sexta-feira, 11 de abril de 2014

Máscara: alguns conceitos e opiniões

Dia dos Diabos em Vinhais/Bragança
Etimologicamente, a palavra máscara deriva do Árabe maskhara, zombaria.
É usada para referir a peça com que se tapa o rosto para disfarce ou protecção. Historicamente, a palavra máscara encontra as suas origens no teatro, quando os actores a utilizavam para se mascararem nas personagens que iriam representar. Aliás, a mesma está patente no símbolo relativo ao teatro, o qual é composto por duas máscaras.
A “máscara”, enquanto objecto, pode ser encontrada em todos os continentes. Mas, se já as máscaras europeias se podem distinguir das restantes, as portuguesas – e estamos a pensar nas de Trás-os-Montes –, têm também a sua especificidade, ainda que existam muitos pontos comuns com as anteriores, particularmente no que respeita à sua representação social. De carácter ritual, cultural e profano, nas máscaras transmontanas, tal como nas suas congéneres europeias, para além do carácter lúdico mais notório, é possível destacar três finalidades fundamentais: “propiciatórias, apotropaicas, profilácticas” (Pereira: 1973, p.11). Estas são inerentes a algumas acções dos mascarados, tais como: peditórios, rituais, comportamentos obscenos, aspersões com água e cinza, combates, danças, barulheira de chocalhos e campainhas, roubos, cerimónias, etc.
Sendo também verdade que, conforme afirma Pereira, “Por vezes, elas integram-se em cerimónias que assumem carácter de verdadeiras representações dramáticas e através de trajes e atributos prefiguram seres sobrenaturais” (Pereira: 1973, p.11).
Quando tenta explicar as origens do Carnaval, Karl Meuli (cit. por Pereira: 1973, p.11), relaciona as máscaras com espíritos dos antepassados. Como funções capitais, assinala os peditórios, as censuras, as bênções e as oferendas. Segundo o mesmo autor, estas três actividades operam-se, em larga medida, segundo ritos próprios dos espíritos. Eles pedem, mas não mendigam uma esmola; pelo contrário, eles exigem a oferenda como um direito que lhes é devido. Muitas vezes, a oferenda desaparece de maneira misteriosa, e diz-se então que eles a roubaram. Esse género de roubo é muito espalhado e considerado como um direito capital das máscaras. Como formas de censura, as máscaras actuam através de discursos ou de loas públicas, geralmente em versos satíricos, de representação mímica da acção incriminada. Em alguns casos elas abençoam e fazem oferendas.
Citado por Pereira (1973, p.13), para Niko Kuret é “… notório que as máscaras e os mascarados ainda hoje vivos no mundo popular europeu têm antigas origens culturais. A passagem de uma estação a outra, ou de um ano ao outro, constituiriam durante longo tempo o momento de crise e de risco em vida social e cultural. O mundo sobrenatural desencadeava-se e as almas dos defuntos voltavam do outro mundo para castigar ou premiar os vivos. E, durante milénios, grupos de homens ou verdadeiras e próprias sociedades cerimoniais, em coincidência com este período de risco, envergavam vestimentas rituais que, representando os demónios e antepassados garantiam e controlavam as relações entre os vivos e o mundo sobrenatural”.
Festa dos rapazes em Parada/Bragança
Este autor considera que os mimos bizantinos estão na origem de uma função de importância essencial na formação do património popular europeu das cerimónias dos mascarados, afirmando que: “Nessa passagem do paganismo ao cristianismo, que no campo das práticas quotidianas da vida e das celebrações e festas foi longa e fatigante, as antigas cerimónias rituais vinham perdendo o arcaico valor cultural, ao mesmo tempo que se acentuava o seu carácter jocoso.
Os mimos bizantinos, que tinham absorvido elementos também do oriente vizinho, faziam-se portadores, para o território do império romano, de cerimónias mascaradas que vinham juntas e conservadas pelas populações mais diversas, a despeito das numerosas condenações eclesiásticas” (Kuret, citado por Pereira: 1973, p.14).
Neste processo de difusão, que tem o seu ponto de partida na Península Balcânica, devem fazer-se ressaltar, pelo menos em boa parte, as numerosas semelhanças, a identidade de ritos e de personagens que se encontram desde toda a Europa Continental, até à Inglaterra e países nórdicos. É preciso não esquecer, porém, que as diversas populações conservam ou elaboram formas ou variantes próprias, seja pela existência de substractos culturais, seja pela incidência dos acontecimentos histórico-culturais mais recentes, da Idade Média à Renascença e à Idade Moderna. A título de exemplo, podemos recordar a influência exercida sobre as tradições precedentes, pela época medieval, em que a figura do demónio e das máscaras diabólicas bicornudas, eram largamente utilizadas nos mistérios, nas paixões, nas representações sociais; lembre-se as inovações provocadas em
certas zonas de desenvolvimento, no teatro profano medieval, de personagens cómicas de origem mais ou menos culta; e ainda as repercussões sobre a tradição popular das máscaras da comédia Dell Arte que reelabora tradições antigas.
Entre elementos que se mantêm constantes nos principais mascarados europeus destaca-se, como característica comum, o facto de centrarem numa personagem a personificação do período estacional ou anual concluso, sendo muitas dessas personagens acompanhadas por figuras femininas.
Segundo o etnólogo espanhol Júlio Caro Baroja (cit. por Pereira: 1973, p.13) certos mascarados de Inverno relacionam-se também: “…claramente com a noção da aparição dos demónios e fantasmas e das almas dos mortos sobre a terra em torno do solstício de Inverno – e a propósito da relação que alguns investigadores modernos estabelecem entre o acto de se mascarar e o culto dionisíaco nos países clássicos, refere que – no mês de Neptuno grego, que corresponde ao mês de Dezembro, tinham lugar as dionisíacas rurais, nas quais parece que os camponeses se mascaravam e celebravam certas farsas de carácter curioso (…). Quer dizer que ao Deus se prestava culto no período do solstício de Inverno ao começo ou aproximação de equinócio, na mesma época em que, na Europa, se celebravam mascaradas”.
Outro autor citado por Pereira (1973, p.15), Jean-Loius Bédouin, salienta que o cristianismo inverteu os dados do problema relativos à máscara: “Até então – diz ele – a máscara havia sido um objecto mais ou menos perfeito, graças ao qual o homem havia tentado elevar-se acima da sua condição terrestre, de vir a tornar-se semelhante aos deuses”.
No momento em que um novo dogma prevalece e se admitiu que a identificação se devia efectuar no outro sentido, do divino ao humano, é claro que a máscara perdeu, pelo menos no Ocidente, a sua principal razão de ser. Contudo, ela continuou a desempenhar um certo papel na tradição popular. Esta guarda durante muito tempo os vestígios das práticas herdadas dos antigos cultos agrários, como prova abundantemente uma grande parte do folclore europeu.
Festa dos Rapazes em Baçal/Bragança
É no seio desta tradição, particularmente viva em certas regiões, que as máscaras conservam até aos nossos dias, as suas antigas funções mágicas.
Contudo, a presença dos mascarados na festa, bem como alguns elementos que lhe estão associados – dança, música profana, o chocalhar e o fustigar, os gritos que soltam ao longo das correrias pelas povoações – têm sido, ao longo dos tempos, alvo de críticas por parte da hierarquia da Igreja Católica, críticas que se prendem, também, com o facto de a máscara se assemelhar a uma figura enigmática, de aparência diabólica e com elementos tidos, na tradição, como demoníacos.
Na verdade, o cristianismo conferiu às máscaras um valor puramente negativo que elas jamais tiveram, transformando-as, na maioria dos casos, num artifício diabólico. Caro Baroja, outro autor citado por Benjamim Pereira, relembra que as festas de Janeiro foram sempre objecto de críticas e condenações, sublinhando que “a relação das práticas que os padres da Igreja e os cânones registam como características do primeiro ano, ou das calendas de Janeiro, com as que modernamente existem (…) parece indiscutível”. (Benjamim Pereira 1973: 15). As cerimónias tradicionais de mascarados portugueses – embora na maioria dos casos sofressem já algumas alterações, tornadas obrigatórias em consequência da necessidade de adaptação e integração em novos contextos –, na dependência das celebrações religiosas, continuam a expressar diversões profanas e lúdicas na época do Natal e Carnaval.

in:repositorio.utad.pt

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