(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Recordo bem os meus tempos de infância a partir dos meus cinco, seis anos. Havia no nosso quintal um anexo para os animais que o meu pai fizera maneirinho ao fundo e a toda a largura, encostado à Cortinha da Albininha Guerra, que nesse tempo estava vazia de animais, por qualquer razão que tinha que ver com um surto de peste africana que dizimou os bichos e por escrúpulos da minha mãe assim se manteve por alguns anos.
Como o meu encanto era mais que tudo a música e eu sabia de cor a maioria das letras das que a Emissora Nacional passava nos seus muitos programas que transmitia, passava os meus dias na secção superior que havia sido o galinheiro e cantava, cantava, que algum tempo depois, a minha mãe dizia: -Foi-se um galo mudo e veio um galinho cantor. Ainda hoje recordo com clareza a canção minha preferida e que estava em moda nesse tempo mágico, era a Rosinha dos Limões, cantada por Max, fora musicada por Artur Ribeiro e eu ciclicamente cantava a Rosinha, duas a seguir diferentes e de novo a Rosinha.
Os meus programas de rádio imaginários duraram até ir para a Escola.
Não sei muito bem como me desliguei mas a Escola começada em Outubro, já nos dias pequenos, não deixavam muito espaço para as emissões radiofónicas que eu proporcionava fazendo de locutor, cantor e electricista de serviço.
Ainda tentei arranjar uma Iuzinha verde e outra vermelha mas como o sistema era essencialmente de papelão não fui capaz de fazer coisa que se visse. O repertório faria hoje inveja a qualquer garoto de seis, sete anos que maioritariamente não aprendem a cantar em português. Os progenitores gostam mais de Rock e coisas como essa que representou Portugal na Eurovisão em Israel.
Tempos estranhos os atuais. Eu aprendi letras e músicas mais simples mas que me preencheram a vida e me transportaram para estados de espírito deliciosos. Ainda hoje gosto e às vezes ponho no gira-discos a canção de Maria Clara, Marcha do Outono : -Com poentes de sol rubro/ E manhãs de luz risonha/ Não há mês como o de Outubro/P'ra quem ama e p'ra quem sonha/ Outubro não tem rival/ E é preciso que se diga / Que o Abril em Portugal/ Que o Abril em Portugal / Não é mais que uma cantiga.
Lindo e bem cantado por uma Senhora dona de uma voz de diamante de muitíssimos quilates. Tristão com Aquela Janela virada p'ró Mar, adicionou mais valor à canção nacional e de Amália quase nem valem mais comentários; O Barco Negro, Canção do Mar, Ai Mouraria e já no meu tempo de adolescente, cantando a inspiração de Alan Ullman, deu-nos A Casa da Mariquinhas e pôs a cor do Sol no poema de Pedro Homem de Melo, Ciganos verdes ciganos/ Cantou José Régio e foi o que Deus quis que ela fosse, fadista. Claro que eu fui influenciado muito particularmente pela música Sul-americana com os Tangos, Boleros e Rancheras, Mariachis, dos quais escolho um título de cada um destes géneros: tango: El Choclo, bolero: Noche de Ronda, ranchera: Me cansé de lhorar e Mexico lindo y querido mais um rio grandioso de poemas e melodias de qualidade superior. Cito apenas mais duas, Siboney e La Paloma e já agora Cavallo Viejo.
Do Brasil veio a nata da música em português. A garota de Ipanema, toda a de Caetano Veloso, Chico Buarque ou Roberto Carlos. Ouvi na voz de Elis Regina Águas de Março, Fascinação, canção americana com tradução, arranjo, para português que foi coisa linda e Sambas de Adoniran Barbosa, o paulista do Arnesto nos convidou/ P'ra um samba , ele mora no Brás/ Nós fumos num incontremos ninguém/ e a sua coroa de glória que Elis também quis cantar,Trem das Onze: Se eu perder este trem/Que sai agora às onze horas/ Só amanhã de manhã/. Da grande música operática digo apenas que gosto e muito, mas não possuo a formação suficiente para apreciar "o que ali vai". Vi Ópera da boa em Londres e queda-me esta pena de só aos 40 anos ter visto a Carmén de Bizet e Cosi fan tutti de Mozart aos quarenta e tais. Paciência, estava assim escrito. Quanto à música chamada Anglo saxónica digo apenas que os últimos cinquenta anos são dela. Os italianos, espanhóis, franceses e portugueses, perderam a Inspiração porque quiseram copiar o que não era possível copiar. A nossa maneira latina jamais se misturará com a fleuma britânica ou o pragmatismo americano, daí a baixa qualidade do que se fez nestas três gerações de rock(eiros) latinos.
Mas isto não significa que eu não goste da que é de facto de qualidade, que é muita.
E termino por hoje com mais esta confissão que nunca pensei fazer publicamente, mas que fiz depois de haver lido a crónica da Paula Freire a quem agradeço e dizer-lhe que gosto do que ela tão bem escreve.
Gaia 03/06/2019
A. O. dos Santos
(Bombadas)

Muito obrigada uma vez mais, A. Santos. Novo texto repleto de mágicas recordações, que tive o prazer de ler. E de todas estas músicas, lembrei com maior gosto ainda o meu género musical predileto com a sua coreografia fascinante, o Tango, que como tão bem retratou o poeta argentino Discépolo Deluchi: "um pensamento triste que se pode dançar". "El Choclo" pela voz de um cantor de eleição desde sempre (não português), Julio Iglesias. Fico grata por tão bonitas memórias e aguardo uma 3ª Parte deste belo reportório.
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