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A neve em Bragança já não é o que era. As alterações climáticas tornaram-se uma realidade palpável, não em relatórios, mas nos campos, nas serras e nas memórias das populações. Invernos mais curtos, temperaturas mais irregulares e a diminuição da queda de neve alteram o equilíbrio natural da região. A neve, que alimentava solos, regulava ciclos e fazia parte da biodiversidade local, começa a desaparecer lentamente, como um vestígio de um tempo mais estável. E com ela, perde-se também uma referência colectiva, uma marca identitária que ligava gerações.
Mas a relação entre o homem e a terra no nordeste transmontano sempre foi feita de adaptação. Durante séculos, as populações aprenderam a ler os sinais da natureza, a respeitar os seus ritmos e a viver em harmonia com um território exigente. A agricultura de subsistência, o pastoreio, os ciclos das estações, tudo fazia parte de um saber ancestral, passado de geração em geração. Não era uma relação de domínio, mas de equilíbrio. A terra não era apenas recurso, era pertença, era sustento, era vida.
Hoje, essa ligação encontra-se fragilizada. O despovoamento é talvez uma das marcas mais visíveis dessa transformação. Aldeias que outrora tinham vida, vozes e trabalho, veem-se agora reduzidas ao silêncio. Casas fechadas, campos abandonados, caminhos esquecidos. Os jovens partiram em busca de oportunidades, deixando para trás uma terra que, apesar da sua riqueza, não consegue reter quem nela nasce. O resultado é um território envelhecido, onde a presença humana se torna cada vez mais rara.
Este abandono tem consequências profundas. A terra, sem o cuidado humano, transforma-se. Os campos deixam de ser cultivados, os matos crescem desordenadamente, aumentando o risco de incêndios. Os saberes tradicionais perdem-se, e com eles desaparece uma forma de viver que era sustentável e integrada na natureza. O silêncio das aldeias não é só ausência de pessoas, é também ausência de continuidade.
E, no entanto, a natureza resiste. O nordeste transmontano continua a ser um dos territórios mais ricos em biodiversidade de Portugal. Em áreas como o Parque Natural de Montesinho, a fauna encontra refúgio e equilíbrio. Espécies emblemáticas como o Lobo-ibérico percorrem as serras, símbolo de um ecossistema ainda vivo e selvagem. A Águia-real sobrevoa os vales, enquanto veados, javalis e inúmeras outras espécies mantêm uma presença discreta mas essencial.
Contudo, também aqui os desafios são evidentes. As alterações climáticas, o abandono rural e a pressão humana em certas áreas colocam em risco este equilíbrio delicado. A fauna depende não apenas da natureza, mas também da forma como o homem se relaciona com ela. Paradoxalmente, a ausência humana pode ser tão problemática como o excesso, pois rompe dinâmicas que durante séculos ajudaram a moldar o território.
O nordeste transmontano vive num ponto de transição. Entre o passado e o futuro, entre a memória e a mudança. A neve que já não cai como antes, as aldeias que se esvaziam, a terra que espera, a fauna que resiste, tudo faz parte de uma narrativa maior, que nos obriga a refletir sobre o nosso papel.
Talvez a verdadeira questão seja esta. Como preservar sem parar o tempo? Como valorizar a herança sem impedir a evolução? O desafio não está apenas em proteger o que resta, mas em reinventar a relação entre o homem e a terra. No fundo, o futuro destas montanhas dependerá sempre de um equilíbrio, entre presença e respeito, entre progresso e memória.
E talvez, um dia, quando voltar a nevar em Bragança, mesmo que mais raramente, possamos olhar para essa neve não só com nostalgia, mas também como sinal de que ainda há tempo para cuidar, preservar e recomeçar.
Os lagos do Sabor são um paraíso em Trás-os-Montes, que lhe vai proporcionar momentos de descanso e diversão. Venha conhecer.
Nunca o mote “vá para fora, cá dentro” fez tanto sentido como nestes tempos. Por isso, os Lagos do Sabor, um tesouro escondido em Trás-os-Montes, são uma aventura à espera de acontecer.
São 70 quilómetros de lagos “ligados entre si por gargantas e penhascos, que formam um verdadeiro santuário da vida selvagem e oferecem aos visitantes um céu azul e um horizonte de cortar a respiração”, afirma a Associação de Municípios do Baixo Sabor, que une os concelhos de Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro e Torre de Moncorvo.
Mas não pense que foi por acaso. Na verdade, os lagos nasceram devido à construção da barragem do Baixo Sabor, que alterou o curso de água, mudando, por completo o cenário e tornando-o num local de visita obrigatório, numa tentativa de impulsionar também o turismo da região, beneficiando da proximidade com a região do Douro, que dispensa apresentações, e com o território espanhol.
Veja aqui como chegar rapidamente ao Sabor
A Barragem do Baixo Sabor começou a ser construída em 2008 e alterou de forma decisiva o cenário natural da região transmontana. Foi criada para ser uma alternativa à barragem prevista para Vila Nova de Foz Côa, salva pelas gravuras rupestres.
Como tal, o plano B implicou a fundação de uma barragem mais a Norte, para o Sabor, também ele um rio que se junta ao Douro, que custou cerca de 450 milhões de euros e produz eletricidade para aproximadamente 300 mil pessoas.
Todavia, esta experiência turística ainda é partilhada por poucos e, por isso, se gosta de descobrir novos locais, este é, sem dúvida, um destino para conhecer.
A origem dos Lagos do Sabor
No que respeita a Trás-os-Montes, considerava-se haver alguma falta de diversidade das atividades culturais e de lazer e pouca divulgação da mesma, pelo que a região tem um grande potencial a atingir.
Como tal, a criação dos novos Lagos do Sabor e a instituição da Associação de Municípios do Baixo Sabor, com um forte pendor de coordenação e atuação intermunicipal, têm como grande objetivo ajuda a corrigir esta debilidade.
Os novos Lagos do Sabor constituem-se, assim, como uma oportunidade imperdível, enquanto agentes diferenciadores do território face à restante região. Além disso, estão muito próximos do vale do Douro e da foz do rio Sabor, por isso há muito para descobrir e aproveitar no próximo passeio por terras transmontanas.
A vida animal aqui tão perto
Se é amante de birdwatching é obrigatória uma visita às Lagoas do Sabor. Pode conviver com diversos animais, como o Grifo, Bufo-Real e Águia de Bonelli. Mas se desviar os olhos do céu para a terra, então, é bem possível que se cruze com uma lontra-europeia ou uma toupeira de água.
Tudo isto foi possível graças a uma ação de preservação de habitats prioritários, de algumas espécies com estatuto de conservação, bem como graças à criação de condições para o seu desenvolvimento, com benefícios para a biodiversidade da região. Afinal, o turismo não pode ser desenvolvido a qualquer custo.
Lagos do sabor: o rio selvagem
O Rio Sabor nasce na província de Zamora, em Espanha, entra em Portugal pela Serra de Montesinho, em Bragança, e segue pela margem direita do rio Douro. Com a construção da barragem, o Rio Sabor deixou de ser o “último rio selvagem” do país, visto que o seu curso foi interrompido.
Como consequência, apareceram os Lagos do Sabor, que são, na verdade, três: Lago de Cilhades, o maior de todos e cujo nome foi inspirado numa aldeia homónima, no concelho de Torre de Moncorvo agora submersa, Lago dos Santuários e Lago do Medal.
Além disso, com a subida do leito do rio, a Foz do Azibo – conhecida zona de praia fluvial – ficou maior e mais larga. Aliás, esta é mesmo uma excelente altura para conhecer a região e, assim, poder usufruir das praias da Foz do Sabor e da Foz do Azibo, que fazem as delícias de quem experimenta as águas locais.
Património histórico? Também existe
Sossego, natureza e património: quase parece a Santíssima Trindade dos destinos turísticos de sonho e, convenhamos, isto são opções que encontra em grande quantidade – e qualidade – por terras lusas.
Antes da construção da barragem, existia um santuário no local, que foi transferido para outro ponto da região. Sim, o edifício foi mesmo transportado, pedra a pedra, para o cimo do Monte da Parada, naquele que foi um trabalho exaustivo de equipas de restauradores.
Esta ação era necessária, já que a igreja remonta ao século XVIII e foi mandada originalmente construir pela família dos Távoras. Assim, trata-se de um património que merece prevalecer e permanecer ao longo dos tempos.
Pode também visitar o Castelo de Mogadouro, com vista para esta nova paisagem, assim como ao monóptero de São Gonçalo, um monumento de inspiração barroca, considerado de interesse público, mas que infelizmente se tem vindo a degradar ao longo dos tempos.
O passeio por terras transmontanas continua pelas aldeias de Penas Róias ou de Azinhoso, cada uma com as suas particularidades e encantos.
A zona permanece ainda como que meio por explorar mas, no fundo, é isto que lhe confere tal beleza: a tranquilidade, a harmonia, a sensação de que vai mesmo ficar tudo bem.
Publicação original AQUI.
Registo de Sacramentos: Batismos, casamentos e funerais (óbito) eram registados para comprovar a vida paroquial.
Controle de “Desobrigas”: Os Róis de Confessados (ou livros de desobrigas) serviam para garantir que todos os católicos cumpriam o preceito quaresmal de confissão e comunhão.
Visitas Pastorais e Administração: Registavam os capítulos de visita dos bispos, inspeções às paróquias, inventários de bens, testamentos e as “pastorais” (orientações e normas) dos bispos.
Memória Histórica: Registavam a história local, incluindo a construção da Catedral e a vida das irmandades.
Funcionamento Económico: Incluíam registos de receita e despesa das paróquias.
Em suma, as visitas pastorais demonstravam a realização prática das conceções da Igreja e das determinações sobre aspetos relacionados com a tentativa de correção do pecado público.
Os livros de registo de Capítulos de Visitas, são elementos fundamentais de um sistema estruturado para monitorizar e disciplinar as populações, conforme as normas do Concílio de Trento. Tais registos constituíam, assim, um instrumento de inspeção regular através do qual os prelados aferiam a situação das paróquias sob sua autoridade.
Assim apresentamos parte de exemplos de atos e comportamentos que eram considerados pecados públicos mais frequentes, a partir da transcrição de um excerto do livro de registos de Pastorais de Quintela de Lampaças do ano de 1764, fl 3v.
Transcrição do documento: “Informam-me que o adro da igreja matriz deste lugar e o Cabido de Santa Cruz, serve para neles se exercitarem jogos, fazerem lutas, armarem bailes, e outros actos indecorosos a tão santos lugares, assim mando ao reverendo pároco pena de suspensão, não consinta que nos referidos lugares se exercitem actos tão indecorosos, e lhe recomendo muita vigia neste particular, e contra delinquentes procederá condenando-os a cada um na pena de cem reis por cada vez o que ira cada vez multiplicando conforme a rebeldia de cada um e sendo costumares para la se proceder, e contra os que condenar para as exclusões das penas poderá proceder com censuras cuja pena aplicara para obras da dita igreja…”.
(Cota: PT/ADBGC/PRQ/BGC33- liv 139;cx14)
Fonte: Arquivo Distrital de Bragança
O objetivo passa por reduzir a carga combustível existente nas zonas rurais através do pastoreio, promovendo simultaneamente a valorização do mundo rural, a dinamização da economia agrícola e o combate ao abandono do território.
As candidaturas estarão abertas entre 25 de maio e 30 de junho de 2026, devendo ser submetidas através do portal do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas.
O apoio à instalação de novos produtores pretende incentivar a entrada de jovens agricultores e novos criadores de bovinos, ovinos e caprinos em regime extensivo, reforçando um setor considerado essencial para a preservação das paisagens rurais e para a manutenção da atividade económica em territórios de baixa densidade.
Já a linha destinada à conversão de matos em pastagens visa criar mosaicos agroflorestais capazes de interromper a continuidade da vegetação combustível, funcionando como barreiras naturais à propagação dos incêndios.
A iniciativa integra uma estratégia mais ampla de prevenção estrutural dos fogos rurais, valorizando práticas tradicionais de pastorícia e reconhecendo o papel das comunidades locais na gestão ativa da floresta e do território.
Além da componente ambiental e de proteção civil, o programa pretende ainda reforçar a coesão territorial e contribuir para os objetivos definidos no Plano Nacional de Energia e Clima 2030, através da promoção de práticas agrícolas sustentáveis e da recuperação produtiva de áreas abandonadas.
Com esta medida, o Executivo procura responder a um dos principais desafios do interior do país: conciliar prevenção de incêndios, desenvolvimento rural e sustentabilidade ambiental através de soluções de longo prazo assentes na ocupação ativa do território.
Defendeu ainda que “esta é uma questão mais do que política, mas sim de preocupação com aquilo que é o próprio sentimento de confiança das populações e de perceber qual é a natureza do helicóptero no nosso distrito”.
Relembrou o distrito continua a “ter algum déficit”, no que diz respeito a emergências médicas e que “enquanto não forem salvaguardadas todas estas situações, não há pressuposto nenhum que se mantenha”.
No entanto, o INEM garantiu ontem, em comunicado, que o contrato dos helicópteros de emergência médica se mantém em vigor até 30 de junho de 2030 e que não haverá qualquer alteração ao modelo operacional até essa data. O instituto assegurou que a base de Macedo de Cavaleiros se mantém “em pleno funcionamento”.
Se assim for, Bruno Veloso garantiu que fica “contente que não seja verdade”, mas que se baseia “naquilo que foram as declarações em sede de Comissão Parlamentar da ministra da Saúde, que também não disse que ia tirar o helicóptero, mas levantou essa possibilidade”. Acrescentou ainda que esta “é uma moção de defesa das populações e que estranhamos que o PSD venha aqui dizer que isto é levantar poeira. Não, não é levantar poeira”, apontou.
A presidente da Câmara de Bragança, Isabel Ferreira, também manifestou preocupação com o processo. “De facto, o que foi dito pelo Ministério da Saúde, através do INEM, que até 2030 haveria a possibilidade de retirar os quatro helicópteros que estão descentralizados, foi este o termo utilizado, para territórios mais centrais, está totalmente desequilibrado. É com grande preocupação que assisti a essas declarações, mas estou confiante que isso não aconteça porque era um grande golpe nas políticas de coesão territorial, nas políticas de valorização do interior e era tratar os portugueses de forma desigual, considerando que alguns têm mais direito à vida do que outros”, concluiu.
A moção deverá ser enviada aos Grupos Parlamentares da Assembleia da República, ao Governo, ao Presidente da República e às Assembleias Municipais do distrito de Bragança.
A moção foi aprovada com 33 votos a favor, nove abstenções e 27 votos contra.
Recorde-se que também está a decorrer uma petição pública online, que neste momento conta com 956 assinaturas.