sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Vinhais com mais de meio milhão de euros para novos negócios a partir do fumeiro

O concelho transmontano de Vinhais tem mais de meio milhão de euros para investir em novos negócios e apoio ao setor agroalimentar, através de um projeto que tem como impulso o emblemático fumeiro e o porco bísaro.
O projeto Apoio ao Empreendedorismo do Setor Agroalimentar em Terras de Trás-os-Montes foi apresentado publicamente com a garantia de 534 mil euros de financiamento a fundo perdido aprovados pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N).

Uma das metas definidas é apoiar e conseguir, nos dois anos de duração do projeto, "20 novos empreendedores", mas também apoiar os atuais empresários na melhoria da apresentação e venda dos produtos e a criação de novos produtos a partir dos tradicionais, como explicou Carla Alves, coordenadora do projeto.

A promotora é a Associação Nacional de Criadores de Suínos da Raça Bísara, a responsável pelo processo iniciado há mais de 20 anos de proteção da raça que garante a carne que distingue o fumeiro regional de Vinhais, com todos os produtos certificados.

O fumeiro afirmou-se como dos mais conhecidos produtos de Vinhais e tem projetado outros na área do setor agroalimentar, onde contudo, os responsáveis notam algumas lacunas e deficiências que pretendem colmatar com o novo projeto.

"Temos muitos empresários na região que são pequeninos empresários. Alguns têm, por exemplo, a dificuldade de ter uma rotulagem (obrigatória) do seu produto (com) o valor nutricional do alimento, ou do ter glúten ou não", exemplificou.

Da mesma forma, o projeto pretende também dar apoio no acondicionamento e embalamento, contando com o apoio da investigação científica através dos parceiros Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e Instituto Politécnico de Bragança.

As duas instituições vão ajudar a fazer um catálogo nutricional dos produtos, estudos dos cortes das carnes e a pensar novos produtos que podem passar por fazer chegar ao mercado "sopas de alheira, chouriça fresca para assar, salsicha de porco bísaro ou até um hambúrguer".

Entre outras ações previstas estão as bolsas de ideia a atribuir a jovens com prémios de 700 euros mensais, durante seis meses, para darem início ao seu projeto, e a criação de um gabinete de apoio ao empreendedorismo, além da promoção e venda de produtos em plataformas digitais.

Uma mais-valia para divulgar o que produz a nível nacional é como encara este projeto o jovem Ricardo Diegues que apostou na produção de cuscos, que a mãe anda sabe fazer da forma genuína à base de farinha de trigo e que outrora eram, nesta zona, os substitutos do arroz e da massa.

Com o apoio científico do projeto, Ricardo espera poder conhecer melhor as "características não conhecidas, como o valor energético, se dá para fazer sem glúten ou com outras farinhas, por exemplo a de castanha".

Para um dos maiores produtores de fumeiro da região, Alberto Fernandes, este projeto "é válido", porém entende que a prioridade no setor é apostar na matéria-prima", ou seja no aumento da produção de porco da raça bísara.

"Não há matéria-prima para a própria região, é aí que se tem de apostar", afirmou, enfatizando que "o que a região precisa efetivamente é da criação de animais".

O problema é também reconhecido por Carla Alves, que defende que se resolve com outro projeto que está à espera desde fevereiro do aval da Direção Regional de Agricultura.

Trata-se da formalização de um agrupamento de produtores e criação de uma empresa (a AgroBísaro) considerado "absolutamente essencial para agrupar os pequenos produtos, juntando a oferta e colocando depois no mercado", como acontece já com outras raças, como a bovina Mirandesa.

O projeto prevê majorações para os pequenos produtores e a facilitação do escoamento da carne, que atualmente é uma dificuldade e leva alguns a desistirem da produção, como indicou.

Com os incentivos e nova organização, Carla Alves acredita que começarão a aumentar a produção e, consequentemente, o efetivo que ronda atualmente as seis mil porcas reprodutoras.

A coordenadora do projeto acredita que em breve estarão reunidas as condições para o agrupamento ser "uma realidade em 2018".

Agência Lusa

E que tal passar o ano em pleno rio Douro?

Em contagem decrescente para a Passagem do Ano, ultimam-se os preparativos.
Se ainda não decidiu onde passar o 'Reveillon', sugerimos-lhe a meia-noite em pleno rio Douro num barco de cruzeiro. São quatro dias com música ao vivo, excursões, workshops e refeições de chefe.

Bragança é pioneiro no projeto de serviço de assistência famacêutica

O distrito de Bragança é pioneiro na implementação de um novo projeto-piloto que vai melhorar o acesso das populações aos medicamentos, nos casos de maior urgência.
O SAFE, Serviço Nacional de Assistência Farmacêutica disponibiliza uma linha telefónica que pode ser contactada no período noturno e que informa da farmácia com disponibilidade de stock.
O utente pode ainda pedir que o medicamento lhe seja entregue em casa.

O Natal

O Natal brasileiro de que a minha mãe me falava, com as indispensáveis idas à praia, nunca me entusiasmou. Ao falar desse natal, a minha mãe não falava das idas ao musgo, da fogueira da praça nem do cantar dos Reis. E disso eu gostava muito. Começava a pensar nele muito tempo antes, não sei bem quanto, mas só quando chegavam a TIA e o tio Justino é que o Natal começava realmente para mim. No dia seguinte à sua chegada,   o meu pai, o tio Justino e eu íamos ao musgo. Às vezes tinha pena de arrancá-lo, tão verde e tão fofo ele estava, agarrado às paredes. Parecia veludo. Arrancado o musgo começava a construção do presépio, essencialmente a cargo do tio Justino e da minha mãe. Eu colaborava ativamente. Também os meus colegas de escola vinham muitas vezes ajudar. Fazia-se no pátio de baixo. O tio Justino começava por empilhar várias cortiças de modo a criar uma estrutura em relevo. Depois cobríamo-las com o musgo. Em seguida, com areia fazíamos uns carreirinhos, ao longo dos quais iríamos colocar várias figuras. Estas eram de barro pintado e tinham sido trazidas de Viana pelo tio Justino. Também foi ele quem fez a cabana do Menino Jesus, com uma cortiça virgem. Para além das figuras, da cabana e dos carreirinhos, havia no presépio um lago, feito com um espelho envolvido de musgo, ao qual dava acesso um regato que serpenteava ao longo da cascata e era feito com papel prateado. Havia ainda uma fogueira feita com papel celofane vermelho, coberto com galhinhos de lenha, e por baixo do qual se colocava uma lanterna acesa. Era à volta desta fogueira que se colocavam os pastores. Presa do teto havia uma estrela que iluminava os reis magos. Era de cartão coberta com papel dourado.
Para além do presépio, havia lá em casa uma árvore de Natal, e creio que seria a casa de cima a única casa da TERRA onde tal acontecia. A ideia da árvore de Natal tinha vindo com a minha mãe. Era feita com um zimbrinho que era colhido no mesmo dia em que íamos ao musgo. Os enfeites eram pompons de lã, coloridos, que eu fazia com a ajuda da Mininha, e pequenos biscoitos que a minha mãe fazia com vários formatos de estrela, de meia lua, de sino, de árvore. Na parte superior da árvore havia um grande laço de seda arranjado pela minha mãe.
Mas o Natal era muito mais que o presépio e a árvore. Era a ceia, sempre na CASA, até à morte da TIA. Comíamos todos à mesa- os meus pais, a TIA e o tio Justino, a Germana, a Balbina, o António Joaquim e a família. A ceia constava de bacalhau, polvo e pescada cozidos com batatas e couves da TERRA, que têm um sabor diferente de todas as outras que eu conheço. E tudo isto era regado com o azeite dourado das oliveiras, também da TERRA. Eu, na altura, não apreciava muito essa comida mas sabia que depois vinham as sobremesas. E dessas eu gostava. Eram as rabanadas, as filhós, os milhos doces, o arroz doce, a aletria, os fritos de jerimum, os rochedos de amêndoa. No dia de Natal, o almoço era na casa de cima. Invariavelmente era peru recheado com farofa, acompanhado de arroz com amêndoas, passas e nozes. À sobremesa eram doçarias brasileiras- quindins, bom bocado, docinhos de amêndoa, pudim de laranja. Eu gostava de ajudar a fazer estas doçarias, particularmente os docinhos de amêndoa. Eram feitos de véspera com uma pasta de açúcar, gemas e amêndoa, que era introduzida dentro de cascas de nozes para ali secar. No dia de Natal saíam das cascas docinhos de amêndoa com o formato de noz.
Depois do almoço eu ia sempre, com o meu pai e o tio Justino, ver a fogueira na praça. Ainda hoje se faz a fogueira. Antes do Natal os rapazes da TERRA vão pelas casas mais abastadas pedir lenha. As pessoas indicam-lhe onde a podem ir buscar. Na véspera de Natal lá vão eles. Após a ceia de Natal, lá pelas 10 h da noite, a lenha, grandes toros e raízes, começa ser empilhada na praça, em frente à igreja. Em seguida acende-se a fogueira. Levam-se umas chouriças para assar e assim, entre conversas, comendo chouriça assada, os homens vão passando a noite. Se há Missa do Galo, vai-se à Missa. Caso contrário por ali se fica até passar da meia-noite. A fogueira manter-se-á acesa por vários dias, enquanto a lenha durar. As mulheres não participam deste evento. Podem ir ver, passar algum tempo, mas é uma prática essencialmente masculina.
Outra boa recordação que tenho da época natalícia é o cantar dos Reis. Aí participam crianças e jovens que vão de porta em porta cantando. Lembro-me particularmente de alguns excertos de duas canções de Reis. Uma delas era:

Dai-nos leitão e cabrito, 
arroz doce e marmelada,
dai-nos vinho de há cem anos
já não vos queremos mais nada. 
Trigo e nozes e marmelada, 
lombo de porco, vitela assada, 
pão com manteiga, chá ou café
e o Deus Menino nascido é.

A outra, era a última a ser cantada:

Ao carrasco de Lisboa já lhe caiu a bolota
Se nos querem dar os Reis venham-nos abrir a porta.

E as portas abriam-se e lá vinham as nozes, a marmelada, os figos, as chouriças. Eu gostava muito de cantar os Reis em todas as casas mas, muito em especial, na casa de cima. A minha mãe preparava uma cesta com uns embrulhos feitos em papel de seda com uns grandes laços. Cada um retirava da cesta um embrulho. Era bonito, pela surpresa. Lá dentro podia haver caramelos de leite (que ela fazia tão bem), biscoitos iguais aos da árvores, docinhos recheados com amêndoa, pé de moleque. Eu ficava muito feliz até porque me parecia que a minha mãe também estava feliz.

Regina Gouveia
(Excerto de Estórias com sabor a Nordeste)
in:altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.pt

Cães vadios matam 42 ovelhas em Bragança

Produtor de animais perdeu principal sustento da família.
CLICA NA IMAGEM PARA ACEDER AO VIDEO
Três cães vadios mataram 42 ovelhas num curral, na quarta-feira, em Bragança.
Eurico Loureiro, o proprietário dos animais, ia dar-lhes de comer quando se deparou com o cenário macabro. "Vi os cães a sair e depois encontrei os animais mortos. 
Algumas das ovelhas estavam prenhas. Tinham marcas de mordeduras na garganta e nas patas", conta ao CM. Restam 12 animais, que ficaram em muito mau estado. 
O produtor diz que é frequente ver matilhas de cães abandonados na zona. "Noutra ocasião mataram-me 30 galos. Qualquer dia, atacam uma pessoa", alerta Eurico Loureiro, cuja família perdeu agora o sustento. "Vamos ter de começar de novo como quem perdeu as casas nos fogos. 
Cada cabeça custa 100 € e eu não tenho dinheiro para as repor", desabafou o criador.

Tânia Rei
Correio da Manhã

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

1961 - Carta de Desobrigação de Alexandre António Aleixo do G.D.B.

1951 - Carta de Lourenço Marques para o G.D,B.

Algumas aldeias no concelho de Mirandela não estão a pagar certas taxas

Há aldeias no concelho de Mirandela que não pagam a água que corre nas torneiras de casa, e outras não pagam as taxas de saneamento e resíduos. Também as pessoas que são servidas por furos de água não estão a pagar estas taxas. A denúncia é feita pela presidente da Câmara Júlia Rodrigues, que diz tratar-se de uma situação discriminatória, pois também existe quem esteja a pagar e não usufrua destes serviços.
“Nós temos na faturação da água o seu pagamento, do saneamento e dos resíduos. Como a fatura da água em algumas Freguesias é paga diretamente à Junta de Freguesia, em algumas não e paga mas em princípio seria assim pois é o que está protocolizado. Essas Freguesias não pagam saneamento de resíduos porque também não recebem a fatura. Por outro lado também todas as pessoas que têm furo e que por qualquer motivo não têm abastecimento de água pública também não pagam a taxa de saneamento e resíduos. Existe também outra injustiça que é o facto de muitas pessoas estarem a pagar uma taxa de saneamento e não terem saneamento. Estão a pagar duas vezes: a limpeza da fossa e o saneamento. Temos aqui uma injustiça clara perante todos os Munícipes na utilização de recursos públicos que são suportados pela Câmara.”

A autarca pretende resolver esta situação o mais depressa possível, e que os munícipes sejam tratados de igual forma.

“Tem que haver justiça perante todos os Munícipes e a tendência será cobrarmos melhor mas por outro lado pagarmos todos menos se todos começarem a pagar.
Estamos a falar de algumas Freguesias. Tem que passar a haver um procedimento que torne claro e que implemente essas medidas e que haja uma justiça a nível do concelho para todos os Munícipes e que sejam tratados de igual forma.”
Outras medidas já foram implementadas. A leitura da água na cidade está a ser feita mensalmente, até aqui era feita apenas duas vezes por ano. Nas aldeias é lida de 2 em 2 meses.

Em relação à taxa do lixo, que é paga independentemente de os munícipes reciclarem ou não, a autarca adiantou que será implementado um projecto-piloto em Carvalhais, aldeia urbana do concelho mirandelense, onde haverá essa diferenciação na respectiva taxa de resíduos a aplicar. Quem reciclar paga menos.

Mais uma questão de justiça na utilização dos recursos públicos, pois as autarquias apenas pagam à Resíduos do Nordeste o lixo indiferenciado.

INFORMAÇÃO CIR (Terra Quente FM)

"Concurso Bebé do Ano" celebra o nascimento de 20 lindos bebés

O presidente da Câmara de Vimioso disse que os apoios à natalidade concedidos em municípios de baixa densidade populacional não são suficientes para travar o despovoamento, mas antes um alerta ao Governo para esta problemática.
Vimioso, celebra a festa do nascimento de 20 lindos bebés no ano de 2017.

"Tomamos esta iniciativa "Concurso Bebé do Ano" para alertar o poder central para a problemática do despovoamento jovem no interior. Por esse motivo, criamos este prémio simbólico para premiar os casais que acreditam que é possível fazer vida nestes territórios, explicou à Lusa, Jorge Fidalgo.

A autarquia de Vimioso, no distrito de Bragança, começou com "incentivo à natalidade" em 2002 com um montante de 500 euros e nos últimos anos dobrou o valor, acrescentando ainda um valor de cerca de 500 euros para a vacinação não comparticipada.

"Quando as autarquias do interior têm de tomar medidas desta natureza, significa que o problema é grave, sendo por isso necessário agir em conformidade, criando politicas a diversos níveis que fixem população jovem. Mas só isto não é suficiente", lamentou o autarca trasmontano.

O autarca defendeu ainda que também o Governo tem de encontrar "fórmulas para fixar casais e apoiar a natalidade em concelhos do interior, à semelhança do que estão a fazer as autarquias".

"A melhoria da rede viária, a criação de melhores condições de saúde, ou a implementação da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano, não é uma responsabilidade da câmara municipal, mas sim do Governo", frisou.

O autarca garante que ao longo destes últimos 15 anos, os sucessivos Governos continuam a olhar para o lado, e as autarquias são chamadas a assumir responsabilidade que não são suas.

"Enquanto este tipo de políticas de discriminação negativa fragilizar os territórios do interior, e em particular o concelho de Vimioso, se mantiveram, obviamente que estamos a travar uma luta muito difícil, mas da qual não vamos desistir", lamentou Jorge Fidalgo.

Agência Lusa

Conto de Natal : O Filho do Moleiro

O homem, já idoso com os noventa anos logo ali ao dobrar da esquina da vida, gostava de desfiar conversa acerca dos tempos idos. Sabia que o mundo se transforma a todo o vapor sem se preocupar condignamente com o registo do que se vai esfumando. Por isso não perdia uma oportunidade com transeunte que lhe passasse junto ao poiso onde via escorrer os dias.

Com regular assiduidade, calhava a sorte a um citadino que não negando as origens e buscando a rocha que sente como a que lhe firma as raízes, ciranda pela aldeia em momentos de espairecer e de descanso das labutas do ganha-pão na cidade grande.

Estava-se perto do Natal, num tempo de frio seco. Ao longo do ano, havia sobrado em sol e em azul no céu o que minguava em água da chuva e em nuvens que a acartassem. O ribeiro ia um fieiro. O ano de lavoura tinha sido razoável, mas temia-se pelo que se ia seguir. Dizia ele que as tripas da terra onde circula a água estavam mais secas que as de um porco antes de se encher o fumeiro.

- Como este de agora, só um de há muitos anos. Era eu ainda rapaz sem direito a ganhar como um homem. Ainda não podia com um cesto da vindima cheio de uvas. O carrego era a prova dos nove. Era o tira teimas. Quando as pernas se não dobrassem ao carrego e a espinha aguentasse o peso das uvas, tinha-se direito a caldo e a condoito. – Aludiu o velho.   

- Mas pelo menos agora não há fome. Quanto à chuva, ela ainda há-de vir e as coisas repõem-se. Depois como o senhor bem sabe, a chuva e a morte nunca se pedem. – Retorquiu o passeante antes de se desenrolar a conversa que se segue.

- Sei sim, diz bem o meu amigo. Olhe está-se-me a desenrolar na memória   uma história de há já muitos anos. Havia aí uma mulher que era terrível. Não que fosse má de fígados, mas era muito avarenta. Era rica, tinha mais bens ao luar que qualquer outro ou outra na freguesia, mas esmifrava. Quase não comia e dava o menos possível aos outros mormente em termos de paga pelo trabalho.              

- Explorava, quer o senhor dizer.

- Como outros. Mas ela era pior. No entanto dava o exemplo. Era a primeira a erguer-se da cama ao cantar do galo. Ainda nem a ave tinha desencolhido o pescoço depois da gaitada tocada, e aí ia ela a caminho das vinhas, dos pomares ou das leiras. Quem fosse ganhar o dia para ela já sabia de antemão que não havia moina por sua conta.           

- Estou a ver. Pelo menos não se limitava a exigir e a viver à sombra dos que trabalhavam.

- Nem de longe nem de perto. Mas não tinha necessidade. Era avarenta e não dava nem uma migalha a um pobre. A mão de dar comeu-lha o reco, como se dizia antigamente.

- Mas no Natal sempre dava uma pequena ajuda aos pobres, ou não?

- Como lhe disse antes. Não conhecia tal gesto. Era remisga de corpo e de alma. Com certeza pensava que quando morresse levaria com ela teres e haveres. Mas mudou, e não foi preciso muita coisa.

- Está a deixar-me curioso.

- Naquele tempo, a ceia da consoada, pouco mais era do que comer-se um pedacito maior de bacalhau com batatas e couves. Mas até estas eram luxo para muita gente. Não faltava quem se caísse morto em pé tombaria para o quintal do vizinho por não ter nem um palmo de terra. Por isso, mesmo as couves podiam ser escassas ou faltas. Mas colocado o tronco no lume a arder sempre se consoava celebrando o nascimento do Menino Jesus que segundo os padres nasceu mais pobre que Jó. Que Deus Nosso Senhor quis dar o exemplo, dizem-nos na catequese. O problema é que este ensinamento dura à mais de dois mil anos, mas não vinga.

- Lá nisso tem razão. Mas é da natureza humana.

- Será e compreende-se. Mas a ganância e o egoísmo é que não têm perdão por mais hóstias que se metam na boca e por muitos ave-marias que se rezem. Nem que se mande celebrar uma trintena de missas se abrem os portões guardados pelo S. Pedro. A não ser que haja um qualquer momento em que se arrepia caminho e se faz o bem. Mas olhe que os gestos grandes não são para qualquer um. Qualquer cosia que não nos saia da alma antes de nos chegar à ponta dos dedos não vale de nada.

- Mas desviou-se da conversa acerca da tal senhora.

- Pois desviei. Mas já retomo. Nesse Natal, entrou-lhe na cozinha vá lá saber-se o que o foi. O que se sabe é que o que sucedeu foi de assombro. Por mais pobre que fosse a noite de consoada sempre era noite de consoada, e lá por casa dela, o comer era sempre melhorado. Farto até. Pode dizer-se sem risco de exagero. Não que alguém visse ou contasse, mas pelo fumo que se via sair pela chaminé podia concluir-se que rodeada do marido e dos dois filhos, teriam motivos para lamber os beiços antes de se deitarem com a barriga cheia. Se havia ou não confeitos, é outra conversa.     

- Sim. Então, mas onde e que entra o encanto?

- Não sei se o meu amigo sabe, mas antigamente havia por aí muito trigo. Era um mês inteiro de malhadas. Andava por aí um moleiro e mais a mulher, que eram de Alvelos. Vinham até cá acima buscar os grãos de milho, levam-nos em sacos carregados por um burro até ao moinho no rio Varosa, e depois de tirada a maquia deles traziam a farinha parte dos lavradores. Ora, certa vez, os moleiros traziam com eles um filho ainda de cueiros.  Era dia de consoada. Acontece que na hora de voltarem para casa, caiu para aí um nevão de se lhe tirar o chapéu. Vendo-se sem condições de se fazerem ao caminho, bateram à porta da mafarrica de coração de pedra. Mesmo ruim, não teve coragem a megera de os não auxiliar. Deixou-os acoitarem-se num cardenho ao lado da casa. Estaria com o bacalhau quase comido, mas não lhe sabia bem. No casebre o bebé chorava pobre coitado que nem cordeirinho a balir de fome. Segundo ela contou mais tarde, sentiu que aquele som de choro era mesmo o do seu nome, ao ponto de futurar que a criança a chamava. Num repente levantou-se e foi buscá-los a todos. Ao pai, à mãe e ao filho, pois burro ou alimária é coisa que não entra em cozinha nem na noite de Natal...

- Não fez mais do que a sua obrigação, mas vinda de quem veio é coisa de se admirar e foi uma boa acção…

- Foi. Tanto que o pequenote não lhe saía do colo, e ela toda enlevada passou o tempo a apaparica-lo. Os que viam até se benziam de espanto. Aquilo mais parecia milagre ou sonho. Mas não foi. A mulher que antes tinha a alma caiada de negro que nem caco felugento, sentiu nascer-lhe como que uma chama lá por dentro. Afeiçoou-se ao ganapo ao ponto de tomar conta dele daí para diante. Veja bem que até o mandou fazer-se doutor em Coimbra e tudo.

- Coisa bonita de se ver, sim senhor.       

- Modificou-se a avareza em pessoa. Mudou ao ponto de ajudar qualquer pobre que lhe batesse à porta. O moço tornou-se garboso e fez-se um homem muito bom e sabedor ao que dizem, pois não me lembro muito bem e só sei de ouvir dizer.

- Em todo o caso são dignos de palmas quere o gesto quer a mudança da mulher de que me fala.

- Sem dúvida que sim. Mas sabe uma última coisa? Ao que me chegou, toda a aldeia jurava nesses dias e anos logo a seguir, que nem naquela tarde os moleiros foram vistos por mais ninguém, e nem sequer tinham ou tiveram qualquer filho. Agora, quem seriam aqueles três e mais o burro que bateu à porta a pedir guarida naquela noite de Natal?


Manuel Igreja
in:diariodetrasosmontes.com

Novo estatuto para a Pequena Agricultura Familiar em vigor até Março de 2018

O novo estatuto para a Pequena Agricultura Familiar vai entrar em vigor até Março de 2018.
Segundo o ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, pretende consagrar direitos como o acesso prioritário a fundos comunitários.
“ Pretende-se que a pequena agricultura tenham acesso prioritário às medidas de apoio da União Europeia, seja no investimento, sejam outras medidas de apoio ao rendimento que tenham regime específico no que diz respeito às normas de higiene e segurança alimentares, nas pequenas leitarias, salsicharias, queijarias, naturalmente sem prejuízo das regras elementares no que diz respeito à segurança dos consumidores mas criar um regime mais simples do que aquele que é exigido à indústria em geral.” 
O ministro a Agricultura acrescenta outros benefícios, nomeadamente em termos fiscais, de crédito e de mercado.
“ Queremos também facilitar o acesso aos mercados sobretudo aos mercados locais e introduzir algumas medidas de apoio nesse sentido já que a comercialização dos produtos é o problema principal dos pequenos agricultores. Queremos ainda facilitar o reconhecimento das suas organizações de produtores uma vez que é exigido um número mínimo de volume de produção comercializada e para estes agricultores pretendemos baixar essa exigência assim como criar linhas de crédito especificas adaptadas a este segmento, conferir-lhes acesso prioritário no arrendamento de terras do Estado assim como garantir a existência de um sistema de segurança social e de um sistema fiscal mais favorável.”
Segundo Capoulas Santos, a Pequena Agricultura Familiar é representada, em Portugal, por cerca de 300 mil explorações, correspondentes a menos de metade da superfície agrícola útil.
Apesar de ter uma importância social muito superior à económica, o ministro diz que tem grande relevância e explica porquê.
“Porque se trata da população rural que ocupa os nossos territórios, cujo despovoamento das últimas décadas foi tão tristemente ilustrado na recente tragédia dos incêndios. Um mundo rural vivo exige pessoas e para que as pessoas nele vivam têm de ter condições de vida dignas e através deste estatuto queremos melhorar um pouco as condições de vida e o estatuto deste segmento tão importante da nossa agricultura.”

O ministro da Agricultura salienta que, para ter o estatuto de Pequena Agricultura Familiar, é necessário ser reconhecido como pequeno agricultor familiar, título que é obtido mediante condições como ter mais de 18 anos, uma exploração agrícola na qual a mão-de-obra assalariada não seja superior à da família, uma propriedade cadastrada e uma facturação inferior a cerca de 20 mil euros. 

Escrito por Rádio Ansiães /foto: defesa e segurança 

Reveillon Popular 2018 - Freixo de Espada à Cinta

Atividades para fazer em Bragança neste Inverno

Pintada de tons quentes numa terra fria, Bragança é um dos maiores concelhos do país e um destino a não perder. 
O inverno é rico em festas e tradições e são muitas as atividades culturais e de lazer propostas. Com a chegada do solstício de Inverno, há paisagens soberbas, mascarados que enchem as ruas das aldeias de cor e uma gastronomia ímpar à espera de quem visita este “Reino Maravilhoso”. Viajamos para lá do Marão?

· Explorar o Parque Natural de Montesinho e observar os veados
Poucos territórios possuem uma biodiversidade tão rica como o Parque Natural de Montesinho, situado às portas de Bragança. Observar um grupo de veados junto à estrada, escutar o uivar de um lobo, observar aves raras, como a águia-real, enquanto se desfruta de um fabuloso mosaico de paisagens é, sem dúvida, um privilégio. Se gosta de explorar o meio circundante, há inúmeros trilhos para passeios a pé ou para a prática de BTT em cenários de arrebatadora beleza. Com as temperaturas mais baixas, a região pinta-se de branco e percorrer estas paisagens dignas de um postal é mágico.

· Conhecer o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (CACGM) é um projeto arquitetónico da autoria do arquiteto Souto de Moura (Prémio Pritzker, em 2011). Com exposições temporárias dos mais conceituados artistas nacionais e estrangeiros dos nossos dias e de grandes coleções de arte contemporânea, este espaço possui, ainda, um núcleo de sete salas dedicadas à obra da pintora transmontana Graça Morais, num programa expositivo frequentemente renovado.

Até 25 de fevereiro de 2018, está patente a exposição “Uma Antologia”, de Ana Vieira (Coimbra, 1940 – Lisboa, 2016). Na sua obra, a casa assume o lugar de projeção de tensões e conflitos entre a identidade e a memória. É, em grande medida, o elemento integrador do pensamento e o ponto de partida da sua criação – que privilegia inesperadas construções cénicas e teatrais e a manipulação de figuras, objetos e ambientes.

A não perder, de terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00, na Rua Abílio Beça, 105. Aos domingos a entrada é gratuita (até às 12h30).

· Degustar a rica gastronomia transmontana
Se aprecia paladares únicos e tradicionais, considere descobrir a rica gastronomia transmontana. O Butelo com Casulas é um excelente embaixador e uma iguaria de destaque da região. De 2 a 13 de fevereiro de 2018, realiza-se a Semana Gastronómica do Butelo e das Casulas e, de 2 a 4 de fevereiro de 2018, o Festival do Butelo e das Casulas. Haverá animação de rua com caretos e gaiteiros, um espaço de animação para crianças, demonstração de confeção em pote e de produção artesanal de butelo. A visita ao certame vai permitir conhecer os produtores de butelo, casulas e fumeiro e os expositores de artesanato, produtos da terra.
Difícil? Difícil vai ser resistir aos saborosos produtos regionais!

· Brincar ao Carnaval dos Caretos
Para quem gosta de viver a alegria do Carnaval, Bragança apresenta uma festa tradicional e cheia de cor. No dia 10 de fevereiro, as principais ruas da cidade enchem-se de colorido, de música e de animação. Os caretos saem às ruas com um único intuito: assustar as raparigas solteiras e dançar ao som de músicas tradicionais. Mais de 1.000 Caretos de Portugal e de Espanha vão “tomar de assalto” Bragança, a que se juntam grupos de mascarados e de gaiteiros e centenas de crianças das escolas do Concelho de Bragança, trajadas a rigor. No final, há a “Queima do Diabo”, uma atividade onde todos podem participar.
Junte-se e ajude a cumprir esta tradição!

· Visitar a Exposição “Máscaras Rituais de Portugal”
A par das Festas de Inverno que se celebram na região, o Centro Cultural Municipal Adriano Moreira acolhe, até dia 28 de janeiro, a exposição “Máscaras Rituais de Portugal” de Roberto Afonso.

Para quem gosta de conhecer melhor as tradições de cada destino, esta exposição apresenta uma coleção de dezenas de máscaras produzidas por diversos artesãos e que representam variadas festas/rituais associadas ao solstício de inverno, em particular na região.
Horário: segunda – sexta -feira das 9h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30. Entrada gratuita.

· Descobrir Bragança através da lente de Georges Dussaud
Inaugurado em 2013, o Centro de Fotografia Georges Dussaud é um espaço dedicado à obra do fotógrafo francês e à fotografia em geral. Apresenta uma coleção ímpar da autoria deste fotógrafo que se apaixonou pela região e, desde 1980, desenvolveu o seu trabalho sobre o nosso país, em particular sobre Trás-os-Montes. Esta exposição é constituída por um total de 148 fotografias a preto e branco e conta com retratos, de onde sobressaem histórias de vida, povoadas de homens, mulheres e crianças, mas também de lugares, de olhares, de gestos, de instantes irrepetíveis registados a cada disparo da máquina fotográfica.

Até 18 de fevereiro, pode visitar-se a exposição “Imaginário de um Trem”, da brigantina Lauren Maganete, e, até 15 de abril, está patente, também, “A Cidade e as Serras”, uma narrativa fotográfica sobre a cidade e algumas aldeias do concelho de Bragança, também de Georges Dussaud.
Horário: 09h00- 12h30 | 14h00 – 17h30 |Encerra à segunda. Entrada gratuita.

in:shoppingspirit.pt

Exposição, aberta ao público no Posto de Turismo de Mogadouro, reúne mais de meia centena de máscaras esculpidas pelo mirandês Carlos Ferreira

ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E FOGOS FLORESTAIS (ENSAIO)

Parque Natural de Montesinho - Rota da Terra Fria
Portugal é no conjunto dos países da União Europeia, segundo o 7.º Relatório da Coesão, publicado no passado mês de outubro pela Comissão Europeia, um dos que regista maiores desigualdades territoriais e sociais. O país continental, em termos de desenvolvimento inclina-se para a frente atlântica e para sul, convergindo ambos os planos em Lisboa, que centraliza cada vez mais a população, a economia, a administração pública, o poder político, agravando-se as assimetrias no território. Apesar disso, a Região Norte no período de 2010 a 1015, foi a única região NUT II da Península Ibérica com crescimento positivo. Também a nível social, a situação não é positiva, embora se registem algumas melhorias. A diferença da média de rendimento entre os 20% da população mais rica e os 20% da população mais pobre é de cerca de 1 para 6, uma das mais elevadas na EU.  
Nos últimos 15 anos Portugal não convergiu com a média dos países da EU, divergiu ligeiramente enquanto, países mais pobres do leste europeu tem estado a crescer continuadamente, convergindo com a média da EU, ficando Portugal em termos comparativos mais afastado de um processo de convergência. Desde há trinta anos que Portugal recebe da EU, uma média de 9 milhões de euros de por dia, ajudas que não tem sido suficientes, em parte por razões internas, entre elas o fraco ordenamento do território e uma visão centralista para o país, sem comparação na maioria dos estados desenvolvidos da EU, tendo como consequência direta o intenso despovoamento e empobrecimento do interior do País.   
Nas últimas quatro décadas, incentivou-se o abandono dos campos, a economia e atividades rurais foram desvalorizadas em termos económicos e sociais, em particular a agricultura familiar, considerada como residual e economicamente inviável. As políticas públicas concentraram os apoios ao investimento e à produção nas grandes explorações agrícolas, que representam 3%, enquanto as explorações agrícolas familiares representam 97%, do número total de explorações, que se concentram nas Beiras, no Minho e em Trás-os-Montes. 
É nestas regiões que ocorre um intenso despovoamento e envelhecimento da população. Ao desvalorizar a função social e económica dos agricultores, prejudicou-se o valor de outras funções fundamentais associadas à presença e atividade humana no território, como a preservação e valorização dos ecossistemas naturais, da biodiversidade essencial à humanidade, dos serviços ambientais prestados à comunidade, não quantificados na função económica, mas que representam um importante benefício social, função nunca compensada aos agricultores, mas de que todos beneficiamos, como a qualidade da água, do ar, a preservação da paisagem e de outros bens patrimoniais, legado de gerações, que representam parte importante da identidade e cultura do povo português. 
Muito do que tem sido insistentemente dito sobre os problemas da interioridade não tem sido ouvido pelos poderes públicos instalados em Lisboa, a não ser nas campanhas eleitorais, logo esquecido, também a imprensa nacional pouco tempo tem dedicado aos problemas do interior. Situações de fundamentalismo ambiental, como os planos de áreas protegidas (ex. do Parque Natural de Montesinho e Douro Internacional), que não protegeram nem desenvolviam, pelo contrário, conduziram de forma mais intensa ao empobrecimento e abandono de atividades rurais e consequente despovoamento das aldeias que integram essas áreas, são exemplo de orientações erradas. Lembro os inimagináveis obstáculos levantados durante 14 anos à construção da barragem de Veiguinhas destinada a abastecimento de água para consumo humano da cidade de Bragança. Este ano, com 95% do país em situação de seca extrema, se a sua construção não tivesse sido autorizada no ano de 2012, este ano em Bragança teria ocorrido a rotura no abastecimento, com danos de elevadíssimo impacto social e económico. É só mais um exemplo de como se gastam recursos e tempo para tentar evitar a regressão imposta por políticas erradas, decididas longe do interesse das pessoas e dos territórios, o que nem sempre é possível, e muito disso é o resultado de quase tudo ser decidido em Lisboa.
A realidade negativa da interioridade, que algumas teses tentam desvalorizar, entrou este ano pela casa dentro de todos os portugueses, em resultado dos intensos fogos florestais que no inicio do verão e inicio do outono devastaram parte do país e da seca extrema que está a atingir o país, com forte impacto negativo no meio rural. Ambas as situações acarretam graves danos económicos, humanos e ambientais, enfraquecendo ainda mais os territórios do Interior, as pessoas e atividades económicas, com consequências negativas na coesão territorial. 
O mapa relativo à alteração da população ao nível NUT III, no período 2005-2015, publicado no 7.º Relatório da Coesão da EU, evidência de forma muito clara a fratura existente em Portugal, com mais de 2/3 do território em forte perda populacional, situação que vem de décadas anteriores, evidenciando que o Interior está cada dia mais frágil, com menos pessoas. As regiões fronteiriças espanholas, com as suas delebilidades não foram tão abandonadas com as portuguesas. Portugal deixou parte do seu território esquecido, as pessoas ficaram em parte ignorados, aí permanecem os que por opção, ou falta de alternativa, persistem em habitar nas suas pequenas aldeias que compõem e dão identidade ao território do Interior. O estado alheou-se em parte de funções de soberania, deixou que a situação em termos de ordenamento e desenvolvimento do território se tivesse aproximado de uma situação de fratura.
 A intensidade e frequência dos fogos florestais que este ano devastou o país, não pode dissociar-se das alterações climáticas, mas é certo que não poderá deixar de estar associado ao fraco ordenamento do território, ao despovoamento do Interior do país e abandono das atividades agrícolas. Durante a minha infância e juventude, as atividades agrícolas, pastoril e silvícola garantiam uma presença numerosa de pessoas no meio rural, asseguravam a valorização dos recursos naturais e sustento para as famílias. Muitas dessas atividades desapareceram, a emigração para as cidades e a perda de rendimento associado às politicas de incentivo ao abandono da atividade levaram a maioria das propriedades deixassem de ser cultivada. Hoje, a maioria das pessoas que ficaram nas aldeias são idosas, em parte dependentes de apoios sociais, por outro as tendências demográficas no país não ajudam a perspetivar uma inversão desta realidade, a não ser que as políticas públicas mudem de forma radical. 
É preciso repensar o ordenamento do território, reequilibrar o sistema urbano do país, olhar para o Interior com outros olhos e políticas, assumir a interioridade como estatuto jurídico, obrigando a que cada decisão política tomada seja avaliada sob o ponto de vista do impacto para a coesão territorial, assumir descentralizar e deslocalizar serviços nacionais relevantes da administração pública, para cidades do Interior, criar condições fiscais fortes de incentivo ao investimento privado e á fixação de mão-de-obra qualificada no Interior, garantir o desenvolvimento dos centros de conhecimento e de inovação nas instituições de ensino superior do Interior, assegurar o acesso às redes de informação, assumir que os territórios do Interior serão parte ativa nas políticas de coesão, da competitividade e do crescimento global da economia do país, nomeadamente no setor primário e que a relação entre territórios fronteiriços pode ser feita de forma mais estratégica e temática. É preciso devolver a esperança ao Interior, reestabelecer a equidade e a justiça social.  
É possível olhar em frente, encarar o futuro e inverter a realidade do abandono e despovoamento do Interior, com novas políticas que não podem omitir os desafios das alterações climáticas, da globalização, do crescimento da população do planeta e da pressão sobre os recursos naturais. As políticas para o Interior não podem ser vistas na perspetiva do passado, sim numa perspetiva de mudança de paradigma de desenvolvimento, centrado no crescimento verde, no conhecimento na inovação. Olhar para o futuro significa fazer agora, de forma diferente, o que não tem sido bem feito.
É preciso fazer ordenamento e gestão adequada do território, das áreas agrícolas e florestais, aproveitar os recursos naturais, com projetos bem estruturados e sustentáveis, apoiados no conhecimento, no saber fazer, na inovação, nas tecnologias, tendo por base planeamento a nível nacional, regional e local. Fazer planos de investimento de médio e longo prazo, fazer reformas necessárias, infraestruturas adequadas, seja de armazenamento de água, de transformação dos produtos, desenvolver estruturas associativas e cooperativas. Dar prioridade ao investimento na agricultura, mobilizar apoios comunitários maioritariamente para esse objetivo, aplicados regionalmente de acordo com as prioridades, correspondentes ao cruzamento das potencialidades naturais e opções de política regional e sub-regional. Corrigir a política, ordenar o território, modernizar a agricultura familiar, reabilitando-a económica e socialmente. 
O ordenamento da floresta deve incluir a aposta na diversificação e utilização de espécies como o carvalho, o sobreiro, o castanheiro, e outras espécies que permitam em cada parte do território fazer de forma compatível formações menos combustíveis e a criação de áreas para contrariar a propagação de incêndios. Para que os bons princípios de ordenamento do território sejam aplicados, deve existir uma estratégia florestal nacional, enquadrada por planos regionais de ordenamento florestal e a nível local transferidos para os planos diretores municipais, garantindo eficácia na sua aplicação. Os programas específicos de florestação com espécies de crescimento lento tem que ser acompanhados por programas de compensação financeira aos produtores, por perda de rendimento, pelos anos necessários, só assim se pode assegurar que os cidadãos que cuidam da agricultura e da floresta, na perspetiva das gerações futuras, o podem fazer com rendimento que lhes permita uma vida digna. 
Por outro, tanto na política florestal como agrícola, são necessárias políticas públicas que deem prioridade ao uso do solo em detrimento do abandono, promovendo a mobilização produtiva das terras abandonadas, políticas que fomentem uma adequada gestão e sustentabilidade económica e ambiental dos projetos, um programa intenso de investimento em infraestruturas de apoio ao ordenamento do território na perspetiva agrícola e florestal. O ordenamento do território exige o seu povoamento, que as pessoas que os habitam obtenham rendimento compatível para uma vida digna, que acedem a bens e serviços com qualidade e equidade, que os próprios e os seus bens estão protegidos, que as politicas para o território se façam com os seus atores mais próximos, designadamente com as pessoas que o habitam, proprietários e utilizadores dos bens. Não é possível construir um futuro melhor para o Interior se tudo se continuar a concentrar em Lisboa. É o tempo de juntar competências, conhecimento e vontades políticas para ajudar a construir um futuro melhor para o mundo rural e para o país, enfrentando o grave problema das assimetrias que fraturam o País. 



Jorge Nunes
in:jornalnordeste.com

Os Lavoisier apresentam “É teu” em Bragança

É já amanhã que os Lavoisier apresentam em Bragança num concerto intimista o novo álbum “É teu”.
O concerto tem lugar na Plataforma de Arte e Criação às 22h30 e está  limitado a um público de 40 pessoas.
A banda vem a Trás-os-Montes pela mão da Dedos Biónicos, produtora que está a assinalar uma década de existência.Se, de Lavoisier, a dupla Patrícia Relvas e Roberto Afonso roubou a frase , “Na Natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma (e o nome), foi no cancioneiro tradicional português que a dupla, à altura a morar em Berlim, tendeu a massa com que haveria de cozinhar a sua música.
Longe de serem mais um grupo que reinventa a tradição musicada nacional, a energia que brota das atuações do duo assume uma dinâmica própria, descobrindo uma nova energia para a música nacional. Juntando a voz de Patrícia e a guitarra elétrica de Roberto, o projeto surge enquanto terapia musical, para tratar uma crise de identidade lusitânica.

in:mdb.pt

Encontro de antigos alunos em Macedo de Cavaleiros

Pela terceira vez realizou-se o encontro de estudantes que outrora passaram pela Residência de Estudantes em Macedo de Cavaleiros.
O repórter Rui Costa conta-nos mais sobre este reavivar de memórias:

“Os antigos alunos que passaram pela residência de estudantes de Macedo de Cavaleiros reuniram-se pela terceira vez para recordar os velhos tempos e rever amizades. A residência de estudantes acolheu crianças e jovens de todo o concelho e do distrito de Bragança nos anos 80 início dos anos 90. Neste momento o edifício está fechado, ficam as recordações de quem lá passou como refere Rosário Bragada.

«Primeiro porque começamos a ver o edifício completamente degradado. Criou-nos algum saudosismo e de alguma maneira, provavelmente fez que nós nos lembrássemos dos tempos que passamos ali e começamos a pensar e porque não começar a fazer jantares e começarmo-nos a encontrar. Hoje é muito mais fácil encontrarmo-nos uns aos outros através do Facebook. Ao longo do tempo fomos perdendo rastos uns dos outros e começamos de novo a nos encontrar. Começou o primeiro jantar hà cerca de um ano e meio éramos 8 pessoas, 8 elementos do grupo só. No segundo jantar já éramos 15 e hoje já conseguimos ser 26. Grande parte dos nossos ex-amigos ou ex-residentes, neste momento, são emigrantes. Muitos deles só os conseguimos mesmo encontrar no mês de Agosto, ou por esta altura do Natal, que vêm passar o Natal com as famílias.»

A Rosário esteve na residência em que ano?

«1980 até 1987/88. Essencialmente éramos uma família e é engraçado como é que depois de tanto tempo você consegue recuar para trás no tempo e lembrar-se de histórias como nos lembramos ainda hoje. Aquilo que eram as nossas peripécias, os nossos convívios, os nossos momentos de estudo – que nós tinjamos horas de estudo- e como devia ser difícil manter 80 crianças e adolescentes numa sala concentrados a estudar e em silêncio, isso é que às vezes nos causa alguma espécie.»

Lino Torrão natural do Lombo e Sandra Padrão de Gradíssimo, passaram pela  residência de estudantes. São muitas as recordações.

«Muito boas recordações, muita malandrice, muito estudo, muito companheirismo, muita amizade, festa, muito trabalho, acima de tudo muito companheirismo, muita entreajuda»

«Eu passei lá 9 anos, os melhores da minha vida, eramos todos como irmãos, um por todos e todos por um, espetacular. Eu é primeira vez que participo e adorei rever pessoas que por volta de 20 anos que eu não tinha visto. E foi uma surpresa e foi muito bom, muito bom, muito bom.»

«É muito importante manter-se este tipo de convívio, para o ano iremos ser mais é muito, muito, muito bom rever velhos amigos.»

Quando olham para o edifício que sentem?

«Muita tristeza, foi um sítio que me marcou para a minha vida. Vemos aquilo a degradar-se de dia para dia, principalmente o edifício de espetacular que ele é. Está ali a cair no centro da cidade»

«É uma pena ver um edifício daquele com tanta histórica, com tanto simbolismo estar ao abandono. Aquilo é realmente uma pena.»

Gracinda Carlos é natural de Izeda atualmente trabalha em Luanda, passou pela residência de estudantes de Macedo de Cavaleiros durante 4 anos e realça a importância deste tipo de convívios. 

«Por isso eu gosto destes momentos de partilha exatamente porque conseguimos recordar velhos tempos matar saudades daquilo que todos vivemos. Foi excelente. Atualmente eu trabalho e resido Luanda, Angola. Nesta altura natalícia eu gosto sempre de visitar os meus pais, este encontro com amigos eu acho que é muitos de salutar, sinto uma saudade enorme. Foram tempos muito felizes aqueles que vivemos lá. Boas amizades que se criaram e que se mantém e eu acho que isso é o melhor que nós levamos da vida. E uma coisa que tinha muito bom era o facto de que tinha alunos de várias idades, havia de várias faixas etárias, havia desde a primeira à quarta classe até ao nono ano e 12º. Lidávamos todos, era uma residência masculina e feminina o que eu acho que era muito de salutar, sei lá, são coisas que se vivem e só quem viveu é que sabe como era bom.»

Outrora a residência recebeu alunos não só do concelho de Macedo de Cavaleiros mas também de outras localidades vizinhas, um espaço, uma casa que marcou infância de crianças e adolescentes. O edifício situa-se no Largo dos Segadores em Macedo de Cavaleiros e deixou de funcionar no início dos anos 90.”

A antiga Residência de Estudantes de Macedo de Cavaleiros a ser recordada por quem lá passou.”

Escrito por ONDA LIVRE

ABREIRO - Freguesias do Concelho de Mirandela

ABREIRO é uma povoação que é também freguesia pertencente ao concelho de Mirandela, de cuja sede dista cerca de 25 km. Fica situada na margem direita do rio Tua, bem perto deste, na parte sudoeste do município.
A palavra Abreiro, localmente, é explicada como derivando de "abre te rio", numa alusão clara ao Tua, que ali alarga as suas margens e o seu leito. Porém, a origem tem por base a palavra árabe ÁBARA, que quer dizer "entrar ou passar para outro lado".
No Monte de Santa Catarina terá existido um castro, e, também, um castelo mourisco, sobre cujas ruínas se edificou uma Capela, que teve festa rija outrora, mas agora se encontra em estado de destruição, praticamente apenas com as paredes. No seu termo há vestígios arqueológicos remotos, como a Pedra de Arcã, que, a juntar a outras referências, nos levam a concluir ser terra habitada pelo homem desde a Pré-história. O que até nem admira, dada a proximidade do rio Tua, bom local para pesca abundante, água suficiente e terrenos bons para produzir o sustento dos que por ali foram ficando. Foi Vila e Concelho medieval, tendo Foral em 9 de Setembro de 1225 por D. Sancho II, em 1250 por D. Afonso III, e em 2 de Agosto de 1514 por D. Manuel 1. Nessa altura, o concelho de Abreiro era formado pelas seguintes povoações:
Abreiro, Navalho, Sobreira, Milhais e Longro. Tinha dois juizes ordinários, vereadores com seus oficiais e capitão-mor com companhia de ordenanças.
É interessante reparar nos dados socioeconómicos relativos a 1796: tinha 308 homens, 340 mulheres, 8 eclesiásticos seculares, 1 pessoa literária, 12 sem ocupação, 1 negociante, 1 boticário (ainda lá está a botica), 108 lavradores, 73 jornaleiros, 8 alfaiates, 3 sapateiros, 6 pastores, 8 criados e igual número de criadas.
Pertenceu aos Marqueses de Vila Real que a perderam pela sua traição à Pátria em 1641. Passou a ser Comenda, e isenta da Ordem da Malta. O concelho era da Coroa e à Casa do Infantado, foi extinto com a reforma liberalista, passando a pertencer ao de Lamas de Orelhão até 31 12 1853, data em que passou para o de Mirandela.
Eclesiásticamente, a Paróquia de Santo Estêvão de Abreiro é uma das poucas paróquias do vasto território ou Terra de Panóias ainda no século XIII. As Inquirições de 1220 já a citam como paróquia com Igreja e foral de D. Sancho I, incluindo Sobreira e Navalho: "Sanctnm Stephano de Avreiro". A ponte de cantaria sobre o rio Tua que faz a ligação Abreiro/Vieiro e Freixiel do concelho de Vila Flor foi construída em 1760. Em 2 de Maio de 1878 saía o decreto que ali criava uma escola primária, embora já dada como existente em 1852.
A 16 de Março de 1863 foi autorizado Pedro Monteiro Lopes a montar uma máquina de destilação de vinho para aguardente. No que toca à população, rondava os 161 fogos na segunda metade do século XIX, para em 1950 atingir as 835 pessoas em 192 fogos. De 1981 para 2001 desceu 101 habitantes tendo agora apenas 304 dos quais 153 são homens. Por volta dos anos 60 tinha um negociante de azeite, 10 produtores abastados de azeite, 1 médico, 2 mercearias e 1 professora.
Terra essencialmente agrícola, de difícil mecanização, tem produções abundantes de azeite, trigo, vinho, e possui gado ovino, caprino e muar. Indústrias quase nenhumas, onde 1 padaria consegue ter alguma dimensão local. Os lugares habituais de encontro das suas gentes são: a Avenida Trigo de Negreiros, Rua Direita e Largo do Pelourinho. Ali, por vezes, jogam à sueca e ao fito. O seu património histórico está patente ao longo da aldeia, mostrando claramente a importância de outros tempos. Como o Pelourinho, símbolo da justiça e autonomia do antigo concelho, ainda bem conservado; a Casa da Botica de 1859 com as medidas do Covo que serviam de padrão para medir tecidos , esculpidas na parede de granito; a Casa do Povo com sala de ensaio da Banda (actualmente extinta), palco e biblioteca; a Igreja Matriz com altares laterais metidos nas paredes e já modernos, reconstruída em 1953, e duas lápides no altar mor, uma da Viscondessa de Barcel e outra da Família Mendonça Machado; a Casa do Cruzeiro, com Brasão; o próprio Cruzeiro, qual rico monumento arquitectónico que embeleza a povoação, mesmo à beira da estrada que de Vila Flor dá actualmente acesso ao IP4 no nó de Lamas de Orelhão. Mas também tem dois relógios de sol em granito, muitas outras casas em cantaria, o Cabeço da Forca, os restos de uma ponte sobre o Tua construída em 1734 e derrubada pela cheia de 1909, a Casa da Estalagem, o Ribeiro da Fonte, o Moinho do Ribeiro, a Fonte do Arco e o Lavadouro.
Terra de grandes figuras e pergaminhos, ali nasceram entre outros: o Dr. Trigo de Negreiros, o Dr. Álvaro Soares, Eng.º João Inácio Meneses Pimentel, Álvaro Mendonça Machado Araújo que foi grande literato, jornalista e Governador Civil de Bragança. Abreiro tem como anexa a povoação de Milhais que lhe fica a pouco mais de 1,5 km, na estrada que margina o Tua, e para ocidente.
Apesar de ser uma pequena povoação, não deixa de merecer alguma atenção, pela disposição das suas casas no planalto, e pelo gosto do ruralismo de suas gentes acolhedoras. Sofreu do abandono da interioridade, e foi se despovoando, mas com a canalização da água e sistema de esgotos a tendência tem sido uma reanimação com algumas construções a estancarem esse desaparecimento que parecia inevitável.
Cruzeiro de Abreiro
A pesca é uma actividade de tempos livres que ocupa até pessoas de outras regiões, deliciando-se com as diferentes espécies, nomeadamente as enguias. Acrescente se que em 1995 ainda podíamos encontrar em Abreiro, 1 barbeiro, 6 carpinteiros, 2 alfaiates, 7 padeiros, 4 pastores, 4 ferreiros, 2 serralheiros, 1 médico e muitos lavradores e trolhas. Com apenas 14 alunos na primária e 13 a frequentarem fora os anos seguintes ao 6.° . E já têm um Centro de Dia dando assistência a idosos nas suas casas Milhais/Avidagos, Palorca e Navalho. Na Casa do Povo ainda restam os instrumentos musicais para reactivar a Banda de Música.

In III volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte.

Nós, Transmontanos, Sefarditas e Marranos - MANUEL HENRIQUES LOPES (VILA FLOR, 1648 - D. 1727)

Homem de negócio, natural de Vila Flor, morador em Cascais e assistente em Lisboa e Coimbra, de presente na Figueira da Foz onde embarcava azeites – assim se apresentou Manuel Henriques Lopes – o que bem retrata a sua vida movimentada, típica dos homens da nação. Na verdade o ambiente de medo em que viviam obrigava-os a estar em trânsito constante.
Mas se este processo é exemplar a tal respeito, não menos interessante na caracterização do ambiente de permanente suspeita e constante espionagem que sobre os homens da nação era exercida pelos comissários e familiares do santo ofício.
Situemo-nos então na Figueira da Foz em cujo porto atracou um barco proveniente da Inglaterra. Coisa normalíssima, até porque a grande maioria dos barcos estrangeiros que frequentavam os portos nacionais eram ingleses. O barco vinha à responsabilidade de Gaspar Dias de Almeida,(1) um grande mercador de Lisboa e dele eram as mercadorias que trazia, nomeadamente “duzentos quintais de ferro e vinte barras de aço” importadas para um mercador do Norte e “seis milheiros de aduelas”. O barco deveria depois ser carregado de azeite e regressar a Inglaterra.
O homem contratado por Gaspar Dias de Almeida para dirigir as operações de descarga do barco, venda de algumas mercadorias importadas e compra dos azeites para exportação foi Manuel Henriques Lopes que, para o ajudar, conseguiu os serviços de um Manuel João, contratador, morador na Rua dos Sapateiros, na Figueira da Foz. Este trabalhava em comissão, recebendo cinco tostões por cada pipa de azeite embarcada. Também o Manuel Henriques trabalharia em comissão? Ele disse que não, que Gaspar Dias de Almeida “pediu a ele declarante para fazer tal diligência e que ele aceitou sem estipêndio algum pela dita comissão, deixando no arbítrio do mesmo a satisfação do seu trabalho”.
Tudo correria em ordem e a carga foi desalfandegada, tudo se registando nos respetivos livros. O ferro e o aço foram metidos em um armazém alugado, defronte da casa do contratador Manuel João. Dos 6 milheiros de aduelas Manuel Henriques mandou fazer “pipas e quartos e as mais vendeu aos estrangeiros”.
A operação estava correndo e no barco estavam já “quarenta e tantas pipas e trinta e tantos quartos de azeite” quando as justiças levaram Manuel Henriques Lopes para Coimbra e o meteram na “cadeia da portagem”.
Porquê? – Disseram que estava carregando trigo para fora do reino, sem a devida autorização. Na verdade a “cadeia da portagem” era a cadeia civil, já que em Coimbra havia outras para presos específicos, como eram: a da inquisição, a dos estudantes e a dos clérigos. 
Voltemos ao início, à ida de Manuel Henriques para a Figueira da Foz e à chegada do barco de Inglaterra. Como estabelecido, à chegada e à partida, todos os barcos eram vistoriados e ninguém podia viajar sem o visto da inquisição. No caso concreto o “olheiro da inquisição” era o familiar Manuel da Mesquita Loureiro que logo escreveu para Coimbra, dizendo:
— Ilustríssimos Senhores. Lembro-me que antes de ser preso nestes cárceres Gaspar Mendes Furtado, dei conta a Vs. Ss. de que esta pessoa se achava neste lugar carregando dois navios de azeite para Holanda, e entendendo poderia haver causa para algum procedimento. Neste lugar assiste há dias um Manuel Henriques Lopes, da mesma nação, que há algum tempo mora na cidade do Porto e de presente assiste em Lisboa, fazendo as normais carregações de azeite, também para Holanda. Pareceu-me dar a Vs. Ss. esta conta, de que serve esta. Figueira da Foz do Mondego, aos 5 de maio de 1714…
Recebida a carta, ordenaram os inquisidores de Coimbra que informasse “com todo o segredo e cautela de quem este seja filho, de onde é natural e morador, se é casado, com quem, se tem alguns irmãos ou parentes, como se chamam”…
Não vamos acompanhar a “missão de espionagem” do familiar do santo ofício. Diremos tão só que a prisão de Henriques Lopes na “cadeia da portagem” se destinaria a dar tempo ao promotor do tribunal da inquisição para recolher testemunhos ou indícios de judaísmo contra ele. Efetivamente, no dia 24 do dito mês de maio, transitou o prisioneiro para a cadeia da inquisição, a mesma onde, meio século antes, sofreram o seu pai Vasco, a sua mãe Mécia e o seu irmão António.(2)
Tinha 66 anos quando foi preso e era viúvo de Mariana de Alvim,(3) filha de Francisco Ferreira Isidro, capitão de milícias de Freixo de Numão e sua mulher Francisca Vaz, da Torre de Moncorvo.
O seu processo nada tem de especial, dado que logo na primeira sessão ele declarou que “não quer defesa e só quer confessar as culpas”. Por dois anos permaneceu na cadeia, saindo reconciliado com cárcere e hábito perpétuo no auto da fé de 4.6.1716.
O mais interessante do seu processo é uma carta que António Nunes Cardoso(4) seu sobrinho, natural de Freixo de Espada à Cinta, estanqueiro do tabaco em Portalegre, lhe escreveu quando foi preso. Gostaríamos de transcrevê-la, porém o espaço disponível não o permite. Vejam apenas um curto excerto:
— Quando de vossa mercê esperava a notícia de se haver recolhido a sua casa saboreando-se com o gosto de ver a seus irmãos e primos meus juntamente, dando satisfação ao senhorio do pataxo (barco) para que viesse no reconhecimento da exacta diligência e desvelo que tem tido na compra dos azeites com que o carregou, vejo e me fiz sabedor de que está na cadeia da portagem por lhe imputarem fazer a tal carga com trigo (…) E nesta consideração, sendo o Dr. Corregedor tão grande ministro, como considero, breve estará v. mercê fora da prisão (…) Esta remeto ao Dr. José Correia de Carvalho, amigo de meu irmão e meu, que é bom homem, e o há-de ir logo procurar (…) Deus nos livre dos inimigos e guarde a v. mercê. 4 de Junho de 1714.
Acerca deste e outros sobrinhos de Manuel Henriques, diremos que, também eles, uma década depois, foram parar às masmorras do santo ofício. Como, aliás, aconteceu com 6 filhos seus, que todos foram presos em 1725.
Terminamos com uma breve informação sobre os irmãos de Manuel Henriques Lopes:
Lopo Rodrigues, foi morador em Faro, casado com Brites Francisca e dali se foram para os Barbados.
António Lopes Henriques, faleceu solteiro em Vila Flor, tendo sido preso pela inquisição de Coimbra em 1665.
Gaspar Fernandes, casou com Isabel Rodrigues e o casal morou no Porto. Em maio de 1697, na visitação que ali fez D. Tomás de Almeida, deputado do santo ofício apareceu uma Leonor de Paiva a denunciar Gaspar Fernandes, o seu cunhado Marrcos Ferro e outros cristãos-novos que em sua casa “faziam sinagoga”. Tempos depois a denunciante foi morta com um tiro, sendo voz pública que a matou Gaspar Fernandes. Não sabemos se foi por causa do crime ou por medo da inquisição que o casal fugiu depois para a Holanda.
Maria Henriques vivia no Porto, casada com o advogado Francisco Marcos Ferro, de Torre de Moncorvo. Este foi preso pela inquisição na sequência da visitação atrás referida. Aquela, deixou o Porto e dirigiu-se para Faro e dali para Lisboa, abalando-se, em Abril de 1699, para a Itália, no barco “N.ª Sr.ª la Coronada” juntamente com 47 outros cristãos-novos Trasmontanos, quase todos ligados por laços familiares, entre eles os pais de Jacob Rodrigues Pereira, o inventor do alfabeto para surdos-mudos. Todos foram presos em Cádiz, pela inquisição espanhola.(5)
Branca Gomes foi casada e moradora em Vilar de Maçada, Alijó, onde faleceu.
Isabel Henriques casou com Diogo Vaz Faro e o casal viveu no Porto, não deixando descendência. Também ela foi presa pelo santo ofício, em 1725, sendo já viúva. Terá falecido na cidade de Faro, nesse mesmo ano, de acordo com a informação de Francisco Gabriel Ferreira, seu parente.(6)

Notas:
1 - Gaspar Dias de Almeida era natural de Gogim, Lamego. Viveu em Faro e depois em Lisboa, administrando a Quinta do Lumiar e negociando com o Brasil e a Inglaterra. Em 1723, pressentindo que a inquisição o queria prender, fugiu no seu barco para Londres onde viveu como judeu assumido e faleceu em 1741. Vários de seus filhos foram para a ilha de Barbados. - ANDRADE e GUIMARÃES, Na Rota dos Judeus Celorico da Beira, p. 70 e seguintes, ed. Câmara Municipal de Celorico da Beira, 2015.
2 - ANTT, inq. Coimbra, pº 8521, de Manuel Henriques Lopes; pº 9984, de Vasco Fernandes Lopes; pº 2439, de Mécia Fernandes; pº 3802, de António Lopes Henriques. Este faleceu solteiro em Vila Flor. 
3 - Mariana de Alvim faleceu no Porto, na rua da Ferraria de Baixo, em 19.5.1704, sendo sepultada em S. João Novo, conforme certidão inserta no processo de sua nora (n.º 10157-L), Francisca Rosa, casada com Vasco Fernandes Lopes.  
4 - IDEM, inq. Évora, pº 9125, de António Nunes Cardoso.
5 - ANDRADE e GUIMARÃES – Jacob (Francisco) Rodrigues Pereira Cidadão do Mundo, Sefardita e Trasmontano, ed. Lema d´Origem, Porto, 2014.
6 - IDEM, inq. Coimbra, pº 10572, de Isabel Henriques; pº 9669, de Francisco Gabriel Ferreira.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães
in:jornalnordeste.com