quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

“Sinto-me feliz por, a cada dia, ter uma nova sensação e poder tocar e sentir coisas novas (…)”

PALOMBAR | COLABORADORES CESC PROJECT – SERVIÇO CIVIL ITALIANO
TESTEMUNHO VIRGINIA MICCINILLI
Trás-os-Montes tem encanto na chegada e na partida... quase a terminar a sua colaboração com a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, a voluntária italiana Virginia Miccinilli conta-nos, na primeira pessoa, como foi a sua experiência de vida e trabalho em território transmontano, e como sentiu e vivenciou o Planalto, as suas paisagens, a sua natureza, a sua cultura e as suas gentes. 
Virginia Miccinilli.
Virginia Miccinilli, de 24 anos, está há quase um ano a viver na aldeia transmontana de Uva, no concelho de Vimioso. É uma dos quatro jovens italianos que estão a colaborar com a Palombar este ano no âmbito de uma parceria da associação com o CESC Project – Serviço Civil italiano (www.cescproject.org).


O CESC Project pretende promover e desenvolver o serviço civil tanto em Itália, como noutros países, e atividades com foco na construção de uma cidadania consciente. Visa também contribuir para o desenvolvimento de uma convivência civil solidária e pacífica. O CESC Project desenvolve e implementa programas de cooperação internacional, voluntariado internacional e local.
Participação na peça de teatro “O Diário Secreto da Águia de Bonelli”.
O voluntariado e os valores a ele associados são essenciais para a Palombar. Os/as voluntários/as enriquecem e dão vida e dinâmica à associação, contribuindo de forma significativa, frequente e continuada para assegurar as seus ações, projetos e atividades nas áreas da conservação da Natureza e preservação do Património Rural. Todos os anos, a Palombar acolhe vários/as voluntários/as e colaboradores nacionais e internacionais que contribuem de forma ativa para a sua missão.  

“SENTI-ME ACOLHIDA E PUDE PARTICIPAR EM PROJETOS COM OS QUAIS SONHAVA DESDE HÁ MUITO TEMPO (…)”

TESTEMUNHO

No dia em que pus os meus pés pela primeira vez em Trás-os-Montes, era noite e chovia, mas ainda me lembro da paz que abraçava a aldeia de Uva, com o seu café e a sua capela. Embora não tão emocionante como no primeiro dia, agora que chegou o outono, volto a ter a mesma sensação: a chuva que cai lá fora, o silêncio e a luz da lareira como companhia.

 Desde aquele dia, passou quase um ano, um pequeno parêntese, é certo, quando comparado com uma vida inteira, mas nesse ano aprendi muito: pude saborear uma boa posta mirandesa, aprendi a identificar, em pleno voo, um grifo e um milhafre, a reconhecer uma verdadeira ginjinha e a desfrutar de todas as belezas guardadas debaixo de um céu sem fim. 

 Há dias em que o pôr do sol pinta a paisagem com cores que só vi até então nos quadros de pintores impressionistas, há noites que, quando sobes num monte perto de casa, sentes-te observado por biliões de estrelas no firmamento. Os rios envolvem-nos e arrefecem o ambiente, um chá com castanhas aquece o corpo. 

 Além da paisagem que sempre preencheu os meus olhos e os meus pensamentos, sinto-me feliz por, a cada dia, ter uma nova sensação e poder tocar e sentir coisas novas: hoje apanhar um pouco de trigo, amanhã um punhado de terra, cal, pedras…

 Aqui, comecei a ganhar consciência sobre a raridade de algumas aves. Assim como as aves que descobri são especiais, as pessoas que encontrei na Palombar também o são, cada uma tocou-me de forma diferente e quero preservar essa ligação. É fundamental manter o trabalho de conservação desenvolvido pela Palombar, uma associação com uma força jovem que tem no coração o território e tudo o que a ele pertence; conservar a cultura popular, as suas danças tradicionais e os seus sabores; aproveitar também o tempo e não o deixar esvair-se sem significado, como acontece na cidade; preservar a natureza que se encontra nas hortas, nas ruas e na floresta.

Há um ano fugi da cidade, com o seu tráfego e os seus mil barulhos. Desde há um ano que me sinto em casa, na companhia de vacas e ovelhas que acompanham o ritmo do andar dos carros, com as estações que pintam com diferentes cores a ânima das pessoas e as suas hortas…

 Nesse período, senti-me acolhida e pude participar em projetos com os quais sonhava desde há muito tempo, tive experiências que nunca tinha vivido antes… ver um abutre muito perto e apanhar pombos com as mãos, rodeada por uma natureza gélida.

 Obrigada Palombar e obrigada Trás-os-Montes!

Até já.


Virginia Miccinilli 
Recuperação de pombal tradicional.
Ilustrações de Virginia Miccinilli.

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