terça-feira, 4 de agosto de 2015

A menina encantada

Local: Vilas Boas, VILA FLOR, BRAGANÇA

Era na noite de S. João. Nessa altura não tinham relógio na torre, não tinham nada e nunca sabiam as horas. Passou-se com uma tia-avó minha, quando era pequenina, isto em Meireles. O pai viu um luar muito bonito, isto na noite de S. João, e disse: 

— Ai que já é de madrugada! Ó Júlia, põe-te a pé. Anda comigo regar. 
Ele lá foi e levou a garota. Chegou lá e disse: 
— Júlia, vai lá tirar o pau à poça. 
Este poço ficava no ribeiro do Faro, que deita pró Cachão. Antigamente, havia esses poços que tinham um trapo com um pau a pegar na água. Ela chegou lá, tirou o pau ao poço e começou a gritar: 
— Ai, pai! Ai, pai! Ai, pai! 
— Que é que foi? — disse-lhe o pai. 
— Está aqui uma cobra muito grande! Uma cobra muito grande! 
E ele lá foi e não viu nada. E pensou: “Estás com o sono, estás meia atrapalhada com o sono”. A rapariga foi outra vez e tornou: 
— Ó pai! Ó pai, anda cá! 
— Que é que foi? Que é que foi? 
— Olhe que não é uma cobra, é uma menina! É uma menina! 
A cobra apareceu agora em menina para que lhe não tivesse medo, porque ela tinha medo à cobra. Era uma menina toda vestida de branco. O pai foi lá e não viu nada. Então, acabam de regar e disse: 
— Fecha o poço, Júlia. Vá, vamos embora. 
Mas isto ainda alta madrugada. E foram-se embora. Então a menina olha pra trás e dizia: 
— Ó pai, a menina está a chorar! Quer que a leve! 
E o pai pensava: "Estás tonta com o sono”. E tornava ela: 
— Ó pai! Está a chorar lá no alto! Está a chorar lá no alto! 
Chegaram a casa e o pai, quando viu que ainda era de noite e se lembrou que era noite de S. João, voltou atrás mas já não viu mais nada. Então é que percebeu que a menina era um encanto e que podia ter ficado rico.

Fonte:PARAFITA, Alexandre Património Imaterial do Douro (Narrações Orais), Vol. 2 Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2010 , p.286

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