domingo, 21 de abril de 2013
Cláudio Carneiro autor transmontano de garantia certificada
Em véspera de completar 82 anos de vida, Cláudio Amílcar Carneiro que nasceu em Chacim (Macedo de Cavaleiros) e que entre 1955 e 1957, prestou serviço militar em Goa e Mormugão, (na Índia Portuguesa) acaba de publicar o livro da sua vida, com o título supra. Tem 504 páginas, numa bem conseguida edição da Chiado Editora e representa um esforço intelectual digno do maior apreço por advir de um Transmontano que não teve tempo de ser menino, por serem sete irmãos e terem todos que ser pastores e obreiros da terra árida do nordeste Transmontano. Teve que completar a escola primária durante a preparação militar, em Bragança. E, anos depois de regressar ao velho continente, já marido e pai, conseguiu concluir o ensino secundário e matricular-se em direito na Universidade de Lisboa. Como poeta escreveu dois livros: Relíquias do Nordeste Transmontano e Serra de Bornes, Chacim e Balsamão. Dois títulos de ficção e viagem: Pelo Nordeste de Trás-os-Montes e Reminiscências de Olvido e Vivências Inesquecíveis (Biografia). Foi co-autor de dois volumes da antologia nacional Poetas de Sempre (III e IV). Tem mais seis títulos em fila espera, em prosa e verso; e, desde os tempos da Índia Portuguesa até hoje, mantém colaboração em diversas publicações regionais e nacionais.
Altino Moreira Cardoso, outro autor Duriense, escreveu o prefácio e resume estas 500 páginas em poucas mas sugestivas palavras: «Se me fosse lícito colocar este livro de Cláudio Carneiro, lado a lado com a simbologia de Saramago, dar-lhe-ia o subtítulo de Ensaio sobre a Lucidez. A narrativa comenta os últimos oitenta anos de Portugal utilizando como pivô a biografia de uma Padre (Adriano Botelho) que paroquiou diversos anos na área da grande Lisboa. Ao seu jeito coloquial, com fundas raízes rurais transmontanas, Cláudio Carneiro apresenta o drama recorrente de um país enganado, quer em ditadura quer em democracia, por espertalhões político-militares e sempre com um inteligente toque irónico, sempre atento, informado e crítico».
Este Sacerdote cujo nome real foi Adriano da Silva Pereira Botelho, terá nascido e sido baptizado em 14 de Outubro de 1908. Frequentou a Escola Primária em Cascais. Já órfão de pai e mãe entrou no Seminário de Santarém e foi ordenado sacerdote em Março de 1931 pelo então D. Manuel Gonçalves Cerejeira, que veio a ser Patriarca de Lisboa. O padre Adriano celebrou a Missa Nova em 5 de Abril seguinte e permaneceu nesse Seminário até 1935, como professor e prefeito. Seguiram-se alguns anos como pároco de sucessivas freguesias: Mafra e Alcainça, Sobral de Abelheira, S. Domingos da Rana e Carcavelos. Em 1940 foi transferido para a freguesia de S. Pedro de Alcântara, onde começou a ser vigiado e perseguido pela dureza das suas homilias a favor dos pobres. Foram dramáticos os cerca de vinte anos que aí passou. A polícia política do Estado Novo acabou por desterrá-lo para a Patagónia, em 1961, de onde regressou em 1963. Cláudio Carneiro desenvolve, sempre em linguagem cristã e pedagogicamente irrepreensível, estes cerca de 80 anos de vida de um pároco de aldeia. A igreja e o clero foram os alvos da fúria que atolou o século. O enredo do padre Adriano que Cláudio Carneiro elegeu para desenvolver a sociologia da implantação da república, foi comum a tantos outros padres que por todo o país foram perseguidos, exilados, maltratados. Qualquer historiador que deseje, um século depois, raciocinar sobre o drama do país e da sua população, terá de concluir que foram sempre os pobres, os indefesos e os inocentes que tanto no republicanismo e no chamado fascismo, como já na depauperada democracia, as vítimas da sociedade portuguesa do século XX. O republicanismo fecundou o fascismo e ambos foram perniciosos à sociedade portuguesa. Ao lado dos pobres prosperaram os ricos. Os prepotentes humilharam, espezinharam e torturaram as classes sem capacidade de reacção. Foram tempos de guerra, interna e externa cujos objectivos conduziram ao actual estado em que nos encontramos. Este meio milhar de páginas, bem escritas, bem estruturadas e argumentadas, catapultam o seu autor para o topo das melhores obras de interpretação social de um tempo para esquecer. A realidade de hoje é a síntese dos males de um século. De um império resta uma nesga de solo que já não satisfaz a gregos nem a troianos e que a todos atormenta pelo futuro dos nossos descendentes. Cláudio Carneiro nunca perdeu a noção dos valores morais. Sobretudo da Família e da Religião. Ao contrário de alguns aventureiros que enchem as estantes com feno e palha tensa, ensina esses laureados de todas as enxurradas e festins, a escrever, a pensar e a agir, como bom chefe de família, como bom cidadão e como agente cultural que brilha no firmamento da cidadania em que muitos falam e bem poucos cumprem.
Parabéns ao Prosador e ao Poeta que abre esta monumental obra com nove deliciosos poemas dedicados à Família e aos Amigos, como aperitivos para o banquete do ensaísmo que desenvolve em coerência com os princípios morais, cívicos e antropológicos.
Barroso da Fonte
in:jornal.netbila.com
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