quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Verba do Zoológico

Por: Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS
São Paulo (Brasil)
(colaborador do Memórias...e outras coisas)
A cidade de Piracicaba estava excitada. A notícia de que naquele domingo chegaria a “verba federal” para o pequeno zoológico municipal, transformou a cidade. O assunto, transmitido de boca em boca, movimentou a cidade. O zoológico só abria às nove horas da manhã do domingo. Defronte os portões do zoológico, uma multidão nunca antes vista, formavam de modo espontâneo e ordenada uma fila defronte do guichê de vendas de ingressos. De repente surgiu, do nada, vendedores de cachorro quente e pipocas e dois carrinhos de sorvetes. Seu Zé Modesto, porteiro vitalício, não estava compreendendo aquela multidão defronte do zoológico e imaginou que algo anormal estava por acontecer. Ciente de seus deveres, desempenhado há mais de vinte anos, telefonou ao prefeito, informando-o do que estava acontecendo. O Zé Modesto estava preocupado, pois na abertura do zoológico, só estariam presentes ele e a dona Geromina, uma italiana de mais de um metro e oitenta de altura e cem quilos de massa que trabalhava na bilheteria; o tratador e um guarda municipal, este raquítico e meio surdo, de nome Mirinho.
O prefeito, alarmado, achando tratar-se de alguma coisa planejada pela oposição, chamou o chefe de polícia militar, pedindo um destacamento, ainda ligou para a Rádio Difusora de Piracicaba, anunciando que a oposição estava fazendo uma reunião defronte ao zoológico. A Rádio Difusora chamou a estação de TV regional e repassou o recado. A TV regional fez um link com São Paulo e mostrou aquela multidão defronte ao zoológico. Todos os jornais tablóides da região enviaram, urgentemente, uma equipe com fotógrafos e jornalistas ao local. Um assessor de um assessor do ajudante do governo do estado de São Paulo disparou que estava havendo uma revolução armada em Piracicaba. O governador, que estava no Palácio da Boa Vista em Campos de Jordão, chamou a Guarda Nacional e invocou que as forças armadas deveriam dirigir-se imediatamente a Piracicaba para debelar a rebelião. Ordenou ainda que reforçassem a guarda do Palácio do Morumbi e todas as autarquias importantes. O presidente da República, em viagem pelos Emirados Árabes, fez apelo urgente para que a Segurança Nacional montasse barreiras defronte ao Palácio da Alvorada, para impedir que os revolucionários adentrassem o Palácio da Alvorada, em Brasília, ou às casas do Palácio do Buriti e Granja do Torto. As redes de televisão em boletins extraordinários davam notícia de que uma massa humana sem precedentes iniciava uma revolta em Piracicaba, que poderia alastrar-se pra todo o Brasil. A CNN tentou fazer contato com Piracicaba, mas o Zé Modesto não falava inglês nem espanhol e o contato com a CNN foi definida por ela, CNN, informando na rede mundial, que os revolucionários já haviam invadido o zoológico e tomado o poder e montado um “bunker” dentro da casamata, onde funcionava a Administração do zoológico. Chegaram três helicópteros, num deles estava o “Comandante Mário”, que relatava ao vivo para o âncora da TV Recorde, o Zé Luiz Antena, da invasão dos revoltosos na sede administrativa do zoológico. A cidade começou a entrar em polvorosa e a curiosidade aumentou. Chegava gente aos magotes, inclusive das cidades vizinhas: São Pedro, Sorocaba, Rio Claro, Limeira, Cravinhos, Santa Rosa de Viterbo, Charqueada... .
O Zé Modesto, apavorado com o barulho da turba que gritava, furiosa, defronte ao portão do zoológico:
- “Abre, Abre, Abre,....”!!!!! 
Além do barulho dos carros e dos helicópteros, o Zé Modesto viu um soldado tentando arrombar o portão principal com um machado. O tal soldado estava obcecado. Zé Modesto foi então até o quadro de força, na esperança de desligar a energia elétrica do zoológico e acalmar a multidão. Mas, nervoso como estava e pelo fato de estar com um revólver numa das mãos, tocou sem querer com o revólver nos polos de fontes de energia, o quê provocou uma chama enorme e uma explosão, ouvida até cinco quilômetros distante dali. O choque que o Zé Modesto recebeu foi tão grande, que o revólver disparou todas as cinco balas. O pobre do Zé Modesto ainda conseguiu sair da cabine de força, mas andou poucos passos e caiu desmaiado, talvez pela enorme descarga elétrica recebida.
O âncora Zé Luiz Antena, comentando imagens ao vivo, bradou aos quatro cantos que o porteiro do zoológico foi assassinado pelas costas pelos rebeldes e mostrava as imagens gravadas ao vivo. Mostrou cerca de dez vezes em um minuto! (As imagens mostradas e os comentários foram levados ao ar também pela CNN, inclusive traduzindo as palavras do Zé Luiz Antena. Tais imagens ganharam o mundo).
Nessa altura, o pátio de estacionamento do zoológico já contava com mais de cinquenta mil pessoas. Tanques de guerra do Exército e pelotões de soldados do exército, distribuíam atiradores de elite entre os barrancos e tentavam conter a multidão, entre aturdida e curiosa.
Já era mais de oito helicópteros que passeavam suas câmeras nas jaulas dos animais; apavorados estes também pelo barulho. A SWAT estadual chegou ao local e afastou os “revoltosos” que estavam defronte à portaria do zoológico e explodiram, com bombas plásticas, os portões do zoológico e entraram, protegidos por escudos e máscaras de gás até onde estava o corpo inerte do Zé Modesto. Seu corpo foi envolvido em mantas térmicas e colocado sobre uma padiola e trazido às pressas para fora do zoológico, onde foi introduzido num ônibus/hospital das Forças Armadas, para os primeiros socorros. Nesse instante, entrou no recinto do zoológico, toda uma guarnição da Polícia Militar do Estado, cerca de cinquenta homens armados e protegidos com escudos, dezoito guardas municipais e a Swat, todos eles cobertos pelo pelotão do exército federal. Começaram então a fazer a varredura do zoológico; tudo filmado pelas câmeras e com TV transmitindo direto para doze países do mundo. Na redação do Jornal e TV, o Zé Luiz Antena disparava reclamações e exigia providências das autoridades civis, públicas e eclesiásticas, sobre como pode ter acontecido uma revolução dessas no nariz de todos, sem que ninguém houvesse percebido! Bradava também em querer saber o quê os rebeldes queriam e quais seriam suas intenções com aquela “Intentona”.
Depois de mais de três horas, extenuados, vagarosos e sem graça, todos aqueles militares saíam, um a um, de dentro do zoológico. -Não havia nem sinal de nenhum rebelde dentro do zoológico: absolutamente nada!
De posse dessa informação, vermelho de raiva, o Zé Luiz Antena resolveu comparecer pessoalmente ao “front”. Chegou de helicóptero, perseguido da massa, dos fotógrafos e câmeras de TV. Foi até o ônibus/hospital. Queria saber pela boca do Zé Modesto qual a razão daquilo tudo.
O Zé Modesto por sua vez já havia se restabelecido!
Ao seu lado, estava o vereador Goiabinha, do PV. Este último havia segredado ao Zé Modesto, que a culpa em parte dessa confusão era dele, pois ele havia falado para várias pessoas que encontrou nas ruas, tão alegre estava pelo fato, de que Piracicaba receberia naquele domingo a “primeira verba federal para o zoológico da cidade”; ora sendo o povo formado por pessoas muito simples, acreditaram que “verba federal” era um animal enorme e diferente de tudo que conheciam e assim tanta gente se dirigiu ao zoológico, dando início àquela confusão toda.
Esta história do vereador Goiabinha foi repassada ao Zé Luiz Antena pelo próprio e confirmada pelo porteiro Zé Modesto.
Difícil foi convencer o povo que queria adentrar ao recinto do zoológico, que não havia nenhum bicho chamado “verba”, federal ou não, naquele zoológico. A dispersão do povaréu foi feita aos poucos: primeiro os soldados do exército e seus tanques e viaturas com metralhadoras antiaéreas, depois a Swat, após os policiais militares e a guarda municipal. Em seguida, sumiram do local também os fotógrafos e jornalistas dos tabloides e pasquins regionais, depois foi a vez de o Zé Luiz Antena bater em retirada. Após o âncora de TV, todo o povo foi embora para casa.
Da repercussão local, nacional e internacional, não se sabe ao certo: a CNN se fez de desentendida e nunca mais falou da revolução em marcha no Brasil. Na verdade, nem meus amigos que moram em Piracicaba até hoje, como o Dirceu Berti, jamais falaram novamente nesse “causo”, nem os pasquins; ninguém!

-Mas que é verdade é; eu juro!

FIM


Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de quatro outros publicados em antologias junto a outros escritores.

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