quarta-feira, 23 de março de 2022

Não podemos dar nada por adquirido. Nem a água

 Há duas semanas, uma menina de seis anos chamada Tanya morreu de sede em Mariupol, na Ucrânia, anunciou o presidente da câmara da cidade. Parece impensável que ainda hoje, em 2022, se morra de sede, mesmo que nas circunstâncias horríveis de uma guerra. 

Mas a morte de Tanya não é uma exceção, um caso isolado, uma tragédia única. Morrem seis mil crianças por dia por não terem o que beber ou de doenças causadas pela má qualidade da água. A falta de acesso a água potável e a saneamento continua a matar milhares – centenas de milhares – de pessoas todos os anos. No Dia Mundial da Água, aqui ficam alguns dados para não nos esquecermos de que há um mundo para lá do nosso, onde nem a necessidade mais básica dos seres humanos é garantida. 

. Mais de dois mil milhões de pessoas vivem em países com elevado stress hídrico. Esse número deverá crescer significativamente nas próximas décadas devido às alterações climáticas. A Organização Mundial de Saúde estima que, em 2050, cinco mil milhões de pessoas serão afetadas pela falta de água. A Unicef diz que uma em cada quatro crianças viverão em regiões vulneráveis à seca já em 2040 – daqui a 18 anos. 

. Quase meio milhão de pessoas, uma grande parte crianças, morre todos os anos de diarreia, por beberem água com micro-organismos. Calcula-se que pelo menos dois mil milhões de pessoas bebem água contaminada com vestígios de fezes. 

. Nos países menos desenvolvidos, só metade dos hospitais contavam com serviços primários de água e apenas um terço tinha saneamento básico. Quase 300 milhões de pessoas vivem a mais de meia hora de um local de recolha de água. A desidratação pode matar ao fim de apenas três dias. 

. No contexto europeu, Portugal apresenta um alto stress hídrico, segundo o World Resources Institute, com gastos entre 40% e 80% da água disponível. Nos últimos 25 anos, o consumo no nosso país cresceu mais de 30%. Há estudos sobre alterações climáticas que apontam para secas em Portugal que podem chegar aos 15 anos, no final do século. 

. Mais de dois terços da Terra estão cobertos de água, mas só uma ínfima parte pode ser consumida. Os oceanos representam 97% do total, os glaciares e as calotas polares, 2,1%, e os aquíferos, rios e lagos, apenas 0,9%. 

. A água é um dos grandes motivos de desigualdade de género. Em várias regiões do mundo, é às mulheres que cabe a tarefa de ir buscar água, estimando-se que gastem, no total, mais de 200 milhões de horas só para isso – tempo que poderiam usar de forma mais produtiva. Esta é também uma das razões pelas quais as mulheres ficam para trás na escola: centenas de milhares de adolescentes têm de ir buscar água depois das aulas e, quando chegam a casa, já não há luz para estudarem.

Luís Ribeiro

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