sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Amadeu Ferreira - «Língua Mirandesa tem sido ignorada e pouco reconhecida»

A propósito das comemorações do Dia da Língua Mirandesa, que decorrem sábado, 17 de Setembro de 2011, em Lisboa, a data será assinalada pela apresentação, a nível nacional, da obra «Tempo de Fogo» e, em mirandês, «La Bouba de La Tenerie», da autoria do escritor Amadeu Ferreira. Para o investigador, o mirandês está «em condições de contribuir, de modo autónomo, para o enriquecimento da literatura portuguesa». Além disso, defende que é fundamental «reestruturar todo o ensino da Língua, tornando-o obrigatório» e a promoção da fala entre as gerações mais jovens.
Amadeu Ferreira, natural de Sendim, concelho de Miranda do Mouro, e que se tem dedicado nas últimas décadas ao estudo do Mirandês, confessa que todas «as comemorações visam lembrar um facto importante e homenagear aqueles que a ele estão ligados, ajudando a lembrar a sua mensagem».
«O mesmo se passa com o Dia da Língua Mirandesa», comemorado a 17 de Setembro, por ter sido nesse dia, em 1998, que foi apresentada na Assembleia da República a Proposta de Lei (aprovada por unanimidade) que viria a proclamar em Janeiro de 1999, a Língua Mirandesa como língua oficial (regional) de Portugal, recorda.
Para os mirandeses, salienta, o Dia da Língua Mirandesa lembra esse facto, «de que muito de se orgulham, pois representou o fim de séculos em que foi maltratada e os mirandeses, gozados e envergonhados, a tal ponto que ganharam, ao longo desses séculos, verdadeiros complexos que os levaram a esconder a sua língua e mesmo abandonando-a progressivamente, nomeadamente a partir dos anos 60 do século XX», constata.
Com o reconhecimento legal, refere o investigador, criaram-se as condições para o
mirandês poder ser ensinado em todas as escolas da região de Miranda do Douro e «iniciar um novo ciclo na sua secular existência, agora orgulhosa das suas origens, dos seus feitos e dos milhares de mirandeses que ao longo desse tempo a trouxeram até nós, sendo hoje o valor mais importante da terra de Miranda».
Amadeu Ferreira tece algumas críticas à forma como se tem tratado a Língua Mirandesa, nomeadamente, por parte de muitas entidades. E começa por realçar em primeiro lugar «as instituições centrais do Estado», para as quais a Língua Mirandesa «tem sido praticamente ignorada, se exceptuarmos o pontual apoio que é dado ao seu ensino facultativo, quando devia ser obrigatório e mais dignificado».
«As autarquias, em particular a Câmara de Miranda do Douro, têm dado um apoio irregular e um reconhecimento superficial do valor da língua, faltando ainda acções de fundo a seu favor», acusa. Em contrapartida, entre o povo português, «não tem deixado de crescer a simpatia e o carinho em relação à língua mirandesa, que tem vindo progressivamente a ser acolhida e considerada como uma língua de Portugal e a Língua Mirandesa necessita desse apoio e dessa simpatia como um elemento vital», prossegue.

«La Bouba de la Tenerie»:
Sobre a apresentação, a nível nacional, da sua obra «Tempo de Fogo», e que marca as comemorações, em Lisboa, do Dia da Língua Mirandesa, Amadeu Ferreira explica que se trata de um romance, inicialmente escrito em mirandês com o título «La Bouba de la Tenerie», assinado pelo seu pseudónimo Fracisco Niebro.
«A pedido do editor Âncora Editora, tentei traduzir o romance para português por forma a poder ser lido por um leque mais amplo de pessoas. A verdade é que a tradução, à medida que a ia fazendo, não me satisfazia, deixando-me a ideia de que não reflectia adequadamente o que escrevera em mirandês», confessa.
E foi por isso que decidiu reescrever o romance em português, embora seguindo de perto o que escrevera em mirandês. «O que resultou foram dois romances idênticos, mas diferentes ao mesmo tempo, o que eu chamo dois gémeos literários, isto é, obras originais em cada uma das línguas», sublinha.
«Daí que o romance em português tenha por título “Tempo de Fogo” e seja assinado com o meu nome civil, Amadeu Ferreira. Creio que se poderão comparar as duas versões, que apenas se distinguem na expressão de cada uma das línguas, fenómeno que creio ter acontecido pela primeira vez em Portugal», vinca. E resume que o romance se centra na história de um frade homossexual que é queimado às ordens do Tribunal da Inquisição, condenado por breves amores de juventude na universitária na Salamanca nos fins do século XVI.
Através de personagens reais, perseguidos pela Inquisição, a obra passa em revista o ambiente sufocante do país nos anos 20 do século XVII, tomando como paradigma várias vilas e aldeias do planalto mirandês.
A publicação será apresentada dia 17 de Setembro, às 17h00, na Livraria Ferin, na Rua Nova do Almada, em Lisboa, na versão portuguesa, por Teresa Martins Marques, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e, em mirandês, por Luís Vaz das Neves, presidente do Tribunal da Relação de Lisboa.
O investigador adianta ainda que «embora a língua mirandesa seja fácil de entender, mesmo por quem não a fala», espera, ao mesmo tempo, que a «versão mirandesa possa incentivar várias pessoas (e sei de várias que já o fizeram) a ler também a obra em mirandês».
Amadeu Ferreira faz questão ainda de lembrar que este é o primeiro romance publicado em língua mirandesa, assumindo ao mesmo tempo e «com igual dignidade, o carácter bilingue dos mirandeses, para quem as duas línguas (o mirandês e o português) são maternas e essenciais».

E realça a capacidade da Língua Mirandesa para produzir obras literárias de «grande fôlego, como já havia ficado demonstrado com outras obras, quer em prosa quer em poesia, nomeadamente após a tradução de “Os Lusíadas”/”Ls Lusíadas”, publicada há pouco mais de um ano».
Mais apoios:
Para Amadeu Ferreira, o Mirandês está em condições de contribuir, de modo autónomo, para o enriquecimento da literatura portuguesa, que deixa de ser apenas uma literatura em língua portuguesa. Esta diversidade apenas pode ser considerada como um factor de enriquecimento cultural e permite mostrar como não há qualquer oposição entre a língua portuguesa e a língua mirandesa, como alguns, eventualmente, ainda poderão pensar», considera.
Para Amadeu Ferreira, sendo o Mirandês uma língua que «ao longo de séculos foi ostracizada, com um relativamente pequeno número de falantes e de pessoas preparadas» a verdade é que o seu estudo «não tem sido fácil, embora, enquanto língua, não ofereça mais dificuldades que qualquer outra».
Sobre o futuro do Mirandês, o investigador considera que, em primeiro lugar, há que «reestruturar todo o ensino da língua mirandesa, tornando-o obrigatório e dando-lhe a carga horária adequada bem como formação aos seus professores, o que depende do Ministério da Educação, já que o ensino é ainda mais fundamental (se assim se pode falar) para o Mirandês como para qualquer língua».
Em segundo lugar, «as instituições locais, em particular as Câmaras Municipais da região, devem encarar com seriedade este recurso fundamental da nossa cultura, também com valor económico». Tal significa «apoiar todas as iniciativas relacionadas com a Língua Mirandesa, adoptar o bilinguismo nos próprios serviços da Câmara e em outros aspectos como a toponímia e a sinalética em geral, apoiar a criação de uma Instituição Central da Língua Mirandesa, promovendo a língua e a sua importância como fala entre todos os mirandês.»
Em terceiro lugar, defende, «há que promover a fala entre as gerações mais jovens, pois só pode estar viva a língua que é falada». «E não há dúvida que o despovoamento da região, sobretudo de jovens, e a concorrência fortíssima do português deixam grandes preocupações em relação ao futuro da Língua Mirandesa».
Por isso, «enquanto é tempo vamos promovê-la deitando mão de todos os meios, em particular a internet pois não há dúvida que ela tem sido um meio fantástico ao serviço da divulgação da língua mirandesa», como é o caso, destaca, do blogue Froles Mirandesas.
De recordar que Amadeu Ferreira tem publicada uma imensa obra em Mirandês, como as traduções de «Os Lusíadas», da «Mensagem», de Fernando Pessoa, e de «As Aventuras de Astérix», de Goscinny e Uderzo.
O seu interesse pela Língua mirandesa surgiu depois da aprovação da lei que reconheceu o mirandês como língua oficial (1999). «Penso que só nessa altura o mirandês tinha condições para ser reconhecido pela população portuguesa como uma outra língua portuguesa, o que tem vindo a acontecer, mas em especial pelos próprios mirandeses que necessitavam de ganhar orgulho em relação à sua língua e à sua cultura e serem eles os principais promotores da sua língua ao mais diversos níveis em que esta se pode exprimir», argumenta.

Origens remontam ao século XII:
O mirandês cresceu com a Terra de Miranda, herdeira das antigas divisões administrativas leonesas, e viveu, durante séculos, no seu estado natural, a fala.

Embora as primeiras formas escritas se encontrem em documentos datados do século XII, só em finais do século XIX é que se concretizou a primeira tentativa de o fixar por escrito, pelas mãos de José Leite de Vasconcelos. No século XX encontramos muitos nomes que, à luz do filólogo, procuraram dar continuidade a esse trabalho de fixação da língua mirandesa, entre eles, o escritor Trindade Coelho.
O mirandês foi alvo de interesse para muitos investigadores portugueses e estrangeiros, como Menéndez Pidal, Herculano de Carvalho, Leif SletsjØe e Erik Staaff, cujos trabalhos são fundamentais para quem pretenda iniciar uma investigação sobre este idioma. Mas o vulto maior da língua e da cultura mirandesas é António Maria Mourinho. Nas múltiplas facetas, de historiador, antropólogo e linguista, este investigador deu corpo a um vasto património, que hoje faz parte do Centro de Estudos com o seu nome, sedeado na Biblioteca Municipal de Miranda do Douro.
As mudanças mais importantes na história da língua mirandesa ocorreram no último quartel do século XX, com a introdução no ensino, em 1987, a elaboração de uma norma escrita – a Convenção Ortográfica, publicada em 1999, o reconhecimento político e os estudos científicos sobre a língua.
Hoje existe também um «Pequeno Vocabulário Mirandês-Português», da autoria do padre Moisés Pires. De salientar que quase todas as localidades linguisticamente mirandesas ostentam esta língua na toponímia e em painéis informativos, diante dos principais monumentos.


Ana Clara
in:cafeportugal.net

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