quinta-feira, 29 de março de 2018

Arranca hoje a Festa da Bola Doce em Miranda do Douro

A realização da Feira da «Festa da Bola Doce» tem início hoje e termina no sábado, no largo do Castelo, em Miranda do Douro. Está garantido o convívio e animação musical no Largo do Castelo de Miranda do Douro.
Miranda do Douro preparou três dias de certame para promover um dos ex-libris gastronómicos do concelho: a Bola Doce.
A Festa da Bola Doce e dos produtos da terra começa já hoje, quinta-feira, e para além da doçaria da Páscoa os 40 expositores levam à feira outros produtos agro alimentares, o que atrai não só locais como turistas portugueses e espanhóis, segundo destaca Anabela Torrão Vereadora do Município de Miranda do Douro.

“É uma forma de promover e valorizar os nossos produtos endógenos e neste caso, os produtos agro-alimentares, muito relacionados com a Páscoa, como é o caso da Bola Doce, os dormidos, os folares e o fumeiro. Vai estar uma variedade e uma mostra de produtos tradicionais de excelente qualidade para visitantes e residentes”, disse Anabela Torrão, Vereadora do Município de Miranda do Douro.

O certame que vai na 5.ª edição tem levado a que o produto único seja cada vez mais procurado e não só nesta altura do ano.

“A promoção da Bola Doce é tal que este produto já não é só concebido no período da Páscoa, mas ao longo de todo o ano. O que constatamos é que os produtores, através das suas cozinhas regionais, cozinham este produto durante toda a noite e acaba por esgotar de imediato. Ao fim do dia já não há Bola Doce. A procura é muita. É um produto muito trabalhoso, rico em palato, de excelente qualidade e com uma procura imensa”, sustenta a Vereadora do Município de Miranda do Douro.

No certame, que decorre até sábado, no largo do Castelo de Miranda do Douro, está em destaque a doçaria da Páscoa, em especial a bola doce, uma espécie de bolo recheado com canela e açúcar típico do concelho mirandês.
A feira conta com concursos desta iguaria e de folar e animação musical com grupos de música tradicional. 

Escrito por Brigantia

Ministério da Saúde admite reforço de meios para reduzir listas de espera na ULS Nordeste

O Ministério da Saúde admite o reforço de meios na Unidade Local de Saúde do Nordeste para reduzir as listas de espera em algumas das especialidades médicas.
A questão foi levantada no início de fevereiro pelos deputados do PSD, José Silvano e Adão Silva, que agora receberam resposta do Governo às questões colocadas na Assembleia da República.

AGR
in:mdb.pt

Freixo de Espada à Cinta revive tradição quaresmal dos "Sete Passos"

Em tempo de Quaresma, a vila de Freixo de Espada à Cinta, no distrito de Bragança, mantém viva a tradição da procissão dos "Sete Passos", um ritual tido como "único" em todo o país.
Também conhecido como "Encomendação da Almas", o ritual repete-se todas as sextas-feiras do período quaresmal, mas a última noite, na Sexta-feira Santa, é a mais esperada.

Junto à antiga capela de Misericórdia, um grupo de homens que habitualmente integra a função sublinha à agência Lusa que este ritual mantém fidelidade à origem "medieval", mudando apenas alguns pormenores.

Um dos figurantes e membro do atual grupo que realiza a procissão dos "Sete Passos" é José Martins, de 71 anos, que encara a sua participação como uma promessa de "fé e sacrifício".

"Vivemos isto com muita intensidade", observa.

Acrescenta que o grupo envolvido na "Encomendação da Almas" "até está maior, mas nas ruas, durante o ritual, há menos público. "Vai tudo embora para fora. Já não é como antigamente", desabafa.

Já Manuel Carrapatoso, de 75 anos de idade, conta que "herdou" o seu lugar na procissão do seu pai.

"O meu pai já fazia parte do grupo secreto que organizava a procissão e eu aprendi os cânticos. Aprendi também a olhar para quem está ao lado e saber o que fazer, no momento certo", observa.

António Morgado, com 34 anos, é um dos elementos mais novos do grupo e dedica-se ao estudo desta forma de "encomendar as almas". À Lusa, explica que o percurso maior - o que acontece na noite de sexta-feira santa - tem início junto à porta principal da Igreja Matriz e demora cerca duas horas e meia a fazer.

"Quando o relógio da torre heptagonal assinala o primeiro batimento da meia-noite, a iluminação pública da vila é apagada, ficando todo o percurso escuro como o breu. Dá-se então início à procissão que vai percorrer as principais ruas da localidade", indica.

O ritual envolve também um grupo coral que entoa "um cântico dolente e penetrante", em português e latim, apenas junto a igrejas e encruzilhadas.

Segundo os promotores desta iniciativa, a figura principal de toda a procissão é a "Velhinha", uma personagem vestida de negro, que percorre todo o trajeto curvada, com "cajado" numa mão e com uma lanterna alimentada a azeite na outra.

Elemento de destaque neste ritual é igualmente uma bota com vinho, "que significa o sangue de Cristo derramado".

Também marcam o ritual os sons das "emblemáticas" peças de ferro, presas à perna de duas pessoas e que são arrastadas pela calçada.

"Tornam a via-sacra ainda mais penitente", vincam os envolvidos no ritual.

"Há períodos na procissão em que as pessoas se aproximam da velhinha com humildade, em sinal de penitência. E ela dá de beber a quem demonstra mais respeito e arrependimento", explicam.

A identidade de quem encarna tal personagem é sempre motivo de curiosidade, já que não é fácil saber de quem se trata.

Segundo António Morgado, uma das marcas distintivas do ritual de Sexta-feira Santa face aos demais é que, "por uma única vez, se junta à 'Encomendação da Almas' um grupo de mulheres conhecidas como Três-Marias".

Quanto à designação "Sete Passos", "é entendida como o compasso, visto que toda a procissão é efetuada ao ritmo de um compasso de sete passos, bem medidos e compassados", observam os participantes, que no seu total não ultrapassam as duas dezenas.

Agência Lusa

Este ano, não se realiza a Feira da Saúde do Nordeste Transmontano

Após 5 anos em Macedo de Cavaleiros, este ano não haverá Feira da Saúde do Nordeste Transmontano.
Um certame da organização da Associação dos Diabéticos do Distrito de Bragança, que ao longo dos anos tem contado com apoio logístico e financeiro do município, o que este ano por não haver meios financeiros não se vai realizar, como refere Margarida Pires, Presidente da associação organizadora.

“Não é totalmente surpresa perante as notícias de que me tinha vindo a aperceber bem como dos manifestos que este executivo vinha revelando. Já receava que isto pudesse acontecer. A primeira edição foi feita só com apoio logístico, a segunda igualmente e apenas nas últimas três edições é que tivemos apoio financeiro e no ano passado, atendendo à dimensão que a feira tomou, reuni com o Município anterior e disse que se não aumentassem ao financiamento seria impossível a sua concretização e tivemos esse aumento. A ajuda do Município no ano passado foi de cinco mil euros e este ano havia a intenção de que não se faria a feira com um valor menor que esse, no entanto, nunca me deram a oportunidade de dizer quanto é que a Associação pedia para comparticiparem.” 

Margarida Pires diz lamentar a falta de comunicação com o executivo municipal para debate de uma possível solução para a organização do certame, e não descarta até a possibilidade de realizá-lo em outro concelho.

“A minha insatisfação de não ouvirem as associações. Sabemos que não há apoios e compreendo quando justificam que não há dinheiro. No entanto, é importante que o Município perceba que a economia do terceiro setor se faz com as associações. Quando falo nisso refiro-me a trabalharmos em comunidade e quando isso acontece as associações são o ponto principal. Se não tivermos apoio do Município no próximo ano teremos muito mais tempo para nos agilizar-mos porque haverá mecenas que irão ajudar a suportar estes custos, se assim o entenderem. Nós, enquanto organização teremos que repensar apresentar este tipo de oferta em outros Municípios uma vez que a Associação, é Distrital.” 

Do lado do Município, o presidente Benjamim Rodrigues diz que a não realização da feira não é culpa do município, mas admite que o apoio dado em anos anteriores não pode ser atribuído este ano.

“A Feira da Saúde não se realizar não depende da Câmara mas sim de quem a organiza. Parece que esta Feira só é realizada com a organização da Câmara, e não é verdade. O Município dá um subsídio à organização que este ano, por razões que são sobejamente conhecidas, estamos a diminuir ao máximo devido à questão financeira, que é delicada. Neste momento, o Município não tem qualquer responsabilidade porque estamos a cortar nos subsídios a todas as entidades, e não fazia sentido estarmos a privilegiar umas em detrimento de outras.”   

O autarca que refere ainda que após a organização da Feira ter decidido que não se iria realizar, foi feita uma proposta para a concretização da mesma depois do mês de agosto, altura da revisão orçamental.

“Quando houver uma revisão orçamental será ponderada a atribuição de subsídios como eram atribuídos anteriormente. Foi isso que foi comunicado à Presidente da Associação dos Diabéticos. Tive o cuidado de informar isso e, inclusive, que achava estranho terem tomado uma decisão unilateral sem conversarem connosco primeiro. Pedi que viessem conversar comigo e referir que podemos agilizar a Feira com a nossa colaboração, sendo feita em outra data após a revisão orçamental. Neste momento não temos cabimento orçamental para atribuir um subsídio como foi pedido. É importante para o Município que se realize a Feira e foi isso que, por e-mail, tive o cuidado de fazer sentir.”

A Presidente da Associação dos Diabéticos de Bragança, Margarida Pires, disse à Onda Livre que a data sugerida pelo município é impensável, uma vez que, a sua realização se prende com a comemoração do dia Mundial da Saúde, bem como a comemoração do dia mundial da atividade física, que acontecem no mês de abril.

Ficou ainda expressa por ambas as entidades uma conversa futura para que no próximo ano a Feira da Saúde do Nordeste Transmontano traga uma nova edição a Macedo de Cavaleiros.

Escrito por ONDA LIVRE

Bragança e Vila Real recebem festival recheado de exposições, ateliers e teatro

O Festival de Teatro Vinte e Sete está de regresso a Trás-os-Montes.
Workshops, conversas com o público, uma exposição e várias peças de teatro são os ingredientes de mais de um mês de atividades com a assinatura dos Teatros Municipais de Bragança e Vila Real.

Câmara Municipal de Torre de Moncorvo promoveu reflorestação da Serra do Reboredo

No passado dia 24 de março, sábado, cerca de 50 voluntários participaram numa ação de reflorestação da Serra do Reboredo, promovida pelo Município de Torre de Moncorvo.
A iniciativa contou com a participação do SEPNA, Bombeiros Voluntários de Torre de Moncorvo, Agrupamento de Escuteiros de Torre de Moncorvo e população em geral.

No total foram plantadas cerca de 1600 árvores, sendo que no Perímetro Florestal da Serra do Reboredo foram colocadas as espécies: Sobreiro (Quercus suber), Cedrus atlântica e Medronheiro (Arbutus unedo).

Terminou-se ainda a plantação de uma parcela no alto de Felgueiras com Medronheiro (Arbutus unedo), Carvalho (Quercus robur) e Cedrus atlântica.

O Município de Torre de Moncorvo leva a cabo mais uma ação de reflorestação da Mata Nacional da Serra do Reboredo, afetada pelo incêndio de Julho de 2017.

Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, 10 anos a irradiar cultura

Uma década a superar expectativas, uma década a oferecer uma alternativa cultural ao Nordeste Transmontano e ao país a partir do centro histórico de Bragança. Inaugurado em junho de 2008, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais aproxima-se do seu décimo aniversário com a mesma vitalidade com que abriu portas, assumindo-se como um exemplo a seguir e uma prova de que a arte não tem, nem deve, ser um bem exclusivo do litoral. É desse percurso, dos desafios e das conquistas, que falámos com Jorge da Costa, diretor e principal curador do centro.
Ao leme desta instituição desde o início, a história de Jorge da Costa é simbiótica com a do próprio Centro. Brigantino de gema, o ex-professor percorreu o país a lecionar no ensino secundário, mas, insatisfeito com o seu percurso, decidiu tirar um mestrado em Arte Contemporânea. Sendo um apreciador de longa data da obra de Graça Morais, foi ao trabalho da pintora que dedicou a sua dissertação, na mesma altura em que este espaço se preparava para abrir portas. Não sendo «uma pessoa do meio», tradicionalmente restrito e elitista, foi numa «coincidência muito feliz» que foi convidado para dirigir um Centro batizado com o nome da artista a quem dedicou os seus estudos e com quem pôde vir a trabalhar diretamente.

A origem do Centro esteve no Transmuseus, um acordo celebrado com Espanha «cujo objetivo era criar dois pólos fronteiriços de arte contemporânea, um em Bragança, outro em Zamora». Visando associar arquitetos e artistas de referência, na cidade transmontana as escolhas recaíram em Eduardo Souto Moura e Graça Morais, ao passo que no estado vizinho a ideia era ter Rafael Moneo a desenhar um museu dedicado a Baltasar Lobo no castelo situado na capital leonesa. O projeto de cooperação, pensado no intuito de «fazer circular as exposições e coleções entre os dois museus – –  e ao mesmo tempo trazer artistas espanhóis a Portugal e levar artistas portugueses a Espanha», nunca foi avante. Explica Jorge que «a obra do museu em Zamora se atrasou bastante e depois, pela descoberta de um conjunto de achados arqueológicos, o museu mudou de paradigma e a criação dessa tal zona de fronteira nunca aconteceu».

Mesmo sem o apoio de nuestros hermanos, este antigo solar setecentista, recuperado e convertido em museu cosmopolita, abriu mesmo portas, funcionando numa fase inicial com o apoio da Fundação Serralves – a sua exposição inaugural foi de Gerardo Burmester, As Cores não Dizem Nada, comissariada pelo (à época) diretor de Serralves, João Fernandes. Desde então, comenta Jorge, «começou a ter a sua autonomia e a fazer a sua programação. Hoje olhamos para trás, 10 anos passados, e verificamos que já cá passaram inúmeros artistas, portugueses e estrangeiros, de coleções públicas e privadas, assim como grande parte da obra da pintora Graça Morais».

Dotado de dois espaços expositivos, o principal é exclusivamente dedicado à obra da artista transmontana, que numa fase inicial «foi tida como uma exposição permanente, mas que nunca o foi porque de facto a Graça Morais tem uma obra vastíssima, são mais de 40 anos de carreira e isso tem-nos permitido também ir apresentando diferentes séries de diferentes etapas de todo o seu trabalho». O outro, em paralelo, contém exposições temporárias, frequentemente em regime de coprodução  com instituições como a já mencionada Fundação de Serralves, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Culturgest, a Coleção PT e a Coleção Millenium BCP, assim como parceiros transfronteiriços como o Musac (Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León). Por estas paredes passaram trabalhos de artistas nacionais como Paula Rego, Júlio Pomar, Julião Sarmento, João Louro, Pedro Calapez e também de nomes internacionais como Bernardí Roig, Sebastião Salgado e Luís Gordillo. Mais recentemente, foi organizada uma antologia dos trabalhos de Ana Vieira, agora substituída por uma mostra do artista plástico Filipe Marques.

O grande foco do Centro está nas exposições que produz, mas a sua programação não se resume a essas iniciativas: Coproduções para espetáculos de teatro e dança – sendo exemplos o Teatro do Bolhão, o Teatro da Garagem e o Teatro Municipal de Bragança -, concertos ao vivo, ciclos de cinema e conversas com artistas são algumas das atividades que o Centro procura organizar, sendo o exemplo paradigmático desse desdobramento o Plast&Cine, uma bienal que enche a cidade de cultura. Ainda que digladiando-se com escassez de recursos endémica no panorama cultural do país, nem por isso o Centro tem recusado convites. Disso são exemplos as várias exposições organizadas fora de portas, de Guimarães a Almada, e mais recentemente na Bienal de Vila Nova de Gaia, tendo como mote a obra de Graça Morais. Mas nem todos os desafios ocorrem fora de Bragança: no ano passado, o Centro acolheu uma residência artística da israelita Dvora Morag, cujo trabalho foi produzido in situ durante um mês, naquela que Jorge considerou ser «uma experiência muito interessante para nós, que assim vamos explorando outras potencialidades do museu».

É fruto de todo este trabalho árduo – baseado num ethos que renuncia o despesismo e privilegia as colaborações – que o Centro pode agora fazer uma espécie de volta olímpica no seu décimo aniversário. Celebrando cada uma das exposições que fizeram deste espaço a sua casa temporária durante a última década, Jorge e restante equipa vão montar uma retrospetiva baseada «no acervo que fomos criando ao longo destes 10 anos, grande parte a partir da generosidade dos artistas, que foram doando obra porque se sentiram bem tratados e felizes com o trabalho que aqui apresentaram». Parte dessa gratidão resulta no esforço acrescido de editar um catálogo para cada mostra e desta vez não vai ser diferente: vão ser lançados «dois catálogos retrospetivos de todas essas exposições que aqui passaram e um outro com todas as exposições de Graça Morais».

Contudo, o sucesso não rege apenas pelo bom trabalho de programação – de que serviria se não estivesse lá ninguém para ver? É por isso que o envolvimento com a comunidade brigantina foi uma prioridade desde o primeiro dia. Inaugurado sob grandes expectativas, a reação do público a este equipamento de arte contemporânea «foi a melhor», mas a manutenção do seu interesse, explica o diretor, esteve no serviço educativo do museu pelas «inúmeras atividades que criou para as diferentes franjas de público, particularmente para a comunidade educativa, desde o ensino superior ao pré-escolar». O resultado mede-se até aos dias de hoje, já que este plano conseguiu com que se «criasse hábitos, por exemplo, nas crianças, de vir aos museus e de frequentá-los com uma grande alegria e tranquilidade, sentindo-se praticamente em casa», tanto mais que os tradicionais papéis se viraram e agora são os filhos que, ao terem participado nas oficinas e visitas, «gostaram tanto das atividades que passaram a desafiar os pais a vir ao museu, pela experiência que tinham tido». No entanto, o Centro não se deixa descansar nos louros destas conquistas e continua «na linha da frente»: a iniciativa mais recente é o “Do Museu ao Lar”, onde o Centro e outros equipamentos culturais da cidade têm assumido o compromisso de visitar lares de idosos do concelho e, dessa forma, «tentar atingir o público sénior, que não é muito visado pelos museus».

Olhando para trás, Jorge da Costa não tem senão orgulho pelo «muito que se fez e pela sua qualidade» ao longo destes anos. Se no início havia um «olhar desconfiado para um museu de arte contemporânea no interior», neste momento essa postura está «completamente atenuada» perante o trabalho do Centro, tanto que «hoje sentimo-nos mais um museu de arte contemporânea do país» e não tanto num âmbito regional. Apesar da média de 15 a 20 mil visitantes por ano parecer magra ao pé dos valores reportados pelos seus congéneres em Lisboa e no Porto, o diretor considera que estes são «excelentes números em termos de proporção», não nos podendo esquecer de que estamos a falar de uma cidade média do interior, já que o Centro, se estivesse localizado numa dessas duas cidades, certamente registaria «números muitíssimo superiores».

Perante a natureza concentracionária do país junto ao litoral, o diretor relembra que são espaços como este ajudam a combater essa tendência a e o Centro, que recebe grupos de todo o país e de Espanha – tanto pelas exposições como pela própria arquitetura -, normalmente surpreende os estreantes, «porque não estavam à espera de encontrar um edifício com aquela qualidade e uma programação assim». Esse é o objetivo de Jorge da Costa, de continuar a manter o nível e continuar a fazer do Centro um núcleo de vitalidade a pulsar a partir de Bragança. De resto, votos ficam feitos para que nos encontremos daqui a outros dez anos.


António Moura dos Santos
EPICUR

Festa em honra da Nossa Senhora do Campo em Lamas

quarta-feira, 28 de março de 2018

Torre de Moncorvo realizou Via Sacra e reuniu mais de uma centena de pessoas numa noite dedicada às comemorações da Semana Santa

MEU PRIMO SANFONÊRO

Por: Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS
São Paulo (Brasil)
(colaborador do Memórias...e outras coisas)
Asturdia mêmo ieu táva me alembrano!. Quando d'eu era molecote i vivia lá na fazenda, ieu acostumava dançá. I gostava muito de dá meus passo nas varsa, nas mazurka; nos dois pra lá dois pra cá, nos arrasta pé e nas cana verde. Aprendi muito cedo a dançá, tarveis nem tivesse saído dos cuero ainda e já tava aprendeno dançá. Eu num tinha mais de sete ano de idade, i nos baile lá da roça dançava co'as afiada da minha mãe; i se elas num tirava eu, eu tirava elas, ara! Eu alembrei disso tudim, que tô falano, mais alembrei tamém que o meu pai tinha um primo sanfonêro, que inda vive inté hoje na cidade de Serra Azul. Ele era um bom sanfonêro, bem apessoado e que se apresentava enfatiotado; das veiz inté de gravata! Ele vinha tocá nas colonha das fazenda. Diz'que ele era muiérengo. Das veiz, meu pai aconseiava o primo: Zé, carqué dia um marido ciumento vai matá ocê! -Quar o quê Quinzinho!, dizia o primo sanfonêro; eu sô artista e bonitão mêmo - que posso fazê?. - Uai, sô, se ocê pensa ansim, que que'u havera de dizê?, arrematava meu pai. Nessas ocasião meu pai só balançava a cabeça e ria do jeito debochado do primo. 
Mais, certa veiz num baile da aleluia na fazenda; i ieu posso dizê porquê tava lá; acunteceu da Nica, uma morena linda de duê o zóio e muié do Pedro Pelanca, cumeçô a suspirá pelo primo sanfonêro. Ele, que era muito ladino, muito digêro se apercebeu e começô a suspirá tamém! Nesse meio de tempo o Pedro Pelanca quis i imbora durmí, mor de que nôtro dia, dumingo de páscoa, ia tê um jogo de bola na fazenda valeno taça, i ele era um dos mió de bão do time. I consciente dessa importança, queria í descansá. A Nica pediu pra ficá mais um cadim; e ele dexô nas mió das boa intenção. Pra quê! Nem bem o Pedro saiu da barraca do baile, a Nica se achegô no sanfonêro i disse pra ele que ela só tinha uma meia hora, antes de í imbora. I ieu sô testemunha desse interlóquio purquê eu tava dançano co'a Vita bem nessa hora, ali, do lado do primo! O primo sanfonêro se aproveitô da hora do leilão da leitoa assada, i passô a sanfona pro Bigato, um baita dum intaliano que trabaiava na fazenda i era mitido a tocadô de sanfona. O primo saiu da barraca seguido da Nica. 
O Bigato se apercebeu d'arguma coisa errada e chamô o primo de vórta, passano a sanfona pra mão dele. Mais, no fôgo que os dois tava, o primo num quiria istôrvo i se embrenhô co'a Nica nas quiçaça, segurano a mão dela. A sanfona, que tava presa nas corrêia; ele jogô pra´s costa.

Lá na barraca, já tinham acabado de fazê o leilão da leitoa assada, e antes de leiloá um marrão capado e mais um frango assado com farofa, o festêro da fazenda pricurô o primo sanfonêro pra tocá mais um arrasta pé, quando exatamente chegô o Pedro Pelanca de vórta pra buscá a muié. O Bigato, cuja franqueza tudo nóis cunhecia, foi logo dizeno ao Pedro que a Nica tinha se embrenhado na gróta das quiçaça com o sanfonêro. O Pedro correu até a casa dele e pegou uma garrucha de dois cano, uma pica-pau carregada de chumbo número um até a boca e um foião de cortá cana. I ainda conseguiu trazê um cabo de enxada: um guatambu de dois metro de comprimento. A colonha se encheu de gente alarmada cum o escarcéu que o Pedro Pelanca tava armano! E ele gritava: esse sanfonêro me paga; e a Nica tamém! Nóis sabia que ia tê entrevéro, forrobodó, quizumba. O Pedro puxô o patuá de baiano pra fora da camisa i, vermeio de brabo e nervoso, entrô no mato cum aquela rór lhe seguino us passo, nus carcanhá dos dois sem vergonha, cum baruião dos inferno. 
O baruio inda acordô tudo quanto era cachorro da fazenda, custumado que tavam de caçá tatu de noite; achavam que era caçada de tatu! Ieu tava desesperado, pois meu pai num tava na festa, e a caça era o primo dele! Ieu num tinha como í avisá meu pai pra ele sarvá o muierengo do primo sanfonêro. Era noite escura como breu. O Pedro Pelanca chamava pela Nica, já babano de raiva, que nem cachorro no mês de agosto; garrucha e foião passado na correia das carça, e co'a pica-pau na mão, pronta pra atirá. Ieu me apercebi que cada veiz que o Pedro chamava a Nica, se iscuitava a sanfona no meio do mato: tcham tcham! Num piscá de zóio, tudo mundo se apercebeu do fato da sanfona tocá a cada veiz que o Pedro chamava a muié. I anssim passaro o resto da noite e da madrugada; se iscuitano o toque da sanfona em tudo que é canto; mais ninguém pegô os dois. Os dois desaparecero sem dexá rasto! Mais o povo inguinorante da fazenda, com o sumiço da Nica cumeçaro a dizê que o Pedro Pelanca tinha achado o casar, matado e enterrado no mato. Diz´ que inda hoje, cinquenta e tantos anos dispois do acuntecido, tem gente que jura que quando passa perto da gróta das quiçaça, iscuita u toque da sanfona do sanfonêro enterrado com a Nica, assassinado pelo Pedro Pelanca, o mió centerarfo de todo o interior de São Paulo. 
Êis inda pensa que a sanfona toca, porque ela tá amarrada nas costa da arma penada do primo sanfonêro.

Muitos ano dispois do entrevéro, quando ieu era rapazote, fui cum meu pai passiá em Serra Azul, onde o primo morava. Lá fiquemo sabeno, porque vimo cum nossos zóio, que êis tava junto: a Nica e o primo. E êis parecia bem feliz!


Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de quatro outros publicados em antologias junto a outros escritores.

Graça Morais, «o campo é o meu atelier»

De um lado Freixel, a aldeia, pacata e serena, do outro Lisboa, a metrópole, buliçosa e caótica – é num vaivém entre estes dois extremos que Graça Morais tem dividido o seu tempo e continuado a perpetuar a sua obra numa carreira que se estende às cinco décadas. Tendo agraciado a capa da edição de primavera 2018 da EPICUR, aproveitámos o generoso gesto para nos sentarmos a falar com a pintora transmontana sobre a sua relação com a região que a viu nascer e crescer, o foco humanista da sua pintura e como olha para as novas gerações de artistas em Portugal.
440: este é sensivelmente o número de quilómetros que separa Lisboa de Freixiel, ou seja, a distância que Graça Morais percorre cada vez que se dirige para a aldeia transmontana, terra da família paterna dos Morais. Apesar de gostar do ambiente cosmopolita da capital, da penumbra do anonimato (afinal de contas, ser uma figura pública é cansativo) e de alimentar a sua pintura com «várias formas de arte, quer seja música, cinema, livros, coisas que só encontro nas grandes cidades», o esforço logístico de subir a norte é sempre justificado. Em causa não só está a natureza do espaço, «porque o meu atelier prolonga-se por todo o lado; a aldeia, e sobretudo o campo, é o meu atelier, onde procuro o silêncio», como não é de somenos importância o aspeto relacional. Estes seus regressos a Trás-os-Montes são perfumados de afetos: a pintora diz voltar porque «gosto muito de estar com pessoas que me conhecem desde criança, esse encontro de pessoas que conhecem a minha história e eu a delas».

“O Segredo II”, 2008, Graça Morais ©Graça Morais
Esta «história», termo que prefere a «vida», de Graça Morais começa no Vieiro, aldeia próxima a Freixiel e a quase 90 quilómetros de Bragança. Terra isolada, rodeada de fragas, olivais e vinhedos, onde os poucos luxos eram obtidos com trabalho árduo, o modo de vida nesta localidade marcou a pintora, que lá viveu até aos sete anos: «era um lugar em que eu aprendi tudo, fiquei encharcada de sensações, de emoções, de boas recordações e quanto mais envelheço, mais valor dou a essa pequena aldeia». É por isso que, mesmo atravessando o mundo e bebendo das intermináveis torrentes de conhecimento que as grandes cidades oferecem, quando lhe perguntamos se vê as coisas sob um prisma moldado pela sua proveniência, a pintora não nega que, na sua obra, acaba por sobressair «uma herança cultural dum universo muito ligado à natureza e uma existência muito ligada ao mundo rural. Por isso, mesmo quando eu estou na cidade ou quando faço visitas a outros países e quero pintar sobre eles, a matriz é sempre a mesma, eu sou sempre a mesma pessoa».

Todavia, se esta influência é uma companhia constante, por outro lado a pintora denuncia uma certa tendência redutora com que se tende a olhar para sua obra. Se no início dos anos 80, Graça Morais regressou ao Vieiro para olhar e refletir sobre a paisagem e as gentes numa «relação quase antropológica com o lugar, uma ida ao fundo daquilo que eu queria conhecer», por outro lado lamenta que em trabalhos que pouco ou nada têm a ver com a realidade transmontana, «estejam sempre a ver nessas figuras as pessoas de uma região, mas que nem sempre são». Disso são exemplos os rostos dilacerantes em A Coragem e o Medo, exposição que agrupou quadros alusivos a pessoas desesperadas que Graça Morais recortou dos jornais e reproduziu a quente aquando das convulsões das Primaveras Árabes.

“20 de Janeiro de 2017”, 2017, Graça Morais ©Graça Morais
Quer sejam conterrâneos ou viajantes longínquos em busca de salvação, é de pessoas – doridas, generosas, sofredoras, gentis, miseráveis, solidárias, o ser humano no seu melhor e no seu pior – de que trata maioritariamente o trabalho de Graça Morais. Ao pendor humanista da sua obra, a pintora não atribui nenhuma causa direta, mas arrisca que poderá ter a ver novamente com o meio onde viveu e cresceu: «Convivi de perto com gente muito pobre e o meu avô materno tinha uma casa de lavoura grande onde dava trabalho a muita gente. Essas pessoas entravam e saíam de nossa casa com muito à vontade e eu andei sempre no meio delas, mulheres e homens, sem medos, porque me acarinhavam e eu tinha a curiosidade de me sentar ao lado delas a comer e a ouvir as suas histórias». Perante essa situação de carestia de quem a rodeava, Graça Morais habituou-se, não a seguir uma linha doutrinária de caridade, mas a sentir «mais do que empatia, um querer estar ao lado dessas pessoas», destacando que a sua pintura «não transmite apenas essa dimensão da compaixão ou da solidariedade com quem passa mal porque não tem dinheiro, mas atenta também às pessoas que são vítimas de violência e que têm problemas graves na sua vida, os excluídos da sociedade».

No que toca a grupos tradicionalmente vulneráveis, é inegável que um dos focos temáticos por excelência da pintora transmontana é a mulher, nas mais diversas vertentes: da serenidade solitária d’As Escolhidas (1995) à cumplicidade presente em Segredos (2008) – série cujo um dos quadros adorna a edição de primavera 2018 da EPICUR. Desde cedo, Graça Morais dedicou-se a retratar as figuras femininas porque «as observava com muita atenção, era-me mais fácil conhecer o mundo das mulheres do que o dos homens, desde criança que estava proibida de brincar com rapazes». Os costumes tradicionais, a segregação de género no ensino do Estado Novo, a infância nas casas da mãe e do avô materno, coladas uma à outra e unidas por uma grande porta, onde viviam avós, tios e tias – a mãe e as suas irmãs, «Imagine, seis mulheres numa casa! O que se falava, o que se dizia! As festas, as discussões, era tudo um mundo muito complicado mas também muito fascinante» -, todas estas experiências contribuíram para que a pintora focasse o seu olhar na condição feminina.

"As Escolhidas IV", 1995, Graça Morais
Cerne da existência, o primeiro grande modelo foi a sua mãe, que achava as representações pouco lisonjeiras por não aderirem aos cânones típicos do retrato. No entanto, foi essa recusa de aderir a um modelo realista que lhe permitiu, por exemplo, trazer à tela uma figura de mãos vermelho-sangue como em Raiva (2016), que visa a forma por vezes brutal como algumas mulheres são sujeitas à violência dos seus parceiros. Todavia, Graça Morais diz recusar qualquer intuito programático ou ideológico, assumindo que «tudo o que faço não tem a ver diretamente nem com religião nem com um programa político, mas com uma consciência do mundo e de que sou mulher e de como gostaria de estar ao lado de outras que não conseguem aquilo que eu consegui».

Mesmo com uma carreira longa e recheada de louvores, Graça Morais não prescinde da pertinência dos seus trabalhos da urgência da sua arte. Quando a visitámos, encontramo-la na capital, onde está a passar por um período de transição. Gafanhotos secos, batatas greladas e romãs são alguns dos objetos que tem à mesa a servir de inspiração, num espaço despojado que lhe serve de atelier improvisado mas lhe permite continuar a trabalhar, embora sem o conforto ou as condições logísticas que o seu “lar” artístico da Costa do Castelo, atualmente em obras, lhe confere. «Não vivo isolada numa torre de marfim», relembra, «pelo contrário, leio os jornais, informo-me com a televisão, com a internet, observo e falo com as pessoas no meu dia-a-dia». As ilustrações que nos mostra, de gafanhotos antropomórficos, são metamorfoses kafkianas num espelho da realidade no interior do país que a pintora tem observado com inquietação: «estes velhos tão indefesos, são estes gafanhotos, é o drama da solidão, do despovoamento, dos predadores que por onde passaram limparam tudo».

©Miguel Silva
É por isso que, olhando para este estado de permanente instabilidade e futuro incerto que se vive, não apenas em Portugal como no mundo, Graça Morais reage com satisfação a uma geração de artistas engajada «em não fazer uma arte vazia, oca». Numa fase em que uma larga percentagem da juventude do país está no desemprego ou em situações de precariedade, esses efeitos evidenciam-se com agudeza no meio artístico. Em vez de procurar satisfazer o mercado, o que a artista tem visto são «instalações, filmes, fotografias de jovens criadores, nenhum deles a fazer uma arte fútil nem decorativa, estão todos muito empenhados». Encarando o momento como um simbólico “passar de tocha”, a pintora diz-se «muito contente porque sempre estive empenhada em fazer uma arte que inquietasse as pessoas – primeiro a mim e depois aos outros e que os levasse a pensar, porque a Arte é isso, é interrogar as pessoas, é dar-lhes prazer mas também enriquecê-las no seu olhar sobre o mundo».

Há vários meios e ferramentas de despertar as pessoas para a criação artística e uma delas diz respeito diretamente ao legado da pintora transmontana. Inaugurado no centro de Bragança em 2008, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais foi uma surpresa para a pintora, que aceitou «com muita honra» batizar este espaço com o seu nome projetado por Eduardo Souto Moura. Regressando aos tempos em que andava no Liceu da cidade, Graça Morais lembra-se das visitas ao Museu Abade de Baçal onde, apesar da riqueza do seu acervo em arte sacra, arqueologia e numismática, nele «não encontrava a pintura mais recente que eu procurava». É por isso que a artista considera este centro de arte crucial, não só para a região, mas também para o país, pois o espaço programa exposições de inúmeros artistas, de espetro nacional e internacional. Porém, a relevância deste espaço também toca à sua obra, já que lhe permite ir «criando exposições que considero importantes para as pessoas conhecerem a minha pintura e para eu poder mostrar o melhor que fiz».

©Miguel Silva
Se habituar adultos a ter hábitos de consumo cultural é importante, essa tarefa ganha um cunho fundamental no que trata a educar os mais novos. Para Graça Morais, a maior qualidade do Centro é «ver crianças de 3 anos deitadas no chão a desenhar a partir dos meus desenhos. Quando visito o Centro, gosto mais dos desenhos deles, porque eu acho que as crianças ensinam-nos! Já viu o que é a minha pintura poder despertar nessas crianças a criatividade? Isso é um privilégio.» Numa era de total tecnologização da vida quotidiana, é imperativo continuar a incentivar o público a ter um encontro com a cultura, porque esse contacto «é muito importante para desenvolver uma reflexão em torno da Arte, da Liberdade e da Vida». No cerne da arte está a alma, a de quem criou e de quem aprecia. No que toca a essa conceção tão imaterial quanto presente na nossa existência, Graça Morais conclui: «à alma, não há tecnologia que a substitua».

Por Antonio Moura dos Santos
Fotografia de Destaque – ©Miguel Silva
EPICUR

160 anos na linha

A aventura do comboio em Portugal começou em 1856. A crise ambiental pode dar-lhe nova vida nos próximos anos. Só precisa de sobreviver até lá...
Com 30 anos de atraso sobre o Reino Unido o comboio chegou a Portugal a 28 de outubro de 1856, faz agora 160 anos. Chegou mas não foi muito longe, porque a via só estava construída entre Lisboa e Carregado e à locomotiva, comprada em segunda mão aos britânicos, faltou-lhe a força na viagem de regresso, pelo que foi largando carruagens com passageiros ilustres, lezíria fora. Nada melhor que as memórias da marquesa de Rio Maior para recordar esta cena.

“A máquina, escusado será dizer das mais primitivas (parecia um enorme garrafão), não tinha força para puxar todas as carruagens que lhe atrelaram; e fora-as largando pelo caminho. Algumas de convidados nos Olivais. O wagon do cardeal patriarca e do cabido ficou em Sacavém; mais um, recheado de dignitários, ficou ao desamparo na Póvoa. (...) Esses desprotegidos da sorte, semeados pela linha ao acaso das debilidades da tração acelerada, só chegaram alta noite a Lisboa, depois de ousadíssimas aventuras que encheram durante meses os soalheiros oficiais. Até andou gente com archotes, pela linha, em procura dos náufragos do progresso.”

Em bom rigor, a história começara em 1844, com a constituição da Companhia das Obras Públicas de Portugal, mas as revoluções da Maria da Fonte, da Patuleia e de Setembro não ajudaram. Só com a Regeneração e a subida de Saldanha e Fontes Pereira de Melo ao poder as coisas mudaram. No entanto, o padrão ficou desde logo traçado: formação e falência de sucessivas companhias privadas, entrada do Estado como salvador da situação, contração de empréstimos no estrangeiro com a consequente acumulação de encargos. Já lá iremos.

Durante séculos, a topografia acidentada e a falta de vias de comunicação tinha-nos protegido das hordas castelhanas e napoleónicas. Agora era uma evidência solar que só quebrando estes isolamentos ancestrais se poderia desenvolver o país. Em 1798, a primeira mala-posta demorava 40 horas de Lisboa a Coimbra. Em 1836, também de diligência, eram precisas 36 horas para ir de Lisboa a Badajoz e os viajantes eram aconselhados a não transportar valores, por causa dos assaltos. A melhor ligação entre Lisboa e Porto fazia-se de barco, mas o risco dos naufrágios era grande. Poucas coisas terão impressionado tanto a imaginação das pessoas da época como o naufrágio do vapor “Porto” na barra do Douro a 29 de março de 1852, em dia de temporal, perdendo-se o navio e os 63 passageiros e tripulantes.

Quem zombava dos salteadores de estrada era Almeida Garrett em “Viagens na Minha Terra”, ao descrever como, uma vez desembarcados do vapor vindo de Lisboa na Vala Real, a montante do Carregado, os viajantes embarcavam na diligência a caminho de Santarém, atravessando o tenebroso Pinhal da Azambuja, que, afinal, não era tão assustador como isso. O que Garrett abominava eram “os comboios dos barões”, onde jurara que nunca viajaria.

Sucederam-se cenas de especulação bolsista, obras abandonadas a meio e concessões passadas de mão em mão entre companhias de vida tão efémera como borboletas. Como hoje se diria, não havia controlo de custos nem planeamento e os traçados eram ao deus-dará. Tanto havia linhas construídas em bitola europeia (1,43 m) como ibérica ou, melhor dizendo, espanhola (1,67 m), esta um atavismo que ainda hoje nos sai caro.

Até chegou a funcionar um efémero monocarril entre Lisboa e Torres Vedras, de patente do engenheiro francês Larmanjat. O ponto fraco desta tecnologia que poupava carril e largura de via era que os dois lados da carruagem assentavam em rodados de madeira que, além de darem uma sova aos passageiros, levantavam uma poeirada infernal...

Depressa se torna óbvio que, para construir depressa e a baixo custo, limitando o recurso a viadutos, túneis e aterros, só havia uma possibilidade: aproveitar os vales dos principais rios e seus afluentes. Daqui resultava que as distâncias totais tendiam a crescer e que as linhas nem sempre passavam onde o interesse económico e demográfico aconselharia.

QUEM PAGA É O ESTADO
A verdade é que, 20 anos depois da aventurosa viagem Lisboa-Carregado, a espinha dorsal do sistema ferroviário português estava traçada. O comboio tinha começado por parecer o negócio do século, mas nem os custos de construção eram os esperados nem as previsões de tráfego de passageiros e de mercadorias eram realistas. Daí que os capitalistas nacionais se tivessem desinteressado de boa parte dos traçados que se pretendia construir. Acabou por ter que ser o Estado a arregaçar as mangas e a arcar com a construção de três obras vistas como fundamentais para o desenvolvimento regional: no Alentejo, as Linhas do Sul e do Sueste (atente-se na inscrição ainda hoje gravada no frontão da fachada da estação de Alcácer do Sal: Caminhos de Ferro do Estado); a Linha do Minho entre Porto e Valença (com um ramal de Nine para Braga); e a Linha do Douro, um verdadeiro atestado à competência da engenharia da época, furando granitos e xistos até à Régua, ao Pinhão e a Barca d’Alva, muitas vezes à flor das águas de um Douro então ainda revolto e não domado pelas barragens.

Já em redor do Porto a situação era diferente, havendo, aí sim, verdadeira iniciativa privada com companhias capazes de construir e explorar rede ferroviária, de fazer a manutenção do material circulante e até de o construir.

Trabalhando em via estreita (0,9 m), a Companhia do Caminho de Ferro do Porto à Póvoa levava o comboio da Boavista a Vila do Conde e à Póvoa de Varzim, chegando mais tarde a Famalicão (1881). Como se sabe, em 2002, o Metro do Porto herdou o essencial deste traçado, tendo a linha até Famalicão sido transformada em ecopista.

Já a Companhia do Caminho de Ferro de Guimarães levava o comboio de Lousado à cidade-berço em 1884 (e mais tarde a Fafe), neste caso em via métrica. Esta falta de normalização de bitolas entre companhias geraria um pesadelo logístico só resolvido depois da I Guerra Mundial.

Sempre com os olhos em Espanha, vista como a antecâmara da Europa, multiplicam-se as ligações internacionais: Elvas (1863), Marvão (1880), Vilar Formoso (1882), Valença (1866) e Barca d’Alva (1887). Nem todas tinham igual interesse estratégico e económico. Após a chegada da Linha da Beira Alta a Vilar Formoso e à interligação com Espanha, um grupo de empresários e banqueiros do Porto movimentou-se para construir uma saída direta para Espanha, sob pena de “a erva começar a crescer nas ruas da Cidade Invicta”. Saudável motivação regionalista que, a fazer fé nas gazetas da época, era reforçada pela circunstância de os cabarés de Salamanca, muito frequentados por alguma elite portuense, terem passado a ficar substancialmente mais próximos da estação de Campanhã...

Como há sempre um outro lado das coisas, esta abertura de Portugal ao mundo tinha contrapartidas. Ouçamos Eça de Queirós, em “Uma Campanha Alegre”: “A companhia dos caminhos de ferro, com intenções amáveis e civilizadoras, coloca-nos em embaraços terríveis. Digamo-lo rudemente: nós não estamos em estado de receber visitas! (...) Se por acaso a companhia dos caminhos de ferro, para fingir que tem passageiros e movimento, precisa impreterivelmente fazer passar a fronteira a alguns viajantes curiosos — então ao menos que só dê lugar nos seus velhos vagões àqueles de quem nós não tenhamos vergonha e com cujas civilizações possamos competir: cafres, patagónios, lapónios, abexins, etiópios, tártaros, e hotentotes!”

Mesmo com avanços e recuos, crises financeiras, companhias privadas e estatais com lógicas contraditórias, no início do século XX o comboio chegava a todas as cidades portuguesas. Se rompeu isolamentos seculares, também facilitou o êxodo rural. Facilitou as exportações, mas escancarou as portas das importações. E boa parte da bancarrota ocorrida no final da monarquia resultou da implosão das finanças públicas sob o peso dos encargos contraídos para a construção e exploração da ferrovia.

Memória da tração a vapor e automotora na Linha do Tua,
sacrificada em nome de uma barragem supérflua
Tal como o telégrafo, o comboio chegou literalmente aos quatro cantos de Portugal, eliminando isolamentos milenares. Passava a ser possível ir praticamente num dia de Bragança a Lisboa, de Santarém ao Alvito, de Vila Real de Santo António a Chaves. Em carruagens de madeira com suspensão sofrível, com fagulhas a entrar pelas janelas e paragens frequentes para meter água na locomotiva.

Era perfeito e 100% cómodo? Longe disso. Novamente a pena aguçada do grande Eça: “Parece-nos pois que alguns conselhos à Companhia [dos Caminhos de Ferro] não podem por ela deixar de ser recebidos — não diremos de braços abertos mas de rails abertos. Assim, por exemplo, seria de todo o ponto dramático e excitante espalhar pela estrada destacamentos de bandidos que espingardeassem o comboio. Outrossim, meter em cada carruagem um lobo esfomeado, parece-nos um meio eficaz de impedir que o viajante tenha ocasião de se enfastiar. Enfim, como meio de produzir a mais aguda impressão, devia ter a companhia em cada estação empregados, que, ao parar do comboio, se aproximassem do passageiro e delicadamente, com todo o respeito — lhe cravassem uma navalha na ilharga. E a viagem ficaria deste modo marcada com indeléveis encantos e cicatrizes!”

Incómodos e atrasos à parte, que dizer da paisagem vista da janela do comboio? Como, por razões de engenharia, se tinham privilegiado os vales, era um deslumbramento de vistas sobre os meandros do Tejo no Castelo de Almourol ou sobre os socalcos vinhateiros do Douro. Para não falar no extraordinário serpentear pela margem esquerda do Tua entre Foz Tua e Abreiro ou ao longo das encostas do Corgo, entre Régua e Vila Real.

Por alguma coisa, quase até ao 25 de Abril a geografia da escola primária usava como matriz do território as linhas férreas e ramais que as crianças não só eram obrigadas a saber de cor como a apontar e explicar no mapa.

Com o desenvolvimento da ferrovia nascia uma escola de engenharia civil, mais tarde enriquecida pela superestrela da construção metálica, o grande Eiffel, que nos deixou entre outras a Ponte Maria Pia no Porto e a ponte rodoferroviára de Viana do Castelo.


Foto: RUI DUARTE SILVA
Fazendo um balanço do impacto regional desta primeira fase da ferrovia em Portugal entre 1856 e 1890, é forçoso reconhecer que a cobertura do território nacional era tudo menos homogénea. Boa parte do interior e do Sul continuava isolado, sendo a única exceção a Linha do Tua, que em 1887 chegava a Mirandela. Outro prodígio de engenharia, com a plataforma a assentar numa estreita cornija, rasgada nos granitos da margem esquerda daquela afluente. E que ainda nos nossos dias atraía visitantes de todo o mundo, até este traçado ter sido sacrificado para se construir uma barragem tornada redundante, quer do ponto de vista da reserva estratégica de água quer da produção de eletricidade, pela inauguração da sua congénere do Baixo Sabor.

Em finais do século XIX e à parte a exceção referida, a via secundária estava concentrada em torno das duas maiores cidades portuguesas: Lisboa (Linhas de Sintra e Cascais) e Porto (Linhas da Póvoa e de Guimarães). Apesar da crise política e económica, há um enorme esforço de construção levado a cabo pelo Estado: começa a duplicação da Linha do Norte, enquanto se multiplicam novas linhas de via estreita no Douro: Corgo (Régua-Vila Real, 1906), Tâmega (Livração-Amarante, 1908) ou Sabor (Pocinho-Moncorvo, 1904). O comboio de Guimarães é prolongado até Fafe (1908) e o do Tua até Bragança (1907). Constrói-se o Ramal da Lousã (1906), enquanto a sul, entre 1904 e 1909, a via-férrea chega a Montemor-o-Novo, Vila Viçosa, Mora, Moura e Portimão.

De capitais privados nascerão duas novas linhas, a do Vale do Vouga e a da Lixa. A primeira, de capitais franceses, construirá e explorará 170 km de via estreita entre Espinho, Aveiro e Viseu, entre 1910 e 1914. A segunda é um caso curioso, ligando Penafiel (Linha do Douro) à Lixa através de uma via assente sobre a plataforma da estrada e cuja eletrificação chegou a ser estudada.

METRO DE SUPERFÍCIE EM PENAFIEL
Discussões que encheram as páginas dos jornais nos últimos anos são, afinal, tão antigas como o caminho de ferro. A começar pelo metro de superfície: deve o comboio aproveitar a plataforma das ruas e estradas, de forma a servir as zonas mais povoadas ou cingir-se a corredores próprios? O Caminho de Ferro de Penafiel foi um verdadeiro metro de superfície do seu tempo. E a ferrovia deve ser negócio ou serviço social? Companhias privadas com dinâmica só as houve à volta de Lisboa (Sociedade Estoril) e Porto (Caminhos de Ferro da Póvoa e de Guimarães, depois unificados nos Caminhos de Ferro do Norte de Portugal). Quando se tratou de chegar a zonas menos povoadas ou longínquas teve de ser o Estado a arregaçar as mangas: na via larga Sul e Sueste, Minho e Douro, além de Corgo, Tâmega, Sabor e parte do Tua em via estreita.

Finalmente, a ideia de um modelo de gestão perfeito (operador único ou diversidade de empresas) é tão ilusória como um modelo universal de beleza. Desde o início do caminho de ferro em Portugal houve ciclos de unificação e desagregação, coexistência de público e privado, concessões de troços da rede pública a privados, isto até ao grande movimento unificador na CP em 1947 (novamente quebrado pela transformação da Linha da Póvoa em Metro do Porto em 2005 e pela abertura à exploração privada do serviço Lisboa-Fogueteiro-Setúbal, em 1999).

Como não podia deixar de ser, a ferrovia marcou a História lusa. Foi de comboio que a notícia da implantação da República chegou à província. Nos anos agitados da I República travou-se uma verdadeira “batalha dos carris” entre ferroviários grevistas e forças policiais. Foi na Estação do Rossio que o presidente Sidónio Pais, em que uns viam um salvador e outros um aspirante a tirano, foi assassinado. De comboio partiram de Lisboa as forças mobilizadas pela República para derrotar a efémera monarquia do Norte. Na Linha do Tua, entre Mirandela e Carvalhais, houve um ataque dos guerrilheiros de Paiva Couceiro ao comboio que levava a guarnição republicana, digno de um épico de John Ford. E, claro, foi no primor da tecnologia ferroviária da época, a automotora italiana que fazia o Foguete (na Linha do Norte), que Humberto Delgado fez a sua famosa viagem ao Porto nas eleições de 1958, primeiro sobressalto da ditadura desde os anos 30.

Os anos 50 são justamente anos de mudança. Em 1949, a ferrovia portuguesa atingira a máxima extensão, com a inauguração do troço final da Linha do Tâmega até Arco de Baúlhe (Cabeceiras de Basto). Começavam a estudar-se alternativas à tração a vapor e tinham chegado no ano anterior as primeiras locomotivas a gasóleo vindas dos EUA, bem como as primeiras automotoras, estas fabricadas na Holanda. Enquanto as linhas de via estreita começavam a ficar duplamente obsoletas (infraestrutura e material circulante), o serviço suburbano na Grande Lisboa e no Grande Porto trazia novos problemas.

Se o fim do século XIX marcara o apogeu do comboio, a segunda metade do século XX foi a do advento do automóvel privado. Claro que Portugal não ficou imune ao retrocesso da ferrovia verificado por toda a Europa a partir dos anos 60. A diferença, apesar de tudo, é que os franceses conseguiram manter ao serviço vastos troços de ferrovia para fins turísticos, beneficiando de uma dinâmica de associativismo e sociedade civil sem paralelo entre nós. E os vizinhos espanhóis, se por um lado apostaram na alta velocidade, por outro souberam reconverter a via estreita, sobretudo no País Basco e na Cantábria, criando para o efeito uma empresa pública específica, a FEVE.

A partir da década de 80 inicia-se em Portugal o ‘comboiocídio’, gerado por um ciclo vicioso: a infraestrutura estava envelhecida, o material circulante pouco se renovava e a estratégia nacional era a rodovia. Em consequência, o serviço perde qualidade, a afluência de passageiros baixa e segue-se mais desinvestimento e assim sucessivamente até à constatação da evidência de que mais vale fechar.

Nos anos do cavaquismo começa a desaparecer a via estreita, tanto no Douro (toda a linha do Sabor e parte das linhas do Tua, Corgo e Tâmega) como na Beira (encerramento total do Vale do Vouga e da Linha do Dão, isolando Viseu da rede ferroviária nacional). Também no Alentejo desaparece o serviço para Mora, Reguengos, Estremoz ou Vila Viçosa. Nova razia se seguirá a partir de 2012, com o fim da via estreita do Douro, incluindo troços de extraordinário potencial turístico como a Linha do Tua (submersa pela barragem homónima), o fecho do Ramal de Alfarelos e do da Lousã, o fim do serviço ferroviário para Elvas, Portalegre ou Marvão, além do fecho da Linha da Beira Baixa entre Covilhã e Guarda, que sofrera obras recentes.

O comboio tem que seguir a demografia e a economia e o que fazia sentido em 1920 pode deixar de o fazer. Mas que novos troços se abriram nas zonas de maior pujança demográfica? Pouca coisa, excetuando a abertura da Ponte 25 de Abril ao comboio. E onde melhorou o serviço, a partir de 1999 e 2000, com os Alfas Pendulares, Intercidades e novos comboios suburbanos? Justamente nas áreas metropolitanas e no eixo litoral. Será que o resto do país é só paisagem?

FERROVIA REDUZIDA AOS SERVIÇOS MÍNIMOS E RESTRITA AO EIXO LITORAL FARO-BRAGA

Texto de Carlos Cipriano*

Bragança, Vila Real, Chaves, Amarante, Viseu, Portalegre e Elvas ficaram sem comboio. Portugal, que agora celebra os 160 anos do caminho de ferro, encerrou nas últimas três décadas 1300 km de via-férrea dos 3658 km em exploração em 1989. No mesmo período o número de quilómetros de autoestradas subiu de 200 para 3100. O país ferroviário resume-se hoje ao eixo litoral Braga-Porto-Lisboa-Faro de onde irradiam algumas linhas complementares. Perdeu-se o efeito de rede (uma das mais-valias do caminho de ferro) e ficou um conjunto de itinerários, muitas vezes sem ligação entre si. Como chegámos a isto?

Quatro de janeiro de 2009. A linha da Figueira da Foz a Cantanhede e Pampilhosa (50 km) é encerrada “por razões de segurança”. Três meses depois, a 24 de março, é a vez do que restava das linhas do Corgo (Régua-Vila Real) e do Tâmega (Livração-Amarante) encerrar “por tempo indeterminado”. Ana Paula Vitorino, secretária de Estado dos Transportes, promete na altura um investimento de 40 milhões de euros para reabilitar aquelas linhas, garantindo a sua reabertura em setembro do ano seguinte. A linha do Tua estava encerrada porque tinha havido dois descarrilamentos e falava-se que não reabriria devido à barragem.
Tecnicamente, a circulação estava “suspensa”. Em 2011, com um novo governo e o garrote da troika, o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, torna definitivos os encerramentos e manda também fechar a linha do Alentejo entre Évora e Funcheira, bem como o serviço de passageiros na linha do Leste entre Abrantes e Elvas.

Após o ‘comboicídio’ dos anos 90, fechavam outros 144 km e terminava o serviço de passageiros em mais 138. A linha do Douro e subsidiárias que somavam 578 km encolhiam para 179.

Enquanto se sonhava com o TGV, a rede convencional definhava à míngua de investimento. Com mais de 1100 milhões de euros gastos, apenas dois terços da Linha do Norte estão modernizados, havendo a promessa de terminar até 2020. Mas trata-se apenas de renovar a via e não duma verdadeira modernização que permita a alta velocidade.


Desenho de Stuart Carvalhais para a
“Gazeta dos Caminhos de Ferro”
ILUSTRAÇÃO CEDIDA PELA
HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA
A viagem entre as duas cidades leva 2h44 em Alfa Pendular quando nos anos 80 se fazia em três horas com os Intercidades. Só em alguns troços o pendolino dá um ar da sua graça com 220 km/h porque a infraestrutura não dá para mais. O Intercidades, que para em mais estações, faz Santa Apolónia-Campanhã em 3h09. Em 1953, o Foguete fazia quatro horas...

De Entrecampos a Faro, o Alfa Pendular tarda 2h52 e o Intercidades 3h22. Só num curto troço se circula a mais de 200 à hora. Na serra algarvia os comboios não passam dos 80 km/h porque a linha foi eletrificada mas não se eliminaram as curvas mais apertadas.
Estes tempos de percurso só foram conseguidos porque não há paragens intermédias. Ermidas, Canal Caveira, Alcácer do Sal e — pasme-se! — Setúbal ficaram sem comboio para o Algarve. O “regional” que parava em todas foi extinto por se achar que o Alentejo é um deserto sem passageiros.

Houve nos últimos 20 anos dois picos de investimento, ambos relacionados com eventos exteriores à ferrovia: a Expo-98 e o Euro-2004. Melhorou-se a Linha do Norte, compraram-se os pendulares, pôs-se comboio na Ponte 25 de Abril e modernizaram-se as linhas para o Algarve, bem como os ramais de Braga e de Guimarães.

No resto da rede fecharam-se linhas e deixaram-se as restantes com sistemas de exploração arcaicos. Não haverá na Europa país onde haja tal disparidade entre linhas dotadas de modernos sistemas de sinalização e telecomunicações e o resto.

Duas linhas foram vítimas da sua própria modernização: o ramal da Lousã e o troço Covilhã-Guarda da Linha da Beira Baixa. A primeira foi fechada em janeiro de 2010 para ser transformada no Metro do Mondego, cuja linha entraria pela cidade de Coimbra. Nunca se soube porque não começaram as obras pelo troço urbano — mais difícil e dispendioso e se começou por fechar o que existia. E sem acautelar financiamento, porque depois veio a troika... Que futuro para estes 37 km de linha onde bastaria ter eletrificado para melhorar? O novo-riquismo triunfou.

Entre Covilhã e Guarda são 46 km, ligando a Linha da Beira Baixa à da Beira Alta. É como a A23 a entroncar na A25 na Guarda. Mas tirando um troço perde-se o efeito de rede. Em 2009 a linha fechou para modernização, um investimento de 85 milhões de euros. A crise financeira levou à paragem das obras, deixando um troço requalificado de 10 km nunca estreado.
Com a austeridade, os recursos afetos à manutenção da rede que sobreviveu aos encerramentos foram reduzidos ao mínimo e a infraestrutura degradou-se. A segurança só se mantém porque a velocidade vai descendo em função do estado da via. Os maquinistas explicam que os constantes afrouxamentos impedem cumprir horários.

Em 2014, na Linha da Beira Alta, num mês e meio, descarrilaram três comboios de mercadorias. Em julho de 2015 outro descarrilamento e o último foi com uma automotora em janeiro.

Na Linha de Cascais juntam-se mau estado da linha e comboios obsoletos. O Governo anterior queria concessioná-la a privados, com um caderno de encargos que os obrigava a investir milhões para recuperar a via e comprar comboios novos. O atual Governo nem lhe faz alusão no plano de investimentos ferroviários até 2020.

À margem de quaisquer planos de modernização estão os últimos 98 km de via estreita. A Linha do Vouga está desmembrada em dois segmentos: Espinho-Oliveira de Azeméis (33 km) e Aveiro-Sernada do Vouga (35 km). No troço central, entre Oliveira de Azeméis e Sernada (30 km), o serviço é de táxi porque a velocidade máxima na linha é de 10 km/h.

Sérgio Monteiro colocara esta linha para abate, mas autarcas e populações protestaram. Nos planos do atual Governo não há menção a estas duas linhas que, ao contrário da via estreita do Norte, servem um litoral povoado, nas coroas de Espinho e Aveiro.

Todos os dias de madrugada saem de Coruche autocarros com gente para trabalhar em Lisboa. No ramal de Vendas Novas só passam comboios de mercadorias. Bastaria prolongar alguns comboios suburbanos da linha da Azambuja até Coruche para haver ligações diretas a Lisboa. Em setembro de 2009, a duas semanas das eleições legislativas, chegou a ser montado um vaivém entre Coruche e o Setil mas era preciso mudar para os “regionais” até Lisboa. O serviço durou meses.

Em setembro de 2009, regressou o serviço de passageiros entre Ermesinde e Leça do Balio, mas falhou porque o serviço nunca foi prolongado até Leixões. Foram prometidos apeadeiros em Arroteia e no Hospital de São João para servir Matosinhos. O investimento era reduzido, a linha já lá estava. Mas foi um naufrágio à vista de Leixões.

A Fertagus, do grupo Barraqueiro que explora o serviço Lisboa-Setúbal, tem terminal em Roma/Areeiro. Quem venha de comboio da margem sul e queira prosseguir para o Norte é obrigado a mudar naquela estação e depois na Gare do Oriente, a 5 km. Para prolongar o serviço ao Oriente, a Fertagus precisava de mais comboios. A CP tem-nos em quantidade suficiente, pois alguns até estão parados...

Em 1966, Manuel Rodrigues tentou emigrar para França, mas foi barrado pela Pide em Vilar Formoso. “Voltei para Alfarelos e apanhei a automotora para o Bombarral.” Esta viagem de há 50 anos, repetida hoje, implicaria apanhar, não dois mas quatro comboios: um de Vilar Formoso à Guarda, outro para Alfarelos, outro para as Caldas da Rainha e, por fim, outro para o Bombarral. Três transbordos em 380 km.

O efeito de rede também desapareceu porque a exploração é uma manta de retalhos. A CP semeia transbordos. Três de Setúbal a Portimão (transbordos em Pinhal Novo e Tunes); idem para Setúbal-Porto (Roma/Areeiro e Oriente); e igualmente para Torres Vedras-Aveiro (Caldas da Rainha e Coimbra), Santarém-Beja (Oriente e Casa Branca), Olhão-Évora (Faro e Pinhal Novo), Abrantes-Guarda (Entroncamento e Coimbra), Amadora-Leiria (Cacém e Caldas da Rainha), ou Beja-Barreiro (Casa Branca e Pinhal Novo).

Esta gestão de vistas curtas divide as linhas em pequenos troços onde os comboios andam a “passar a ferro” para trás e para a frente em percursos curtos. Entretanto, Viseu é a maior cidade da Europa continental não servida pelo comboio...

*Jornalista especializado em questões ferroviárias


Rui Cardoso
Jornal Expresso