Na aldeia de Seixo de Manhoses, do concelho de Vila Flor, conta-se que, numa certa noite, estavam umas raparigas a fiar o linho ao serão, e, quando era meia noite, lembraram-se de comer figos pretos. Só que embora soubessem onde os havia, àquela hora não se atreviam a ir lá.
Até que uma delas, mais corajosa, disse:
– Vou lá eu.
As outras ficaram à espera, em lugar seguro, e a mais corajosa foi subir à figueira. Quando estava sobre ela, ouviu-se um grande barulho numa fraga próxima.
As outras fugiram logo, mas ela deixou-se estar à escuta no meio da folhagem. E viu então que era um rei mouro que estava ali com a sua filha e que dizia:
– Ficas aqui encantada, e só sairás quando esta fraga der linho mourisco, regado com sangue de gato preto.
Dali a pouco a fiadeira apareceu junto das companheiras com os figos, muito fresquinhos, e estas ficaram muito admiradas pois pensaram que ela tivesse morrido de susto. Acabaram assim o serão a comer os figos. E sobre a moura encantada, nem palavra.
Depois, a rapariga mais corajosa deixou chegar o tempo de semear o linho, levou terra para o cimo da fraga e semeou-o, regando-o então com sangue de gato preto. Quando o linho amadurou, foi lá, arrancou-o, e, ao arrancá-lo, a fraga abriu-se, quebrando-se o encanto da princesa moura. A moça ganhou assim um grande tesouro e ficou rica para sempre. A fraga lá está e o povo hoje identifica-a como a "Fraga da Moura".
Fonte: Inf. Luzia Marcelino, 79 anos; rec.: Seixo de Manhoses, Vila Flor, 2000.
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Alexandre Parafita

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