
O Sr. Domingos Roque Poças chegou a Bragança em plena Ditadura Militar.
Tempos maus, tempos de carestia. Negociava produtos básicos e essenciais: Azeites, castanhas, nozes e cereais. Argúcia muita, perspicácia aguda, engenho em conformidade e trabalho, muito trabalho, concederam ao Sr. Poças conforto e prosperidade.
O seu apelido tornou conhecido o café-restaurante explorado pelos filhos. Era o local mais chique da cidade aquando da sua inauguração.
Lembro-me do Sr. Poças sentado num recanto do café. Calça preta, camisa branca, na boca um cigarrão meio-apagado, olhos semi-cerrados que tudo vislumbravam, na cabeça um chapéu em cone estriado.
Falava aos conhecidos, aos outros dava a ideia de estar numa eterna inacção, em eterna paciência.
Em muitas viagens de negócios acompanhava-o o filho Augusto. Numa dessas andanças tiveram um acidente na Trindade, uma aldeia nos contra-fortes da serra de Bornes. Atordoado pelo choque, o dedicado Augusto clama estar morto. O pai tenta-o sossegar, dizendo-lhe que estava vivo, pois até falava. O filho insistiu: falava porque ainda estava quente. O riso do pai soltou-se. Noutra andadura, desta feita à capital, o mesmo filho desafiou-o a tentarem a sorte no casino.
Aceite a tentação, seguiram para o Estoril. Ao entrarem no casino, um dos porteiros barrou a passagem ao Sr. Poças, por este não se encontrar convenientemente ataviado, já que lhe faltava a gravata.
Não se atemorizou ante a proibição. Lesto, meteu a mão ao bolso dele, tendo retirado gordo e volumoso maço de notas grandes. Espetou o maço em direcção ao nariz do funcionário e atirou: “Esta gravata serve?”.
Serve sim, senhor, faça favor de entrar” entoava o abre-portas, enquanto recuava, fazendo sucessivas vénias.
in: Figuras notáveis e notórias bragançanas
Textos: Armando Fernandes
Aguarela: Manuel Ferreira
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