terça-feira, 3 de abril de 2018
Concurso Jardins, Varandas e Janelas Floridas
Mirandela, cidade mais atrativa, colorida, alegre e acolhedora!
A Câmara Municipal de Mirandela organiza nova edição do Concurso Jardins, Varandas e Janelas Floridas, premiando os três primeiros classificados nas categorias: jardins, varandas e janelas floridas de acordo com os seguintes critérios: riqueza e harmonia de cores das plantas, riqueza/densidade da floração, enquadramento na arquitetura do edifício em causa e estado fitossanitário (aparente) das flores.
As inscrições no concurso decorrem até 30 de abril e a avaliação dos jardins, varandas e janelas é realizada durante a Semana da Energia e do Ambiente, de 29 de maio e 5 de junho de 2018.
A inscrição é gratuita e é realizada através do preenchimento do impresso próprio que pode ser entregue no Gabinete de Ambiente da Câmara Municipal de Mirandela, localizado no edifício dos antigos SMA, junto à escola da Central, enviada por e-mail ambiente@cm-mirandela.pt ou via CTT (Câmara Municipal de Mirandela, Largo do Município, 5370-288 Mirandela).
REGULAMENTO.
A Câmara Municipal de Mirandela organiza nova edição do Concurso Jardins, Varandas e Janelas Floridas, premiando os três primeiros classificados nas categorias: jardins, varandas e janelas floridas de acordo com os seguintes critérios: riqueza e harmonia de cores das plantas, riqueza/densidade da floração, enquadramento na arquitetura do edifício em causa e estado fitossanitário (aparente) das flores.
As inscrições no concurso decorrem até 30 de abril e a avaliação dos jardins, varandas e janelas é realizada durante a Semana da Energia e do Ambiente, de 29 de maio e 5 de junho de 2018.
A inscrição é gratuita e é realizada através do preenchimento do impresso próprio que pode ser entregue no Gabinete de Ambiente da Câmara Municipal de Mirandela, localizado no edifício dos antigos SMA, junto à escola da Central, enviada por e-mail ambiente@cm-mirandela.pt ou via CTT (Câmara Municipal de Mirandela, Largo do Município, 5370-288 Mirandela).
REGULAMENTO.
Ecopista do Tua: Quando o verde se torna escuro
Arrancaram com celeridade ímpar as obras de adaptação do canal da linha do Tua, nos 76 quilómetros entre Carvalhais e Bragança, em mais uma ciclovia. A obra está orçada em três milhões de euros, sensivelmente 40 mil €/km, desconhecendo-se quantas estações e obras de arte serão beneficiadas no total dentro deste valor.
Surpreende-me que as autarquias de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança tenham resistido tantos anos ao assédio da extinta REFER em embarcar neste tipo de empreendimento “chapa 5”, para agora da noite para o dia o abraçarem em tamanha sintonia. O timing é ainda mais infeliz ao coincidir com o início da exploração privada dos 37 quilómetros ainda abertos, por um player turístico de peso que poderia estar interessado numa expansão para norte. Seguidamente, o valor do investimento é inusitadamente baixo, em comparação com outras ciclovias do género em Portugal. Para citar algumas, três milhões de euros custou igualmente a da Póvoa a Famalicão em apenas 28 quilómetros (107 mil €/km), e cinco milhões de euros a do Dão (49 quilómetros, 102 mil €/km); no Sabor, o rácio foi de 125 mil €/km, no Tâmega 167 mil €/km, e só a de Montemor-o-Novo se aproxima deste valor, ao custar 41 mil €/km, mas num percurso de 12 quilómetros em terra batida, com uma única ponte e sem recuperação de estações. Ora, de Carvalhais a Bragança existem 13 obras de arte e 20 estações, sem contar com a renda de 250 €/km a pagar ao Estado pelo canal (19 mil €/ano), mais o que for pedido pela utilização das estações.
Através de candidatura ao Programa Valorizar, as autarquias terão ainda de pagar pelo menos 2,6 milhões de euros pela ciclovia; numa reabertura ferroviária caber-lhes-ia pagar à volta de 5,7 milhões de euros, depois de candidatura a fundos comunitários. Sim, por mais 3,1 milhões de euros do que vão gastar numa ciclovia, estas autarquias podem trazer o comboio de volta a Bragança; é agora uma questão de escolher o que faz mais falta à região.
Depois, quem vai esta ciclovia servir? Estes três municípios têm índices de envelhecimento galopantes, entre os 200% e os 300%, agravados a cada novo censo, concentrando-se a maior percentagem de população idosa nas aldeias, algumas das quais sem transportes públicos fora do período escolar. Será portanto um convite à população para que se desloque aos centros urbanos a pé ou de bicicleta, no rigoroso clima trasmontano, em percursos com rampas como as do Quadraçal (sete quilómetros) ou do Vale da Porca ao cume ferroviário português (19 quilómetros), com inclinações médias de 2%? Por fim, se num centro urbano um corredor treinar dez quilómetros, ou um ciclista 20 quilómetros, estamos a deixar de fora 36 quilómetros de canal para uma utilização residual, mormente por visitantes – nas aldeias não faltam bons trilhos para corrida/BTT.
Em 2012, a Câmara Municipal de Bragança emitia uma nota contra o pedido de desclassificação da linha do Tua pela REFER, onde referia que não era uma decisão “sustentada numa política de coesão e de ordenamento para o território”, fundamentada num “somatório de episódios que levaram deliberadamente ao encerramento da linha do Tua”, arrastando “o nordeste Transmontano para uma situação de despovoamento acentuado e de empobrecimento” e de “eliminação ou redução (...) do serviço de transportes às populações”. Cinco anos volvidos, a autarquia dá uma volta de 180º, e põe a obra fácil e de lazer à frente da mobilidade de pessoas e bens no mais eficiente dos transportes terrestres: o comboio. À luz da discussão sobre a ligação entre a cidade e a estação de alta velocidade de Puebla de Sanábria, a qual se arrasta há quase uma década sem resultados práticos, esta ciclovia é a derradeira antítese dessa aspiração: negligencia o papel da ferrovia como artéria privilegiada entre o noroeste Peninsular e todo o nordeste Trasmontano até ao Douro Vinhateiro, passando por um renovado aeroporto de Bragança, e de movimentação de passageiros, matérias-primas e produtos de e para o território, a menor custo que pela rodovia.
Restam por fim duas questões: a primeira, é de que forma este projecto pretende salvaguardar o património e memória industriais ainda presentes in situ, por exemplo nas estações do Romeu, Cortiços, Macedo, Azibo e Sendas, bem como os marcos quilométricos ainda existentes no canal, tendo o Movimento Cívico pela Linha do Tua agido ao longo dos anos no sentido dessa mesma preservação, em acções como o “Entrar na Linha”; a segunda, é se a interessante e correcta opinião avançada pelo vereador socialista macedense Rui Vaz, de preservação do canal para a sua reactivação ferroviária, e construindo-se a ciclovia junto a este (o denominado rail-to-trail, tão utilizado por exemplo nos EUA), foi tida em linha de conta. Nada neste projecto faz qualquer sentido. O despesismo gratuito, o sentido de oportunidade, o virar de costas às necessidades das populações, a vista grossa a decisões estratégicas flagrantes no curto prazo, a comparação com o custo de reactivação da linha do Tua, mesmo depois dos constantes avisos sobre estes números, remetidos tanto a nível pessoal como por associações como o MCLT, são inqualificáveis.
Fazer esta ciclovia é um acto imediatista e de pequenez, com consequências graves, e que deveria ser melhor escrutinado, tanto pelas Assembleias Municipais, como pelos próprios munícipes.
por Daniel Conde
in:transportesemrevista.com
Nota: O autor optou por não escrever segundo as regras do Acordo Ortográfico
Surpreende-me que as autarquias de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança tenham resistido tantos anos ao assédio da extinta REFER em embarcar neste tipo de empreendimento “chapa 5”, para agora da noite para o dia o abraçarem em tamanha sintonia. O timing é ainda mais infeliz ao coincidir com o início da exploração privada dos 37 quilómetros ainda abertos, por um player turístico de peso que poderia estar interessado numa expansão para norte. Seguidamente, o valor do investimento é inusitadamente baixo, em comparação com outras ciclovias do género em Portugal. Para citar algumas, três milhões de euros custou igualmente a da Póvoa a Famalicão em apenas 28 quilómetros (107 mil €/km), e cinco milhões de euros a do Dão (49 quilómetros, 102 mil €/km); no Sabor, o rácio foi de 125 mil €/km, no Tâmega 167 mil €/km, e só a de Montemor-o-Novo se aproxima deste valor, ao custar 41 mil €/km, mas num percurso de 12 quilómetros em terra batida, com uma única ponte e sem recuperação de estações. Ora, de Carvalhais a Bragança existem 13 obras de arte e 20 estações, sem contar com a renda de 250 €/km a pagar ao Estado pelo canal (19 mil €/ano), mais o que for pedido pela utilização das estações.
Através de candidatura ao Programa Valorizar, as autarquias terão ainda de pagar pelo menos 2,6 milhões de euros pela ciclovia; numa reabertura ferroviária caber-lhes-ia pagar à volta de 5,7 milhões de euros, depois de candidatura a fundos comunitários. Sim, por mais 3,1 milhões de euros do que vão gastar numa ciclovia, estas autarquias podem trazer o comboio de volta a Bragança; é agora uma questão de escolher o que faz mais falta à região.
Depois, quem vai esta ciclovia servir? Estes três municípios têm índices de envelhecimento galopantes, entre os 200% e os 300%, agravados a cada novo censo, concentrando-se a maior percentagem de população idosa nas aldeias, algumas das quais sem transportes públicos fora do período escolar. Será portanto um convite à população para que se desloque aos centros urbanos a pé ou de bicicleta, no rigoroso clima trasmontano, em percursos com rampas como as do Quadraçal (sete quilómetros) ou do Vale da Porca ao cume ferroviário português (19 quilómetros), com inclinações médias de 2%? Por fim, se num centro urbano um corredor treinar dez quilómetros, ou um ciclista 20 quilómetros, estamos a deixar de fora 36 quilómetros de canal para uma utilização residual, mormente por visitantes – nas aldeias não faltam bons trilhos para corrida/BTT.
Em 2012, a Câmara Municipal de Bragança emitia uma nota contra o pedido de desclassificação da linha do Tua pela REFER, onde referia que não era uma decisão “sustentada numa política de coesão e de ordenamento para o território”, fundamentada num “somatório de episódios que levaram deliberadamente ao encerramento da linha do Tua”, arrastando “o nordeste Transmontano para uma situação de despovoamento acentuado e de empobrecimento” e de “eliminação ou redução (...) do serviço de transportes às populações”. Cinco anos volvidos, a autarquia dá uma volta de 180º, e põe a obra fácil e de lazer à frente da mobilidade de pessoas e bens no mais eficiente dos transportes terrestres: o comboio. À luz da discussão sobre a ligação entre a cidade e a estação de alta velocidade de Puebla de Sanábria, a qual se arrasta há quase uma década sem resultados práticos, esta ciclovia é a derradeira antítese dessa aspiração: negligencia o papel da ferrovia como artéria privilegiada entre o noroeste Peninsular e todo o nordeste Trasmontano até ao Douro Vinhateiro, passando por um renovado aeroporto de Bragança, e de movimentação de passageiros, matérias-primas e produtos de e para o território, a menor custo que pela rodovia.
Restam por fim duas questões: a primeira, é de que forma este projecto pretende salvaguardar o património e memória industriais ainda presentes in situ, por exemplo nas estações do Romeu, Cortiços, Macedo, Azibo e Sendas, bem como os marcos quilométricos ainda existentes no canal, tendo o Movimento Cívico pela Linha do Tua agido ao longo dos anos no sentido dessa mesma preservação, em acções como o “Entrar na Linha”; a segunda, é se a interessante e correcta opinião avançada pelo vereador socialista macedense Rui Vaz, de preservação do canal para a sua reactivação ferroviária, e construindo-se a ciclovia junto a este (o denominado rail-to-trail, tão utilizado por exemplo nos EUA), foi tida em linha de conta. Nada neste projecto faz qualquer sentido. O despesismo gratuito, o sentido de oportunidade, o virar de costas às necessidades das populações, a vista grossa a decisões estratégicas flagrantes no curto prazo, a comparação com o custo de reactivação da linha do Tua, mesmo depois dos constantes avisos sobre estes números, remetidos tanto a nível pessoal como por associações como o MCLT, são inqualificáveis.
Fazer esta ciclovia é um acto imediatista e de pequenez, com consequências graves, e que deveria ser melhor escrutinado, tanto pelas Assembleias Municipais, como pelos próprios munícipes.
por Daniel Conde
in:transportesemrevista.com
Nota: O autor optou por não escrever segundo as regras do Acordo Ortográfico
Mais acidentes e menos feridos na Operação Páscoa de 2018 no distrito de Bragança
16 acidentes, um ferido grave e 13 ligeiros foram os dados registados no distrito de Bragança, na Operação Páscoa da GNR deste ano, que decorreu entre quinta-feira e a meia-noite de ontem.
Uma mulher de 46 anos ficou ferida com gravidade num despiste no passado sábado, às 8h50, em Macedo de Cavaleiros.
Em relação ao ano passado, houve mais 6 acidentes, menos um ferido grave e menos dois feridos leves no período da Páscoa. Nem em 2017 nem este ano houve qualquer vítima mortal.
A GNR reforçou ao longo dos cinco dias da operação a fiscalização nas principais vias rodoviárias, visando dar conselhos dos cuidados a ter nas viagens.
Ao todo foram fiscalizados cerca de 700 condutores, levantadas 92 contra-ordenações e detectadas 2 situações de crime de condução sob o efeito de álcool.
Escrito por Brigantia
Uma mulher de 46 anos ficou ferida com gravidade num despiste no passado sábado, às 8h50, em Macedo de Cavaleiros.
Em relação ao ano passado, houve mais 6 acidentes, menos um ferido grave e menos dois feridos leves no período da Páscoa. Nem em 2017 nem este ano houve qualquer vítima mortal.
A GNR reforçou ao longo dos cinco dias da operação a fiscalização nas principais vias rodoviárias, visando dar conselhos dos cuidados a ter nas viagens.
Ao todo foram fiscalizados cerca de 700 condutores, levantadas 92 contra-ordenações e detectadas 2 situações de crime de condução sob o efeito de álcool.
Escrito por Brigantia
A empresa Pão de Gimonde está a participar em projecto internacional inovador
A empresa Pão de Gimonde, de Bragança, está a participar num projecto internacional de inovação na embalagem dos produtos, para diminuir os resíduos e melhorar a segurança alimentar, como conta Elisabete Ferreira, gerente da empresa.
“É um projecto de inovação na área da embalagem com o objectivo de reduzir os desperdícios, aumentando a vida útil dos alimentos. Quando está perto do fim do prazo de validade as pessoas deitam o produto fora, então queremos aumentar a vida útil sem adicionar nenhum tipo de aditivo ao produto, evitamos desperdícios só com a embalagem”, referiu.
Na embalagem vão ser adicionados óleos essenciais para melhorar a conservação do produto e evitar surtos de doenças transmitidas por alimentos.
O projecto intitula-se Nano Pack, é liderado pelo Instituto Israelita de Tecnologia. Conta com a colaboração de 14 entidades internacionais, nesta investigação e a empresa Pão de Gimonde é a única empresa portuguesa envolvida no projecto. Esta investigação tem a duração de três anos e o valor é de 7.7 milhões concedido pela União Europeia no âmbito do Horizonte 2020.
Escrito por Brigantia
“É um projecto de inovação na área da embalagem com o objectivo de reduzir os desperdícios, aumentando a vida útil dos alimentos. Quando está perto do fim do prazo de validade as pessoas deitam o produto fora, então queremos aumentar a vida útil sem adicionar nenhum tipo de aditivo ao produto, evitamos desperdícios só com a embalagem”, referiu.
Na embalagem vão ser adicionados óleos essenciais para melhorar a conservação do produto e evitar surtos de doenças transmitidas por alimentos.
O projecto intitula-se Nano Pack, é liderado pelo Instituto Israelita de Tecnologia. Conta com a colaboração de 14 entidades internacionais, nesta investigação e a empresa Pão de Gimonde é a única empresa portuguesa envolvida no projecto. Esta investigação tem a duração de três anos e o valor é de 7.7 milhões concedido pela União Europeia no âmbito do Horizonte 2020.
Escrito por Brigantia
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Famílias de Vila Flor abrem as portas de casa para receber a benção e beijar a cruz
O compasso pascal é uma tradição que se cumpre nesta época.
Em todo o país, as famílias abrem as portas da sua casa para receber a benção e beijar a cruz.
Em Vila Flor a tradição mantém-se e o Porto Canal acompanhou um pouco desse trajeto.
Em todo o país, as famílias abrem as portas da sua casa para receber a benção e beijar a cruz.
Em Vila Flor a tradição mantém-se e o Porto Canal acompanhou um pouco desse trajeto.
Feira Medieval de Torre de Moncorvo promovida no Porto Welcome Center
O Município de Torre de Moncorvo realizou, no passado dia 24 de março, uma ação promocional da Feira Medieval de Torre de Moncorvo no Porto Welcome Center, espaço do Turismo do Porto de Norte de Portugal junto à Estação de São Bento, no Porto.
Durante a ação os elementos do Grupo Alma de Ferro Teatro, vestidos a rigor divulgavam a feira medieval e convidavam os transeuntes a entrar no Porto Welcome Center onde podiam apreciar o vinho e as amêndoas cobertas de Moncorvo.
A iniciativa insere-se no âmbito da estratégia de promoção da Feira Medieval, potenciando, assim a sua afirmação no panorama das feiras medievais do país, mas também divulgando o concelho e as suas tradições.
Durante a ação os elementos do Grupo Alma de Ferro Teatro, vestidos a rigor divulgavam a feira medieval e convidavam os transeuntes a entrar no Porto Welcome Center onde podiam apreciar o vinho e as amêndoas cobertas de Moncorvo.
A iniciativa insere-se no âmbito da estratégia de promoção da Feira Medieval, potenciando, assim a sua afirmação no panorama das feiras medievais do país, mas também divulgando o concelho e as suas tradições.
Sinonímia, toponímia e outros conceitos
Não é fácil investigar sobre sinonímia, toponímia e outros conceitos
Na quadra a seguir, do cancioneiro da castanha, trabalho que tenho em mãos para publicar:
«Quem me dera cá o Verão,
O tempo das carmiadas!
Queria dar ao meu amor
Quatro castanhas piladas.»
Destaco a palavra «carmiadas» que tem diversos significados exarados no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de José Pedro Machado): poderá ser um estado da Natureza que tem muitos frutos vermelhos (este tempo seria no Verão ou princípio do Outono).
O douto Frei Henrique Pinto Rema, da Academia de História, baseado no mesmo léxico, avançou-me com: «, efeito de carmear, de desfazer de nós (...), , desenrolar, abrir» e para hipótese de descascar as castanhas e cozê-las (tempo de Outono e de magustos). Eu, inicialmente, associei carmeadas a desfolhadas, por ligação aos «farripos» ou tiras do folhato ao descaroçar-se o milho e as castanhas assadas que se comiam no final, como reza noutra quadra popular. Só que o meu engano desfez-se ao aperceber-me que «castanhas piladas» têm um tempo diferente dos magustos e do assar as castanhas. Assim, tentei descobrir outro significado e contexto de «tempo das carmiadas».
A quadra foi recolhida, em Genísio (lá, uma senhora faz o melhor licor de cerejas que conheço) - Miranda do Douro, para o Cancioneiro Popular Trasmontano e Alto-duriense, de Guilherme Felgueiras, levando-me a trocar pontos de vista com o douto, António Bárbolo, de Picote, especialista em línguas minoritárias, dizendo-me não haver lá as tradicionais desfolhadas do milho, como soi no Minho e Douro Litoral. Então, «o tempo das carmiadas» leva-me a inclinar mais para o tratamento da lã (tosquia, lavagem, desenriço e farripagem), situando-se por Maio/Junho, após o tempo da tosquia que ocorria de finais de Março a princípio de Maio. Depois, iniciava-se o carmear, desenriçar ou desnovelar a lã, para a fiação e tecelagem.
Nas fainas entravam sempre as castanhas piladas (cruas ou cozidas). As castanhas piladas eram, no Portugal rural medievo e moderno, o que hoje é a gradura na alimentação. Por isso, causa-me algum incómodo ver, no site da Câmara Municipal de Mirandela, alguns vocábulos ou expressões serem tratados com ligeireza. Já referi noutros momentos que, por exemplo, os naturais do Regodeiro (Múrias), são «gateiros» (de rego de água) e não gaiteiros, como escreve o ilustre Abade de Baçal na sua obra monumental. Um erro ou uma gralha não passam disso, sejam cometidas por quem quer seja. Aliás, «só não erra quem não anda com as mãos na massa». Outro erro que pode levar à chacota é colocarem-se no brasão da freguesia de Caravelas quatro caravelas. Até o termo, «andas de lado como os de Caravelas», como me informou o amigo, Silvino Potêncio, nada tem a ver com o dar umas arrochadas ao asno.
Vou ter que corrigir esse dito e dar-lhe o sentido certo. O verso «de monte em monte» para «de monte a monte», da canção «Adeus ó Vale de Gouvinhas» deve ser corrigido pela Junta de Freguesia.
O site do município, a meu ver, precisa de uma revisão cuidada.
Jorge Lage
in:atelier.arteazul.net
Na quadra a seguir, do cancioneiro da castanha, trabalho que tenho em mãos para publicar:
«Quem me dera cá o Verão,
O tempo das carmiadas!
Queria dar ao meu amor
Quatro castanhas piladas.»
Destaco a palavra «carmiadas» que tem diversos significados exarados no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de José Pedro Machado): poderá ser um estado da Natureza que tem muitos frutos vermelhos (este tempo seria no Verão ou princípio do Outono).
O douto Frei Henrique Pinto Rema, da Academia de História, baseado no mesmo léxico, avançou-me com: «
A quadra foi recolhida, em Genísio (lá, uma senhora faz o melhor licor de cerejas que conheço) - Miranda do Douro, para o Cancioneiro Popular Trasmontano e Alto-duriense, de Guilherme Felgueiras, levando-me a trocar pontos de vista com o douto, António Bárbolo, de Picote, especialista em línguas minoritárias, dizendo-me não haver lá as tradicionais desfolhadas do milho, como soi no Minho e Douro Litoral. Então, «o tempo das carmiadas» leva-me a inclinar mais para o tratamento da lã (tosquia, lavagem, desenriço e farripagem), situando-se por Maio/Junho, após o tempo da tosquia que ocorria de finais de Março a princípio de Maio. Depois, iniciava-se o carmear, desenriçar ou desnovelar a lã, para a fiação e tecelagem.
Nas fainas entravam sempre as castanhas piladas (cruas ou cozidas). As castanhas piladas eram, no Portugal rural medievo e moderno, o que hoje é a gradura na alimentação. Por isso, causa-me algum incómodo ver, no site da Câmara Municipal de Mirandela, alguns vocábulos ou expressões serem tratados com ligeireza. Já referi noutros momentos que, por exemplo, os naturais do Regodeiro (Múrias), são «gateiros» (de rego de água) e não gaiteiros, como escreve o ilustre Abade de Baçal na sua obra monumental. Um erro ou uma gralha não passam disso, sejam cometidas por quem quer seja. Aliás, «só não erra quem não anda com as mãos na massa». Outro erro que pode levar à chacota é colocarem-se no brasão da freguesia de Caravelas quatro caravelas. Até o termo, «andas de lado como os de Caravelas», como me informou o amigo, Silvino Potêncio, nada tem a ver com o dar umas arrochadas ao asno.
Vou ter que corrigir esse dito e dar-lhe o sentido certo. O verso «de monte em monte» para «de monte a monte», da canção «Adeus ó Vale de Gouvinhas» deve ser corrigido pela Junta de Freguesia.
O site do município, a meu ver, precisa de uma revisão cuidada.
Jorge Lage
in:atelier.arteazul.net
Há novas regras para quem conduz tratores. Saiba o que tem de fazer.
Grande parte dos condutores de tratores e máquinas agrícolas vão ser obrigados a frequentar uma formação habilitante para poderem continuar a manobrar essas viaturas.
Por enquanto, a medida é apenas obrigatória para quem as conduz para trabalho por conta de outrem, mas em breve passará a sê-lo para todos aqueles que estão habilitados a conduzi-las unicamente através da carta de condução de veículos, como explica Abílio Gomes, da DRAPN (Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte).
“Vai passar a se obrigatória a formação para os condutores que, neste momento, estão habilitados a conduzir tratores através da carta de condução. Portanto, essa formação vai ser obrigatória para quem não tirou e não teve formação específica da área agrícola que o habilitasse à obtenção da licença de tratores que são designadas por I, II e III, em que esta última é para qualquer tipo de veículos agrícolas.
Já existe essa legislação por parte da ACT, falta só a parte do IMT que vai definir quem pode habilitar os condutores e como, assim como será feita a apresentação do documento legal quando for aprovado pelas autoridades.”
Uma medida que surge na tentativa de reduzir o número elevado de acidentes com tratores agrícolas em Portugal, que neste momento é 3º país da União Europeia onde a taxa de mortalidade é maior.
Bragança foi em 2017 o distrito que registou mais mortes em acidentes com tratores, com 10 vítimas, um número que se deve não só ao declive acentuado dos terrenos mas também ao excesso de confiança dos condutores, que por isso devem ser sensibilizados, como refere Luísa Guerreiro, Diretora da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) no Centro Local do Nordeste Transmontano.
“A culpa é dos terrenos que têm um declive muito elevado, do excesso de confiança, do nível etário dos trabalhadores e dos equipamentos que também já não são novos.
Esses condutores precisam ser sensibilizados para a utilização dos equipamentos de segurança. Os tratores têm o Arco de Santo António que raramente é utilizado porque os condutores dizem ser incómodo para a realização de determinadas tarefas como lavrar, por exemplo, castanheiros. Esses terrenos tem bastante declive e basta uma pedra para o trator cair. Têm também de ter muita atenção à manutenção e aos pneus.”
Declarações à margem do workshop Segurança na Agricultura – Prevenção dos Riscos Profissionais na utilização de Tratores e Máquinas Agrícolas que aconteceu a semana passada em Macedo de Cavaleiros.
Uma ação promovida pela ACT, DRAPN e pela Cooperativa Agrícola de Macedo de Cavaleiros, cujo presidente Luís Rodrigues destacou a importância destas ações para informar os agricultores sobre questões que ainda suscitam dúvidas.
“São importantes não só para chamar a atenção sobre as razões que levam ao capotamento mas também para esclarecer sobre a lei da obrigatoriedade das formações para os condutores de trator pois acho que há muitas questões mal explicadas que devem ser esclarecidas, e, para isso, nada melhor do que ouvir quem sabe e quem manda.”
Neste momento, já estão a decorrer formações habilitantes para condução de máquinas agrícolas, no entanto, ainda não há data definida para a entrada em vigor dessa obrigatoriedade.
A nova lei é destinada para condutores com carta da categoria B que pretendam conduzir veículos agrícolas da categoria II, condutores da categoria C, que pretendam conduzir veículos agrícolas da categoria II e III e condutores da categoria D, que pretendam conduzir veículos agrícolas da categoria II e III.
DECRETO-LEI.
Escrito por ONDA LIVRE
Por enquanto, a medida é apenas obrigatória para quem as conduz para trabalho por conta de outrem, mas em breve passará a sê-lo para todos aqueles que estão habilitados a conduzi-las unicamente através da carta de condução de veículos, como explica Abílio Gomes, da DRAPN (Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte).
“Vai passar a se obrigatória a formação para os condutores que, neste momento, estão habilitados a conduzir tratores através da carta de condução. Portanto, essa formação vai ser obrigatória para quem não tirou e não teve formação específica da área agrícola que o habilitasse à obtenção da licença de tratores que são designadas por I, II e III, em que esta última é para qualquer tipo de veículos agrícolas.
Já existe essa legislação por parte da ACT, falta só a parte do IMT que vai definir quem pode habilitar os condutores e como, assim como será feita a apresentação do documento legal quando for aprovado pelas autoridades.”
Uma medida que surge na tentativa de reduzir o número elevado de acidentes com tratores agrícolas em Portugal, que neste momento é 3º país da União Europeia onde a taxa de mortalidade é maior.
Bragança foi em 2017 o distrito que registou mais mortes em acidentes com tratores, com 10 vítimas, um número que se deve não só ao declive acentuado dos terrenos mas também ao excesso de confiança dos condutores, que por isso devem ser sensibilizados, como refere Luísa Guerreiro, Diretora da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) no Centro Local do Nordeste Transmontano.
“A culpa é dos terrenos que têm um declive muito elevado, do excesso de confiança, do nível etário dos trabalhadores e dos equipamentos que também já não são novos.
Esses condutores precisam ser sensibilizados para a utilização dos equipamentos de segurança. Os tratores têm o Arco de Santo António que raramente é utilizado porque os condutores dizem ser incómodo para a realização de determinadas tarefas como lavrar, por exemplo, castanheiros. Esses terrenos tem bastante declive e basta uma pedra para o trator cair. Têm também de ter muita atenção à manutenção e aos pneus.”
Declarações à margem do workshop Segurança na Agricultura – Prevenção dos Riscos Profissionais na utilização de Tratores e Máquinas Agrícolas que aconteceu a semana passada em Macedo de Cavaleiros.
Uma ação promovida pela ACT, DRAPN e pela Cooperativa Agrícola de Macedo de Cavaleiros, cujo presidente Luís Rodrigues destacou a importância destas ações para informar os agricultores sobre questões que ainda suscitam dúvidas.
“São importantes não só para chamar a atenção sobre as razões que levam ao capotamento mas também para esclarecer sobre a lei da obrigatoriedade das formações para os condutores de trator pois acho que há muitas questões mal explicadas que devem ser esclarecidas, e, para isso, nada melhor do que ouvir quem sabe e quem manda.”
Neste momento, já estão a decorrer formações habilitantes para condução de máquinas agrícolas, no entanto, ainda não há data definida para a entrada em vigor dessa obrigatoriedade.
A nova lei é destinada para condutores com carta da categoria B que pretendam conduzir veículos agrícolas da categoria II, condutores da categoria C, que pretendam conduzir veículos agrícolas da categoria II e III e condutores da categoria D, que pretendam conduzir veículos agrícolas da categoria II e III.
DECRETO-LEI.
Escrito por ONDA LIVRE
Autarcas do Norte contestam retirada de 220 milhões de euros de fundos comunitários da região
Os municípios do Norte estão contra a intenção do governo de retirar à região 220 milhões de euros do FEDER do Programa Operacional do Norte para outros programas de âmbito nacional. O conselho regional do Norte, que reúne autarcas do norte e outras entidades e funciona como conselho consultivo da CCDRN, aprovou uma proposta que rejeita esta hipótese.
Nas negociações no âmbito da reprogramação dos fundos comunitários, os autarcas foram surpreendidos com esta retirada de verbas do PO Norte, que segundo Berta Nunes, presidente do município de Alfândega da Fé, prejudica a zona Norte.
“Foi-nos dito que havia uma orientação recente da parte do conselho que trata destas questões e da secretaria de Estado de desenvolvimento e coesão para que mais de 200 milhões de euros de FEDER do PO regional transitassem para o COMPETE, que é um programa nacional que não gerimos, não é transparente, porque nem sequer sabemos onde os dinheiros estão a ser aplicados do ponto de vista da desagregação por NUTs. É um PO nacional da competitividade dirigida às empresas que achamos que é importante mas que não podemos aceitar que venha buscar 200 milhões de euros às políticas regionais, porque isso prejudica a zona norte”, destacou.
Berta Nunes explica ainda que os fundos serviriam para projectos de reabilitação urbana, apoio ao emprego, à cultura e investimento em equipamentos sociais, cujas candidaturas ainda não aprovadas ficariam sem financiamento. A alternativa apresentada não vai ao encontro das expectativas dos municípios do norte.
“Em contrapartida iríamos receber 200 milhões do Fundo Social Europeu, que não seria utilizado pelas autarquias e empresa da zona norte, mas pelo ministérios da educação”, destacou.
Também Benjamim Rodrigues, presidente do município de Macedo de Cavaleiros, que marcou presença na reunião explica que foi com surpresa que receberam a notícia e entende que a medida agravaria as desigualdades no país.
“Pensávamos que ia haver uma reprogramação no sentido de favorecimento da região norte e chegamos à triste conclusão que vai haver sim uma re-alocação de verbas do FEDER e vão ser retiradas ao total do que teríamos de investir daqui até ao final do programa. Isso causou uma consternação muita grande junto dos presidentes de câmara do norte, porque isto ainda causa muita desigualdade, porque já temos pouco para investir e retirando esses 220 milhões ainda ficamos mais limitados”, considera.
A proposta de rejeição desta intenção de retirada de fundos do FEDER no Norte vai agora ser enviada ao Governo.
Escrito por Brigantia
Olga Telo Cordeiro
Nas negociações no âmbito da reprogramação dos fundos comunitários, os autarcas foram surpreendidos com esta retirada de verbas do PO Norte, que segundo Berta Nunes, presidente do município de Alfândega da Fé, prejudica a zona Norte.
“Foi-nos dito que havia uma orientação recente da parte do conselho que trata destas questões e da secretaria de Estado de desenvolvimento e coesão para que mais de 200 milhões de euros de FEDER do PO regional transitassem para o COMPETE, que é um programa nacional que não gerimos, não é transparente, porque nem sequer sabemos onde os dinheiros estão a ser aplicados do ponto de vista da desagregação por NUTs. É um PO nacional da competitividade dirigida às empresas que achamos que é importante mas que não podemos aceitar que venha buscar 200 milhões de euros às políticas regionais, porque isso prejudica a zona norte”, destacou.
Berta Nunes explica ainda que os fundos serviriam para projectos de reabilitação urbana, apoio ao emprego, à cultura e investimento em equipamentos sociais, cujas candidaturas ainda não aprovadas ficariam sem financiamento. A alternativa apresentada não vai ao encontro das expectativas dos municípios do norte.
“Em contrapartida iríamos receber 200 milhões do Fundo Social Europeu, que não seria utilizado pelas autarquias e empresa da zona norte, mas pelo ministérios da educação”, destacou.
Também Benjamim Rodrigues, presidente do município de Macedo de Cavaleiros, que marcou presença na reunião explica que foi com surpresa que receberam a notícia e entende que a medida agravaria as desigualdades no país.
“Pensávamos que ia haver uma reprogramação no sentido de favorecimento da região norte e chegamos à triste conclusão que vai haver sim uma re-alocação de verbas do FEDER e vão ser retiradas ao total do que teríamos de investir daqui até ao final do programa. Isso causou uma consternação muita grande junto dos presidentes de câmara do norte, porque isto ainda causa muita desigualdade, porque já temos pouco para investir e retirando esses 220 milhões ainda ficamos mais limitados”, considera.
A proposta de rejeição desta intenção de retirada de fundos do FEDER no Norte vai agora ser enviada ao Governo.
Escrito por Brigantia
Olga Telo Cordeiro
Algoso celebra sábado de Aleluia com cerimónias religiosas e com mercado medieval
Algoso, no concelho de Vimioso, comemorou anteontem o sábado de aleluia, celebrações tradicionais a que juntou um mercado medieval.
A ideia foi aliar o religioso e o profano, como explica a presidente da União de Freguesias de Algoso, campo de víboras e Uva, Cristina Miguel Rodrigues.
“A tradição é ir ao castelo e desde o ano passado havia a cerimónia religiosa na igreja, a aspersão do povo e a bênção da água, este ano quisemos dar mais solenidade ao acto e associamos à parte religiosa um Mercado Medieval, temos um castelo medieval, a aldeia tem um património histórico riquíssimo”, destacou.
Durante o dia houve animação musical e de rua, um encenação teatral da Lenda do Crocodilo do castelo de Algoso, para além de passeios de charrete e jogos tradicionais.
Os cerca de 40 expositores que participaram no primeiro mercado medieval de Algoso fazem um balanço positivo da iniciativa. Joana Martins, que vive em Duas Igrejas, Miranda do Douro, faz produtos de cosmética natural com plantas locais.
“O que eu faço vai ao encontro do que estavam a pedir na feira, cremes, bálsamos pomadas para dores musculares, tinturas e champôs. Está a correr bem, abrange tanto homens como mulheres, como produtos para crianças, as pessoas interessam-se em comprar”, explicou.
Algoso celebrou a Páscoa com a tradição religiosa aliada ao profano, que terminou com uma procissão até ao castelo e um espectáculo de luz e cor no monumento do século XII.
Escrito por Brigantia
Olga Telo Cordeiro
A ideia foi aliar o religioso e o profano, como explica a presidente da União de Freguesias de Algoso, campo de víboras e Uva, Cristina Miguel Rodrigues.
“A tradição é ir ao castelo e desde o ano passado havia a cerimónia religiosa na igreja, a aspersão do povo e a bênção da água, este ano quisemos dar mais solenidade ao acto e associamos à parte religiosa um Mercado Medieval, temos um castelo medieval, a aldeia tem um património histórico riquíssimo”, destacou.
Durante o dia houve animação musical e de rua, um encenação teatral da Lenda do Crocodilo do castelo de Algoso, para além de passeios de charrete e jogos tradicionais.
Os cerca de 40 expositores que participaram no primeiro mercado medieval de Algoso fazem um balanço positivo da iniciativa. Joana Martins, que vive em Duas Igrejas, Miranda do Douro, faz produtos de cosmética natural com plantas locais.
“O que eu faço vai ao encontro do que estavam a pedir na feira, cremes, bálsamos pomadas para dores musculares, tinturas e champôs. Está a correr bem, abrange tanto homens como mulheres, como produtos para crianças, as pessoas interessam-se em comprar”, explicou.
Algoso celebrou a Páscoa com a tradição religiosa aliada ao profano, que terminou com uma procissão até ao castelo e um espectáculo de luz e cor no monumento do século XII.
Escrito por Brigantia
Olga Telo Cordeiro
Festa da Bola Doce promoveu doce caraterístico cada vez mais apreciado
A festa da Bola Doce e dos Produtos da Terra, que aconteceu entre quinta e sábado, levou muitos visitantes a Miranda do Douro para apreciar a doçaria da Páscoa.
O presidente do Município de Miranda, Artur Nunes, destaca a importância de esta festa existir nesta altura.
“Cada vez havia menos gente a fazer e quisemos lançar esta festa da Bola Doce porque é uma forma de as pessoas poderem começar a vender, incentivar a produção para que se faça durante todo o ano e que os filhos da terra continuem a degustar estes produtos tradicionais da Páscoa”, destacou.
O certame que vai na 5.ª edição tem levado a que o produto único seja cada vez mais procurado. Esta é uma altura em que os filhos da terra regressam mas há também muitos turistas que apreciam os sabores tradicionais da Páscoa.
“Aproveitamos as féria para conviver e estes eventos para conhecer a nossa interioridade”, afirmou uma visitante.
No certame, que decorreu entre quinta-feira e sábado, no largo do Castelo de Miranda do Douro, estiveram em destaque os sabores tradicionais da Páscoa, em particular a bola doce.
Escrito por Brigantia
O presidente do Município de Miranda, Artur Nunes, destaca a importância de esta festa existir nesta altura.
“Cada vez havia menos gente a fazer e quisemos lançar esta festa da Bola Doce porque é uma forma de as pessoas poderem começar a vender, incentivar a produção para que se faça durante todo o ano e que os filhos da terra continuem a degustar estes produtos tradicionais da Páscoa”, destacou.
O certame que vai na 5.ª edição tem levado a que o produto único seja cada vez mais procurado. Esta é uma altura em que os filhos da terra regressam mas há também muitos turistas que apreciam os sabores tradicionais da Páscoa.
“Aproveitamos as féria para conviver e estes eventos para conhecer a nossa interioridade”, afirmou uma visitante.
No certame, que decorreu entre quinta-feira e sábado, no largo do Castelo de Miranda do Douro, estiveram em destaque os sabores tradicionais da Páscoa, em particular a bola doce.
Escrito por Brigantia
Jogos Salesianos promovem valores, tradições e culturas em Mirandela
A iniciativa vai levar a Mirandela mais de três mil pessoas, entre atletas, acompanhantes e voluntários. Promoção da prática desportiva, educação para a saúde, interculturalidade e educação para os valores são os objetivos dos Jogos que se realizam há 25 anos.
A cidade de Mirandela vai acolher a 26.ª edição dos Jogos Nacionais Salesianos. Na iniciativa, que vai decorrer entre 27 de abril e 1 de maio, são esperadas cerca de três mil pessoas na cidade do Tua: 1.650 atletas/treinadores/animadores, mil acompanhantes e 250 voluntários, que vão apoiar na logística do evento.
A prática desportiva, a educação para a saúde, a interculturalidade e a educação para os valores são os objetivos centrais dos Jogos Nacionais Salesianos, que se realizam há 25 anos.
“Vemos estes jogos como um espaço de promoção de relações”, afirma o diretor da presença Salesiana em Mirandela, padre Paulo Pinto, realçando que a edição de Mirandela quer promover os valores da vida, da reconciliação e da paz”.
As competições desportivas ocorrem em vários escalões, nas modalidades de futsal, basquetebol, voleibol, karaté, ténis de mesa, natação e xadrez e são também um meio de evangelização.
“Não pensamos a nossa intervenção junto dos mais novos de outra forma que não seja evangelizar”, afirma o padre Paulo, recordando que D. Bosco, fundador dos Salesianos, “dizia que todo o trabalho que nós devemos aos jovens é para que eles possam chegar a ser honrados cidadãos, bons cristãos”.
“Entendemos que estas duas coisas não estão dissociadas, não há uma privatização destas coisas, mas bons cidadãos, porque com valores e empenhados naquilo que nós chamamos a caridade pastoral”, realça o diretor da Presença Salesiana.
Os jogos Salesianos querem também promover os territórios, as tradições e as culturas das cidades anfitriãs. As delegações participantes chegam de todo o país e também de Cabo Verde, “trazem os seus valores culturais mas, essencialmente, levam as vivências do local que os acolhe, neste caso Mirandela”, acrescenta o padre Paulo Pinto.
“A cidade está preparada, é acolhedora e com potencialidades turísticas muito fortes”
O município de Mirandela assumiu-se como entidade co-promotora dos jogos e está a preparar a cidade para o evento que, durante uma semana, aumenta a sua população em quase 30%.
“É uma excelente iniciativa, um orgulho muito grande receber os jovens e os seus familiares”, refere a presidente da autarquia, Júlia Rodrigues, realçando o “orgulho de ter em Mirandela a casa dos Salesianos há muitos anos, uma casa que faz parte da cidade e dos seus valores, muito interventiva a nível da nossa comunidade, e que acompanha o crescimento de muitos jovens”.
A Câmara Municipal preparou um pacote de iniciativas, um programa social e promocional, para proporcionar aos visitantes a oportunidade de realizarem visitas guiadas a diversos monumentos como o Palácio dos Távoras, a Igreja da Misericórdia, a Muralha – Arco de Stº António, a Ponte Medieval, o Museu Municipal Armindo Teixeira Lopes, o Museu da Oliveira e do Azeite, roteiros turísticos e culturais que permitem conhecer o concelho de Mirandela, e muita animação de rua, com iniciativas várias no Parque do Império.
A presidente da autarquia, Júlia Rodrigues, diz que “a cidade está preparada, é acolhedora e com potencialidades turísticas muito fortes” e quer mostrar o território para que “as pessoas que nos visitam regressem de novo”.
Os jogos nacionais Salesianos são reuniões desportivas conforme o ideal educativo de D. Bosco que via no desporto uma fonte de equilíbrio e que oferecia aspetos específicos importantes para a formação integral dos jovens, mas também de interação entre os participantes e fomento das relações pessoais, convívio, partilha e amizade.
Olímpia Mairos
Rádio Renascença
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| Foto: Olímpia Mairos |
A prática desportiva, a educação para a saúde, a interculturalidade e a educação para os valores são os objetivos centrais dos Jogos Nacionais Salesianos, que se realizam há 25 anos.
“Vemos estes jogos como um espaço de promoção de relações”, afirma o diretor da presença Salesiana em Mirandela, padre Paulo Pinto, realçando que a edição de Mirandela quer promover os valores da vida, da reconciliação e da paz”.
As competições desportivas ocorrem em vários escalões, nas modalidades de futsal, basquetebol, voleibol, karaté, ténis de mesa, natação e xadrez e são também um meio de evangelização.
“Não pensamos a nossa intervenção junto dos mais novos de outra forma que não seja evangelizar”, afirma o padre Paulo, recordando que D. Bosco, fundador dos Salesianos, “dizia que todo o trabalho que nós devemos aos jovens é para que eles possam chegar a ser honrados cidadãos, bons cristãos”.
“Entendemos que estas duas coisas não estão dissociadas, não há uma privatização destas coisas, mas bons cidadãos, porque com valores e empenhados naquilo que nós chamamos a caridade pastoral”, realça o diretor da Presença Salesiana.
Os jogos Salesianos querem também promover os territórios, as tradições e as culturas das cidades anfitriãs. As delegações participantes chegam de todo o país e também de Cabo Verde, “trazem os seus valores culturais mas, essencialmente, levam as vivências do local que os acolhe, neste caso Mirandela”, acrescenta o padre Paulo Pinto.
“A cidade está preparada, é acolhedora e com potencialidades turísticas muito fortes”
O município de Mirandela assumiu-se como entidade co-promotora dos jogos e está a preparar a cidade para o evento que, durante uma semana, aumenta a sua população em quase 30%.
“É uma excelente iniciativa, um orgulho muito grande receber os jovens e os seus familiares”, refere a presidente da autarquia, Júlia Rodrigues, realçando o “orgulho de ter em Mirandela a casa dos Salesianos há muitos anos, uma casa que faz parte da cidade e dos seus valores, muito interventiva a nível da nossa comunidade, e que acompanha o crescimento de muitos jovens”.
A Câmara Municipal preparou um pacote de iniciativas, um programa social e promocional, para proporcionar aos visitantes a oportunidade de realizarem visitas guiadas a diversos monumentos como o Palácio dos Távoras, a Igreja da Misericórdia, a Muralha – Arco de Stº António, a Ponte Medieval, o Museu Municipal Armindo Teixeira Lopes, o Museu da Oliveira e do Azeite, roteiros turísticos e culturais que permitem conhecer o concelho de Mirandela, e muita animação de rua, com iniciativas várias no Parque do Império.
A presidente da autarquia, Júlia Rodrigues, diz que “a cidade está preparada, é acolhedora e com potencialidades turísticas muito fortes” e quer mostrar o território para que “as pessoas que nos visitam regressem de novo”.
Os jogos nacionais Salesianos são reuniões desportivas conforme o ideal educativo de D. Bosco que via no desporto uma fonte de equilíbrio e que oferecia aspetos específicos importantes para a formação integral dos jovens, mas também de interação entre os participantes e fomento das relações pessoais, convívio, partilha e amizade.
Olímpia Mairos
Rádio Renascença
Compasso pascal. Tradição cristã cumpre-se em Bragança
O compasso Pascal é uma tradição que se cumpre nesta época. Em todo o país, as famílias abrem as portas para receber a bênção e beijar a cruz.
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"Uma Casa nas Ruas" - Parte VI
Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Começar do Zero
Acordou sobressaltado. Tinha caído do colchão. Ainda bem que não era uma cama. Já dormia no chão embrulhado em cartões há tantos anos, que uma coisa tão macia como um colchão de molas cansado, era demasiado luxuoso.
Era dia, a luz escoava-se pelos intervalos das tábuas da porta apodrecida e ele conseguiu apreciar melhor o seu improvisado quarto de dormir. Uma velha charrua, vários apetrechos de lavoura, uma pipa arruinada, as paredes de um antigo lagar. Ainda estava tudo mais ou menos como se lembrava, mas havia ali mais tralhas do que antes. Aquilo fora o local onde o seu avô abrigava o burro nos últimos tempos, mas também fora lagar e adega, quando os três ou quatro hectares do terreno das traseiras ainda lhes pertencia. A pequena quinta, fora vendida quase na totalidade pelo pai, apesar de ser herança da Maria da Luz e não sua. Por isso lhe chamavam o João “da Quinta”, desde que casara com a proprietária. O pai dela, já velho, achou que a deixava bem, entregue a um dos trabalhadores da propriedade, mas estava enganado. Enquanto houve coisas para vender e a mulher se não opôs, tudo desapareceu. De todos os terrenos que possuíam na aldeia, inclusive a pequena quinta por trás da casa, restou apenas a própria habitação e um pouco de quintal. Quando ela se recusou a pactuar com ele, começaram os problemas. Xico soube tudo o que se passara muito mais tarde, já adulto, mas não foi por isso que fez a vida de sua mãe mais fácil.
Saiu do compartimento armado com um arame grosso, pestanejou com o sol forte e dirigiu-se às escadas que acompanhavam a fachada lateral até à entrada principal. Um enorme melro esvoaçou, grasnando de indignação, do desprezado canteiro ao lado da porta. Depois de um pequeno estudo, “trabalhou” a fechadura, que não era das mais complexas e soltou uma exclamação de triunfo quando conseguiu abri-la.
Entrou no compartimento que fazia as vezes de cozinha e receção. Raios de luz caíam obliquamente através das frestas das portadas. As lembranças daquela área espaçosa. Sentado no chão a brincar, enquanto a mãe cantarolava, a acompanhar as canções do radio e costurava. Lá fora a chuva caía abundantemente e do quarto, ouvia-se o roncar embriagado do pai. Noutra altura, os pais batiam-se, estalada um, murro outro, até ela lhe bater com uma frigideira que estava ao lume. Ele ficou com queimaduras na cara e nas mãos, ela também, mas acabou ali a “guerra” e ela ajudou-o a pôr um pouco de banha para reduzir a dor. No outro dia o pai foi-se embora.
Com o estômago a rugir, rebuscou os armários e a dispensa, encontrou umas latas de atum, outras de feijão, dois pacotes de leite inchados, prestes a rebentar e um resto de cereais bafientos num saco de plástico.
Abriu uma das latas de feijão e comeu, com uma colher tirada da gaveta, que simplesmente limpou nas calças imundas. O prazo de validade da conserva passara há cerca de dois anos, mas ele não se preocupou.
A garrafa do gás, junto do fogão, ainda tinha algum combustível e a água e a luz não tinham sido cortadas. A irmã devia pensar voltar… mas se calhar ainda não tivera coragem.
Com um bocado de sabão e uma faca de cozinha barbeou-se o melhor que pôde, terminando com poucos cortes e finalizou com um banho quente.
Sentindo-se novo, foi ao seu quarto. A cama estava apenas com uma coberta, cinzenta pelo pó, mas na arca aos pés do leito, estavam muitas das suas antigas roupas. A mãe sabia que ele haveria de voltar. Não imaginava é que nessa altura tudo lhe estaria largo… e ela não estaria cá para ver.
Olhou-se ao espelho e achou que tivera saudades daquele Xico… estava na hora de o trazer de volta. Estava em casa, na sua casa.
Saiu, senhor de si, com um casaco de cabedal preto, coçado. Do alto da laranjeira rodeada de erva, o melro grasnou a sua revolta por ver o seu lugar profanado, mas ele não lhe ligou e foi à mercearia, contando o dinheiro que tinha consigo. Pelo caminho encontrou algumas mulheres idosas que reconheceu, mas elas olharam-no com curiosidade, sem perceber de quem se tratava.
Afastou as fitas e entrou na taberna/mercearia do Resende. O cheiro a vinho, alho e carnes fumadas era o mesmo de que se lembrava, mas as velhas mesas de madeira e bancos corridos foram substituídas por quatro mesas das mais baratas e respetivas cadeiras. O grande balcão de madeira de onde se servia tanto o copo de tinto, como um quilo de arroz, transformara-se agora num simples balcão com decorações em plástico e tampo em inox. Rematava um expositor refrigerado, onde estavam expostas algumas peças de carne. A luz fluorescente iluminava todo o espaço, mostrando as paredes pintadas a verde há pouco e um mata-moscas de luz azul crepitava a espaços, sempre que uma “atrevida” ia espreitar mais perto. Por trás do balcão, um homem gordo e quase calvo, de olhos pequenos e bochechas caídas, olhava-o desconfiado.
— És tu, Manel? — Perguntou Xico, surpreso.
— Xico? — O gordo franziu ainda mais o sobrolho, enquanto saía de trás do balcão. — Vejam lá o que o “vento do Diabo” haveria de trazer!
— Então? — Sentiu-se ofendido. — É assim que recebes os amigos?
— Amigos é? — Respondeu o merceeiro, sardónico. — Os amigos não roubam os amigos, já te esqueceste das coisas que fizeste por cá? Roubaste o dinheiro da caixa ao meu pai!
— Eh pá, Manel, eram outros tempos, desculpa. — O recém chegado recriminou-se. — Coisas de canalha, sabes que eu andava sempre metido em trabalhos.
— Tu andavas? A tua mãe é que levava sempre por tabela. Primeiro era o teu pai e depois tu!
— Pois, era, pobre mulher não merecia o que a fiz passar. — Ele baixou os olhos, contristado.
— Sabes que o meu pai só não apresentou queixa de ti na policia por causa dela? E o que teve de aturar da minha mãe! — Havia uma entoação de desprezo na voz do ex-amigo. — Mas ele tinha pena dela, que ficou a trabalhar a dobrar para pagar o ouro que roubaste à Lucinda da Igreja… — Como o outro, de olhos postos no chão, já não respondia, ele continuou. — E agora que vens cá “cheirar”? Vens apanhar mais umas notas “distraídas” agora que a velha morreu, só podes “chular” os outros.
— Eu… — A frase iniciou-se com um falsete. — … quero comprar umas coisas. Estou a pensar ficar aqui por uns tempos.
— Bem, já vi que temos todos que manter as portas bem fechadas…
— Acho que já chega dessa conversa. — Xico endureceu o tom. — Já te disse que esses tempos passaram, fiz muitas asneiras eu sei, mas não posso fazer nada para que o que fiz nunca tivesse acontecido. Posso devolver o dinheiro do teu pai, uma merdice de cento e poucos euros, não agora, mas em breve. Assim que arranjar um trabalhito por aí.
— Achas que o problema é o dinheiro? Então não aprendeste nada. — Manuel pôs as mãos na cinta e depois abriu os braços a abarcar o espaço comercial. — Olha para isto! Achas que o dinheiro que roubaste fez assim tanta falta? Foi a vergonha por que fizeste passar a tua mãe, o abuso da confiança do meu pai e o desprezo pela nossa amizade! Parece-te pouco?
— Eu sei, percebo. — Começava a sentir-se a mais abjeta das criaturas. — Mas como te disse não posso desfazer o que está feito, apenas garantir-te que não volta a acontecer. Eu mudei, passei por muito nestes últimos tempos.
— Isso, só o tempo o dirá. Mas digo-te uma coisa: vou atender-te e vender o que precisas, mas só porque ainda guardo um pouco da nossa amizade, senão tinhas que ir buscar as merdas a Castro Daire, porque aqui, não há mais sítio nenhum onde comprar nada.
Xico tentou apertar-lhe a mão, mas o gordo voltou-lhe as costas e regressou para trás do balcão, de onde o olhou com o ar de “merceeiro que aguarda os pedidos do cliente.
Na verdade, aquele homem balofo, que acabara de lhe dar tal lição de moral, não era o mesmo Manel, companheiro de infância e de patifarias, da sua juventude. Esse, foi ressurgindo nos minutos seguintes enquanto aviava os pedidos e ia respondendo às perguntas do amigo.
Em pouco tempo já estavam os dois sentados a uma das mesas a tomar café e a rir das patifarias da juventude.
Ali soube que quase todos os da sua idade haviam saído da aldeia, uns mudaram-se para a sede do concelho, outros para as cidades do litoral, outros ainda para França ou Inglaterra. Praticamente só restavam dois, ele, o Manel da mercearia e o Zé ferreiro, que não estava bom da cabeça. Contou-lhe como o Zé, que também herdara o negócio do pai, por isso não emigrara, perdeu tudo num incêndio que lhe levou, não só os bens, como a mãe, a mulher e uma filha. Ele próprio ficara muito queimado e esteve muito tempo no hospital. Quando regressou, ficou a viver na casa semi arruinada, que nunca restaurou e ia fazendo uns trabalhos de ferreiro, se havia… ou lhe apetecia.
De repente assomou, à porta por trás do balcão, um rosto feminino que Xico reconheceu. Era Natália, a “apaixonada” de Manuel, pelos vistos sempre ficaram juntos.
— Manel! — O rosto gorducho estava zangado. — Não te pedi já que viesses ver aquela torneira da maquina de lavar? Agora rebentou o tubo e está a inundar a lavandaria! Anda, depressa, deixa-te de conversa!
Ela não o reconheceu, ou se o fez, ignorou-o ou não tinha vontade de falar com ele… nem ele com ela. De resto, sempre fora uma emproada, que se achava mais importante e rica do que realmente era. Não foi muito longe, se se deixou ficar por cá e casar com o merceeiro da terra.
O visado fez um sorriso triste para o amigo e murmurou um “Tenho que ir”, em conjunto com o encolher de ombros, antes de abandonar o estabelecimento, ao homem que era um ladrão confesso.
Xico pegou no saco com as compras que pagara e regressou a casa.
Passou o resto da manhã a limpar o quarto onde pretendia dormir e a cozinha, livrando-os do pó e tornando a casa menos assombrada. Depois de almoço, decidiu regressar às traseiras da casa e ao quintal abandonado. O melro estava agora em cima da ramada de videiras esqueléticas e fugiu, fazendo-lhe um voo rasante, frente aos olhos, enquanto grasnava zangado com o intruso. “Pássaro estúpido.”, sentenciou.
Encontrou uma sachola, uma pá e vários outros utensílios que, embora com alguma ferrugem, serviriam para o efeito que pretendia. Parou, apoiado no cabo da sachola a olhar para o extenso quintal coberto de ervas e silvas. Suspirou, quase desanimado, mas aquele quintal, devidamente arranjado, daria umas boas sacas de batatas; teria mais alimento e ainda ganharia mais uns euros.
Arregaçou as mangas e deu a primeira sacholada na terra, depois outra e ainda outra. Estava a dar inicio a uma nova vida.
O melro plantara-se num sebe em frente ao trabalhador e emitia assobios, por vezes parecia até cantar uma música de uma publicidade conhecida. De todas as formas não o incomodava, antes o distraía, enquanto revolvia diligentemente a terra onde iria plantar as batatas.
De repente o pássaro preto calou-se e Xico, de cabeça baixa, não se apercebeu da presença do intruso antes de ver as botas de trabalho, femininas e seguir as pernas para cima, passando pelas coxas e ancas bem delineadas até ao tronco forte, envolto por uma camisola de algodão bem recheada com peitos generosos. Todo o conjunto era encimado por um rosto moreno, envolto em cabelo aos cachos e decorado com uns olhos escuros e vivos, um nariz pequeno e afilado e uma boca pequena moldada num sorriso trocista. Estava mais velha, o rosto queimado do sol e as rugas nos cantos dos olhos, mas Maria Alice continuava uma bela mulher, que ele nunca percebera o que vira nele.
— Não queria acreditar quando me disseram que tinhas voltado. — Ela atirou-lhe secamente, com as mãos na cinta, numa óbvia pose de desafio. — Serias capaz de te “abancares” por aqui sem ao menos me ir visitar?
— Agora nunca o saberemos, não é? — Ele sorriu, com a transpiração a escorrer no rosto sujo de terra.
— Nunca pensei voltar a ver-te a trabalhar… no duro pelo menos.
— Também gosto muito de te ver. — Retorquiu, irónico. — Estás muito bem, a vida no campo faz-te mais jovem.
— Bem, — Ela desviou o olhar enquanto o provocava. — o trabalhador veio, o mentiroso pelos vistos também. Quantas dessas personalidades, que trazes dentro de ti, vieram contigo? Está aí o ladrão também?
— Não achas que estás a ser um bocadinho dura comigo?
— Dura? Ainda não viste da missa a metade! Não foste tu que foste deixada como um trapo velho que usaste para te limpares. Depois de tantas promessas e tantas ideias, o que é que fizeste? Foste para a tropa, sem te despedires, roubaste meio mundo por aqui e nunca mais ninguém ouviu falar de ti.
Ele não respondeu e recomeçou a cavar a terra.
— Sabes porque é que estou aqui a falar contigo, em vez de trazer a caçadeira do meu pai e deixar-te aí estendido? — Insistiu ela. — Porque, apesar de ser uma labregazita ingénua, o respeito e o medo dos meus pais eram superiores à vontade que tinha de me entregar a ti.
— Não te deste muito mal. Breve casaste com o filho do barbeiro, segundo eu sei. — Atacou ele sem interromper o trabalho.
— E que querias que fizesse nesta terra de m**? Depois de andarmos para aí a lambuzar-nos, tu foste embora e eu ficava aqui como a “gaja que o outro não quis”? Era isso? Cair nas bocas do mundo e ficar aí solteirona? Querias isso? Alguma vez me mandaste dizer uma palavra que fosse?
Sem conseguir articular palavra, ele dedicou-se com mais afinco a cada uma das cavadelas.
— Que raios estás a tentar fazer aí, de qualquer forma? — Rita mostrou-se intrigada.
— Vou plantar batatas! — Afirmou ufano.
— Palerma… — Ela censurou com um sorriso trocista. — As batatas são em Março, agora só couves e cebolas. — Virou-lhe as costas e começou a afastar-se. — Quando acabares a escava passa lá em casa, arranjo-te umas sementes.
— E o teu marido? Não se vai importar? — Inquiriu Xico.
— O meu marido morreu há três anos! — Respondeu ela já na estrada.
Ninguém naquela aldeia estava contente com o seu regresso, exceto talvez a Maria Alice. Ele nunca se esqueceu dela e sempre se sentiu intimidado junto dela. Ficou a vê-la afastar-se, uma mulher bem feita, inteligente e viúva… o melro soltou o que pareceu uma gargalhada.
— Que foi, pássaro estúpido? — Atirou-lhe um torrão que o fez esvoaçar para longe.
— Xico? — A voz masculina, por trás dele, surpreendeu-o. Voltou-se para deparar com um homem quase careca e com o rosto deformado numa queimadura extensa. — Sou o Zé… o ferreiro…
— Zé! — Exclamou com legitima felicidade, após o espanto inicial causado pelos estragos no rosto do amigo. — Ainda há pouco falamos de ti!
— Eu sei, foi o Manel quem me avisou que estavas cá e mandou isto. — Ergueu duas garrafas de cerveja. — Quer que brindemos à nossa infância, mas disse que continua zangado contigo.
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Começar do Zero
Acordou sobressaltado. Tinha caído do colchão. Ainda bem que não era uma cama. Já dormia no chão embrulhado em cartões há tantos anos, que uma coisa tão macia como um colchão de molas cansado, era demasiado luxuoso.
Era dia, a luz escoava-se pelos intervalos das tábuas da porta apodrecida e ele conseguiu apreciar melhor o seu improvisado quarto de dormir. Uma velha charrua, vários apetrechos de lavoura, uma pipa arruinada, as paredes de um antigo lagar. Ainda estava tudo mais ou menos como se lembrava, mas havia ali mais tralhas do que antes. Aquilo fora o local onde o seu avô abrigava o burro nos últimos tempos, mas também fora lagar e adega, quando os três ou quatro hectares do terreno das traseiras ainda lhes pertencia. A pequena quinta, fora vendida quase na totalidade pelo pai, apesar de ser herança da Maria da Luz e não sua. Por isso lhe chamavam o João “da Quinta”, desde que casara com a proprietária. O pai dela, já velho, achou que a deixava bem, entregue a um dos trabalhadores da propriedade, mas estava enganado. Enquanto houve coisas para vender e a mulher se não opôs, tudo desapareceu. De todos os terrenos que possuíam na aldeia, inclusive a pequena quinta por trás da casa, restou apenas a própria habitação e um pouco de quintal. Quando ela se recusou a pactuar com ele, começaram os problemas. Xico soube tudo o que se passara muito mais tarde, já adulto, mas não foi por isso que fez a vida de sua mãe mais fácil.
Saiu do compartimento armado com um arame grosso, pestanejou com o sol forte e dirigiu-se às escadas que acompanhavam a fachada lateral até à entrada principal. Um enorme melro esvoaçou, grasnando de indignação, do desprezado canteiro ao lado da porta. Depois de um pequeno estudo, “trabalhou” a fechadura, que não era das mais complexas e soltou uma exclamação de triunfo quando conseguiu abri-la.
Entrou no compartimento que fazia as vezes de cozinha e receção. Raios de luz caíam obliquamente através das frestas das portadas. As lembranças daquela área espaçosa. Sentado no chão a brincar, enquanto a mãe cantarolava, a acompanhar as canções do radio e costurava. Lá fora a chuva caía abundantemente e do quarto, ouvia-se o roncar embriagado do pai. Noutra altura, os pais batiam-se, estalada um, murro outro, até ela lhe bater com uma frigideira que estava ao lume. Ele ficou com queimaduras na cara e nas mãos, ela também, mas acabou ali a “guerra” e ela ajudou-o a pôr um pouco de banha para reduzir a dor. No outro dia o pai foi-se embora.
Com o estômago a rugir, rebuscou os armários e a dispensa, encontrou umas latas de atum, outras de feijão, dois pacotes de leite inchados, prestes a rebentar e um resto de cereais bafientos num saco de plástico.
Abriu uma das latas de feijão e comeu, com uma colher tirada da gaveta, que simplesmente limpou nas calças imundas. O prazo de validade da conserva passara há cerca de dois anos, mas ele não se preocupou.
A garrafa do gás, junto do fogão, ainda tinha algum combustível e a água e a luz não tinham sido cortadas. A irmã devia pensar voltar… mas se calhar ainda não tivera coragem.
Com um bocado de sabão e uma faca de cozinha barbeou-se o melhor que pôde, terminando com poucos cortes e finalizou com um banho quente.
Sentindo-se novo, foi ao seu quarto. A cama estava apenas com uma coberta, cinzenta pelo pó, mas na arca aos pés do leito, estavam muitas das suas antigas roupas. A mãe sabia que ele haveria de voltar. Não imaginava é que nessa altura tudo lhe estaria largo… e ela não estaria cá para ver.
Olhou-se ao espelho e achou que tivera saudades daquele Xico… estava na hora de o trazer de volta. Estava em casa, na sua casa.
Saiu, senhor de si, com um casaco de cabedal preto, coçado. Do alto da laranjeira rodeada de erva, o melro grasnou a sua revolta por ver o seu lugar profanado, mas ele não lhe ligou e foi à mercearia, contando o dinheiro que tinha consigo. Pelo caminho encontrou algumas mulheres idosas que reconheceu, mas elas olharam-no com curiosidade, sem perceber de quem se tratava.
Afastou as fitas e entrou na taberna/mercearia do Resende. O cheiro a vinho, alho e carnes fumadas era o mesmo de que se lembrava, mas as velhas mesas de madeira e bancos corridos foram substituídas por quatro mesas das mais baratas e respetivas cadeiras. O grande balcão de madeira de onde se servia tanto o copo de tinto, como um quilo de arroz, transformara-se agora num simples balcão com decorações em plástico e tampo em inox. Rematava um expositor refrigerado, onde estavam expostas algumas peças de carne. A luz fluorescente iluminava todo o espaço, mostrando as paredes pintadas a verde há pouco e um mata-moscas de luz azul crepitava a espaços, sempre que uma “atrevida” ia espreitar mais perto. Por trás do balcão, um homem gordo e quase calvo, de olhos pequenos e bochechas caídas, olhava-o desconfiado.
— És tu, Manel? — Perguntou Xico, surpreso.
— Xico? — O gordo franziu ainda mais o sobrolho, enquanto saía de trás do balcão. — Vejam lá o que o “vento do Diabo” haveria de trazer!
— Então? — Sentiu-se ofendido. — É assim que recebes os amigos?
— Amigos é? — Respondeu o merceeiro, sardónico. — Os amigos não roubam os amigos, já te esqueceste das coisas que fizeste por cá? Roubaste o dinheiro da caixa ao meu pai!
— Eh pá, Manel, eram outros tempos, desculpa. — O recém chegado recriminou-se. — Coisas de canalha, sabes que eu andava sempre metido em trabalhos.
— Tu andavas? A tua mãe é que levava sempre por tabela. Primeiro era o teu pai e depois tu!
— Pois, era, pobre mulher não merecia o que a fiz passar. — Ele baixou os olhos, contristado.
— Sabes que o meu pai só não apresentou queixa de ti na policia por causa dela? E o que teve de aturar da minha mãe! — Havia uma entoação de desprezo na voz do ex-amigo. — Mas ele tinha pena dela, que ficou a trabalhar a dobrar para pagar o ouro que roubaste à Lucinda da Igreja… — Como o outro, de olhos postos no chão, já não respondia, ele continuou. — E agora que vens cá “cheirar”? Vens apanhar mais umas notas “distraídas” agora que a velha morreu, só podes “chular” os outros.
— Eu… — A frase iniciou-se com um falsete. — … quero comprar umas coisas. Estou a pensar ficar aqui por uns tempos.
— Bem, já vi que temos todos que manter as portas bem fechadas…
— Acho que já chega dessa conversa. — Xico endureceu o tom. — Já te disse que esses tempos passaram, fiz muitas asneiras eu sei, mas não posso fazer nada para que o que fiz nunca tivesse acontecido. Posso devolver o dinheiro do teu pai, uma merdice de cento e poucos euros, não agora, mas em breve. Assim que arranjar um trabalhito por aí.
— Achas que o problema é o dinheiro? Então não aprendeste nada. — Manuel pôs as mãos na cinta e depois abriu os braços a abarcar o espaço comercial. — Olha para isto! Achas que o dinheiro que roubaste fez assim tanta falta? Foi a vergonha por que fizeste passar a tua mãe, o abuso da confiança do meu pai e o desprezo pela nossa amizade! Parece-te pouco?
— Eu sei, percebo. — Começava a sentir-se a mais abjeta das criaturas. — Mas como te disse não posso desfazer o que está feito, apenas garantir-te que não volta a acontecer. Eu mudei, passei por muito nestes últimos tempos.
— Isso, só o tempo o dirá. Mas digo-te uma coisa: vou atender-te e vender o que precisas, mas só porque ainda guardo um pouco da nossa amizade, senão tinhas que ir buscar as merdas a Castro Daire, porque aqui, não há mais sítio nenhum onde comprar nada.
Xico tentou apertar-lhe a mão, mas o gordo voltou-lhe as costas e regressou para trás do balcão, de onde o olhou com o ar de “merceeiro que aguarda os pedidos do cliente.
Na verdade, aquele homem balofo, que acabara de lhe dar tal lição de moral, não era o mesmo Manel, companheiro de infância e de patifarias, da sua juventude. Esse, foi ressurgindo nos minutos seguintes enquanto aviava os pedidos e ia respondendo às perguntas do amigo.
Em pouco tempo já estavam os dois sentados a uma das mesas a tomar café e a rir das patifarias da juventude.
Ali soube que quase todos os da sua idade haviam saído da aldeia, uns mudaram-se para a sede do concelho, outros para as cidades do litoral, outros ainda para França ou Inglaterra. Praticamente só restavam dois, ele, o Manel da mercearia e o Zé ferreiro, que não estava bom da cabeça. Contou-lhe como o Zé, que também herdara o negócio do pai, por isso não emigrara, perdeu tudo num incêndio que lhe levou, não só os bens, como a mãe, a mulher e uma filha. Ele próprio ficara muito queimado e esteve muito tempo no hospital. Quando regressou, ficou a viver na casa semi arruinada, que nunca restaurou e ia fazendo uns trabalhos de ferreiro, se havia… ou lhe apetecia.
De repente assomou, à porta por trás do balcão, um rosto feminino que Xico reconheceu. Era Natália, a “apaixonada” de Manuel, pelos vistos sempre ficaram juntos.
— Manel! — O rosto gorducho estava zangado. — Não te pedi já que viesses ver aquela torneira da maquina de lavar? Agora rebentou o tubo e está a inundar a lavandaria! Anda, depressa, deixa-te de conversa!
Ela não o reconheceu, ou se o fez, ignorou-o ou não tinha vontade de falar com ele… nem ele com ela. De resto, sempre fora uma emproada, que se achava mais importante e rica do que realmente era. Não foi muito longe, se se deixou ficar por cá e casar com o merceeiro da terra.
O visado fez um sorriso triste para o amigo e murmurou um “Tenho que ir”, em conjunto com o encolher de ombros, antes de abandonar o estabelecimento, ao homem que era um ladrão confesso.
Xico pegou no saco com as compras que pagara e regressou a casa.
Passou o resto da manhã a limpar o quarto onde pretendia dormir e a cozinha, livrando-os do pó e tornando a casa menos assombrada. Depois de almoço, decidiu regressar às traseiras da casa e ao quintal abandonado. O melro estava agora em cima da ramada de videiras esqueléticas e fugiu, fazendo-lhe um voo rasante, frente aos olhos, enquanto grasnava zangado com o intruso. “Pássaro estúpido.”, sentenciou.
Encontrou uma sachola, uma pá e vários outros utensílios que, embora com alguma ferrugem, serviriam para o efeito que pretendia. Parou, apoiado no cabo da sachola a olhar para o extenso quintal coberto de ervas e silvas. Suspirou, quase desanimado, mas aquele quintal, devidamente arranjado, daria umas boas sacas de batatas; teria mais alimento e ainda ganharia mais uns euros.
Arregaçou as mangas e deu a primeira sacholada na terra, depois outra e ainda outra. Estava a dar inicio a uma nova vida.
O melro plantara-se num sebe em frente ao trabalhador e emitia assobios, por vezes parecia até cantar uma música de uma publicidade conhecida. De todas as formas não o incomodava, antes o distraía, enquanto revolvia diligentemente a terra onde iria plantar as batatas.
De repente o pássaro preto calou-se e Xico, de cabeça baixa, não se apercebeu da presença do intruso antes de ver as botas de trabalho, femininas e seguir as pernas para cima, passando pelas coxas e ancas bem delineadas até ao tronco forte, envolto por uma camisola de algodão bem recheada com peitos generosos. Todo o conjunto era encimado por um rosto moreno, envolto em cabelo aos cachos e decorado com uns olhos escuros e vivos, um nariz pequeno e afilado e uma boca pequena moldada num sorriso trocista. Estava mais velha, o rosto queimado do sol e as rugas nos cantos dos olhos, mas Maria Alice continuava uma bela mulher, que ele nunca percebera o que vira nele.
— Não queria acreditar quando me disseram que tinhas voltado. — Ela atirou-lhe secamente, com as mãos na cinta, numa óbvia pose de desafio. — Serias capaz de te “abancares” por aqui sem ao menos me ir visitar?
— Agora nunca o saberemos, não é? — Ele sorriu, com a transpiração a escorrer no rosto sujo de terra.
— Nunca pensei voltar a ver-te a trabalhar… no duro pelo menos.
— Também gosto muito de te ver. — Retorquiu, irónico. — Estás muito bem, a vida no campo faz-te mais jovem.
— Bem, — Ela desviou o olhar enquanto o provocava. — o trabalhador veio, o mentiroso pelos vistos também. Quantas dessas personalidades, que trazes dentro de ti, vieram contigo? Está aí o ladrão também?
— Não achas que estás a ser um bocadinho dura comigo?
— Dura? Ainda não viste da missa a metade! Não foste tu que foste deixada como um trapo velho que usaste para te limpares. Depois de tantas promessas e tantas ideias, o que é que fizeste? Foste para a tropa, sem te despedires, roubaste meio mundo por aqui e nunca mais ninguém ouviu falar de ti.
Ele não respondeu e recomeçou a cavar a terra.
— Sabes porque é que estou aqui a falar contigo, em vez de trazer a caçadeira do meu pai e deixar-te aí estendido? — Insistiu ela. — Porque, apesar de ser uma labregazita ingénua, o respeito e o medo dos meus pais eram superiores à vontade que tinha de me entregar a ti.
— Não te deste muito mal. Breve casaste com o filho do barbeiro, segundo eu sei. — Atacou ele sem interromper o trabalho.
— E que querias que fizesse nesta terra de m**? Depois de andarmos para aí a lambuzar-nos, tu foste embora e eu ficava aqui como a “gaja que o outro não quis”? Era isso? Cair nas bocas do mundo e ficar aí solteirona? Querias isso? Alguma vez me mandaste dizer uma palavra que fosse?
Sem conseguir articular palavra, ele dedicou-se com mais afinco a cada uma das cavadelas.
— Que raios estás a tentar fazer aí, de qualquer forma? — Rita mostrou-se intrigada.
— Vou plantar batatas! — Afirmou ufano.
— Palerma… — Ela censurou com um sorriso trocista. — As batatas são em Março, agora só couves e cebolas. — Virou-lhe as costas e começou a afastar-se. — Quando acabares a escava passa lá em casa, arranjo-te umas sementes.
— E o teu marido? Não se vai importar? — Inquiriu Xico.
— O meu marido morreu há três anos! — Respondeu ela já na estrada.
Ninguém naquela aldeia estava contente com o seu regresso, exceto talvez a Maria Alice. Ele nunca se esqueceu dela e sempre se sentiu intimidado junto dela. Ficou a vê-la afastar-se, uma mulher bem feita, inteligente e viúva… o melro soltou o que pareceu uma gargalhada.
— Que foi, pássaro estúpido? — Atirou-lhe um torrão que o fez esvoaçar para longe.
— Xico? — A voz masculina, por trás dele, surpreendeu-o. Voltou-se para deparar com um homem quase careca e com o rosto deformado numa queimadura extensa. — Sou o Zé… o ferreiro…
— Zé! — Exclamou com legitima felicidade, após o espanto inicial causado pelos estragos no rosto do amigo. — Ainda há pouco falamos de ti!
— Eu sei, foi o Manel quem me avisou que estavas cá e mandou isto. — Ergueu duas garrafas de cerveja. — Quer que brindemos à nossa infância, mas disse que continua zangado contigo.
continua...
Manuel Amaro Mendonça nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.
domingo, 1 de abril de 2018
O produtor típico de vinho é um romântico sem juízo
Fazer vinho no Douro ou em qualquer outra região portuguesa é um péssimo negócio. Só é viável se houver um outro bom negócio por trás a suportá-lo ou se se começar com uma boa herança, em vinhas e em dinheiro. As vinhas só não chegam.
Em 2012, fiz uma viagem com alguns colegas pelos vinhedos da Sogrape no Chile e na Argentina e vim de lá deprimido. A razão é prosaica, já verá. Em si, a viagem foi épica e inesquecível, em particular o percurso de carro entre Santiago e Mendoza através dos Andes. Seis horas com uma paragem (por sorte) curta na fronteira. De avião, são cerca de 40 minutos.
A travessia dos Andes, sempre em espiral por entre montanhas e desfiladeiros, tem algo de aventura e de religião. Apoderados de um sentimento de irmandade, os automobilistas vão trocando acenos solidários, esmagados pela beleza e grandeza do lugar. Com o olhar, não se alcança o gigantismo da cordilheira andina. A escala é inumana, oito mil quilómetros de montanhas ininterruptas desde a Venezuela à Patagónia. Uma delas, Aconcágua, é o ponto mais alto do continente americano, com 6962 metros de altura. Dizem que do seu cume se consegue perceber a curvatura da Terra no Pacífico.
Cruzada a fronteira, a 3800 metros de altitude, a estrada torna-se mais rectilínea e as montanhas vão ganhando tonalidades mais claras. Durante vários quilómetros, a estrada segue paralela a uma velha linha de comboio, o mítico Transandino que ligava Mendoza, na Argentina, a Santa Rosa de Los Andes, no Chile. Alguns troços da velha linha vão resistindo pendurados sobre o precipício, bem como a lendária Ponte do Inca, uma ponte natural formada pela erosão das águas minerais e que é umas das grandes atracções da travessia dos Andes no lado argentino. A partir de certa altura, perante tanta montanha, a monumentalidade dos Andes vai-se tornando monótona e o que começa a ganhar força é a ânsia do destino: Mendoza.
A capital do vinho argentino é uma espécie de Terra Prometida para a viticultura. O clima é muito seco (não chovem mais do que 200 milímetros por ano), os solos, de aluvião e com boa drenagem, são uma bênção para as videiras e a proximidade dos Andes assegura frescura e água para a rega. Como a maior das facilidades, é possível produzir 20 toneladas de uvas de qualidade por hectare. O rendimento é tão bom que é possível ter uma vida de luxo vendendo apenas uvas. Na altura, era assim. O rendimento médio por hectare era quatro a cinco vezes superior ao do Douro, por exemplo, e as uvas vendiam-se a mais do dobro. Eu, chegado do Douro, a dar os primeiros passos como produtor de vinho mas já com um histórico de uma década a vender uvas, fiz contas e, claro, fiquei deprimido.
Não foi a única vez. Na verdade, sempre que visito alguma região vinhateira de França, ou fico deprimido ou venho de lá com vontade de mudar de vida. Vinhos por vezes banais são vendidos, à saída da adega, ao preço dos nossos grandes reservas, garrafeiras e toda a sorte de designações premium. Agora vem o choradinho, que é a razão desta crónica: fazer vinho no Douro ou em qualquer outra região portuguesa é mesmo um péssimo negócio. Só é viável se houver um outro bom negócio por trás a suportá-lo ou se se começar com uma boa herança, em vinhas e em dinheiro. As vinhas só não chegam.
O produtor típico de vinho entre nós é um personagem simpático que começa sempre cheio de sonhos. O maior de todos é fazer o melhor vinho do mundo — e logo ao primeiro ano. Anda nessa esperança uma meia-dúzia de anos, mais ou menos o tempo que precisa para começar a perceber que só uns poucos conseguem vender vinhos a preços elevados de forma consistente.
As primeiras produções, quase sempre pequenas, vendem-se bem. São uma novidade e o mercado alimenta-se de novidades. O produtor típico empolga-se e só lamenta não ter começado mais cedo. A dada altura, há novidades de outros produtores a saírem todos os dias e o mercado, que gosta de novidades mas não é elástico, nem fiel, começa a descartar uns quantos. O produtor típico assusta-se e percebe o sinal: está na hora de lançar um vinho de combate, bonzinho e baratinho, para ir pagando as despesas. Começa com 10 mil garrafas, depois passa para 20 mil e vai aumentando, aumentando, até se dar conta de que há qualquer coisa que não bate certo: como vende cada vez mais, vê-se obrigado a investir cada vez mais e o dinheiro é cada vez menos, ao contrário das dívidas, que não param de aumentar. É então que começa a olhar para o negócio com a frieza do economista e descobre o logro em que se meteu. Quando se deixou encantar pela ideia romântica e poética de produzir vinho, ninguém o avisou de que não ia vender só vinho. Ia vender também rolhas, vidro, caixas, selos, rótulos e cápsulas. E também não pensou bem nos tempos de pagamento. Um vendedor de cubas, barricas e de tudo o que se usa no vinho, quer receber em dois meses, no máximo; o produtor típico recebe, com sorte, a 90 ou a 120 dias — e às vezes não recebe nada. Mas, antes de receber, tem que pagar as uvas, fazer o vinho e suportar o seu estágio na adega. E, pelo meio, passa uma parte do ano em feiras cá e lá fora e outra parte em apresentações, almoços e visitas, sempre a oferecer vinho.
Sim, há quem ganhe dinheiro no glamoroso negócio do vinho. Há meia dúzia de grandes empresas que ganham dinheiro. Quem compra uvas e faz vinho em adegas de outros consegue ganhar algum dinheiro. Quem começou com algum património, apostou sempre em qualidade e trabalha desalmadamente, com prejuízo pessoal e da família, também ganha dinheiro. Produtores como Luís Pato ou Domingos Alves de Sousa, por exemplo, ganham dinheiro, mas ninguém imagina o quanto têm trabalhado. Andam a servir copos e a contar estórias pelo mundo há três décadas sem parar. E três décadas não são nada no negócio do vinho.
Não há muitos como eles em Portugal. O que há, de sobra, é uma legião de pequenos produtores que só sobrevivem porque não incorporam o seu trabalho no custo do vinho e uma outra legião de pequenos/médios produtores como o nosso produtor típico que se encontram na mesma situação do tolo no meio da ponte: já gastaram de mais para desistir e tem cada vez menos dinheiro para continuar. No final da história, alguns hão-de salvar-se.
Só mais uma coisa: perguntem ao produtor típico se trocava a sua vida por outra. Claro que não!
Pedro Garcias
Jornal Público
Em 2012, fiz uma viagem com alguns colegas pelos vinhedos da Sogrape no Chile e na Argentina e vim de lá deprimido. A razão é prosaica, já verá. Em si, a viagem foi épica e inesquecível, em particular o percurso de carro entre Santiago e Mendoza através dos Andes. Seis horas com uma paragem (por sorte) curta na fronteira. De avião, são cerca de 40 minutos.
A travessia dos Andes, sempre em espiral por entre montanhas e desfiladeiros, tem algo de aventura e de religião. Apoderados de um sentimento de irmandade, os automobilistas vão trocando acenos solidários, esmagados pela beleza e grandeza do lugar. Com o olhar, não se alcança o gigantismo da cordilheira andina. A escala é inumana, oito mil quilómetros de montanhas ininterruptas desde a Venezuela à Patagónia. Uma delas, Aconcágua, é o ponto mais alto do continente americano, com 6962 metros de altura. Dizem que do seu cume se consegue perceber a curvatura da Terra no Pacífico.
Cruzada a fronteira, a 3800 metros de altitude, a estrada torna-se mais rectilínea e as montanhas vão ganhando tonalidades mais claras. Durante vários quilómetros, a estrada segue paralela a uma velha linha de comboio, o mítico Transandino que ligava Mendoza, na Argentina, a Santa Rosa de Los Andes, no Chile. Alguns troços da velha linha vão resistindo pendurados sobre o precipício, bem como a lendária Ponte do Inca, uma ponte natural formada pela erosão das águas minerais e que é umas das grandes atracções da travessia dos Andes no lado argentino. A partir de certa altura, perante tanta montanha, a monumentalidade dos Andes vai-se tornando monótona e o que começa a ganhar força é a ânsia do destino: Mendoza.
A capital do vinho argentino é uma espécie de Terra Prometida para a viticultura. O clima é muito seco (não chovem mais do que 200 milímetros por ano), os solos, de aluvião e com boa drenagem, são uma bênção para as videiras e a proximidade dos Andes assegura frescura e água para a rega. Como a maior das facilidades, é possível produzir 20 toneladas de uvas de qualidade por hectare. O rendimento é tão bom que é possível ter uma vida de luxo vendendo apenas uvas. Na altura, era assim. O rendimento médio por hectare era quatro a cinco vezes superior ao do Douro, por exemplo, e as uvas vendiam-se a mais do dobro. Eu, chegado do Douro, a dar os primeiros passos como produtor de vinho mas já com um histórico de uma década a vender uvas, fiz contas e, claro, fiquei deprimido.
Não foi a única vez. Na verdade, sempre que visito alguma região vinhateira de França, ou fico deprimido ou venho de lá com vontade de mudar de vida. Vinhos por vezes banais são vendidos, à saída da adega, ao preço dos nossos grandes reservas, garrafeiras e toda a sorte de designações premium. Agora vem o choradinho, que é a razão desta crónica: fazer vinho no Douro ou em qualquer outra região portuguesa é mesmo um péssimo negócio. Só é viável se houver um outro bom negócio por trás a suportá-lo ou se se começar com uma boa herança, em vinhas e em dinheiro. As vinhas só não chegam.
O produtor típico de vinho entre nós é um personagem simpático que começa sempre cheio de sonhos. O maior de todos é fazer o melhor vinho do mundo — e logo ao primeiro ano. Anda nessa esperança uma meia-dúzia de anos, mais ou menos o tempo que precisa para começar a perceber que só uns poucos conseguem vender vinhos a preços elevados de forma consistente.
As primeiras produções, quase sempre pequenas, vendem-se bem. São uma novidade e o mercado alimenta-se de novidades. O produtor típico empolga-se e só lamenta não ter começado mais cedo. A dada altura, há novidades de outros produtores a saírem todos os dias e o mercado, que gosta de novidades mas não é elástico, nem fiel, começa a descartar uns quantos. O produtor típico assusta-se e percebe o sinal: está na hora de lançar um vinho de combate, bonzinho e baratinho, para ir pagando as despesas. Começa com 10 mil garrafas, depois passa para 20 mil e vai aumentando, aumentando, até se dar conta de que há qualquer coisa que não bate certo: como vende cada vez mais, vê-se obrigado a investir cada vez mais e o dinheiro é cada vez menos, ao contrário das dívidas, que não param de aumentar. É então que começa a olhar para o negócio com a frieza do economista e descobre o logro em que se meteu. Quando se deixou encantar pela ideia romântica e poética de produzir vinho, ninguém o avisou de que não ia vender só vinho. Ia vender também rolhas, vidro, caixas, selos, rótulos e cápsulas. E também não pensou bem nos tempos de pagamento. Um vendedor de cubas, barricas e de tudo o que se usa no vinho, quer receber em dois meses, no máximo; o produtor típico recebe, com sorte, a 90 ou a 120 dias — e às vezes não recebe nada. Mas, antes de receber, tem que pagar as uvas, fazer o vinho e suportar o seu estágio na adega. E, pelo meio, passa uma parte do ano em feiras cá e lá fora e outra parte em apresentações, almoços e visitas, sempre a oferecer vinho.
Sim, há quem ganhe dinheiro no glamoroso negócio do vinho. Há meia dúzia de grandes empresas que ganham dinheiro. Quem compra uvas e faz vinho em adegas de outros consegue ganhar algum dinheiro. Quem começou com algum património, apostou sempre em qualidade e trabalha desalmadamente, com prejuízo pessoal e da família, também ganha dinheiro. Produtores como Luís Pato ou Domingos Alves de Sousa, por exemplo, ganham dinheiro, mas ninguém imagina o quanto têm trabalhado. Andam a servir copos e a contar estórias pelo mundo há três décadas sem parar. E três décadas não são nada no negócio do vinho.
Não há muitos como eles em Portugal. O que há, de sobra, é uma legião de pequenos produtores que só sobrevivem porque não incorporam o seu trabalho no custo do vinho e uma outra legião de pequenos/médios produtores como o nosso produtor típico que se encontram na mesma situação do tolo no meio da ponte: já gastaram de mais para desistir e tem cada vez menos dinheiro para continuar. No final da história, alguns hão-de salvar-se.
Só mais uma coisa: perguntem ao produtor típico se trocava a sua vida por outra. Claro que não!
Pedro Garcias
Jornal Público
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