terça-feira, 1 de outubro de 2019

A SOBERBA DOS PROFETAS DO APOCALIPSE

O texto atribuído a João, o evangelista, que relata o sonho do fim do mundo, constitui uma peça literária que marcou gerações de cristãos, mesmo se não passaram os olhos pelo texto, ficando-se pelos ecos das pregações de profetas da desgraça, empenhados em convencer os outros de que a vida não passava de uma tortura, castigo adequado à simples aceitação da existência.
Ao terminar o primeiro milénio, alguns visionários foram esperando os dias do fim, ansiosos pelas delícias da eternidade, ou receosos da precipitação no inferno. Mas, o mundo continuou, indiferente à celebração vibrante da morte, com alegrias e tragédias como sempre conhecera, conquistas empolgantes e erros miseráveis, porque é essa a condição humana, longe da perfeição que, certamente, nunca atingirá, mas de que tem demonstrado vontade de se aproximar.
Quase três séculos depois, o sul de França conheceu um movimento apocalíptico que recusava continuar a vida na terra. Vestiam-se de branca pureza e recusavam os actos de procriação para garantir que o mundo acabaria mesmo. De então até aos nossos dias, foram reaparecendo cátaros aqui e ali, sempre arrependidos de viver, desdenhosos deste mundo e dispostos a apontar o dedo a quem não lhes desse atenção.
Mas também houve serenidade, racionalidade e pragmatismo, quando os humanos se propunham olhar o mundo na procura da felicidade e da dignidade, acalentando a esperança de chegar à liberdade e ao respeito pelo próximo, à fraternidade, à justiça na distribuição dos recursos, em cada comunidade e na terra inteira.
A vida mudou para milhões e milhões nos últimos séculos, até chegarmos aos níveis de longevidade que se conhecem no mundo mais desenvolvido, atingindo-se um patamar nunca visto, mesmo em territórios onde a pobreza e a miséria continuaram a assolar as populações até há pouco tempo.
Não se estabeleceu a justiça e a equidade, mas fez-se caminho. São inegáveis os esforços de concertação de organizações mundiais para tentar que da melhoria das condições de vida não resultem só ameaças ao futuro: a cimeira do Rio de Janeiro, em 1992, o Acordo de Paris e a recente conferência em Nova Iorque, foram contributos para não se perder a noção dos riscos que se correm com a expansão económica permanente.
Mas é bom lembrar que cerca de dois terços da população mundial ainda não conheceu condições básicas de uma vida digna e, para lá chegar, precisam da nossa solidariedade, até atingir o desenvolvimento sustentável que não pode ser o regresso à subsistência e à miséria.
Por isso, não se compreende a soberba de alguns que já tiveram quase tudo e agora se tomam de raivas e vertigens proibicionistas em nome de equilíbrios cósmicos. Trata-se de indivíduos que se consideram especiais, como um famoso austríaco, de bigodinho rafeiro, que começou por ser considerado tonto e provocou a catástrofe na Europa e no mundo, entre 1939 e 1945.
Cuidado, portanto, com os fanáticos alucinados que parecem ter muita graça enquanto não nos mandam degolar, convencidos de que o mundo é só para eles. É esse o lado oculto dos lunáticos.


Teófilo Vaz
in:jornalnordeste.com

40 anos a ser APADI

A Associação de Pais e Amigos do Diminuído Intelectual de Bragança comemora 40 anos e o edifício da instituição está agora a sofrer obras de requalificação.
As duas primeiras já foram concluídas, tendo sido recuperada uma ala. A terceira fase vai começar em breve, segundo garantiu António Oliveira, director da instituição há quatro anos. “Quarenta anos depois estamos a tratar de um projecto extremamente importante para nós que é a reabilitação do nosso edificado. Concluímos uma primeira e uma segunda fase e contamos entrar, a curto prazo, numa terceira, também importante para as nossas ambições”.

Cerca de 300 pessoas estiveram presentes no almoço de aniversário da instituição, que tem mais de 70 utentes e 80 colaboradores. Celina Mesquita, uma das fundadoras, está orgulhosa com o crescimento da instituição e afirma que, nos dias de hoje, as pessoas com deficiência já são melhor aceites pela sociedade. “A integração, na minha opinião, é eles, para já, serem vistos de outra maneira. A sociedade, de certo modo, marginalizava a pessoa com deficiência e hoje não. Acho que já são muito aceites. Temos trabalho muito nesse aspecto: abrir as portas da APADI e fazer com que as pessoas visitem a instituição e vejam o trabalho que temos e que eles fazem. Eles não são uns coitadinhos, são como nós”.

O almoço de comemoração dos 40 anos da APADI de Bragança, aconteceu no NERBA, onde foram também expostos trabalhos elaborados pelos utentes da instituição.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

“Vamos Reflectir”: campanha de sensibilização para diminuir atropelamentos nas estradas

Campanha foi lançada pela GNR e Infraestruturas de Portugal, com o objectivo de diminuir os atropelamentos nas estradas, que, este ano, já resultaram em 37 mortes.
Apesar de se verificar uma tendência ligeira de diminuição, o porta-voz da GNR, Hélder Barros, diz que há uma grande preocupação relativa a este tipo de acidentes. “A GNR naturalmente que está preocupada com o número da sinistralidade rodoviária. O enfoque especial desta campanha são os atropelamentos. Em 2018 registamos cerca de quatro mil e dos quais resultaram cerca de 70 vítimas mortais. Números provisórios de 2019, até dia 15 de Setembro, dizem que a GNR registou cerca de 2500 atropelamentos, resultando em 37 vítimas mortais, havendo uma tendência ligeira de diminuição mas estamos preocupados e queremos que estes números tendam para zero e é por isso que esta campanha faz todo o sentido”.

Foi pela segurança rodoviária que as duas entidades se juntaram e apresentaram uma campanha que desafia a reflectir sobre a sinistralidade rodoviária, em especial para os utilizadores mais vulneráveis. “O nome remete para a necessidade da sociedade reflectir sobre estas questões. Remete também para a necessidade de despertar consciências para os utilizadores que estão mais expostos”, explicou ainda o porta-voz da GNR.

Segundo um comunicado da GNR, em 2018 houve cerca de quatro mil atropelamentos, que provocaram 70 mortos e 202 feridos, um aumento de 11% no número de vítimas graves, relativamente ao ano anterior. Além disso, 75% das vítimas mortais têm mais que 50 anos. A campanha adverte para uma maior preocupação com os utilizadores mais vulneráveis como idosos, crianças e utilizadores de bicicletas.

Para evitar tantas mortes por atropelamento, a GNR e a Infraestruturas de Portugal têm marcha a campanha de sensibilização “Vamos Reflectir”.

Escrito por Rádio Ansiães (CIR)

Festa da Vindima e da Amêndoa animou Talhas

Pela primeira vez aconteceu em Talhas, no concelho de Macedo de Cavaleiros, uma feira dedicada à vindima e à amêndoa.
A ideia surgiu da junta de freguesia, que teve o intuito de promover os produtos da terra. Além das uvas e das amêndoas, não faltaram legumes e artesanato na feira. “Tenho uma loja de flores em Macedo de Cavaleiros e trouxe um pouco dos meus artigos que achei que se adequavam à feira. Tenho ainda produtos que os meus pais aqui, na aldeia, produzem”, disse uma das expositoras. “Isto é tudo da aldeia... o azeite, os bolos, as vagens secas... é tudo da aldeia”, explicou outro vendedor e produtor de Talhas. “É bom fazer estas feiras para desenvolver as aldeias”, sublinhou outro expositor da localidade.

Inácio Roma, presidente da junta de freguesia de Talhas, deu o exemplo e expôs na feira também os seus produtos, como o mel, as amêndoas, os figos secos e as vagens secas. O certame já estava a ser preparado há alguns anos, mas só agora foi possível ser realizado. “Esta feira é para expor o que a terra produz e dar diversão ao povo. É a primeira vez, já há uns anos que andávamos a tratar disso e estamos, sinceramente, encantados”.

Do programa fez ainda parte uma sessão orientada por João Alves, geólogo do Geopark Terras de Cavaleiros. O objectivo foi esclarecer a população sobre o que é um geoparque. “Sabem mais ou menos o que é mas não sabem o porque de sermos um geoparque da UNESCO. Temos tido um feedback, temos andado por várias aldeias, e as pessoas ficam muito surpreendidas com o valor geológico que tem Macedo de Cavaleiros”.


Esta primeira edição contou ainda uma caminhada que terminou com a participação das pessoas nas vindimas que estavam a decorrer na aldeia de Talhas.


Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

CIM Terras de Trás-os-Montes cria plataforma empresarial

A Comunidade Intermunicipal (CIM) Terras de Trás-os-Montes vai disponibilizar até ao final de outubro uma plataforma digital com as oportunidades de investimento no território que abrange nove concelhos, foi hoje anunciado.
A plataforma InnovTek foi apresentada hoje no Instituto Politécnico de Bragança, a entidade que vai gerir a Plataforma Regional de Promoção do Espírito Empresarial com toda informação sobre as áreas industriais e oportunidades para investimento, como indicou o presidente da CIM, Artur Nunes.

Segundo disse, esta é a primeira plataforma do género supramunicipal neste território que disponibilizará toda a informação centralizada aos investidores e empreendedores sobre os parques industriais existentes nos nove concelhos, nomeadamente Bragança, Vinhais, Vimioso, Miranda do Douro, Mogadouro, Alfândega da Fé, Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Vila Flor.

“Pode haver a necessidade de saber se a instalação de uma empresa pode ser em Vinhais, ou pode ser em Alfândega da Fé, ou Miranda do Douro, ou em Bragança. Temos essa informação concreta sobre terrenos disponíveis, facilidades de apoio ao investimento, se há pré projetos, se há armazéns disponíveis”, concretizou.

A Comunidade Intermunicipal quer assumir aqui “um papel de promoção, captação de investimento e fixação de empresas no território”.

“Nós tínhamos muitas dúvidas, nomeadamente quando falavam connosco sobre o potencial de investimento e, neste momento, através desta plataforma, deste instrumento vamos ter aqui informação muito concreta sobre as oportunidades de investimento nas Terras Trás-os-Montes”, acrescentou o presidente da CIM.

A plataforma, como disse, indicará aos interessados, “onde estão as áreas industriais com informação sobre terrenos disponíveis, custo metro quadrado, valores de construção, permitirá uma informação comparativa de cada concelho”.

“[O investidor] não precisa de ir aos locais, tem esta informação centralizada e pode, a partir daí, tomar decisões de onde é que pode investir e onde lhe interessa mais investir”, sustentou.

Entre a informação disponibilizada constarão também o número de empresas instaladas, número de trabalhadores, e o tipo de atividades, que pode ser de interesse para outras que se queiram instalar ao pé de uma empresa que já existe e que pode ser complementar.

A plataforma poderá vir a incorporar diferentes projetos supramunicipais relacionados com o setor empresarial como o que a CIM reclama no Plano Nacional de Investimentos (PNI) para a década de 20/30 para a criação de centros logísticos, que concentrem a produção para o escoamento a mais baixos custos.

“Aquilo que nos dizem muitas vezes os operadores de logística de transportes é que [os camiões] vêm cheios, a fazer a distribuição, e vão vazios, o que tem um custo de transporte acrescido. Se nós criarmos centros logísticos, ou dentro da própria área industrial ou agregando um conjunto de áreas industriais, o custo de transporte diminui e há vantagens competitivas”, concretizou.

O presidente da CIM Terras de Trás-os-Montes pretende chamar diferentes parceiros regionais para esta plataforma “para desenvolver projetos integrados supra concelhios e que permita, de uma vez por todas, trabalhar mais a nível distrital, ao nível da comunidade e menos olhando apenas para o próprio umbigo”.

in:diariodetrasosmontes.com
C/Agência Lusa

Vinhais combate a vespa das galhas do castanheiro

O município de Vinhais, um dos maiores produtores portugueses de castanha, anunciou hoje que submeteu uma candidatura a fundos comunitários no valor de um milhão de euros para o combate à vespa das galhas do castanheiro.
Este concelho do distrito de Bragança é aquele onde têm sido detetados mais soutos infetados com o inseto que começa por secar ramos dos castanheiros e já dizima toda a árvore, pondo em causa a produção daquele que é um dos produtos com maior valor económico em Trás-os-Montes.

O município de Vinhais divulgou hoje que, “tendo em conta a importância que a castanha desempenha na economia do concelho, submeteu uma candidatura à medida Prevenção da Floresta Contra Agentes Biológicos e Abióticos.

O objetivo desta candidatura com um valor de cerca de um milhão de euros é o tratamento da vespa das galhas do castanheiro, a maior ameaça atual, mas também doenças que afetam os soutos como o cancro e a tinta do castanheiro.

“Apesar da sua robustez, o castanheiro tem vindo a perder-se no tempo devido à seca e às doenças acima referidas, em especial a doença da vespa”, vinca a autarquia, em comunicado.

A candidatura a fundos comunitários destina-se a um plano que, segundo o município, “abrange todas as freguesias do concelho de Vinhais durante um período de cinco anos, tendo como data previsível de início o final do ano de 2019”.

Se a candidatura for aprovada, o financiamento comunitário será de 90% e a câmara municipal custeará os restantes 10%, como indicou a mesma.

O município de Vinhais iniciou em 2018 a luta biológica contra a vespa das galhas do castanheiro, em parceria com o Instituto Politécnico de Bragança (IPB) responsável pelas largadas de um parasitóide, um inseto que mata a vespa antes de infetar as árvores.

Em 2018, foram detetados no concelho 130 soutos infetados e feitas 52 largadas do parasitóide. Para 2019 foram programadas 159 largadas, depois de o número de soutos infetados ter subido para 600.

Num balanço feito em fevereiro de 2019, o coordenador da equipa do IPB que está a fazer as largadas, Albino Bento, deu conta de que os primeiros resultados da luta biológica contra a vespa das galhas do castanheiro indicam que será possível controlar a praga em “cinco, seis anos” nos soutos tratados.

Os investigadores constataram que o inseto que está a combater a praga já está a reproduzir-se naturalmente com taxas de instalação superiores a 80%.

Os impactos desta praga na produção ainda não são visíveis, mas os envolvidos na luta biológica alertam que, mesmo a correr bem, a região terá “três, quatro anos com alguns prejuízos”.

A vespa das galhas do castanheiro foi detetada nesta região, que é maior produtora portuguesa de castanha, em 2015, e em 2018 foram feitas as primeiras largadas do parasitóide com que está a ser feita a luta biológica para evitar quebras avultadas na produção de castanha como aconteceu em países como a Itália.

in:diariodetrasosmontes.com
C/Agência Lusa

Feiras e mercados locais com mais apoio do Estado

Os agricultores vão ter mais apoio do Estado para participar em feiras e mercados locais onde a venda dos produtos é feita diretamente ao consumidor.
Carla Alves, Diretora Regional de Agricultura e Pescas do Norte (DRAPN), explica quais os apoios:

“Nestes circuitos curtos de comercialização vai-se conseguir apoiar a participação destes agricultores com 48€ por cada feira em que participem, isto para ajuda na deslocação ao ponto do concelho onde essa feira aconteça.

Há também apoios para a aquisição de veículos, transporte de mercadorias para as feiras, e para que os agricultores possa apetrechar as suas bancas com várias questões que são importantes para o comércio, como bancas de frio ou até coisas ligadas ao marketing, decoração e valorização do produto.

É uma medida que se vai encaixar muito bem neste tipo de atividade.”

A portaria entrou ontem em vigor e trata-se de uma ajuda disponível para quem tiver estatuto de Agricultura Familiar, este que confere uma série de ajudas e benefícios à atividade agrícola, dinamizando a vida social dos espaços rurais.

Carla Alves refere quais os requisitos:

“Está prevista uma série de apoios. Os principais requisitos são ter mais de 18 anos, os apoios diretos que tem do PU não podem ser superiores a cinco mil euros, tem de ter até 25 mil euros de rendimento colectável e 50% de mão de obra familiar.

É importante pedir este estatuto porque a partir de agora estão a ser criadas variadas medidas.

Apelo aos agricultores que vão aos nossos serviços, ou através da plataforma, e façam a inscrição e pedido para terem estatuto de Agricultura Familiar. É fundamental que o façam o quanto antes.

Estou certa que este estatuto é uma excelente medida que vai encaixar na maioria dos  produtores aqui da região.”

Medidas que visam incentivar e apoiar a atividade agrícola e escoamento dos produtos.

Escrito por ONDA LIVRE

Portugueses vivem cada vez mais, principalmente em Trás-os-Montes

Só no Algarve é que a esperança média de vida diminuiu, o que preocupa especialistas. Já Trás-os-Montes é o campeão das estatísticas, porque as pessoas vivem mais a partir dos 65 anos. No geral, os portugueses vivem cada vez mais, mas com pouca qualidade, segundo o INE.

Aos 12 anos, Maria de Jesus já trabalhava arduamente no campo, na sua terra, Tomar. Levou uma vida humilde, dedicada à agricultura, num Portugal pobre de início do século XX. Morreu a janeiro de 2009 com 115 anos, como a mais velha mulher portuguesa de que há registo. "As pessoas mais afetas à terra nunca param" e isso possibilita que "vivam até mais tarde", avança o delegado de saúde regional de Lisboa e Vale do Tejo, Mário Durval. O que pode ajudar a explicar por que razão é que Trás-os-Montes tem a maior esperança média de vida aos 65 anos a nível nacional, embora os especialistas mostrem resistência em levantar justificações. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) ainda este mês, no triénio de 2016-2018, a esperança foi de 20,14, o que significa que, a partir dos 65 anos, os residentes podem esperar viver 20 anos e um pouco mais. Nesta terça-feira celebra-se o Dia Internacional do Idoso.

A seguir a Trás-os-Montes, está Coimbra (20,13 anos) e depois Leiria (20,10). Contudo, se compararmos dados de cada região do país, é na Área Metropolitana de Lisboa (19,81 anos) onde esta expectativa de vida é maior, seguida pela região centro (19,75) e norte (19,71). No lado oposto da tabela estão as regiões autónomas dos Açores e da Madeira, respetivamente, com uma esperança de vida de 17,24 e 17,69.
Em todo o país, desde 2008 que a esperança média de vida, quer aos 65 anos quer à nascença (número médio de anos que uma pessoa à nascença pode esperar viver), tem aumentado. No primeiro caso, subiu de 18,59 no triénio de 2018-2010 para 19,49 em 2016-2018. Já quanto ao segundo, sofreu um aumento de 79,29 para 80,80 anos, no mesmo período. Ambos os aumentos são "significativos", não hesita em dizer a demógrafa Maria João Valente. "As pessoas nascem e é quase certo chegaram a idades cada vez maiores. E isto diz-nos que, em vários campos, temos evoluído para melhor."

A análise dos dados não é simples e depende de local para local. Mas há conclusões imediatas a tirar: "A saúde é fundamental para uma esperança de vida elevada", começa por dizer Maria João Valente. "e quando falo de saúde falo sempre numa perspetiva mais ampla e lembro-me da definição que a Organização Mundial da Saúde adianta: saúde é o estado completo de bem-estar físico, mental e social", explica. Ou seja, "não falamos só de doenças", mas sim do bem-estar aos mais variados níveis, "que pode ou não refletir-se nas doenças". "Isto implica que falemos de várias dimensões, como a alimentação, o meio ambiente, estilos de vida, naturalmente acessos aos cuidados de saúde e educação."

Sobre este último fator, a educação, a especialista lembra um relatório recente da Comissão Europeia (designado Health at a Glance ), publicado em 2018, "que diz que o ensino faz toda a diferença na esperança de vida". O estudo diz que, aos 30 anos, comparando as pessoas com alto nível de educação com aqueles que têm baixo nível de educação, as primeiras vivem muito mais anos do que as segundas. "Isto tem que ver com os estilos de vida adotados por estas pessoas e com a maior consciência sobre comportamentos de risco", diz Maria João Valente.


O Algarve é a única no país onde a esperança média de vida aos 65 anos tem diminuído e "situação é preocupante"

Entre as estatísticas, são os homens o grupo que mais sai prejudicado. Enquanto as mulheres têm uma esperança média de vida aos 65 anos de 20,88 anos e à nascença de 83,43, os homens podem esperar viver mais 17,58 anos além dos 65 e 77,78 desde que nascem. Ou seja, o sexo feminino pode viver sensivelmente mais três anos do que os homens, quando idoso, e quase mais sete desde a nascença.

Relativamente à análise geográfica da esperança média de vida à nascença, é no Cávado (81,81 anos) que se regista o valor mais elevado. Depois, em Leiria (81,50) e Coimbra (81,47) - também presentes entre as cidades com maior esperança de vida aos 65 anos. Numa perspetiva mais ampla, por regiões, é o norte (81,18) com maior esperança média de vida, seguida da região centro (81,11) e da Área Metropolitana de Lisboa (80,94).

À semelhança do que acontece com a esperança média de vida aos 65 anos, também é nas regiões autónomas que se destacam os níveis mais baixos.


Algarve em contraciclo
Em 2018, existiam em Portugal mais de dois milhões de idosos (pessoas com idades iguais ou superiores a 65 anos). Mais do que a totalidade de cidadãos com menos de 15 anos, que se situam nos 1,5 milhões. Isto significa que, atualmente, um em cada cinco portugueses tem mais de 65 anos - nos anos 70, esta relação era de um em cada dez. "Espera-se que no futuro sejam ainda mais. O envelhecimento não será travado, a não ser que alguma catástrofe natural aconteça", explica a demógrafa Maria João Valente. Aliás, de acordo com o INE, estima-se que até 2080, o número de idosos passe de 2 para 2,8 milhões.

Um cenário que acontece em contraciclo na região do Algarve, a única no país onde a esperança média de vida aos 65 anos tem diminuído. Desde o triénio de 2012/2014 que o fenómeno é visível, tendo descido de 19,33 para 19,08 anos (em 2016/2018). Por ser uma exceção à enorme regra ditada pelo país, "a situação é preocupante", diz a especialista, que não adianta ainda explicações para os dados.

"Pode ter a ver com uma dimensão ou muitas em simultâneo. É preciso estudar, mas estes dados deixaram-me francamente preocupada. Porque é expectável que a esperança de vida continue a aumentar e, no Algarve, está a acontecer em sentido inverso", adianta. E reforça: "há aqui um sinal de alerta que importa aprofundar para compreender o que está a motivar este cenário".


O país está mais velho e isso é bom
A verdade é uma: os dois milhões de idosos (com idades iguais ou superiores a 65 anos) já superam o número de cidadãos com menos de 15 anos (1,5 milhões). Portugal é considerado um dos países mais envelhecidos da União Europeia e isso "é muito positivo", diz a demógrafa Maria João Valente.

Não é preciso recuar muito no tempo para ver como o país evoluiu: "quando nasci, na década de 1960, Portugal era um país muito pobre, com altos níveis de analfabetismo, mas principalmente uma esperança de vida e umas taxas de mortalidade que nos envergonhavam face à atual composição da União Europeia", lembra.

"Temos uma tendência terrível para dizermos disparates quando analisamos o envelhecimento humano. Associamo-lo a uma sociedade doente, mas é exatamente o oposto." A especialista recorda que "os países mais desenvolvidos do mundo do ponto de vista médico e sanitário são aqueles que evidenciam mais sinais de envelhecimento", porque se são cada vez mais as pessoas a chegar a idades avançadas, "é natural que as populações envelheçam".


"O grande problema aqui é que a sociedade não está a tirar os reais proveitos do envelhecimento", pois "o corpo da sociedade alterou-se e agora temos de olhar para as pessoas de uma forma diferente de quando olhávamos quando éramos todos muito jovens e não vivíamos muito tempo"

A demógrafa Maria João Valente descreve um país em negação sobre a superioridade numérica de idosos e garante que esta divergência tem trazido problemas na convivência social. "Continuamos a utilizar o critério etário como se fosse importante para definir o valor e interesse social das pessoas, mas a idade não é um atributo e mérito de alguém e isto leva a que não aproveitemos pessoas que estão a crescer", frisa.

Aliás, acrescenta, "a idade não está prevista na Constituição da República Portuguesa". Refere-se ao Artigo 13.º, onde está previsto que "ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual". "Mas aqui não há referência à idade como fator de não-discriminação, o que é revelador da forma como pensamos enquanto sociedade", remata.

Segundo a especialista, "o grande problema aqui é que a sociedade não está a tirar os reais proveitos do envelhecimento", pois "o corpo da sociedade alterou-se e agora temos de olhar para as pessoas de uma forma diferente de quando olhávamos quando éramos todos muito jovens e não vivíamos muito tempo". Até porque, relativamente aos idosos do passado, lembra, "vão sendo pessoas muito mais escolarizadas e mais próximas das novas tecnologias".

Mas há países que já são um exemplo nesta matéria. Maria João Valente dá o exemplo do que já acontece em algumas micro localidades no Japão, onde a esperança média de vida é elevada, situando-se nos 83 anos. "Nestes locais, olha-se o envelhecer como algo natural e não antinatural, mas não numa ótica de caridade. Percebem que os mais velhos continuam a ter um lugar na sociedade e inserem-no na vida ativa." Este deveria ser "o próximo passo para Portugal", diz.


A maioria do tempo passado após os 65 anos, em Portugal, é vivido com incapacidade


Vivemos mais, mas sem qualidade
A tendência é o aumento. Até 2080, o INE prevê que, face ao decréscimo da população jovem e o aumento da idosa, o índice de envelhecimento (relação entre a população idosa e a população jovem) mais do que duplique, de 147 para 317, por cada 100 jovens. O que não significa "nem que vivamos com mais qualidade nem que vivemos até aos 100", esclarece a demógrafa.

É preciso não confundir longevidade humana com esperança média de vida, alerta Maria João Valente. Pois a primeira significa o tempo limite de vida de um ser humano, "que é uma incógnita". Até agora, o mais longe que alguém viveu foi 122 anos. O título é atribuído à francesa Jeanne Calment, que morreu a 4 de agosto de 1997. Mas até D. Afonso Henriques foi considerado uma pessoa longeva na sua época: reza a história que terá morrido com 76 anos.


"Existem registos de pessoas longevas em todas as épocas, e algumas até bem recuadas, por isso, não é a novidade da época moderna. Mas também não é a longevidade humana que está a aumentar", faz questão de dizer. "O que está a acontecer é que há cada vez mais pessoas que chegam a idades avançadas e que podem esperar viver mais tempo", embora não com mais qualidade, alerta.

Desde 1960 que o índice de dependência dos idosos (relação entre a população idosa e a população em idade ativa) tem aumentado significativamente, de 12,7 para 33,6 em 2018. Além disso, a maioria do tempo passado após os 65 anos, em Portugal, é vivido com incapacidade.
Maria João valente escolhe fazer a comparação com Dinamarca, país com o qual Portugal partilha a mesma esperança média de vida. Apesar de partilharam este número, "na Dinamarca só 42% destes anos a partir dos 65 é que são vividos com incapacidade, enquanto os portugueses dizem que é mesmo 70% que passam com incapacidade". E "por incapacidade entendemos a limitação de atividades consideradas habituais para a generalidade das pessoas, no dia-a-dia".

A especialista diz ser urgente "garantir que quem vive mais também viva com mais qualidade".


Pianista Isabel Rato leva Céu e Terra ao Bragança Jazz

No Dia da Música, a pianista e compositora Isabel Rato apresenta no Bragança Jazz o seu mais recente disco, Histórias do Céu e da Terra. A abrir o festival, esta terça-feira, às 21h30.
Isabel Rato DR/FÁBRICA BRAÇO DE PRATA
Três anos após o seu disco de estreia, Para Além da Curva da Estrada (2016), a pianista, compositora, arranjadora e também professora Isabel Rato gravou Histórias do Céu e da Terra, disco lançado em 2019 e que neste dia 1 de Outubro, Dia Mundial da Música, vai ser apresentado ao vivo a abrir o festival Bragança Jazz, no Teatro Municipal, às 21h30.

Nascida em Lisboa, em 18 de Dezembro de 1981, Isabel Rato começou a estudar piano muito cedo, aos cinco anos. Também estudou ballet clássico, guitarra, canto, mas foi o piano que a “agarrou” e foi nele que se concentrou como criadora. “Acabei por elegê-lo como meu instrumento principal, aquele que melhor preenchia a minha vontade de fazer música e de tocar”, diz Isabel Rato ao PÚBLICO. Com intervalos: aos 12 anos “parou” o piano, começou a tocar guitarra eléctrica, acabando por voltar a ele aos 16, mas mais virada para o rock e a pop. “Comecei a tocar profissionalmente como teclista aos 18 anos, nos Despe & Siga. Mas já nessa altura ouvia muito jazz.” O que a atraiu? “Uma certa necessidade de liberdade, a procura da improvisação, a sensação de complexidade que o jazz nos traz.”

O irmão mais velho, o guitarrista João Rato, ajudou: “É ele o responsável por eu seguir música. Trilhou este caminho antes de mim e foi à conta dele que comecei a ouvir jazz.” Mas não em exclusivo: “Nunca deixei de tocar pop, e ainda faço trabalhos de freelancer como teclista, faço substituições, acompanho artistas que eu aprecio e que me convidam.”

Composição e poesia
Antes de fazer a Faculdade, em 2011, a escolha da via a seguir fez-se de forma natural: “Há um momento em que começo a dedicar-me mais ao estudo jazzístico e o clássico vai ficando mais para trás.” Foi em 2009, esse “ponto de viragem”: sai de Cascais, vai para o Seixal e começa a estudar com o pianista e compositor João Paulo Esteves da Silva. “A composição vem com a minha presença na Faculdade e com a exposição às pessoas com quem estive e a quem sou altamente agradecida: o João Paulo, meu mestre de piano, mas também todo um leque de professores, o Bruno Santos (agora director da escola do Hot), o Nelson Cascais, o Lars Arens. Aí, a minha vontade de escrever começa a ser superior a tudo o resto, como se precisasse de respirar. Queria escrever e ser feliz nesse processo.”

Um processo onde a poesia ganhou lugar, sobretudo Fernando Pessoa. No primeiro disco, musicou Alberto Caeiro, um excerto de O Guardador de Rebanhos; e neste tem Ricardo Reis, com o poema Segue o teu destino. “A minha ligação à poesia vem desde muito cedo, da escola pública. Mas depois acabei por ter mesmo aulas de poesia, de grupo, durante vários anos, com declamação e interpretação de poemas, isto fora da escola. Nesse período, houve um trabalho exaustivo em torno de Fernando Pessoa e a minha paixão vem daí: de mergulhar na poesia e de aprender a descobrir Pessoa.”

“Canto, mas aqui não”​
Em Bragança, Isabel Rato (piano) apresenta-se em quinteto, formação com que gravou o disco. Com ela estarão João David Almeida (voz), João Capinha (saxofone), João Custódio (contrabaixo) e Alexandre Alves (bateria). No disco, participaram ainda João Rato, o acordeonista João Barradas e as cantoras Elisa Rodrigues e Beatriz Nunes. Isabel estudou voz e canta noutros trabalhos, mas não nestes seus discos: “Canto e toco, mas em pequenos auditórios ou bares. Aqui não, porque sempre achei que a tarefa pianística, de composição, de orientar o grupo, era altamente absorvente.” E escolheu João David, que conheceu na Faculdade: “É um cantor excepcional, um improvisador fantástico.”

Depois de Bragança, e dos vários palcos onde tem actuado (Hot, Casa da Música, Seixal Jazz, Évora, Mafra, etc.) Isabel Rato tem ainda um Concerto Antena 2, no Liceu Camões, já este dia 9, e um concerto pedagógico no âmbito do Seixal Jazz, dia 22 de Outubro. “Traz estudantes entre o 5.º e o 9.º ano, são seleccionadas várias turmas no concelho, e vai ser dedicado à história do jazz. Mas também vou apresentar composições minhas.”

No Bragança Jazz, depois da abertura com Isabel Rato Quinteto (dia 1), haverá ainda Quorum Ballet, com Em Modo Jazz (dia 4); Orquestra Jazz de Matosinhos (dia 10); Sexteto Bernardo Moreira (dia 12); e Sara Serpa Trio (dia 16). Sempre às 21h30.


GNR realiza em outubro operação "Censos Sénior 2019"

Operação visa identificar a população idosa que vive sozinha ou isolada.
A Guarda Nacional Republicana (GNR) vai realizar, durante o mês de outubro, em todo o país, a operação "Censos Sénior 2019" que visa identificar a população idosa que vive sozinha ou isolada, indicou hoje a corporação.

Segundo a GNR, esta operação vai atualizar os registos das edições anteriores e identificar novas situações.

A GNR vai realizar um conjunto de ações de sensibilização, junto das pessoas idosas em situação vulnerável, através de contactos pessoais e de atividades em sala, com vista à adoção de comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes, nomeadamente, em situações de violência, de burla, furto em residência e ainda prevenir comportamentos de risco associados ao consumo de álcool.

Durante a operação, os militares da GNR vão também divulgar os programas "Apoio 65 -- Idosos em Segurança" e "Residência Segura", que permitem recolher os elementos necessários para a elaboração de um mapa, com a localização georreferenciada de todas as residências aderentes ao projeto.

De acordo com a GNR, esta "identificação geográfica torna assim mais eficaz as ações de patrulhamento e a vigilância dos militares, traduzindo-se numa resposta policial mais célere".
Na edição de 2018 da operação "Censos Sénior", a Guarda sinalizou 45.563 idosos que vivem sozinhos e/ou isolados, ou em situação de vulnerabilidade, devido à sua condição física, psicológica, ou outra que possa colocar a sua segurança em causa.

"As situações de maior vulnerabilidade foram reportadas às entidades competentes, sobretudo de apoio social, no sentido de fazer o seu acompanhamento futuro", refere a GNR em comunicado.

Em 2018, o maior número de idosos identificados a viver sozinhos ou isolados foi no distrito de Vila Real (4.515), seguido da Guarda (4.008), Viseu (3.776), Beja (3.715), Bragança (3.385), Faro (3.165) e Portalegre (3.156).

Em Lisboa foram identificados 1.138 idosos a viver sozinhos e isolados e no Porto 1.168.
Desde 2011, ano em que se realizou a primeiro operação dos "Censos Sénior", a GNR tem vindo a atualizar a base de dados geográfica, "proporcionando assim um melhor apoio à população idosa".

Agência Lusa

Vimioso recebeu a última etapa do Troféu Ibérico, num dia onde não faltou a adrenalina e apaixonados pelas motos.

Criminoso

Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


A chuva caía copiosa sobre os telhados correndo vertiginosamente para as caleiras rotas e vãos de telhado lançando-se generosamente sobre os transeuntes que, por azar, passavam sob elas.
De vez em quando, um relâmpago abrilhantava o céu escuro coberto de nuvens ameaçadoras.
Até o vento fraco parecia aliado daquele tempo pouco convidativo e lembrando que era  ele o portador daquelas nuvens prenhes de água que inundavam as ruas imundas de lixo.
Miguel caminhava apressadamente sem guarda-chuva, através das poças que insistiam em chapinar acima do cano curto das botas.
Até a camisa, por baixo do casaco ensopado, começava já a ressentir-se e o tecido húmido arrepiava a pele.
As coisas não lhe corriam nada bem desde que saíra da cadeia. Há algum tempo que não lhe aparecia um “trabalhinho” realmente bom, e seguro, onde pudesse retemperar as suas depauperadas finanças.
A última carteira que “trabalhara” no autocarro rendera-lhe um livro de senhas de transportes, um bilhete de identidade imprestável de tão mal tratado, uma fotografia de uma mulher gorda e dois filhos ranhosos e cinco euros e cinquenta cêntimos… Realmente…
As coisas não estavam mesmo nada bem, o carro não tinha gasolina, o irmão recusava-se a emprestar-lhe mais dinheiro e até a gaja que dizia que esperaria por ele até que saísse da prisão se tinha “baldado” sem que nenhum dos amigos soubesse para onde.
Vagueava então pelas ruas à procura de algo descuidado... uma carteira “à mão de semear”, um carro aberto. Até os trocos que um incauto cliente do café deixara para pagar a sua despesa mudaram-se por encanto para a sua algibeira.
A água ensopava o cabelo curto e escorria livremente pelo rosto, pingando do queixo e do bigode loiro e fino que mantinha cuidado.
Mesmo na cadeia, nunca deixara de cuidar do seu aspeto, não deixava crescer o cabelo nem a barba e aparava cuidadosamente o bigode de que se orgulhava. Um dos presos mais velhos chamava-lhe Errol Flynn, parece que era um galã do cinema do tempo do “preto e branco”. A alcunha pegou e começaram a chamar-lhe Flynn.
Aproximava-se da esquina onde costuma estar aquela “garina” que andava a “micar” há alguns dias, sempre no mesmo sítio… ele olhava-a insistentemente ao passar e ela devolvia-lhe o olhar, descarada. Parecia ter “pastel”...
Reduziu o passo e fingiu uma descontração que não tinha.
Ali estava ela. Embrulhada numa capa amarela, guarda-chuva aos quadrados, com o cabelo negro, rebelde enfeitando o rosto moreno. E os olhos… os olhos vivos e atentos a todos os movimentos à sua volta, brilhantes e cheios de vida.
Era alta para mulher, na casa dos trinta. Magra mas insinuante, elegante, mesmo vistosa.
A chuva parecia não a incomodar minimamente e ali estava na mesma esquina, sem que ele soubesse à espera de quê…
Ao aproximar-se olhou-a nos olhos e ela devolveu-lhe um olhar profundo e incendiado tão ausente quanto atento… Sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés quando ela sorriu.
O seu sorriso, era como se o sol rompesse da terra expulsando as nuvens e a chuva. Por instantes, aquele rosto iluminou-se enquanto aquela dádiva de Deus surgia e desaparecia com a mesma rapidez... Os olhos desinteressaram-se dele e encararam-no com frieza.
Tentou falar, mas o que lhe saiu foi um grasnar rouco, fruto do nervosismo.
Tossicou e tentou de novo:
-        Olá.
Com aquele olhar penetrante, ela, pouco mais baixa que ele, perscrutou-o de alto abaixo. O guarda-chuva continuou a abriga-la apenas a ela. Um sorriso irónico acompanhou a resposta:
-        Olá.
-        Já há vários dias que te encontro aqui… - Tentou.
O sorriso desvaneceu-se dando origem a uma expressão séria: - E?
-        E nada – desculpou-se – simplesmente me interrogo que faz uma miúda como tu, aqui sozinha, à espera não sei de quê.
-        Deves ter muito a ver com isso. – O olhar endureceu – És policia?
-        Eu? – A gargalhada saiu-lhe com gosto – Se há coisa que não sou é policia.
O desinteresse regressou e os olhos retornaram para o vazio do outro lado da rua.
-        Então”vaza”. “Desampara-me a loja”.”Dá de frosques.”
-        Eh, calma. – Pediu – Só queria meter um pouco de conversa neste dia horrível e gelado. Parecias-me uma tipa porreira para conversar um pouco.
Aqueles olhos estonteantes olharam-no no fundo da alma e gelaram-no dos pés à cabeça: - Não estás confundido, ó “pázinho”? Achas que estou aqui no ataque, é?
-        Poça… - Lamentou-se – Desculpa lá se é isso que te faço pensar, mas aí, a minha pergunta seria “Quanto é?”, não te parece?
Silêncio. O olhar pareceu aquecer um pouco e a chuva deu a impressão de amainar. O guarda-chuva deslocou-se para proteger um pouco a cabeça irremediavelmente molhada de Miguel: - Que queres então?
-        Sei lá, conversar, já não falo com ninguém há tanto tempo, tu pareces uma miúda simpática… Sinto-me sozinho percebes? E tenho-te visto aí tão só estes dias…
Uma língua voluptuosa humedeceu uns lábios carnudos entreabertos quentes e sensuais mas não respondeu.
-        Se não queres, amigos à mesma… - Conformou-se.
Os lábios formaram um sorriso acompanhado de um olhar semicerrado, desconfiado.
-        Que queres falar então? Do tempo? – E afastou o guarda-chuva olhando para cima para que a água lhe caísse livremente no rosto logo tornando à posição inicial. – Está molhado.
Ele olhou para o lado, constrangido, dando a oportunidade dela o apreciar calmamente.
-        Vamos tomar um café? – Recuperou ele repentinamente.
Um encolher de ombros desinteressado acompanhou a resposta: - Pode ser. Onde?
-        Ali na esquina do outro lado. Vem.
Ele esperou de lado, facultando-lhe a passagem e indicando a direção com o braço direito. Ela acedeu, caminhando majestosamente à sua frente, enquanto atravessava a rua.
Já no estabelecimento, sentados, fez sinal ao empregado que lhe trouxesse dois expresso. A mão esquerda contava as moedas que ainda conservava no bolso: - Espero que não queira mais nada. – Suspirou de si para si.
Todo o salão cheirava a molhado e o chão estava marcado por dezenas de sapatos de todos os tamanhos e feitios que calcorrearam a área em busca de uma bebida quente e reconfortante.
Os vidros, através dos quais se viam pessoas apressadas, escorriam as gotas sujas duma chuva insistente e gordurosa.
-        Estás todo encharcado… - Observou a jovem em jeito de conversa aparentando um pouco de simpatia.
-        É – confirmou – eu e os guarda-chuvas nunca nos demos muito bem. Acho que é qualquer antipatia de nascença.
Um olhar curioso devorou-o fundo nos olhos logo interrompido pela chegada do empregado que pousava as chávenas.
Flutuava um silêncio frio entre ambos enquanto ela tratava do seu café e ele colocava as moedas sobre a mesa.
-        Então? – exigiu ela ao fim de mais alguns segundos e dois goles de café – Que queres falar? Tens algum tema em mente? Aviso-te já que não percebo nada de futebol e abomino a política.
-        Sim. – Um olhar franco e levemente irónico iluminou-lhe o rosto – A minha ideia de convidar uma mulher bonita como tu era de falar de política ou futebol.
-        Belo. Agora já sou uma mulher bonita, estamos a progredir, há pouco era só uma miúda simpática. De que vamos falar então? Vamos, deves ter um tema, não?
Sentiu-se intimidado com tanta impulsividade e olhou-a sem saber bem o que responder até que se lamentou:
-        Assim não estás a fazer as coisas nada fáceis. Que queres que te diga quando falas para mim como se fosses um bófia a interrogar-me? A seguir estás a dizer-me “Bufa cá para fora, quem era o meliante que te ajudou a palmar o auto-rádio ó meliante”.
A gargalhada dela soou como as águas de uma torrente cristalina:
-        Está bem, ganhaste. Desculpa, não estou mesmo a facilitar as coisas. Estavas intrigado comigo, não é verdade? Pois bem, primeiro de tudo, chamo-me Célia e tenho estado a vigiar a entrada do meu apartamento. Acho que o meu ex-marido vai lá quando eu não estou.
-        Então pode estar lá agora, não? Fiz-te abrandar a vigilância ao trazer-te aqui…
-        Nãã. Não te preocupes, já há três dias que vigio a espaços e não o apanho. Ou já desistiu ou sabe que estou à espreita…
-        Bem, eu já reparei em ti há alguns dias.
-        … ou eu sou um desastre como detetive.
-        Pois…
-        Se calhar é isso, não é? Também acho que não me devo importar mais com isso, aliás, ele nunca levou nada, nem nada.
-        Então que vem lá fazer?
-        Acho que quer saber se vem lá algum homem e quer descobrir provas… Mas chega de falar de mim. E tu? Que fazes quando não andas a tropeçar em “miúdas simpáticas” na rua?
-        Eu? – Reagiu surpreendido – Bem, chamo-me Miguel e sou eletricista de automóveis, mas estou desempregado.
Novamente os olhos semicerrados.
-        Queres dizer que ou foste despedido ou saíste da cadeia há pouco.
Ele estremeceu com a certeza da “pancada” e disfarçou com um sorriso amarelo:
-        Que te faz pensar isso? És telepata?
-        Não, tolinho. “Palmar auto-rádios”? Parece-me uma boa pista.
-        É, não fui muito inteligente. Mas também não esperava uma “lata” tão grande da tua parte a “mandar-me” logo com essa.
-        Lata, eu, é? Pois, até fui eu que meti conversa contigo.
-        Mas não foi por isso que “fui dentro”. Havia um “chavalo” que lhe tinham caído no bolso umas gramas mais do que as que precisava. Por isso, achou que meter a mercadoria na minha mochila quando os “bófias” chegaram, era uma boa ideia.
-        Pois. É preciso ter “galo”, ou fracos amigos. E se calhar não consomes nem nada. Não tens aspeto disso. Eu tinha-lhe “dado cabo do canastro” em dois tempos.
-        Bem tentei na altura. Mas os “bófias” não colaboraram e agora é tarde que ele já “bateu as botas”. Uma overdose.
-        Acontece aos melhores. Eu nunca me meti nessas merdas.
-        Nem eu, mas por vezes a gente vê-se nelas.
A mão dela tocou na dele sobre a mesa e olhou demoradamente o singelo anel que brilhava:
-        Ouro?
-        Sim. – Acedeu – Toda a minha riqueza. Um anel que o meu pai não conseguiu deitar a mão para vender após a morte da minha mãe. Também não vale muito.
Ela levantou-se lentamente deixando-o acompanhar o seu corpo com os olhos:
-        Vou para casa.
-        Nem falamos muito. Não te soube bem falar um pouco?
Aqueles olhos profundos emolduraram-se com um sorriso que o fez oscilar enquanto se levantava também.
-        É. Acho que também estava a precisar de falar um pouco. Queres vir tomar qualquer coisa mais quente que esta miserável desculpa para café?
O rosto dele iluminou-se e os seus olhos pareceram ganhar uma vida e um brilho que estavam escondidos bem fundo:
-        Está bem. De certeza que não queres mais nada daqui? – Interiormente encolheu-se com a possibilidade de uma resposta positiva.
-        Não. Acho que não. De qualquer forma não devemos de afetar ainda mais as tuas (suponho) já frágeis economias. – Aquele piscar de olhos derreteu-lhe o coração fazendo-o bater mais forte – Senta aí um pouco e dentro de 5 minutos sobes a minha casa. É o 172, 3º Direito, a porta de baixo está só encostada e a do apartamento tem a fechadura forçada. Ontem tive visitas indesejáveis.
Ele continuou em pé ainda atordoado com a proposta.
-        Senta-te – continuou ela – não quero que nos vejam a subir juntos. O meu ex pode ainda andar por aí. Cinco minutos, ok?
Sentou-se e ficou, sem uma palavra, a olhar aquele corpo bem torneado que se adivinhava debaixo da capa amarela afastando-se a decididos passos largos.
Assim que lhe pareceu, levantou-se e dirigiu-se para a porta deixando algumas moedas na mesa.
Caminhou rente às paredes, para evitar molhar as suas já encharcadas roupas e aproximou-se do nº 172.
Quase a medo e tentando não perder de vista toda a área envolvente, empurrou a porta que cedeu sem qualquer dificuldade.
O prédio já não era novo e ainda que não estivesse maltratado, agradecia uma boa pintura. O corrimão da escada, que começou a subir pé ante pé, estava quase solto.
-        Terceiro direito – Sussurrou para si próprio ao chegar ao patamar e olhando a fechadura obviamente forçada.
A porta abriu-se, antes da sua mão ter tempo de lhe tocar, enquanto um braço o agarrava e puxava para dentro rapidamente. O rosto sorridente de Célia quase colou no seu.
-        Ena, quase me sinto raptado. – Gracejou Miguel enquanto a porta batia atrás de si.
-        Não quero que te vejam aqui. Os meus vizinhos são muito coscuvilheiros e já tenho problemas que me bastem.
Os olhos dele percorreram rapidamente o hall e o mobiliário que o decorava enquanto pensava – É, decididamente a garota tem “pasta”, pode ser uma boa.
-        Agrada-te? – Perguntou ela notando a atenção dele.
-        Sim, sim, bastante acolhedor. Um dia gostaria de ter uma casa assim…
-        Tens de “dar o corpo ao manifesto”, honestamente claro, porque a fugir da lei não se consegue ter nada.
-        Pareces versada no tema…
-        Não. É apenas um facto que toda a gente sabe, mas alguns não querem aceitar. Vamos ficar aqui na entrada? – Disse indicando a porta da cozinha - Queres tomar então uma bebida quente? Um café, um chá? Leite?
-        Outro café ia bem, aquele não estava muito quente e hoje até fazia jeito.
Entraram na cozinha impecavelmente arrumada e uma vez mais, o olhar atento de Miguel percorreu todo o mobiliário enquanto ela parecia procurar algo nos armários.
As portas abriam e fechavam rápida e silenciosamente até que ela confessou – Não sei onde para o café. Não percebo nada desta cozinha pois a minha empregada é que trata disto tudo…
-        Pois, os inconvenientes de ter empregada. – Gracejou – Já experimentaste na dispensa? Assumindo que tens uma.
-        Claro, que estúpida sou. – E saiu do aposento deixando-o sozinho.
A máquina do café estava ligada pelo menos. – Os seus pensamentos flutuavam – Tudo muito limpo muito arrumado. Empregada. E ele que vivera sozinho tantos anos, realmente os homens são um desastre no que toca a arrumação.
-        Achei. – Sobressaltou-o ela empunhando um pacote de café, vitoriosa – Mas senta-te aí à mesa enquanto eu trato disto.
Obedeceu enquanto a observava, de costas. Era realmente bem feita, cintura fina, nádegas arredondadas, ombros bem proporcionados… Pena ter de se “abotoar” ao que houver à mão e “dar de frosques” rapidamente.
O cheiro do café começou a encher o ambiente, aconchegante.
Ela voltou-se com duas chávenas fumegantes que pousou na mesa. Ele não pode deixar de reparar, sob a cor tijolo da camisola de lã, o contorno de uns seios pequenos mas apetecíveis.
-        Aqui está. Espero ainda ter alguma prática nisto. – Desejou sentando-se à sua frente.
-        Cheira bem, pelo menos e as chávenas estão quentes. – Afirmou enquanto adoçava a bebida.
Fez-se um silêncio constrangedor enquanto ambos bebiam.
-        Está ótimo. – Elogiou ele – Mesmo quente como eu precisava.
-        Ainda bem que gostas. Estava com medo de já não o saber fazer. – Levantou-se, pegou na sua chávena e aproximou a mão da dele – Já está?
-        Sim, obrigado. – Estendeu o recipiente e ambas as mãos se tocaram deixando-os estáticos por segundos.
Ela rodou rapidamente, colocou a louça no balcão e tornou para junto dele, que continuava sentado. Aqueles seios ficaram perigosamente perto do seu rosto.
-        Vamos até à sala um pouco? – Convidou olhando-o de cima para baixo com um sorriso maroto.
-        Está bem. – Ele levantou-se lentamente com os olhos fixos nos dela.
Célia pegou-lhe na mão e puxou-o até à sala junto do sofá de couro preto.
Também ali o olhar perscrutador circulou em toda a volta do aposento decorado de forma moderna em tons branco, preto e prata. Até se fixar nela.
Estavam os dois parados, em pé, um em frente ao outro, com uns escassos centímetros de distância.
Ela foi a primeira a reagir e empurrou-o para o sofá onde ele se sentou desamparado embalado pelo som de uma gargalhada musical.
Miguel agarrou-a e puxou-a para o seu colo. Aproximou o rosto do dela e inspirou o doce perfume que a envolvia, ligeiramente misturado com o hálito a café que saía da boca entreaberta.
Beijaram-se com sofreguidão. Línguas em fúria procurando a supremacia, tentando subjugar a outra. Braços e mãos, lutavam, enroscavam-se, um tentando tirar a roupa ao outro.
A força dele foi decisiva, erguendo-se com ela ao colo, ainda de bocas coladas e deitou-a de costas por baixo dele.
Camisolas voaram para o chão e o soutien soltou-se expondo o mais apetecível par de seios que ele já tivera ao alcance; pequenos mas fartos, mamilos rosados e perfeitamente eretos pedindo para serem acariciados e beijados…
Ele não se fez rogado e cobriu-os de beijos enquanto as suas mãos exploravam cada curva e testavam a sua dureza.
As mãos dela também não sossegavam, ora envolvendo os dedos no seu cabelo, ora entrando pela camisa desapertando mais um botão acariciando o peito coberto de pelos.
Também a camisa dele foi para o chão, acompanhada rapidamente do resto da roupa de ambos.
O jovem pôde então desfrutar da visão completa daquele corpo maravilhosamente firme que se expunha convidativamente ante seus ávidos olhos. Aí estava uma fonte de inspiração para um qualquer Boticelli. Rosto belo, seios fartos, ancas largas de curvas suaves.
Lutaram alternadamente pela supremacia e pelo prazer de dominar o parceiro.
Durante muito tempo desfrutaram do prazer imenso que os seus corpos proporcionaram até caírem nos braços um do outro. Esgotados e sonolentos sentiram a bem-vinda inconsciência chegar…
                                               …
O toque do telefone insistia e Miguel recusava-se a aceitar que o devia atender.
A irritante campainha não se calava até que ele saltou, completamente desperto.
Continuava nu, embora coberto com uma manta, deitado no sofá de cabedal preto duma casa estranha. Sozinho.
E o telefone continuava a tocar na mesa ao lado do sofá onde estava um papel com uma palavra escrita:  “Atende.”
Levantou o auscultador, receoso e a voz de Célia ecoou do outro lado da linha, trocista:
-        Até que enfim ó dorminhoco! Isso é que é dormir, o telefone já toca há perto de dez minutos.
Reparou que todas as gavetas que conseguia ver na sala estavam abertas e seu conteúdo espalhado pelo chão.
-        Onde estás? – Conseguiu articular
-        Longe. – Riu – Já tenho o que quero e tu foste um amor em proporcionar-me um bom acompanhamento.
-        Não percebi.
-        Escuta meu querido, eu estava a vigiar essa casa há já vários dias para detetar se havia ou não movimento para lhe fazer uma visitinha. Os donos estão para fora, sabes?
-        Quê?
-        É isso mesmo, somos colegas. Tu contentas-te com auto-rádios e eu quero voos mais altos. De qualquer modo foste um amor, e muito competente.
-        És louca? Trouxeste-me para uma casa que não era tua e entraste nestas “cenas” aqui sem qualquer problema de poder ser surpreendida… Foste tu que forçaste a fechadura?
-        Claro meu querido, sou uma profissional. Há que viver perigosamente para que esta vida tenha algum sabor.
-        Decididamente és completamente louca. Onde estás, posso ir ter contigo?
-        Não me parece. Foi muito bom mas é melhor ficarmos por aqui. Pode ser que um dia os nossos caminhos se voltem a cruzar.
-        Espera.
-        Não. E tu também não devias esperar, alguém pode achar que há muito barulho num apartamento vazio e chamar a Polícia. – Soltou uma gargalhada contente consigo própria – Aproveita e vê se há alguma roupa melhor que esses trapos que trazes. Um beijo e até nunca. Ah, é verdade, estive para te “gamar” o anel mas tive pena... acho que estou a ficar velha. Xau!
A chamada desligou-se.
Furioso, atirou com o auscultador.
-        Parece impossível – Rugiu com os seus botões – Agora sei o que quer dizer seduzido e abandonado.
Acabou por dar uma boa gargalhada contente com o que acabara de dizer.
-        Maldita gaja. Tanto de boa como de louca… Muito mais boa aliás…
Dez minutos depois abandonava o apartamento saqueado, já de roupa nova, com uma mochila às costas e com cinquenta euros no bolso que Célia esquecera na mesa da sala.
Fora uma aventura e tanto e, enquanto saía do prédio, desejava ardentemente que o destino se voltasse a cruzar com aquela mulher. Ela, tão ardente quanto carinhosa, conseguiu frustrar os seus intentos e fazer-lhe aquilo que ele gostaria de fazer a ela.

Manuel Amaro Mendonça nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".

É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.

Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.

Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.