista em equipamentos petroquímicos. É escritor amador diletante, cronista, poeta, contista e pesquisador do dialeto “Caipirês”. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos” e quatro em antologias, junto com outros escritores amadores brasileiros. São seus livros: “Pequeno Dicionário de Caipirês (recém reciclado e aguardando interesse de editoras), o livro infantil “A Sementinha”, um livro de contos, poesias e crônicas “Fragmentos” e o romance infanto-juvenil “Y2K: samba lelê”.
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..")
São Paulo - Brasil
O senhor Etelvino era um homem mau. Até sua mulher e filhos eram vítimas constantes dos maus tratos, imaginem os outros! E não parava por ai. Ele maltratava também os colonos da fazenda da qual era dono, além dos animais. Ele contraíra tifo, e por causa dessa doença mal curada tinha frequentes acessos de fraqueza mental e física e não raro desmaiava nessas ocasiões. Por muitas vezes o doutor Fernando aconselhou-o a se aposentar; deixar a fazenda com os empregados e viajar para a Europa. Às vezes até dizia: o senhor ainda vai morrer por um nada; ao que ele respondia: dessa doença eu não morro! E ele era durão mesmo. Superada cada nova crise, o Etelvino punha-se de pé e gritava ordens e palavrões, contra tudo e contra todos.
A fazenda do Etelvino produzia um pouco de um tudo: quarenta vacas holandesas e parideiras forneciam o leite que, além de amamentar todas as famílias da fazenda ainda transformavam-se em queijos, manteigas e doces de leite; vinte e cinco porcos no mangueirão e oito nas cevas eram garantia de fartura de pernil defumado, linguiça de paleta, toucinho, banha e carne, que depois de fritos em enormes tachos, eram armazenados em latas de dezoito litros devidamente protegidas, e cobertas de gordura de porco, o que fazia com que por períodos de até um ano a família o Etelvino tivesse sempre à mesa, quando bem o quisesse, fartos e suculentas suãs, postas de pernil, lombinho ou costela, os quais curtidos nas latas pareciam frescos, como se a matança houvera sido feita no mesmo dia! A fazenda tinha, cultivados, cem mil pés de café produzindo as variedades “arábico e bourbon”, sendo esse cultivo aquele que realmente sustentava a fazenda e seus empregados. Tinha ainda três tanques para manejo e dois de engorda de peixes de rio, principalmente pintados e piaparas. Essa atividade, nova paixão do Etelvino, ocupava dez colonos treinados para esse trabalho.
O Etelvino, embora não demonstrasse, pois era rídico, possuía uma boa poupança no banco e na Caixa Econômica, e ainda era sócio do único posto de gasolina do vilarejo. À questão de cinco anos, no entanto, meteu-se numa cooperativa para construção de uma usina de álcool para uso em automóveis. No ralo da usina de álcool ele foi injetando seu capital. Primeiro parou a criação de peixes para dedicar-se ao plantio da mandioca, que seria usada na futura usina. Por falta de uma grande área para produzir mandioca em quantidade suficiente para o que seria o consumo da usina, e não querendo diminuir as pastagens para o gado, mandou erradicar vinte mil pés de café, com a desculpa de que o preço internacional estava baixo. Nesses quatro alqueires de terra ele plantou mandioca. E como colheu o tubérculo! Como a usina nunca que ficava pronta, o Etelvino exigiu que a fazenda tivesse que consumir toda aquela mandioca! Era mandioca com melado, com rapadura, com açúcar, cozida, frita, com churrasco, com manteiga, com frango; eram bolos, broas, bolachas, bijus, mingaus e bobós. E dá-lhe mandioca! Passaram a fazer farinha, alimentar os porcos cevados e do mangueirão. Fatiadas, eram servidas ao gado de leite; e dá-lhe mandioca! E nada de usina! E dá-lhe mandioca! O fato é que sobrava mandioca!
Nesse ínterim, finalmente a usina ficou pronta. Mesmo assim o Etelvino continuava com as crises da doença! As crises que eram mensais passaram a ser semanais e, à medida que a usina ia sendo concluída, passaram a ser diárias. Ele começou a ter vertigens no jipe que dirigia, na charrete, no cavalo, e até quando andava a pé! E cada vez as crises eram mais duradouras, que também precisavam de mais tempo para se restabelecer. Desse modo, parou de dirigir a fazenda com “mão-de-ferro”, e o comando da fazenda passou para o Izaltino, pessoa tão bondosa quanto supersticiosa, o qual, segundo alguns, se transformava em lobisomem nas noites de lua cheia. Essa crença era devido ao fato de que o Izaltino, muitas vezes, aparecia de manhã muito pálido, olhos fundos, boca entre verde e amarelada, além das roupas sujas com penas e bosta de galinhas. Dizia-se que o patrão só havia permitido que ele administrasse a fazenda porque, tinha medo de assombrações, aparições, fantasmas e, principalmente, morria de medo de espíritos e almas penadas; sentia vertigens só em pensar.
Um belo dia, o Etelvino recebeu a visita do secretário do governador, ocasião em que foi informado da data de inauguração da usina. Para surpresa e desespero do Etelvino, ficou sabendo que a inauguração seria dali a duas semanas; e o governador em pele-e-osso viria para o evento. O secretário até pediu ao Etelvino que, em caso de discurso, deixasse que o governador “desse a última palavra”. Em seguida, o secretário disse que, a pedido do próprio governador, que o Etelvino abarrotasse a usina de mandioca, pois o governador havia confidenciado a ele que na inauguração da usina ele próprio queria “dar a partida”, para consolidar o discurso que agora iria sobrar energia elétrica e álcool, até para exportar! Dessa maneira, asseverou o secretário, o governador não arreda pé da usina até que ao menos um litro de álcool fosse produzido, e queria mostrar para a imprensa falada, escrita e televisada, que os estoques de mandioca – matéria prima fundamental era suficiente para produzir milhões de litros.
Tão logo o secretário foi embora, o Etelvino começou a dar ordens; mas foi informado pelo Izaltino que havia muito pouca mandioca para o evento; portanto se fossem atender ao pedido do governador, teriam que mandar buscar mandioca de outros rincões, e a peso de ouro, pois teriam que gastar com o combustível, diárias e hospedagens dos colonos motoristas que fariam o transporte; o Etelvino teve três convulsões seguidas, e nos intervalos entre uma e outra, amaldiçoou “o lobisomem” por não ter tido a ideia de economizar mandioca. O Izaltino rebateu às pragas, lançando uma de volta ao patrão, dizendo que mesmo depois de morto viria buscar o Etelvino para acompanhá-lo até os quintos dos infernos, onde era o lugar dele!. De tão transtornado, o Izaltino teve uma síncope e morreu ali mesmo, estatelando-se aos pés do Etelvino, agarrado às suas botas, que desesperado, tentava livrar-se daquelas mãos demoníacas. Depois do enterro do administrador, Etelvino passou a comandar as partidas de mandioca até a usina. Passados dez dias da visita do secretário do governador, recebeu deste um ultimato: no máximo em dois dias o depósito deveria estar pleno, caso contrário, aquela usina nunca mais seria posta em funcionamento, e que o “fogo morto” da usina não poderia ser pretexto para o Etelvino não pagar os polpudos empréstimos que havia tomado do governo, e sem nenhum juro. O governador avisou que se alguém fosse ficar mal com a imprensa, esse alguém seria o Etelvino e de qualquer maneira ele, o governador, do alto do seu posto, deveria sempre dar a versão final de qualquer notícia para a imprensa! Qualquer que fosse o comentário, o governador seria o arauto. Que todos os demais se calassem. O Etelvino reuniu todos os colonos e deu ordens severas: qualquer colono que não colaborasse com afinco ou que não trouxesse mandioca vinte e quatro horas seguidas, seria demitido! Os colonos começaram a correr por todos os lados buscando mandioca para abastecer a usina. Por obra do destino o Etelvino, ele mesmo, pegou um velho caminhão e foi buscar um carregamento de mandioca no Mercado Central da sede da Comarca.
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Entrementes, no vilarejo entre a sede da Comarca e a fazenda do Etelvino, acontecia a festa das “bodas de ouro” do casal Agripina e Izaltino, este, velho e conhecido boêmio da cidade. Mas, apesar dos deslizes do marido, Agripina sabia como levar a casa e os filhos, pode-se dizer que vivem muito bem! Embora o velho Izaltino não desse a suportação moral necessária para os dez filhos, dava-lhes o sustento e algum estudo. Todas as outras necessidades, inclusive as ausências do Izaltino e sua presença patriarcal e a cobrança para com os estudos, eram feitas pela velha professora aposentada, Agripina, que com bondade e paciência, ocultava dos filhos os muitos “casos” do marido boêmio. No dia da festa das bodas de ouro, com orgulho, Agripina e Izaltino confirmaram na igreja, os votos do casamento de há cinquenta anos. Ao lado os dez filhos com outros dez genros e noras, davam o tom festivo. Como presente, os filhos deram aos pais o jipe americano de capota conversível, sonho de consumo do casal. E, para curtirem o presente tão sonhado quanto inesperado, o casal resolveu ir até à sede da comarca, onde seriam hóspedes por dois dias do “Grande Hotel”. Tão logo chegou a noite, despediram-se dos entes queridos e, junto com duas maletas, aboletaram-se no jipe “deles”, sob os aplausos de todos. As luzes de vapor de mercúrio que iluminavam o acesso da Avenida principal com a Rodovia Anhanguera, mostrou a felicidade do casal. O jipe foi até o retorno, passou sob a rodovia, fizeram conversão à esquerda e aceleraram rumo à sede da comarca, para viverem belos momentos.
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O Etelvino terminou de carregar o velho caminhão no Mercado Central, quando as primeiras luzes da sede da Comarca começaram a acender. (A noite chegara sobre a sede da Comarca com a devida aprovação e benção da Câmara Municipal, afinal se a noite não chegasse, o que seria da iluminação pública à gás de mercúrio, caríssima obra que resultou de muitas discussões na casa de leis e polêmica no “Pasquim” local). Quanto ao Etelvino, cansado, porém feliz de naquele dia não ter tido nenhum desmaio, instalou-se na cabine do caminhão, deu partida e entrou vagarosamente no acesso da Rodovia Anhanguera. Mal entrou na rodovia, começou uma fina chuva. O barulho da água da chuva sob os pneus e sobre a capota da cabine era um convite para dormir ao volante. O ar frio que entrou, de repente, na cabine fez com que o Etelvino arrepiasse dos pés à cabeça. Num átimo, lembrou-se do empregado recém-falecido, o Izaltino, que prometeu infernizá-lo depois de morto. O vento do caminhão ao passar pela estrada provocava um redemoinho, que contorciam e dobravam os capinzais à sua passagem. O barulho nos capinzais começou a causar medo ao Etelvino. Por vezes pensou ouvir a voz do Izaltino gritando:
- Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino. Pare este caminhão.
O Etelvino fechou e abriu os solhos com força. Por certo estava muito cansado e ansioso. Afinal a usina de álcool, pela qual tanto lutara, seria inaugurada no dia seguinte e ele seria homenageado pelo governador em pessoa, pelos seus esforços na construção daquela usina. Seria reconhecido por todos, com fotos nos jornais, entrevistas em rádio e televisão, onde seria dito o quanto ele trabalhara para que a usina se instalasse naquele lugar e em nenhum outro. É certo que ele doara o terreno e prometera que ainda forneceria toda a matéria prima que a usina necessitasse: a mandioca! Ele como que via sua foto nos jornais ao lado do governador, com manchetes enaltecendo sua atuação. Voltou à realidade: o frio que passava pelas frestas dos vidros, ao invés de animá-lo, antes, aumentava o sono. N a escuridão da estrada, os capinzais deitando-se à passagem do caminhão e aquela voz:
- Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino. Pare este caminhão!
Quando se aproximou dos pontilhões do sistema viário, pouco antes do vilarejo, a chuva tornou-se torrencial. Ele não via mais que trinta metros à frente; o limpador do para-brisa na última velocidade. O aguaceiro distorcia as imagens; as luzes desenhavam monstros espectrais; e o Etelvino morrendo de medo. Ao passar sob o pontilhão principal do sistema viário, no cruzamento com uma variante da estrada, ouviu um baque surdo na carroçaria do caminhão. Ele prestou atenção, mas não ouviu mais nada. –Deve ser impressão minha, pensou; e seguiu adiante. Mais um quilômetro; a chuva amainou e ele já sinalizava para entrar no a- cesso da usina. Aquela seria a última partida de mandioca que ele traria por sus próprias mãos. Depois da inauguração, queria voos mais altos: poderia ser vereador ou prefeito, ou quem sabe secretário de governo? A placa ao lado da estrada de acesso da usina indicava que faltavam cinco quilômetros. Nesse instante, em que a chuva já não caía e que uma misteriosa névoa havia invadido a estreita estrada de terra, o Etelvino deu um grito horripilante.
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Tão logo o Izaltino e Agripina entraram na rodovia em direção à sede da Comarca, o tempo fechou rápido. Rajadas de vento de mais de oitenta quilômetros por hora irromperam, trazendo consigo uma chuva torrencial. Debaixo de chuva, Agripina e Izaltino levantaram a capota do jipe, que não sabiam ser tão difícil. Tudo dentro do jipe estava molhado. A roupa que o casal vestia, estava colada à pele. De tão surpreso com a rapidez da chuva, da capota aberta e da roupa molhada, nem se falavam. De quando em quando se via a luz de um ou outro carro vindo em sentido contrário. No entanto o vidro do pára--brisas ficou totalmente embaçado. E começavam a sentir frio. Ela, para levantar o astral do querido Izaltino, abre a sua maleta e de lá retira uma garrafa de vinho do Porto, que ela secretamente ocultara. Ele, maravilhado com o fato, tomou um longo trago, findo o qual, ela tenta recolocar na maleta, no que é impedido por ele, que toma mais três ou quatro goles. Agripina vê, com pesar, que a garrafa já está pela metade. E começa a discutir, enquanto o álcool do vinho do Porto começa a atuar. E ele, embora pouco possa ver em meio à borrasca, finca o pé no acelerador, enquanto ela suplica: ele ri, ri muito, ri alto, e resolve recolher, de novo, a capota do jipe! Ele bêbado e feliz, quer sentir aquela chuva na cara, pouco se importando com ela. E mais acelera, e mais ri, até que ao passar num pontilhão por sobre o sistema viário, justamente na junção com a estrada que vem da sede da Comarca, ele bate violentamente na amurada, no exato momento em que para sentir maior sensação, dirigia “de pé”. Um estrondo se ouve, e os dois passageiros do jipe são atirados para fora. Agripina estatela-se no meio da rodovia, nariz sangrando, e desmaia.
O Izaltino foi jogado por cima da amurada e vai caindo na pista de baixo, numa altura de dez metros. Eis, porém que, antes de esborrachar-se no asfalto da pista que está abaixo, passa o velho caminhão do Etelvino, carregado d e mandiocas. Izaltino desfalece e permanece desmaiado por cerca de dez minutos. Agora sóbrio, desespera-se ao ver-se só, sem Agripina, em meio a mandiocas enlameadas. Ergue-se tanto quanto pode, e nota que há somente uma pessoa na cabine do caminhão. Olha à volta: a estreita estrada de terra está envolta por uma névoa espessa. Pensa em saltar do caminhão em movimento, mas lembra-se que já tem mais de setenta anos e, mesmo em baixa velocidade, um tombo pode significar a morte. Mas ele quer saber da Agripina! Não tem a menor ideia de como foi parar no velho caminhão de mandiocas. Então, resoluto, arrasta-se por sobre as mandiocas enlameadas; ele próprio um barro só, da cabeça aos pés. Desesperado grita para o caminhão pare. Não tem resposta. Então, arrasta-se até o mais próximo possível da cabine, e grita a plenos pulmões:
- Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino! Pare este caminhão! Aqui é o Izaltino!
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O grito de horror do velho Izaltino foi seguido de outro, tétrico, do Etelvino. –Meu Deus, pensou o Etelvino: o Izaltino veio me buscar. Vou morrer e vou com ele “pros infernos”. O caminhão seguia lento; desesperado na carroçaria, o Izaltino deu meia dúzia de murros na cobertura da cabine, gritou, gritou mais de cem vezes: - pare este caminhão! Aqui é o Izaltino. Pare este caminhão!
Paralisado de terror, Etelvino freia o caminhão automaticamente, atônito, corpo gelado. Izaltino então, não sem muito esforço, desce do caminhão e caminha até a cabine. Bate na porta, chama; ninguém responde! Sobe então no estribo e olha. Ao volante o Etelvino paralisado, olho arregalado e vítreo. Na face, nenhuma reação! Com muito custo o Izaltino entra na cabine pela outra porta e incita o Etelvino com gritos primeiro; depois com xingos e pescoções. Só quando o dia já amanhecia é que aos poucos o Etelvino voltou a si. Primeiramente movimentou uma das mãos, depois os joelhos das duas pernas, e mexeu os olhos. Estava pálido e aterrorizado. Mais alguns instantes, e começa a chorar, rosto apoiado nos joelhos. Izaltino o incita mais e ele então se apruma e olha. A visão daquele senhor alquebrado, coberto de lama preta dos pés à cabeça; onde até no rosto tem tabletes de lama, é aterrorizante. Etelvino então balbucia:
- Quem é você?
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Agripina volta a si com gritos de pessoas o seu redor:
- Ei dona, acorde. Ei dona! Ei.... !!!!!!!!!!!!
Ela abre os olhos. Está deitada no acostamento da rodovia. Sob a cabeça, a guisa de travesseiro, uma mochila ou embornal; provavelmente de uma daquelas pessoas. Ao seu lado, no acostamento um velho ônibus estacionado, que não deixa dúvidas: são boias-frias. Provavelmente, pensou, pararam na rodovia para socorrê-la. E era isso mesmo! Aos poucos sua consci6encia foi voltando. Estava toda molhada. Lembrou-se da festa, do jipe que era presente dos filhos, e do marido. Ai então falou:
- Onde está o Izaltino?
Um dos homens que a havia socorrido disse:
-Não tem mais ninguém não, dona!
Agripina visualizou o jipe a poucos metros. Cambaleante, foi até lá e pode constatar que nada mais havia no jipe além de duas maletas e uma garrafa de vinho do Porto, totalmente vazia. Ela desesperou-se e gritou a plenos pulmões:
- I –Z- A- L- T -I -N -OOOOOOOOO!
O silêncio foi a resposta! Um pouco mais calma, Agripina relatou às pessoas que ali estavam, o quê ocorrera. Agora era essencial encontrar o Izaltino. Procuraram-no nas moitas dos capinzais ao longo e ao rés da rodovia, numa plantação de laranjas, em cima e em baixo do pontilhão. Tudo foi vasculhado. Nada! Resolveram então levar a Agripina para o vilarejo e comunicar aos filhos que o velho Izaltino havia desaparecido.
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Tão logo o Etelvino perguntou quem era aquela pessoa enlameada, o “homem das mandiocas” respondeu:
- Izaltino, seu criado! O senhor não está bem e vou levá-lo.
Etelvino sentiu chegado o momento final. Começou por tremer os lábios, depois os dentes, ao final todo o corpo tremia; e mais uma convulsão tomou o corpo. A diferença das outras convulsões é que, desta vez, era acompanhada por dores no peito, além de uma taquicardia. Os olhos turvos do Etelvino nem chegaram a prestar atenção que no retrovisor do velho caminhão alguns pontos escuros mostravam os carros embandeirados com o nome do governador e do partido; era o governador que chegava em carreata, para inauguração da usina. Os carros aproximaram-se em baixa velocidade. O próprio governador e seu secretariado socorreram-no e acompanharam aquelas que seriam as últimas horas de vida do Etelvino. Um carro foi designado para levar o Izaltino, ao passo que uma perua equipada com equipamentos de primeiros socorros e pequena sala de cirurgia que acompanhava a comitiva, foi colocada à disposição. Na parte lateral da perua estava escrito: “Unidade Móvel de Saúde”. Nesta perua o Etelvino foi conduzido para casa, conforme desejo do governador que, aliás, convidou a imprensa que os acompanhava para que o fotografassem ao lado do moribundo, que “Ele haveria de transformar em mártir e herói”. Foram muitas as fotos, inclusive uma em que o governador agachado junto ao Etelvino, em meio à parafernália hospitalar, esforçava-se para ouvir aquelas que seriam as últimas palavras do moribundo. De fato, quando o governador levantou-se, o Etelvino já havia partido deste mundo.
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A usina foi inaugurada, mesmo com os contratempos, pois o governador julgava que estava lucrando politicamente com os fatos. Mas, após o discurso de inauguração da usina, durante o coquetel em que o governador tomou o maior porre, os jornalistas indagaram-no, sobre quais teriam sido as últimas palavras do Etelvino, o mito; que dava nome à usina. O governador, muito emocionado, garantiu que ouvira as últimas palavras daquele herói que “dignificava o povo paulista”. O Etelvino teria dito, não sem muito esforço:
- Governador, tire o pé da mangueira de oxigênio!
Autor: Antônio Carlos Affonso dos Santos
Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. Nascido em julho de 1946, é natural da zona rural de Cravinhos-SP (Brasil). Nascido e criado numa fazenda de café; vive na cidade de São Paulo (Brasil), desde os 13. Formou-se em Física, trabalhou até recentemente no ramo de engenharia, especialista em equipamentos petroquímicos. É escritor amador diletante, cronista, poeta, contista e pesquisador do dialeto “Caipirês”. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos” e quatro em antologias, junto com outros escritores amadores brasileiros. São seus livros: “Pequeno Dicionário de Caipirês (recém reciclado e aguardando interesse de editoras), o livro infantil “A Sementinha”, um livro de contos, poesias e crônicas “Fragmentos” e o romance infanto-juvenil “Y2K: samba lelê”.
Exemplo de desportivismo -BRAGANÇA, contagia
O ex-atleta do Ginásio Clube de Bragança, Braima Dabo, está a dar que falar em todo o mundo pelos melhores motivos.
O atleta da Guiné-Bissau, de 26 anos, protagonizou um grande momento no Campeonato do Mundo de Atletismo, que começou ontem em Doha, no Catar.
Braima Dabo ajudou Jonathan Busby, atleta de Aruba, a cruzar a linha de chegada nos 5.000 metros.
Braima carregou em ombros Jonathan Busby, durante mais de 100 metros, quando este estava à beira do colapso físico
O atleta guineense terminou a prova com 18:10.87 minutos, ao passo que Busby foi desqualificado, mas o gesto de Braima está a correr mundo.
O ex-atleta do Ginásio Clube de Bragança é agora atleta do Maia AC mas continua a viver em Bragança. Braima estudou no IPB e correu em diversas competições no distrito de Bragança.
Jornalista: SM / Foto de Reuters
O atleta da Guiné-Bissau, de 26 anos, protagonizou um grande momento no Campeonato do Mundo de Atletismo, que começou ontem em Doha, no Catar.
Braima Dabo ajudou Jonathan Busby, atleta de Aruba, a cruzar a linha de chegada nos 5.000 metros.
Braima carregou em ombros Jonathan Busby, durante mais de 100 metros, quando este estava à beira do colapso físico
O atleta guineense terminou a prova com 18:10.87 minutos, ao passo que Busby foi desqualificado, mas o gesto de Braima está a correr mundo.
O ex-atleta do Ginásio Clube de Bragança é agora atleta do Maia AC mas continua a viver em Bragança. Braima estudou no IPB e correu em diversas competições no distrito de Bragança.
Jornalista: SM / Foto de Reuters
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Mirandela é a primeira do distrito a aderir ao “Cheque Veterinário”
O Programa de Apoio de Saúde Preventiva a Animais em Risco, promovido pela Ordem dos Médicos Veterinários em colaboração com as clínicas aderentes, visa apoiar as autarquias na recolha de animais abandonados, uma realidade preocupante, principalmente, desde 2017, quando entrou em vigor a Lei que proíbe o abate de animais errantes.
Com este protocolo, para além de apoiar os animais abandonados e recolhidos pelas autarquias, também se pretende que seja um apoio para as famílias carenciadas que tenham animais de companhia, nomeadamente no que se refere à vacinação, desparasitação, identificação eletrónica e esterilização, bem como outros tratamentos e urgências 24 horas, como explica Jorge Cid, o bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, após a assinatura do protocolo, esta quinta-feira, em Mirandela.
“Dá a possibilidade de as autarquias fazerem um protocolo com a ordem, diante de um acordo pré-estabelecido de despesa, para que todos os animais errantes que forem capturados pelas câmaras possam ser distribuídos pelas clínicas todas do concelho para serem esterilizados e entrarem no Centro de Recolha Oficial (CRO) para serem adoptados. “
Para a presidente do Município de Mirandela, esta é uma mais-valia importante, numa altura em que o número de animais abandonados tem vindo a aumentar e o Centro de Recolha Oficial da Terra Quente, sediado em Urjais, já não tem capacidade para receber mais animais, que obrigou o Município a adquirir um canil de uma associação de proteção animal, em São Salvador. Júlia Rodrigues diz que se trata de um problema que pode trazer consequências graves ao nível da saúde pública, pelo que entende que este cheque veterinário pode ajudar a minimizar o problema
“Existem alguns pedidos por parte de famílias carenciadas que têm animais de estimação mas não têm forma de custear os tratamentos e a própria esterilização.
Como tal, a câmara achou por bem, e porque a Ordem dos Médicos Veterinários lançou esta iniciativa, podermos protocolar isto, até porque os médicos veterinários que têm centros de atendimento podem aderir e implementar o programa, desde que as câmaras municipais ou juntas de freguesia assinem o protocolo.
É uma mais-valia para os proprietários de animais de estimação, e em questões de saúde pública é muito importante que tomemos estas medidas. “
Com esta comparticipação do município, que varia entre os 13 e os 100 euros, Ana Luísa, diretora clínica do Centro de Atendimento Médico Veterinário “Terra Quente”, que aderiu a este programa, entende que está dado um passo importante para incentivar a esterilização aos cães e gatos de companhia das famílias com menos recursos financeiros
“Se houver uma divulgação adequadas as pessoas poderão tomar conhecimento.
Realmente há gente com carências que quer fazer o melhor pelo seu animal, mas vêem-se limitadas pela sua condição financeira.
Nesse sentido, será de todo uma mais-valia, pois mesmo que não pague a totalidade das despesas, ajudará a combater as despesas, também em tratamentos que por vezes trazem grandes desgostos e prejuízo à saúde das pessoas, principalmente na nossa região onde há bastante gente com algumas dificuldades e quase todos têm animais de companhia.”
No entanto, este programa só deverá começar a ser implementado em 2020, dado que a autarca mirandelense revelou que ainda não está definido o plafond que vai ser concedido para este cheque veterinário, tendo de aguardar pela aprovação do orçamento do Município para o próximo ano.
INFORMAÇÃO CIR (Terra Quente FM)
Com este protocolo, para além de apoiar os animais abandonados e recolhidos pelas autarquias, também se pretende que seja um apoio para as famílias carenciadas que tenham animais de companhia, nomeadamente no que se refere à vacinação, desparasitação, identificação eletrónica e esterilização, bem como outros tratamentos e urgências 24 horas, como explica Jorge Cid, o bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, após a assinatura do protocolo, esta quinta-feira, em Mirandela.
“Dá a possibilidade de as autarquias fazerem um protocolo com a ordem, diante de um acordo pré-estabelecido de despesa, para que todos os animais errantes que forem capturados pelas câmaras possam ser distribuídos pelas clínicas todas do concelho para serem esterilizados e entrarem no Centro de Recolha Oficial (CRO) para serem adoptados. “
Para a presidente do Município de Mirandela, esta é uma mais-valia importante, numa altura em que o número de animais abandonados tem vindo a aumentar e o Centro de Recolha Oficial da Terra Quente, sediado em Urjais, já não tem capacidade para receber mais animais, que obrigou o Município a adquirir um canil de uma associação de proteção animal, em São Salvador. Júlia Rodrigues diz que se trata de um problema que pode trazer consequências graves ao nível da saúde pública, pelo que entende que este cheque veterinário pode ajudar a minimizar o problema
“Existem alguns pedidos por parte de famílias carenciadas que têm animais de estimação mas não têm forma de custear os tratamentos e a própria esterilização.
Como tal, a câmara achou por bem, e porque a Ordem dos Médicos Veterinários lançou esta iniciativa, podermos protocolar isto, até porque os médicos veterinários que têm centros de atendimento podem aderir e implementar o programa, desde que as câmaras municipais ou juntas de freguesia assinem o protocolo.
É uma mais-valia para os proprietários de animais de estimação, e em questões de saúde pública é muito importante que tomemos estas medidas. “
Com esta comparticipação do município, que varia entre os 13 e os 100 euros, Ana Luísa, diretora clínica do Centro de Atendimento Médico Veterinário “Terra Quente”, que aderiu a este programa, entende que está dado um passo importante para incentivar a esterilização aos cães e gatos de companhia das famílias com menos recursos financeiros
“Se houver uma divulgação adequadas as pessoas poderão tomar conhecimento.
Realmente há gente com carências que quer fazer o melhor pelo seu animal, mas vêem-se limitadas pela sua condição financeira.
Nesse sentido, será de todo uma mais-valia, pois mesmo que não pague a totalidade das despesas, ajudará a combater as despesas, também em tratamentos que por vezes trazem grandes desgostos e prejuízo à saúde das pessoas, principalmente na nossa região onde há bastante gente com algumas dificuldades e quase todos têm animais de companhia.”
No entanto, este programa só deverá começar a ser implementado em 2020, dado que a autarca mirandelense revelou que ainda não está definido o plafond que vai ser concedido para este cheque veterinário, tendo de aguardar pela aprovação do orçamento do Município para o próximo ano.
INFORMAÇÃO CIR (Terra Quente FM)
Autarquia de Bragança aplica taxa mínima de IMI
Em assembleia foi também proposta a aplicação da taxa mínima de IMI, 0,3%, e os descontos associados ao número de pessoas que fazem parte do agregado familiar.
Para além disso, Hernâni Dias, explica ainda que é aplicada uma taxa de majoração de 30% aos imóveis degradados e nos quais não são feitas obras: “Os imóveis degradados como tem vindo também o município a fazer essa avaliação, estamos a aplicar uma minoração de 30% aos imóveis que são reabilitados no centro histórico e estamos a aplicar uma majoração de 30% na taxa de IMI aqueles que têm os imóveis degradados e não os reabilitam”, acrescentou.
Em Assembleia Municipal foi abordada a aplicação da taxa mínima de Imposto Municipal sobre Imóveis.
Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais
Para além disso, Hernâni Dias, explica ainda que é aplicada uma taxa de majoração de 30% aos imóveis degradados e nos quais não são feitas obras: “Os imóveis degradados como tem vindo também o município a fazer essa avaliação, estamos a aplicar uma minoração de 30% aos imóveis que são reabilitados no centro histórico e estamos a aplicar uma majoração de 30% na taxa de IMI aqueles que têm os imóveis degradados e não os reabilitam”, acrescentou.
Em Assembleia Municipal foi abordada a aplicação da taxa mínima de Imposto Municipal sobre Imóveis.
Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais
Escolas Miguel Torga e Augusto Moreno podem sofrer obras em 2020
As escolas Miguel Torga e Augusto Moreno, de Bragança, vão sofrer obras de requalificação energética.
Foi conseguida uma verba de mais de 300 mil euros para a escola Miguel Torga e de cerca de 200 mil para a escola Augusto Moreno.
“São intervenções no sentido da essência energética, não se tratam de intervenções estruturais, mas são uma grande ajuda para criar maior conforto a todos aqueles que são os utilizadores da escola”, referiu o autarca Hernâni Dias.
A informação foi dada pelo presidente da câmara na Assembleia Municipal de Bragança, que adiantou que 7,5% do investimento é feito pela autarquia. Está previsto que as obras comecem em 2020.
“Os outros 7,5% cabem ao Ministério da Educação e o restante, os 85%, são fundos comunitários. Estamos a preparar o processo para que em 2020 se possa começar a intervenção”, disse.
Teresa Sá Pires, directora do agrupamento Abade Baçal, ao qual pertence a escola Augusto Moreno, referiu que a substituição da caixilharia é muito importante e acrescenta que a escola também precisa de obras nas infra-estruturas.
“Neste momento só vai ser substituída a caixilharia, mas a escola precisa de algumas obras a nível do saneamento, na melhoria das casas de banho, do pavimento de algumas salas. Coisas que com o tempo se vão degastando e estragando e que precisavam de serem substituídas, porque a manutenção, por si, já não resolve algumas questões”, explicou.
O assunto foi debatido na Assembleia Municipal de Bragança.
Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais
Foi conseguida uma verba de mais de 300 mil euros para a escola Miguel Torga e de cerca de 200 mil para a escola Augusto Moreno.
“São intervenções no sentido da essência energética, não se tratam de intervenções estruturais, mas são uma grande ajuda para criar maior conforto a todos aqueles que são os utilizadores da escola”, referiu o autarca Hernâni Dias.
A informação foi dada pelo presidente da câmara na Assembleia Municipal de Bragança, que adiantou que 7,5% do investimento é feito pela autarquia. Está previsto que as obras comecem em 2020.
“Os outros 7,5% cabem ao Ministério da Educação e o restante, os 85%, são fundos comunitários. Estamos a preparar o processo para que em 2020 se possa começar a intervenção”, disse.
Teresa Sá Pires, directora do agrupamento Abade Baçal, ao qual pertence a escola Augusto Moreno, referiu que a substituição da caixilharia é muito importante e acrescenta que a escola também precisa de obras nas infra-estruturas.
“Neste momento só vai ser substituída a caixilharia, mas a escola precisa de algumas obras a nível do saneamento, na melhoria das casas de banho, do pavimento de algumas salas. Coisas que com o tempo se vão degastando e estragando e que precisavam de serem substituídas, porque a manutenção, por si, já não resolve algumas questões”, explicou.
O assunto foi debatido na Assembleia Municipal de Bragança.
Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais
«QUALQUER DIA» poema de São Marques, diz Luiz Vinagre
Por: Maria da Conceição Marques
(colaboradora do "Memórias...e outras coisas...")
Maria da Conceição Marques, natural e residente em Bragança.
Desde cedo comecei a escrever, mas o lugar de esposa e mãe ocupou a minha vida.
Os meus manuscritos ao longo de muitos anos, foram-se perdendo no tempo, entre várias circunstâncias da vida e algumas mudanças de habitação.
(colaboradora do "Memórias...e outras coisas...")
Desde cedo comecei a escrever, mas o lugar de esposa e mãe ocupou a minha vida.
Os meus manuscritos ao longo de muitos anos, foram-se perdendo no tempo, entre várias circunstâncias da vida e algumas mudanças de habitação.
Participei nas colectâneas:
POEMA-ME
POETAS DE HOJE
SONS DE POETAS
A LAGOA E A POESIA
A LAGOA O MAR E EU
PALAVRAS DE VELUDO
APENAS SAUDADE
UM GRITO À POBREZA
CONTAS-ME UMA HISTÓRIA
RETRATO DE MIM.
ECLÉTICA I
ECLÉTICA II
5 SENTIDOS
REUNIR ESCRITAS É POSSÍVEL – Projecto da Academia de Letras Infanto-Juvenil de São Bento do Sul, Estado de Santa Catarina
Livros editados:
-O ROSEIRAL DOS SENTIDOS
-SUSPIROS LUNARES
-DELÍRIOS DE UMA PAIXÃO
-ENTRE CÉU E O MAR
-UMA ETERNA MARGARIDA
Arco da porta da muralha de Vinhais
Aspeto geral do arco da porta da muralha de Vinhais, na Rua Dom Afonso III. vendo-se um homem e uma mulher e ao cimo a torre sineira da Igreja Paroquial, ou igreja de Nossa Senhora da Assunção.
NOTÍCIAS DA ALDEIA
Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Sinto-me na obrigação de dar voz à aldeia que morre paulatinamente “à beira- mágoa” como diz o Pessoa. Muitos de nós tivemos a ideia romântica de regressar à aldeia, reconstruir a casa, erguer o pombal, ladrilhar o forno, semear a horta e esperar pela primavera para ver florir o pomar na promessa de mil frutos. Os anos passam e envelhecemos, os vizinhos envelhecem e esperam dolorosamente que os filhos regressem pelo Natal, em Agosto, ou para os funerais que se anunciam. E assim, a nossa aldeia vai-se tornando num sítio lúgubre, depositário das memórias dum tempo de fome e servidão, mas onde em cada recanto do povoado havia gente, sentia-se a vida, animavam-se os campos, enchiam-se as escolas de crianças que aprendiam pela força da persistência e do flagelo das reguadas. Nas nossas aldeias hoje vive-se bem, se entendermos por viver bem o facto de não haver fome e ter algum dinheiro no Banco espreitando os imprevistos do futuro. Mas com rigor nas nossas aldeias não se vive bem, sobrevive-se neste desassossego de ouvir o sino tocar a finados e prever, sinistramente qual será o último vizinho a morrer ou a abandonar a aldeia no espaço breve de quinze, ou vinte anos. Lá se vai andando, gemendo e mancando. Depois será o silêncio e um vasto deserto para os antropólogos, sinistramente, estudarem o fim duma comunidade que não resistiu ao abandono do Poder central.
E as frases continuam a ser magnânimas e qualquer político que se prese elenca, entre uma visitinha apressada, um copo de vinho e uma posta de vitela assada na brasa, que é urgente salvar o interior desta morte anunciada, potencializar o turismo, apoiar a riqueza endógena destas regiões para que o país caminhe a uma só velocidade, sem a clivagem entre o interior e o litoral. Depois, regressam a Lisboa e tudo continua na mesma; pelo natal mata-se o porco, com sorte virão os filhos ajudar a apanhar a azeitona, chegará o verão, haverá festas e o senhor padre, na sua velhice, celebra missa enquanto puder e continua-se a observar este deserto na ausência das crianças que há muito deixaram de povoar a escola.
Em boa verdade nem sei para que existem partidos políticos nas terras do interior. Talvez para criar inimizades e conflitos entre os vizinhos que se batem pelo seu partido enquanto alguns de Lisboa se riem no amanho da sua vidinha. A política faz-se em Lisboa onde quase tudo se decide como se as mulheres e os homens da “polis” transmontana não existissem, ou sofressem duma incapacidade provinciana de entender o mundo e as subtilezas do conhecimento científico.
E depois, a inteligência lisboeta fala do interior como se fosse o último reduto duma comunidade longínqua e mística que ainda vive na idade média entre o burro, a vaca, a galinha, os mitos e os preconceitos que vale a pena visitar num passeio turístico, antropológico e etnográfico. Embora, ultimamente, quase ninguém de monta da área do Poder se tenha visto por estas Terras, pois os votos são poucos e será sempre amanhã que se olha para o interior como sendo parte integrante do todo nacional.
De vez em quando a dinâmica político-partidária lá se anima com as eleições das comissões políticas concelhias, ou distritais. Mas é sol de pouca dura, pois em breve, as grandes decisões regressam a Lisboa. E mesmo os candidatos a deputados que são os mais diretos representantes das populações, muitas vezes, são escolhidos pelas estruturas políticas nacionais num total desrespeito pelas estruturas locais e num insulto descarado à inteligência e à capacidade de decisão das populações do interior incapazes de fazer valer a sua vontade, pois o peso do seu voto pouco conta.
Sem dúvida que não há democracia se não houver partidos políticos fortes, atuantes e representativos da diversidade ideológica dos cidadãos. Mas partidos que marginalizam as regiões mais isoladas, não vale a pena. E mesmo os autarcas, não saem dum desassossego, numa luta heróica pelos seus municípios, batendo com insistência à porta do Poder que se entrincheira em Lisboa e muitas vezes assobia para o lado.
Assim não. Já não há paciência. Contudo o sol, por enquanto, ainda continua a nascer radioso lá para os lados da Lombada e a pôr-se no recato da Senhora da Serra. Pelo menos o sol ainda é democrata e é para todos.
Vou-me lá acender o lume e esperar que este inverno gélido não leve muitos vizinhos, pois já somos tão poucos os que resistimos.
Talvez este ano nasça alguma criança.

Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Sinto-me na obrigação de dar voz à aldeia que morre paulatinamente “à beira- mágoa” como diz o Pessoa. Muitos de nós tivemos a ideia romântica de regressar à aldeia, reconstruir a casa, erguer o pombal, ladrilhar o forno, semear a horta e esperar pela primavera para ver florir o pomar na promessa de mil frutos. Os anos passam e envelhecemos, os vizinhos envelhecem e esperam dolorosamente que os filhos regressem pelo Natal, em Agosto, ou para os funerais que se anunciam. E assim, a nossa aldeia vai-se tornando num sítio lúgubre, depositário das memórias dum tempo de fome e servidão, mas onde em cada recanto do povoado havia gente, sentia-se a vida, animavam-se os campos, enchiam-se as escolas de crianças que aprendiam pela força da persistência e do flagelo das reguadas. Nas nossas aldeias hoje vive-se bem, se entendermos por viver bem o facto de não haver fome e ter algum dinheiro no Banco espreitando os imprevistos do futuro. Mas com rigor nas nossas aldeias não se vive bem, sobrevive-se neste desassossego de ouvir o sino tocar a finados e prever, sinistramente qual será o último vizinho a morrer ou a abandonar a aldeia no espaço breve de quinze, ou vinte anos. Lá se vai andando, gemendo e mancando. Depois será o silêncio e um vasto deserto para os antropólogos, sinistramente, estudarem o fim duma comunidade que não resistiu ao abandono do Poder central.
E as frases continuam a ser magnânimas e qualquer político que se prese elenca, entre uma visitinha apressada, um copo de vinho e uma posta de vitela assada na brasa, que é urgente salvar o interior desta morte anunciada, potencializar o turismo, apoiar a riqueza endógena destas regiões para que o país caminhe a uma só velocidade, sem a clivagem entre o interior e o litoral. Depois, regressam a Lisboa e tudo continua na mesma; pelo natal mata-se o porco, com sorte virão os filhos ajudar a apanhar a azeitona, chegará o verão, haverá festas e o senhor padre, na sua velhice, celebra missa enquanto puder e continua-se a observar este deserto na ausência das crianças que há muito deixaram de povoar a escola.
Em boa verdade nem sei para que existem partidos políticos nas terras do interior. Talvez para criar inimizades e conflitos entre os vizinhos que se batem pelo seu partido enquanto alguns de Lisboa se riem no amanho da sua vidinha. A política faz-se em Lisboa onde quase tudo se decide como se as mulheres e os homens da “polis” transmontana não existissem, ou sofressem duma incapacidade provinciana de entender o mundo e as subtilezas do conhecimento científico.
E depois, a inteligência lisboeta fala do interior como se fosse o último reduto duma comunidade longínqua e mística que ainda vive na idade média entre o burro, a vaca, a galinha, os mitos e os preconceitos que vale a pena visitar num passeio turístico, antropológico e etnográfico. Embora, ultimamente, quase ninguém de monta da área do Poder se tenha visto por estas Terras, pois os votos são poucos e será sempre amanhã que se olha para o interior como sendo parte integrante do todo nacional.
De vez em quando a dinâmica político-partidária lá se anima com as eleições das comissões políticas concelhias, ou distritais. Mas é sol de pouca dura, pois em breve, as grandes decisões regressam a Lisboa. E mesmo os candidatos a deputados que são os mais diretos representantes das populações, muitas vezes, são escolhidos pelas estruturas políticas nacionais num total desrespeito pelas estruturas locais e num insulto descarado à inteligência e à capacidade de decisão das populações do interior incapazes de fazer valer a sua vontade, pois o peso do seu voto pouco conta.
Sem dúvida que não há democracia se não houver partidos políticos fortes, atuantes e representativos da diversidade ideológica dos cidadãos. Mas partidos que marginalizam as regiões mais isoladas, não vale a pena. E mesmo os autarcas, não saem dum desassossego, numa luta heróica pelos seus municípios, batendo com insistência à porta do Poder que se entrincheira em Lisboa e muitas vezes assobia para o lado.
Assim não. Já não há paciência. Contudo o sol, por enquanto, ainda continua a nascer radioso lá para os lados da Lombada e a pôr-se no recato da Senhora da Serra. Pelo menos o sol ainda é democrata e é para todos.
Vou-me lá acender o lume e esperar que este inverno gélido não leve muitos vizinhos, pois já somos tão poucos os que resistimos.
Talvez este ano nasça alguma criança.

Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.
Prioridades
Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
** Texto seleccionado para a coletânea "Obsessões" da Lua de Marfim Editora
Fábio, de olhos fixos no ecrã, roía nervosamente a caneta. Apontamentos em dezenas de folhas estavam espalhados sobre o tampo da secretária, por baixo dos cotovelos e sobre o teclado. As linhas pretas sobre fundo branco pareciam ondular e emitiam reflexos sobre as lentes dos óculos. De tempos a tempos, ideias brotavam através dos dedos para as teclas e fundiam-se em frases que se materializavam no texto.
De súbito, uma dúvida assaltou-o e começou a rebuscar os rascunhos até que, pelo canto do olho, percebeu a presença encostada ao umbral da porta.
Olhou, entre o surpreendido e o confundido para Eduarda que, de braços cruzados, exibia uma expressão de desagrado.
- É... para ir jantar? - Perguntou hesitante.
- Era. Era mesmo para ir jantar. - A voz rouca dela era firme e cheia de acusações. - Há uma hora atrás, quando te vim chamar e me disseste que já ias.
- Uma hora?!? - Ele continuava confundido. - Chamaste-me? Não me lembro.
- Sim, uma hora, Fábio Ferreira. Mais de uma hora que estive à tua espera. Acabei agora mesmo o meu jantar… frio!
- Oh, meu amor, desculpa-me, mas eu...
- Sim, eu sei, tens esse teu maldito livro na cabeça e não tens espaço para mais nada. Há mais de quatro meses que não pensas noutra coisa... mesmo!
- … tenho que acabar este livro, enquanto não o fizer, não consigo sequer dormir!
A posição dela alterou-se. Colocou as mãos atrás do corpo e olhou para o chão enquanto se queixava baixinho:
- Não aguento mais isto…
- Por favor... - Ele ergueu-se e tentou abraça-la, sendo sacudido de imediato. - Não vês que é uma fase? Assim que acabar o livro tudo será diferente.
- Diferente? Diferente até quando? Até ao próximo livro? Achas que é fácil? Viver num mundo sozinha, em que tu estás de corpo presente mas com a cabeça sabe-se lá onde? Faço-te perguntas e não respondes ou respondes tanto tempo depois que já nem sei do que falas. Há quanto tempo não temos uma conversa sobre qualquer coisa? Passo refeições sozinha, a olhar para televisão, sem saber o que está a dar... contigo a meu lado.
- Mas estou ao teu lado sempre que posso... Acusas-me de ser lento a responder-te porque estou ausente e não te dou atenção. Para ti é fácil, a tua cabeça está cheia de ligações ao mundo e ao ambiente que te rodeia. A minha, está cheia de mundos e de vida interior... quando demoro a responder, é porque já vivi uma vida inteira, entre a tua pergunta e a minha resposta.
Ela olhou-o estranhamente e ele sorriu-lhe com tristeza enquanto apreciava o cabelo claro, curto, que lhe dava um aspeto de rapazinho e o rosto fino e sardento que ele tanto amava. Tentou acariciar-lhe o rosto mas ela evitou o contato.
- Ausente, sempre! - Concluiu ela. - Seja absorvido por um livro, seja a escrevinhar com demência em qualquer papel, ou enclavinhado no computador! - A voz alterada atenuou-se e as lágrimas pareciam querer explodir nos olhos castanhos. - Onde estás tu, que não estás comigo? Que é que te leva para esse mundo distante, onde eu não estou e não te faço falta?
- Não é verdade, que não me fazes falta! Eu amo-te, preciso de ti e não posso viver sem ti!
- Para te lavar a roupa, arrumar a casa e... fazer amor... quando te lembras. Quantas vezes dormiste, nessa secretária, só este mês? Quantas vezes vieste gelado para a cama, já de madrugada, apenas para te enroscares em mim e adormecer de imediato? Estou farta!
- Desculpa-me! Eu compreendo que não deve ser fácil para ti mas, não consigo evitar. São os mundos, dentro da minha cabeça, milhões de mundos, aos quais me ligo e me perco. Quando as ideias começam a fluir, é como um transe onde visualizo cada cena, cada personagem, cada expressão. Tenho que escrever tudo, antes que se vá. Antes que desapareçam para sempre, como farrapos de um sonho aos primeiros raios da alvorada.
- Não posso mais! - Ela repetiu agora voltando-lhe as costas e dirigindo-se para o quarto. - Fica-te com os teus mundos e não me incomodes... eu vou arranjar, o que for preciso, para não te incomodar mais.
A porta do quarto estrondeou com força fazendo tremer os vidros na cristaleira.
Ele quedou-se em pé olhando o corredor e a luz que se escoava por baixo da porta. Sabia que devia ir ter com ela, tentar compor as coisas, a sua cabeça fervilhava de ideias, de coisas que precisava escrever. Olhou para a secretária e, no chão, reluzia o apontamento que ele procurava. Apanhou-o, sentou-se em frente ao computador e recomeçou a escrever.
A luz do sol entrava pela aberturas das persianas, Fábio dormia com a cabeça sobre a secretária, os óculos dobrados a marcar-lhe o rosto e a boca aberta numa respiração pesada. Alguns papéis espalhavam-se pelo chão.
Eduarda, mala na mão, olhou-o uma última vez. As lágrimas corriam-lhe livremente pelo rosto enquanto, por breves instantes, refulgiram com aquele brilho que ele acendia neles há uma eternidade atrás. Depois, como que acordada de um sonho, limpou as lágrimas com as costas da mão e pousou as chaves da casa na secretária ao pé do homem adormecido.
Caminhou, lenta mas firmemente e saiu do apartamento, fechando a porta com cuidado para não acordar o marido.
Manuel Amaro Mendonça nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
** Texto seleccionado para a coletânea "Obsessões" da Lua de Marfim Editora
Fábio, de olhos fixos no ecrã, roía nervosamente a caneta. Apontamentos em dezenas de folhas estavam espalhados sobre o tampo da secretária, por baixo dos cotovelos e sobre o teclado. As linhas pretas sobre fundo branco pareciam ondular e emitiam reflexos sobre as lentes dos óculos. De tempos a tempos, ideias brotavam através dos dedos para as teclas e fundiam-se em frases que se materializavam no texto.
De súbito, uma dúvida assaltou-o e começou a rebuscar os rascunhos até que, pelo canto do olho, percebeu a presença encostada ao umbral da porta.
Olhou, entre o surpreendido e o confundido para Eduarda que, de braços cruzados, exibia uma expressão de desagrado.
- É... para ir jantar? - Perguntou hesitante.
- Era. Era mesmo para ir jantar. - A voz rouca dela era firme e cheia de acusações. - Há uma hora atrás, quando te vim chamar e me disseste que já ias.
- Uma hora?!? - Ele continuava confundido. - Chamaste-me? Não me lembro.
- Sim, uma hora, Fábio Ferreira. Mais de uma hora que estive à tua espera. Acabei agora mesmo o meu jantar… frio!
- Oh, meu amor, desculpa-me, mas eu...
- Sim, eu sei, tens esse teu maldito livro na cabeça e não tens espaço para mais nada. Há mais de quatro meses que não pensas noutra coisa... mesmo!
- … tenho que acabar este livro, enquanto não o fizer, não consigo sequer dormir!
A posição dela alterou-se. Colocou as mãos atrás do corpo e olhou para o chão enquanto se queixava baixinho:
- Não aguento mais isto…
- Por favor... - Ele ergueu-se e tentou abraça-la, sendo sacudido de imediato. - Não vês que é uma fase? Assim que acabar o livro tudo será diferente.
- Diferente? Diferente até quando? Até ao próximo livro? Achas que é fácil? Viver num mundo sozinha, em que tu estás de corpo presente mas com a cabeça sabe-se lá onde? Faço-te perguntas e não respondes ou respondes tanto tempo depois que já nem sei do que falas. Há quanto tempo não temos uma conversa sobre qualquer coisa? Passo refeições sozinha, a olhar para televisão, sem saber o que está a dar... contigo a meu lado.
- Mas estou ao teu lado sempre que posso... Acusas-me de ser lento a responder-te porque estou ausente e não te dou atenção. Para ti é fácil, a tua cabeça está cheia de ligações ao mundo e ao ambiente que te rodeia. A minha, está cheia de mundos e de vida interior... quando demoro a responder, é porque já vivi uma vida inteira, entre a tua pergunta e a minha resposta.
Ela olhou-o estranhamente e ele sorriu-lhe com tristeza enquanto apreciava o cabelo claro, curto, que lhe dava um aspeto de rapazinho e o rosto fino e sardento que ele tanto amava. Tentou acariciar-lhe o rosto mas ela evitou o contato.
- Ausente, sempre! - Concluiu ela. - Seja absorvido por um livro, seja a escrevinhar com demência em qualquer papel, ou enclavinhado no computador! - A voz alterada atenuou-se e as lágrimas pareciam querer explodir nos olhos castanhos. - Onde estás tu, que não estás comigo? Que é que te leva para esse mundo distante, onde eu não estou e não te faço falta?
- Não é verdade, que não me fazes falta! Eu amo-te, preciso de ti e não posso viver sem ti!
- Para te lavar a roupa, arrumar a casa e... fazer amor... quando te lembras. Quantas vezes dormiste, nessa secretária, só este mês? Quantas vezes vieste gelado para a cama, já de madrugada, apenas para te enroscares em mim e adormecer de imediato? Estou farta!
- Desculpa-me! Eu compreendo que não deve ser fácil para ti mas, não consigo evitar. São os mundos, dentro da minha cabeça, milhões de mundos, aos quais me ligo e me perco. Quando as ideias começam a fluir, é como um transe onde visualizo cada cena, cada personagem, cada expressão. Tenho que escrever tudo, antes que se vá. Antes que desapareçam para sempre, como farrapos de um sonho aos primeiros raios da alvorada.
- Não posso mais! - Ela repetiu agora voltando-lhe as costas e dirigindo-se para o quarto. - Fica-te com os teus mundos e não me incomodes... eu vou arranjar, o que for preciso, para não te incomodar mais.
A porta do quarto estrondeou com força fazendo tremer os vidros na cristaleira.
Ele quedou-se em pé olhando o corredor e a luz que se escoava por baixo da porta. Sabia que devia ir ter com ela, tentar compor as coisas, a sua cabeça fervilhava de ideias, de coisas que precisava escrever. Olhou para a secretária e, no chão, reluzia o apontamento que ele procurava. Apanhou-o, sentou-se em frente ao computador e recomeçou a escrever.
A luz do sol entrava pela aberturas das persianas, Fábio dormia com a cabeça sobre a secretária, os óculos dobrados a marcar-lhe o rosto e a boca aberta numa respiração pesada. Alguns papéis espalhavam-se pelo chão.
Eduarda, mala na mão, olhou-o uma última vez. As lágrimas corriam-lhe livremente pelo rosto enquanto, por breves instantes, refulgiram com aquele brilho que ele acendia neles há uma eternidade atrás. Depois, como que acordada de um sonho, limpou as lágrimas com as costas da mão e pousou as chaves da casa na secretária ao pé do homem adormecido.
Caminhou, lenta mas firmemente e saiu do apartamento, fechando a porta com cuidado para não acordar o marido.
Manuel Amaro Mendonça nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.
HISTÓRIA DA LUTA DOS DOIS CARNEIROS
Dois pastores conduziam o gado para a pastagem e encontram-se ao passar no campo da bola. Cada um deles tinha um grande carneiro que, ao encontrar-se, não resistiram a uma luta e começaram a marrar um contra o outro a ponto do resto do gado se afastar consideravelmente. Enquanto lutavam aproximou-se um lobo faminto e estafado da caminhada, que lhes falou:
- Bom dia compadres carneiros!
E eles responderam:
- Bom dia compadre lobo!
- Venho tão cansado e cheio de fome que vou ter de vos comer.
- Tem graça, até estamos de acordo que nos comas, mas tens de nos deixar definir isto aqui. É que temos esta leira para dividir pelos dois e temos de fazer este trabalho para saber o que toca a cada um.
-Ah! Tendes razão. Então vá, acabem lá o serviço porque estou com muita fome.
E diz um dos carneiros:
- Então tu vais sentar-te aqui, o meu companheiro vai afastar-se até lá para trás e eu vou afastar-me também, depois vimos os dois a correr e o primeiro a chegar aqui é porque a leira dele é a mais pequena.
O lobo concordou, e então, os carneiros afastaram-se no sentido oposto e empreenderam uma feroz corrida, um em frente ao outro. O lobo viu-os vir mas não teve tempo de os evitar, sendo apanhado no meio da estucada dos grandes cornos dos carneiros, só se ouvindo um grande estouro do lobo a arrebentar.
Depois do sucedido, os carneiros olharam-se e concluíram:
- Este já se foi!
Seguidamente, largaram a correr para alcançar os respectivos donos e gados.
O lobo meio vivo meio morto, lá se foi levantando e cambaleando, chegou a um lameiro onde pastava uma égua e falou-lhe:
- Ó comadre égua, triste é a minha vida, venho tão doente, cansado e cheio de fome, vou ter que te comer!
A égua abalada até concordou e disse:
- Acho até bem que me comas, também tens direito a viver, mas olha, tenho um grande espigão numa pata e tens de mo tirar antes de me comer, senão o espigão espeta-se-te no céu-da-boca e morres.
O lobo entendeu, então, que seria prudente tirar mesmo o espigão da pata da égua antes de a comer e disse:
- Então alça lá a pata que tem o espigão.
A égua manhosa levantou a pata e quando o lobo se preparava para arrancar o hipotético espigão com os dentes, a égua defere um grande coice que deitou com o pobre lobo aos tombos pelo vale a baixo. E, assim, a égua escapou aos dentes do lobo.
Passado um pouco, o pobre animal lá se foi endireitando aos poucos e tomou caminho ao longo de um riacho que chegava ao rio, naquele rio havia um moinho estava parado mas não estava desactivado.
Assim, o dono do moinho tinha ao lado deste uma casotinha onde guardava uma porca com algumas crias. O lobo foi-se aproximando da mãe porca enquanto as filhinhas pastavam por perto:
- Olá comadre porca.
E responde a porca:
- Viva compadre lobo, o que o trás por estes lados?
- Ó comadre porca! Triste é a minha vida, venho cansado e cheio de fome, vou ter que a comer. O que prefere, que a coma a si ou aos seus leitõezinhos?
E a porca responde:
- Antes quero que comas os meus filhos, porque eu sou nova e ainda posso arranjar outros, mas antes tens de mos deixar baptizar.
O lobo curioso pergunta:
- Então e como se baptizam?
A porca esperta chama o lobo para a saída da água do moinho onde se encontrava o rodízio e, então, explicou-lhe como se faria o baptismo e como ele deveria proceder:
- Vais ficar aqui sentado na roda com a boca bem aberta para aquele buraco (a saída da água), eu vou por cima e mando um leitão de cada vez por aquele buraco, quando chegar aqui já vem baptizado e tu aboca-lo. O lobo concordou e sentou-se na roda, entretanto a mãe porca foi guardar os filhotes na loja e, depois, foi por cima a abrir o canal para deixar correr a água, fechando-se em seguida com os filhos.
Quando a água começou a cair na roda esta começou a rodar e a fazer um barulho característico do próprio movimento. O lobo ao entrar em rotação agarrou-se ao pau do meio (ao veio), mas não pode parar o movimento e desatou a gritar:
- Pára rezingão que havemos de baptizar um leitão!
Mas como a água não deixava de correr a roda não parava de rodar e o lobo ia ficando tonto de tanta volta, acabando a força da água por arrastá-lo ao longo do rio.
Da janela da sua loja a comadre porca acena:
- Adeus compadre lobo, boa viagem passe muito bem!
Tontinho de tanto rodar e de tanto tombo dar, foi parar junto de um escanzelado burro que pastava num lameiro, num lugar chamado Tabuaça. Estava coberto com uma manta e aproximou-se depois de fazer um grande esforço para se levantar:
- Viva compadre burro.
E disse o burro:
- Olá compadre lobo!
- Ah compadre burro venho tão cansado, cheio de fome, que vou ter que o comer!
- Ah compadre lobo, não será grande ideia, não vês que sou só ossos, parece-me que será melhor, uma vez que está cansado, deitar-se ai ao sol e dormir uma grande sesta, enquanto eu pasto um pouco e assim já te podes fartar. O lobo obedeceu, deitou-se e deixou-se dormir. Ao ver o lobo a dormir o burro foi deitar-se por detrás dele, começando a mexer-lhe por detrás com o seu “instrumento” e o lobo acordou:
- Ó compadre burro, então isto o que é?
O burro respondeu:
- É o canhão com que te vou matar!
- Então e isto aqui?
- Isto são as cartucheiras que estão cheias de balas para te matar.
O lobo levanta-se dum salto e não se lamentou mais do seu cansaço e da sua fome, larga a correr pelo vale fora, acelerando quando olhava para trás e via o burro a zurrar com o canhão armado. Cheio de medo e cego na corrida foi enfiar-se numa mata de estevas que, naquele tempo, tinham já a cabeça de flor a cair, caindo-lhe no lombo ao passar:
- Fogo lá para o burro, que grande canhão que ainda chegam aqui os chumbos frios!
Continuou, assim, o triste lobo pelo monte fora, onde encontrou um leão que lhe perguntou:
- Donde vens compadre lobo, tão cansado e esbaforido, parece que viste o diabo?!
Respondeu o lobo:
- Ah! Se te acontecesse o que me aconteceu a mim agora ali com um burrito!
- Então o que foi que te assustou assim tanto?
O lobo contou o que lhe tinha acontecido com o burro, e o leão ficou curioso, não querendo acreditar que fosse assim:
- Olha vamos lá os dois dar cabo dele.
- Não vou que estou muito cansado!
Diz, então, o leão:
- Nesse caso, agarra-te aqui ao meu rabo e vamos ver que tipo de burro é esse que tanto te amedronta.
O lobo acabou por agarrar-se ao rabo do leão com os dentes e deixou-se arrastar por ele, pois já nem tinha forças para andar batendo com a cabeça, durante o caminho, em troncos e pedras. Ao avistarmos o burro, este voltou-se para trás e põe-se a exibir o seu grande canhão. O leão parou e considerou que seria melhor não avançar mais, porque de facto aquele canhão metia respeito! Entretanto o lobo de tantos saltos e tombos ter dado já estava meio morto, mesmo assim, o leão voltou para o monte com o lobo preso à cauda. Ao parar e já cansado de puxar, comenta ao ver o lobo de dentes arreganhados, pois já estava morto:
- Ai tu ainda te ris? Pois eu não acho piada nenhuma, aquele era um canhão de meter medo a um batalhão, larga-me lá o rabo que eu quero ir à minha vida, mas o lobo já não abria os dentes estava mesmo morto.
Entretanto o leão passou entre duas árvores muito juntas, tendo o lobo que ficar mesmo para trás, mas ficou-lhe também com metade da cauda. Seguindo saroto, mas livre o leão atravessou pelo campo da bala, no entanto ditou a sua pouca sorte que pisasse uma casinha de um grilo, que saiu de lá todo chateado e lhe perguntou:
- Ouça lá senhor leão saroto, quero saber quem lhe deu autorização para pisar a minha casa?
- Queira desculpar-me, meu rei grilo, mas creio que não foi de propósito.
Mas o grilo ainda irritado não aceitou explicações:
- Não aceito desculpas, proponho já uma guerra temos que medir forças.
- Pois se insiste, façamos uma guerra!
Combinaram o dia dos confrontos e cada um reuniu as suas tropas. O leão convidou elefantes, raposas, rinocerontes, mais leões, enfim animais grandes e ferozes. O pequeno grilo convidou simplesmente abelhas. Chegando o dia D as tropas puseram -se frente a frente, os animais da floresta ao ver montinhos de abelhas agrupados no chão, zombaram logo daquela situação e consideraram-se vencedores à partida.
Só que saiu tudo ao contrário, à ordem de ataque as pequenas mas ágeis abelhas, num zumbido aéreo atacaram os adversários pelo focinho, picando-os nos olhos, nas patas, na barriga, na cauda, nas orelhas e por tudo quanto era sitio, até que os fortes animais debandaram à deriva.
O lobo, numa corrida desenfreada sem direcção, deparou-se com uma raposa:
- Eh, amigo lobo, que corrida cega é essa? Donde vens tão furioso?
Quase sem parar de se coçar o lobo responde:
- Venho ali da guerra do Leão e do rei Grilo, só que ele tinha lá uma tropa de farda amarela que malharam em nós todos. Eram pequenas, mas agarram-se a nós num zumbido sem fim picando-nos todos e tivemos de nos render. A raposa pensando que era mais valente adiantou:
- Ah! Se me apanho lá eu com as minhas unhazinhas desfaço-as todas!
- Pois vai que ainda chegas a quinhão.
Volveu o leão continuando a sua fuga e precipitando-se para o fundo do poço de onde não conseguia sair. A raposa chegou ao campo de batalha e falou:
- Oh, rei Grilo manda cá as tuas tropas que quero medir forças com elas!
O grilo enviou uma mãozinha de abelhas que envolveram a raposa, de tal modo, que ela não teve mais que fazer do que enfiar-se num charco de água para que as abelhas a largassem.
A raposa não se atreveu a voltar a trás, ficou-se por ali à beira do caminho. Por aquela hora costumava passar por ali o senhor Nazário que ia de Paço para Mós vender sardinhas com um caixote às costas. A esperta raposa ao avistá-lo tomba-se ao longo do caminho, como se estivesse morta, o senhor Nazário dá-lhe, então, um pontapé para se certificar que estava morta, pensando levá-la para lhe tirara pele e vendê-la. Assim, agarrou a raposa pelo lombo e atirou com ela para cima das sardinhas que levava às costas, prosseguindo caminho sem desconfiar da malandrice da raposa. E que astuta foi a raposa e como pregou uma partida ao sardinheiro!
Ao longo do caminho foi deitando fora, uma a uma, todas as sardinhas compassando-as ao longo do caminho. Depois, deixou-se ir mais um bocado para ficar com espaço para quando saltasse do caixote poder correr sem ser apanhada, tendo a possibilidade de comer as sardinhas todas no regresso. De um salto só a raposa fugiu e exasperou o sardinheiro:
- Ah! Maldita raposa, filha da mãe, fez-se morta só para apanhar boleia até aqui, pois olha, escapaste-te a tempo!
Não havia nada a fazer, seguiu o caminho e chegou à aldeia começando, logo de seguida, apregoar as sardinhas, desceu o caixote e pô-lo numa parede, mas para espanto seu não havia nenhuma sardinha no caixote! Pobre do senhor Nazário gelou-se-lhe o sangue, começou a praguejar contra a raposa, enquanto pedia desculpas aos clientes da aldeia e, assim, perdeu o dia. Por sua vez, a raposa, no regresso, foi recolhendo todas as sardinhas retirando-se para o monte, onde os lobos se criam e dormem, chamado Pena Cova. Ai cruzou-se com um lobo que ficou espantado ao vê-la com tanto peixe:
- Ó comadre raposa, donde vens com tantos peixinhos?
E respondeu a malandra da raposa:
- Olha quem quer peixe molha “el culo”. Dormi toda a noite no poço do tio Purezo, quando foi de manhã, custou-me a sair com tanto peixe agarrado a mim.
- Ó comadre raposa, tens de me ensinar onde é esse poço que eu também quero lá ir dormir.
- Ensino sim senhor, compadre lobo!
Foi então ensinar ao lobo o lugar que seria de suplício para ele, explicou-lhe como devia fazer para se meter no poço na parte que era mais profunda ficando só com a cabeça de fora.
Quando chegou a noite o lobo foi meter-se no poço e como era Inverno a água começou a gelar, e como o gelo, no correr da noite, ia apertando cada vez mais, o lobo chega a pensar que a raposa tinha razão, pensando que o gelo a apertar eram os peixes. No entanto, o lobo acabou por não ser capaz de sair do poço acabando por morrer ali com o gelo. A raposa ao saber da burrice do lobo ficou-se a rir da sua astúcia que saiu vencedora contra a esperteza do lobo.
RECOLHA 2005 SCMB, CASIMIRO PARENTE, Idade: 66.
Localização geográfica: PAÇO DAS MÓS – ORIGEM + 60 anos.
FICHA TÉCNICA:
Título: CANCIONEIRO TRANSMONTANO 2005
Autor do projecto: CHRYS CHRYSTELLO
Fotografia e design: LUÍS CANOTILHO
Pintura: HELENA CANOTILHO (capa e início dos capítulos)
Edição: SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE BRAGANÇA
Recolha de textos 2005: EDUARDO ALVES E SANDRA ROCHA
Recolha de textos 1985: BELARMINO AUGUSTO AFONSO
Na edição de 1985: ilustrações de José Amaro
Edição de 1985: DELEGAÇÃO DA JUNTA CENTRAL DAS CASAS DO POVO DE
BRAGANÇA, ELEUTÉRIO ALVES e NARCISO GOMES
Transcrição musical 1985: ALBERTO ANÍBAL FERREIRA
Iimpressão e acabamento: ROCHA ARTES GRÁFICAS, V. N. GAIA
- Bom dia compadres carneiros!
E eles responderam:
- Bom dia compadre lobo!
- Venho tão cansado e cheio de fome que vou ter de vos comer.
- Tem graça, até estamos de acordo que nos comas, mas tens de nos deixar definir isto aqui. É que temos esta leira para dividir pelos dois e temos de fazer este trabalho para saber o que toca a cada um.
-Ah! Tendes razão. Então vá, acabem lá o serviço porque estou com muita fome.
E diz um dos carneiros:
- Então tu vais sentar-te aqui, o meu companheiro vai afastar-se até lá para trás e eu vou afastar-me também, depois vimos os dois a correr e o primeiro a chegar aqui é porque a leira dele é a mais pequena.
O lobo concordou, e então, os carneiros afastaram-se no sentido oposto e empreenderam uma feroz corrida, um em frente ao outro. O lobo viu-os vir mas não teve tempo de os evitar, sendo apanhado no meio da estucada dos grandes cornos dos carneiros, só se ouvindo um grande estouro do lobo a arrebentar.
Depois do sucedido, os carneiros olharam-se e concluíram:
- Este já se foi!
Seguidamente, largaram a correr para alcançar os respectivos donos e gados.
O lobo meio vivo meio morto, lá se foi levantando e cambaleando, chegou a um lameiro onde pastava uma égua e falou-lhe:
- Ó comadre égua, triste é a minha vida, venho tão doente, cansado e cheio de fome, vou ter que te comer!
A égua abalada até concordou e disse:
- Acho até bem que me comas, também tens direito a viver, mas olha, tenho um grande espigão numa pata e tens de mo tirar antes de me comer, senão o espigão espeta-se-te no céu-da-boca e morres.
O lobo entendeu, então, que seria prudente tirar mesmo o espigão da pata da égua antes de a comer e disse:
- Então alça lá a pata que tem o espigão.
A égua manhosa levantou a pata e quando o lobo se preparava para arrancar o hipotético espigão com os dentes, a égua defere um grande coice que deitou com o pobre lobo aos tombos pelo vale a baixo. E, assim, a égua escapou aos dentes do lobo.
Passado um pouco, o pobre animal lá se foi endireitando aos poucos e tomou caminho ao longo de um riacho que chegava ao rio, naquele rio havia um moinho estava parado mas não estava desactivado.
Assim, o dono do moinho tinha ao lado deste uma casotinha onde guardava uma porca com algumas crias. O lobo foi-se aproximando da mãe porca enquanto as filhinhas pastavam por perto:
- Olá comadre porca.
E responde a porca:
- Viva compadre lobo, o que o trás por estes lados?
- Ó comadre porca! Triste é a minha vida, venho cansado e cheio de fome, vou ter que a comer. O que prefere, que a coma a si ou aos seus leitõezinhos?
E a porca responde:
- Antes quero que comas os meus filhos, porque eu sou nova e ainda posso arranjar outros, mas antes tens de mos deixar baptizar.
O lobo curioso pergunta:
- Então e como se baptizam?
A porca esperta chama o lobo para a saída da água do moinho onde se encontrava o rodízio e, então, explicou-lhe como se faria o baptismo e como ele deveria proceder:
- Vais ficar aqui sentado na roda com a boca bem aberta para aquele buraco (a saída da água), eu vou por cima e mando um leitão de cada vez por aquele buraco, quando chegar aqui já vem baptizado e tu aboca-lo. O lobo concordou e sentou-se na roda, entretanto a mãe porca foi guardar os filhotes na loja e, depois, foi por cima a abrir o canal para deixar correr a água, fechando-se em seguida com os filhos.
Quando a água começou a cair na roda esta começou a rodar e a fazer um barulho característico do próprio movimento. O lobo ao entrar em rotação agarrou-se ao pau do meio (ao veio), mas não pode parar o movimento e desatou a gritar:
- Pára rezingão que havemos de baptizar um leitão!
Mas como a água não deixava de correr a roda não parava de rodar e o lobo ia ficando tonto de tanta volta, acabando a força da água por arrastá-lo ao longo do rio.
Da janela da sua loja a comadre porca acena:
- Adeus compadre lobo, boa viagem passe muito bem!
Tontinho de tanto rodar e de tanto tombo dar, foi parar junto de um escanzelado burro que pastava num lameiro, num lugar chamado Tabuaça. Estava coberto com uma manta e aproximou-se depois de fazer um grande esforço para se levantar:
- Viva compadre burro.
E disse o burro:
- Olá compadre lobo!
- Ah compadre burro venho tão cansado, cheio de fome, que vou ter que o comer!
- Ah compadre lobo, não será grande ideia, não vês que sou só ossos, parece-me que será melhor, uma vez que está cansado, deitar-se ai ao sol e dormir uma grande sesta, enquanto eu pasto um pouco e assim já te podes fartar. O lobo obedeceu, deitou-se e deixou-se dormir. Ao ver o lobo a dormir o burro foi deitar-se por detrás dele, começando a mexer-lhe por detrás com o seu “instrumento” e o lobo acordou:
- Ó compadre burro, então isto o que é?
O burro respondeu:
- É o canhão com que te vou matar!
- Então e isto aqui?
- Isto são as cartucheiras que estão cheias de balas para te matar.
O lobo levanta-se dum salto e não se lamentou mais do seu cansaço e da sua fome, larga a correr pelo vale fora, acelerando quando olhava para trás e via o burro a zurrar com o canhão armado. Cheio de medo e cego na corrida foi enfiar-se numa mata de estevas que, naquele tempo, tinham já a cabeça de flor a cair, caindo-lhe no lombo ao passar:
- Fogo lá para o burro, que grande canhão que ainda chegam aqui os chumbos frios!
Continuou, assim, o triste lobo pelo monte fora, onde encontrou um leão que lhe perguntou:
- Donde vens compadre lobo, tão cansado e esbaforido, parece que viste o diabo?!
Respondeu o lobo:
- Ah! Se te acontecesse o que me aconteceu a mim agora ali com um burrito!
- Então o que foi que te assustou assim tanto?
O lobo contou o que lhe tinha acontecido com o burro, e o leão ficou curioso, não querendo acreditar que fosse assim:
- Olha vamos lá os dois dar cabo dele.
- Não vou que estou muito cansado!
Diz, então, o leão:
- Nesse caso, agarra-te aqui ao meu rabo e vamos ver que tipo de burro é esse que tanto te amedronta.
O lobo acabou por agarrar-se ao rabo do leão com os dentes e deixou-se arrastar por ele, pois já nem tinha forças para andar batendo com a cabeça, durante o caminho, em troncos e pedras. Ao avistarmos o burro, este voltou-se para trás e põe-se a exibir o seu grande canhão. O leão parou e considerou que seria melhor não avançar mais, porque de facto aquele canhão metia respeito! Entretanto o lobo de tantos saltos e tombos ter dado já estava meio morto, mesmo assim, o leão voltou para o monte com o lobo preso à cauda. Ao parar e já cansado de puxar, comenta ao ver o lobo de dentes arreganhados, pois já estava morto:
- Ai tu ainda te ris? Pois eu não acho piada nenhuma, aquele era um canhão de meter medo a um batalhão, larga-me lá o rabo que eu quero ir à minha vida, mas o lobo já não abria os dentes estava mesmo morto.
Entretanto o leão passou entre duas árvores muito juntas, tendo o lobo que ficar mesmo para trás, mas ficou-lhe também com metade da cauda. Seguindo saroto, mas livre o leão atravessou pelo campo da bala, no entanto ditou a sua pouca sorte que pisasse uma casinha de um grilo, que saiu de lá todo chateado e lhe perguntou:
- Ouça lá senhor leão saroto, quero saber quem lhe deu autorização para pisar a minha casa?
- Queira desculpar-me, meu rei grilo, mas creio que não foi de propósito.
Mas o grilo ainda irritado não aceitou explicações:
- Não aceito desculpas, proponho já uma guerra temos que medir forças.
- Pois se insiste, façamos uma guerra!
Combinaram o dia dos confrontos e cada um reuniu as suas tropas. O leão convidou elefantes, raposas, rinocerontes, mais leões, enfim animais grandes e ferozes. O pequeno grilo convidou simplesmente abelhas. Chegando o dia D as tropas puseram -se frente a frente, os animais da floresta ao ver montinhos de abelhas agrupados no chão, zombaram logo daquela situação e consideraram-se vencedores à partida.
Só que saiu tudo ao contrário, à ordem de ataque as pequenas mas ágeis abelhas, num zumbido aéreo atacaram os adversários pelo focinho, picando-os nos olhos, nas patas, na barriga, na cauda, nas orelhas e por tudo quanto era sitio, até que os fortes animais debandaram à deriva.
O lobo, numa corrida desenfreada sem direcção, deparou-se com uma raposa:
- Eh, amigo lobo, que corrida cega é essa? Donde vens tão furioso?
Quase sem parar de se coçar o lobo responde:
- Venho ali da guerra do Leão e do rei Grilo, só que ele tinha lá uma tropa de farda amarela que malharam em nós todos. Eram pequenas, mas agarram-se a nós num zumbido sem fim picando-nos todos e tivemos de nos render. A raposa pensando que era mais valente adiantou:
- Ah! Se me apanho lá eu com as minhas unhazinhas desfaço-as todas!
- Pois vai que ainda chegas a quinhão.
Volveu o leão continuando a sua fuga e precipitando-se para o fundo do poço de onde não conseguia sair. A raposa chegou ao campo de batalha e falou:
- Oh, rei Grilo manda cá as tuas tropas que quero medir forças com elas!
O grilo enviou uma mãozinha de abelhas que envolveram a raposa, de tal modo, que ela não teve mais que fazer do que enfiar-se num charco de água para que as abelhas a largassem.
A raposa não se atreveu a voltar a trás, ficou-se por ali à beira do caminho. Por aquela hora costumava passar por ali o senhor Nazário que ia de Paço para Mós vender sardinhas com um caixote às costas. A esperta raposa ao avistá-lo tomba-se ao longo do caminho, como se estivesse morta, o senhor Nazário dá-lhe, então, um pontapé para se certificar que estava morta, pensando levá-la para lhe tirara pele e vendê-la. Assim, agarrou a raposa pelo lombo e atirou com ela para cima das sardinhas que levava às costas, prosseguindo caminho sem desconfiar da malandrice da raposa. E que astuta foi a raposa e como pregou uma partida ao sardinheiro!
Ao longo do caminho foi deitando fora, uma a uma, todas as sardinhas compassando-as ao longo do caminho. Depois, deixou-se ir mais um bocado para ficar com espaço para quando saltasse do caixote poder correr sem ser apanhada, tendo a possibilidade de comer as sardinhas todas no regresso. De um salto só a raposa fugiu e exasperou o sardinheiro:
- Ah! Maldita raposa, filha da mãe, fez-se morta só para apanhar boleia até aqui, pois olha, escapaste-te a tempo!
Não havia nada a fazer, seguiu o caminho e chegou à aldeia começando, logo de seguida, apregoar as sardinhas, desceu o caixote e pô-lo numa parede, mas para espanto seu não havia nenhuma sardinha no caixote! Pobre do senhor Nazário gelou-se-lhe o sangue, começou a praguejar contra a raposa, enquanto pedia desculpas aos clientes da aldeia e, assim, perdeu o dia. Por sua vez, a raposa, no regresso, foi recolhendo todas as sardinhas retirando-se para o monte, onde os lobos se criam e dormem, chamado Pena Cova. Ai cruzou-se com um lobo que ficou espantado ao vê-la com tanto peixe:
- Ó comadre raposa, donde vens com tantos peixinhos?
E respondeu a malandra da raposa:
- Olha quem quer peixe molha “el culo”. Dormi toda a noite no poço do tio Purezo, quando foi de manhã, custou-me a sair com tanto peixe agarrado a mim.
- Ó comadre raposa, tens de me ensinar onde é esse poço que eu também quero lá ir dormir.
- Ensino sim senhor, compadre lobo!
Foi então ensinar ao lobo o lugar que seria de suplício para ele, explicou-lhe como devia fazer para se meter no poço na parte que era mais profunda ficando só com a cabeça de fora.
Quando chegou a noite o lobo foi meter-se no poço e como era Inverno a água começou a gelar, e como o gelo, no correr da noite, ia apertando cada vez mais, o lobo chega a pensar que a raposa tinha razão, pensando que o gelo a apertar eram os peixes. No entanto, o lobo acabou por não ser capaz de sair do poço acabando por morrer ali com o gelo. A raposa ao saber da burrice do lobo ficou-se a rir da sua astúcia que saiu vencedora contra a esperteza do lobo.
RECOLHA 2005 SCMB, CASIMIRO PARENTE, Idade: 66.
Localização geográfica: PAÇO DAS MÓS – ORIGEM + 60 anos.
FICHA TÉCNICA:
Título: CANCIONEIRO TRANSMONTANO 2005
Autor do projecto: CHRYS CHRYSTELLO
Fotografia e design: LUÍS CANOTILHO
Pintura: HELENA CANOTILHO (capa e início dos capítulos)
Edição: SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE BRAGANÇA
Recolha de textos 2005: EDUARDO ALVES E SANDRA ROCHA
Recolha de textos 1985: BELARMINO AUGUSTO AFONSO
Na edição de 1985: ilustrações de José Amaro
Edição de 1985: DELEGAÇÃO DA JUNTA CENTRAL DAS CASAS DO POVO DE
BRAGANÇA, ELEUTÉRIO ALVES e NARCISO GOMES
Transcrição musical 1985: ALBERTO ANÍBAL FERREIRA
Iimpressão e acabamento: ROCHA ARTES GRÁFICAS, V. N. GAIA
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