quinta-feira, 9 de maio de 2019

TESTAMENTO DO ENTRUDO 1

Testamento do Entrudo feito dia 26 de Março do ano de 1952, por um vimiosense que emigrou para o Brasil.
O Testamento era sempre lido no dia de Carnaval, na Praça desta Vila, à frente do Entrudo.
Durante o ano os acontecimentos de destaque, as cenas, rixas e discussões passadas entre amigos, famílias e vizinhos, no dia de Carnaval saíam para a rua representadas ao vivo e ninguém levava a mal. Como desde há muito se diz «Dia de Entrudo passa tudo».
A 1ª parte deste Testamento refere-se à chegada ao estrangeiro de um vimiosense.
A recepção que teve por todas as pessoas, principalmente pelo seu irmão FAGO, o animador, o incentivador dos Carnavais passados nesta Vila e a crítica a todas as meninas, rua por rua.
A 2ª parte é inteiramente dedicada a todos os comerciantes, pessoas de renome nesta Vila.
A 3ª parte é composta pelo Testamento feito ao Entrudo, toda a sua vida e profissões, tendo como final a crítica a todas as outras pessoas de Vimioso tais como, sapateiros, taberneiros, alfaiates, proprietários de Pensões, cortadores, fogueteiros, etc.
Para concluir e como não podia deixar de ser, um agradecimento a todos os Coreanos pelo auxílio que deram a todo o grupo que compunha a contradança. Conclusão final; no dia de Entrudo de há mais de 30 (trinta) anos, a todas as pessoas de Vimioso lhe era dedicada uma quadra. Estes dados foram obtidos através de duas pessoas de Vimioso, com mais de setenta anos de idade.


TESTAMENTO DO ENTRUDO 1ª Parte

Ora vivam, meus senhores,
A todos quero abraçar,
Porque eu não tinha ideias
De este ano vos vir abraçar.

A razão é muito simples.
Eu vos a vou a dizer:
Não queria vir a esta terra
Para tanta pena não ver.

Eu trago muita tristeza
Dentro do meu coração,
Por encontrar de luto
O meu querido irmão.

Eu já estava desconfiado
Que alguma coisa se tinha dado.
Estávamos próximos a este dia
E sem me escrever o meu Fago.

Mas sempre tenho amigos
Que auxiliem meu irmão Fago.
Este ano vim a pedido
Da malta do Zé do Telhado.

Ele estava a duvidar
Que lhe aconteceria algum perigo.
Até vinha receoso
De não ser bem recebido

Mas isso não aconteceu.
Tudo lhe guardou respeito.
Logo assim que chegou,
Ficou muito satisfeito.

O Camões estava alerta,
Com um foguete na mão.
Vai logo o António Fago,
Deita-o que já vi meu irmão.

Ao chegar o grande homem.
Foi uma coisa de espantar!
Logo o Sr. Carvalho, deu ordens
Para a música tocar.

Ele veio da Argentina,
Dum País belo e formoso,
Ver sua terra predilecta
E a gente de Vimioso.

Quando nesta terra entrou,
Ficou todo espantoso
Por ver tantas meninas
Só a pedirem-lhe gozo.

É tão putanheiro
Que se não pode explicar,
Assim que lhe apiscou a uma
Julgou que era para casar.

As outras com inveja
Olham para ele a chorar
Mas ele logo lhe disse:
- Eu com todas não posso casar.

Para evitar questões
E não estar com maçada,
Vou pedir informações

Lá vem o Argentinito
Dos centros da Argentina.
Só veio a esta terra
Para escolher uma menina.

Logo que chegou aos Barreiros,
Deu ais da sua vida.
A única que lhe agradava
Disseram-lhe que estava pedida.

Ao chegar à Capela,
Junto com os seus companheiros,
Viu umas a namorar,
Outras casadas com pedreiros.

Ali não ficou contente,
Logo deixou tudo em paz.
Seguiu imediatamente
Para a rua de Trás.

Ao chegar à rua de Trás
Pintava as trinta mil.
Eu sabia que as havia boas
Mas já se foram para o Brasil.

Ali não ficou contente
Com aquela grande embrulhada.
Logo se foi direito ao Jogo
Que ali só viu canalhada.

Logo que chegou ao Jogo,
Cá o nosso gigante,
Ouviu certas línguas.
Pareciam um alto-falante

Do jogo seguiu para cima.
Para rua da Calçada.
Mas ali não lhe agradaram
Não quis lá demorar nada.

Seguiu para Caleja das Freiras
Muito bem prevenido;
Que não lhe falasse a nenhuma
Senão era atendido.

Olhou para uma janela,
Ficou todo admirado,
Por ouvir a uma menina:
- Queres dançar o repassiado?

Espera aí, rapariga,
Comigo terás que ter muita cautela.
Não me faças saltar muito,
Senão vou-me já para a Portela.

Aqui paro pouco tempo.
Vou-me já para a outra banda.
Não quero estas meninas,
Porque são todas da propaganda.

Na rua da Portela,
Delas tem que duvidar.
Podem-lhe dar alguma bebida
Para o obrigar a casar.

Até logo saiu
Porque não lhe encontrou graça.
Fugiu directamente
Para o Largo da Praça

Ao chegar ali,
Viu caras descaradas.
Pois eu a vós não vos quero,
Que já estais reformadas.

Vou-me já daqui embora.
Estas não me interessam nada.
Vou ver se me agrada alguma
Na rua da Malhada.

As raparigas da Malhada
Parecem umas redolhas.
Os rapazes de cá não lhe ligam,
Tem que se agarrar aos trolhas.

Vou a partir daqui
Para a rua da Rapadoura.
Não quero estas raparigas
Que vão com os rapazes para a manjedoura

Esta rua custa a passar
Por haver muito toleiro.
As meninas que há cá
Valem pouco dinheiro.

Estas ainda não lhe servem
Por serem muito impreais.
De tanto que luxam,
Já empenharam os casais.

Vou já daqui embora,
Não posso mais demorar.
A rapariga do meu ideal
No Fundo da Vila devo encontrar

Estou cheio de percorrer,
Até já me sinto cansado,
Já corri as ruas todas,
E se mal de carro, pior de arado

Até parece impossível!
Estou mesmo contrafeito.
Correr Vimioso todo
E não encontrar uma menina de jeito.

Rapazes de Vimioso,
Tanto velhos como novos!
Não queirais raparigas de cá,
Ide por elas aos povos!

Vós não queirais casar cá,
Ide por elas às aldeias!
Sois rapazes tão pimpões,
E as raparigas todas feias.

Esta vida não me agrada,
Não perco mais um instante.
Vou tratar dos meus negócios,
Ali com um comerciante

FICHA TÉCNICA:
Título: CANCIONEIRO TRANSMONTANO 2005
Autor do projecto: CHRYS CHRYSTELLO
Fotografia e design: LUÍS CANOTILHO
Pintura: HELENA CANOTILHO (capa e início dos capítulos)
Edição: SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE BRAGANÇA
Recolha de textos 2005: EDUARDO ALVES E SANDRA ROCHA
Recolha de textos 1985: BELARMINO AUGUSTO AFONSO
Na edição de 1985: ilustrações de José Amaro
Edição de 1985: DELEGAÇÃO DA JUNTA CENTRAL DAS CASAS DO POVO DE
BRAGANÇA, ELEUTÉRIO ALVES e NARCISO GOMES
Transcrição musical 1985: ALBERTO ANÍBAL FERREIRA
Iimpressão e acabamento: ROCHA ARTES GRÁFICAS, V. N. GAIA

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